Horas semanais I II III LÍNGUA ITALIANA 4 4 3 HISTÓRIA E GEOGRAFIA 4 4 3 LÍNGUA ESTRANGEIRA 4 4 4 MATEMÁTICA 4 3 3 CIÊNCIAS NATURAIS _ 2 2 CONTABILIDADE _ 3 3 DESENHO 4 3 3 CALIGRAFIA 2 _ _ ESTENOGRAFIA _ 1 2 22 24 23 Fonte: Conforme Régio Decreto 2345, de 14 de outubro de 1923, p.2
Assim como vimos no instituto técnico, na escola complementar também não havia o ensino de filosofia, sendo assim, história e geografia, as únicas disciplinas que representavam as ciências humanas. As duas juntas formavam um único componente curricular. Na seção Avvertenze para a escola complementar, no Régio Decreto 2.345, Gentile destaca qual devia ser o principal objetivo do ensino de história e geografia neste tipo de escola. Segundo o ministro, tais disciplinas deveriam despertar nos alunos um sentimento de pertença à sociedade onde estavam inseridos, fazendo com que eles se sentissem parte dela, partilhando de seus valores e encontrando seu lugar. Assim, seus ensinamentos deviam estar pautados no princípio da cidadania, destacando como ela foi se desenvolvendo em todo o processo histórico. Mas, Gentile adverte que não se devia exigir demais dos alunos, afirmando: “é evidente, que não se poderá exigir tudo isso em um grau elevado como se faz
em estudos superiores, mas na medida necessária para que estes se tornem bons cidadãos.”143
(ITÁLIA, 1923b, tradução nossa). Quando o ministro faz referência ao exame de história e geografia para a aprovação do aluno na escola complementar, ele revela qual é o perfil que se espera do aluno concluinte, após esta formação. Diz Gentile: “O exame deve ser uma conversa onde transpareça a maturidade de alma do aluno e sua preparação para uma vida modesta, mas nem por isso livre de graves e difíceis deveres, que ele deverá enfrentar enquanto homem e cidadão.”144 (ITÁLIA, 1923b, tradução nossa).
Esta exigência apresentada pelo ministro Gentile, de formar um cidadão consciente de seu lugar e papel na sociedade, fica mais clara a partir dos onze tópicos do programa de história e geografia para a escola complementar presentes no Régio Decreto 2.345 (ITÁLIA, 1923b). Cada tópico apresentava uma temática ou um conjunto de assuntos sobre determinado tema que devia ser estudado. O tópico um, tratava do problema da união dos povos no mundo antigo mediterrâneo, estudando suas principais civilizações, especialmente Roma, até a constituição do império. O segundo tópico estudava o Cristianismo e o terceiro, abordava a desintegração do império romano, os reinos bárbaros e a constituição da unidade católica. No quarto ponto eram estudados o feudalismo e a organização econômica medieval. No quinto, era abordada a época das grandes descobertas e a mudança do interesse histórico pela bacia do mediterrâneo para os oceanos. O sexto ponto tratava da formação dos principais Estados europeus e da decadência civil da Itália do século XVI ao XVIII. No sétimo tópico, se estudava a revolução francesa, a transformação econômica da Europa e as colônias europeias. O oitavo ponto tratava dos problemas constitucionais na Inglaterra, Bélgica e França, além do Statuto Albertino, que marcava a fundação da Monarquia dos Savoia, tornando-se a constit uição adotada pelo reino sardo-piemontês em 1848. