A “subsunção formal” no espaço brasileiro
TABELA 6 BRASIL: DIVISÃO DO TRABALHO E INÍCIO DA BIDEPARTAMENTALIZAÇÃO NOS ANOS VINTE
Ano Expansão Industrial
Expansão da Agricultura Mercantil Expansão da Capacidade Energética Produção de Bens Intermediários (% S/Consumo) (1939 = 100) (1939 = 100) (mil kw) Aço Cimento
1921 40 65 371 - - 1922 48 68 382 - - 1923 48 71 395 - - 1924 48 64 465 - - 1925 49 63 507 38 - 1926 50 64 591 53 3 1927 55 72 649 61 11 1928 58 73 707 58 16 1929 56 77 706 70 15 (p. 105) Conforme se vê na Tabela 6:
[...] a divisão interna do trabalho é um processo que inclui já uma suficiente diversificação agrícola e fabril, esta última visivelmente na relação entre produção e consumo de aço e cimento. (p. 104)
Justamente nesta conjuntura interna, com a possibilidade de se ter uma aceleração do desenvolvimento do capitalismo a formas sucessivamente avançadas, sem que se precise realizar radicais transformações estruturais, e, com isto, pondo nas mãos da oligarquia a direção desse desenvolvimento [...]. (p. 105)
O corporativismo acaba, assim, traçando o reordenamento e direcionamento do caráter monopolista do capitalismo que se realiza, “particularmente”, no território nacional. Visto que, além de direcionar investimentos e políticas de desenvolvimento, há que se cuidar das contradições que se aprofundam, tanto no bloco dos dominantes quanto na relação entre suas realizações e as condições de vida dos dominados e, portanto, inclusive no jogo entre dominantes e dominados.
É nesse passo que o poder de Estado se torna uma combinação de aparatos, de modo a que a distribuição desses aparatos de governo entre
as frações de burguesia forme um bloco articulado e compartilhado por todas as frações de dominantes. É assim que cada aparato e o seu conjunto formam o lugar de concerto das contradições intradominantes, isto é, de hegemonização e alianças intra e extrabloco do poder, conferindo a cada fração do bloco dominante participação e poder no movimento [...] do próprio Estado e dos métodos produtivos.
Internamente assim reestruturado, o Estado adquire o caráter de uma ampla ramificação da hegemonia do bloco industrial-agrário pelo interior da sociedade civil, através de organismos como comissões, conselhos institutos, fundações, simpósios, por meio dos quais incorpore, por cooptação direta e indireta, intelectuais, professores universitários, entidades de classes, e organize o “intimismo à sombra do poder” que Lucácks já observara em suas análises [...].21 (p. 106)
Ruy Moreira apresenta a forma básica do funcionamento deste sistema de concerto, que, ao mesmo tempo, opera o avanço do capitalismo e assenta as contradições vividas pela sociedade e na sociedade.
Definido como o conjunto das práticas e valores mediante os quais o Estado atrai as contradições de classe do interior da sociedade civil para dentro de si e as devolve à sociedade civil como políticas de manipulação de massas, o corporativismo no Brasil se caracteriza pela forma como se viabiliza: a dupla e articulada tutela estatal sobre o trabalho, via aparatos do trabalho e da educação. (p. 107)
[...] O percurso da instauração do Estado Corporativo é o da subordinação simultânea e imbricada do sindicato operário e da cultura operária à burocracia estatal.
A criação do Ministério do Trabalho, Industria e Comércio (MTIC), em 1931, é a montagem do aparato com que o capital captura e opera pelo Estado o controle das relações de trabalho, através da pletora de leis que se inicia com a Lei n. 19.970, de 19-03-31, que subordina os sindicatos à burocracia deste ministério, e culmina com o Decreto-lei n. 2.162/40, que institui o salário mínimo. A criação do Ministério da Educação e Saúde Pública, em 1930, (...) é a montagem do aparato com que o capital captura e opera pelo Estado a produção da cultura operária, deslocando-as das mãos do operariado para as da burocracia desse ministério.22(p. 107-108)
21
A OR indica ver El assalto a La razón e El joven Hegel y los problemas de La sociedad capitalista. (p. 106)
22
Segundo a OR, “Na antecedência da criação do Ministério da Educação em relação à do Ministério do Trabalho, ambos em 1930, em março e novembro, respectivamente está provavelmente o entrecruzamento dos movimentos da “Escola Nova” e do “Fordismo”.” (p. 108)
[...] Os sindicatos têm que se organizar por categoria e lugar, cada categoria não podendo criar mais do que um sindicato em um mesmo lugar. Os sindicatos articulam-se no interior da categoria que representam, segundo uma hierarquia em que se sucedem sindicato-federação- confederação e tem encimado o Ministério do Trabalho. (p.109)
A estrutura verticalizada da representação sindical cindida por categorias e lugares, ao mesmo tempo em que reforça o caráter da divisão interna do trabalho e as contradições que esta carrega no seio da sociedade, as encaminha para o colo do Estado, para que ele, munido da instância de acerto jurídico, oriente-as ou amenize-as. Ainda mais forte se torna o Estado quando, junto disto, opera a formação cultural da sociedade mediante os aparatos da educação.
[...]Solidárias à substância corporativa, as normas do trabalho que a burocracia do Ministério do Trabalho vigia são as mesmas sustentadas pelas da cultura produzida sob a vigilância dos burocratas do Ministério da Educação. Imbricadas nessa reciprocidade orgânica, as burocracias ministeriais-secretariais do trabalho e da educação exprimem a encarnação máxima do Estado corporativo. (pp. 109-110)
Esse universo de regulações via aparatos do Estado forma o pressuposto necessário à “reformulação da política financeira da acumulação agromercantil, em que a realização externa do valor institui a moeda externa como a forma equivalente e, em consequência, cria internamente timidez dos meios de pagamento23 e faz a conjuntura interna subordinar-se às conjunturas cambiais.” (p. 110)
Assim, e devido à conjuntura de ociosidade das indústrias,
[...] institui-se pesada política da valorização cambial e rígida seletividade de importações. Instituída por solicitação da “grande indústria” sob protestos das “indústrias regional-regionais”, a seletividade de importações de maquinaria e equipamentos terá caráter de verdadeira proibição de 1932 a 1937, e se estenderá até 1945 por força da eclosão da Segunda Guerra Mundial. (p. 111)
23
Em tal contexto também se faz necessário uma revisão no sistema tributário, pois, até o início dos anos trinta, a arrecadação pauta-se em 74% de tributação sobre importações. Soma-se aos motivos o “aprofundamento da divisão interna do trabalho, forjando a urbanização e os primeiros elos de unificação do mercado nacional”. (p. 111)
Subordinando o trabalho pela tutela sindical e escolar do proletariado, o corporativismo realiza, sob outra forma, o sonho “fordista” dos anos 20, de estabelecer a ditadura do capital sobre o trabalho a partir da racionalidade fabril, mas via dissolução aparente do antagonismo capital-trabalho na regulação que nega a ordem liberal. Fecha-se o ciclo da instauração corporativa com os aparatos Ministério do Trabalho e Ministério da Educação um na raiz do outro. O bloco industrial-agrário institui o “autoritarismo industrial”. (p. 112)
Nas próprias palavras de Ruy Moreira,
[...] o “autoritarismo industrial” é a própria generalização do autoritarismo dos grandes proprietários rurais ao todo da formação econômico-social brasileira no seu todo. Sob esta forma “modernizada” o autoritarismo dos agrários tupiniquiza a ordem corporativa “importada” dos Estados fascistas, estendendo-a para além dos limites das relações fabris via legislação trabalhista-sindical e cultural-escolar, com o “Estado Novo” e a Constituição de 1937. (p. 112)
A relação cidade-campo, tanto na sua configuração espacial produtiva quanto na forma como abriga a classe dos “dominados fundamentais”, é o ponto chave dos processos territoriais que encaminham o Brasil à formação econômico-social, singular e particular, diante da conjuntura interna e imperialista, e conforme se relaciona e se insere na mundialização do capitalismo.
A indústria assume papel significativo devido, sobretudo, à bidepartamentalização, pois torna-se o ponto de referência tanto dos polos produtores agrícolas quanto do mercado estabelecido entre as próprias indústrias de diferentes Departamentos e, ainda, entre a produção realizada nas diversas esferas da economia e a massa de assalariado-consumidores que se adensa sobretudo nas cidades. O processo de adensamento urbano dessa
“massa” é fruto da incorporação do campo como pletora de mão de obra à nova divisão interna do trabalho.
A bidepartamentalização em seu nível global estrutura o avanço do movimento de unificação das formas sociais heterogêneas, própria à transição à subsunção real. A bidepartamentalização fabril, por restringir-se ao triângulo Rio-São Paulo-Belo Horizonte, configura a ordenação desse movimento global nacional como sendo uma regionalização territorialmente polarizada. O desenvolvimento é desigual e combinado.
[...] No geral, a bidepartamentalização é um movimento na direção da unificação do mercado interno, de vez que é este próprio movimento, em virtude de um departamento ser o mercado do outro. [...] A mais-valia se realiza, então, no próprio movimento da reprodução bidepartamentalizada.24 (p. 118)
[...] Efetuar a formação do exército de reserva industrial é direcionar o movimento de desterritorialização do campesinato no sentido de criar a mobilidade territorial campo-campo e campo-cidade. (p. 119)
[...] O aprofundamento da bidepartamentalização global, visível no avanço da ramificação interna do setor agrícola e na inter-relação que esta ramificação revela entre agricultura e indústria, torna os anos quarenta um momento importante na passagem à estrutura espacial monopolista plena. (p. 119)
É nesta mesma década que se vê a intensificação da urbanização, na qual, “embora, já nos anos 1920, Rio e São Paulo comandem o movimento da urbanização, esta urbanização regional desigual ainda mais se acentua”. (p. 119)
TABELA 7 - POPULAÇÃO RELATIVA E ABSOLUTA NA INFLEXÃO URBANA/RURAL
Ano Total Urbana Rural
1890 14.333.915 1.433.391 (10%) 12.900.624 (90%) 1900 18.200.000 2.730.000 (15%) 15.470.000 (85%) 1920 27.500.000 5.500.000 (20%) 22.000.000 (80%) 1940 41.252.944 13.100.512 (31%) 29.152.432 (69%) (p.120)
24 Para exposição detalhada, Ruy Moreira indica O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia e Estudos
TABELA 8 - INFLEXÃO TERRITORIAL DA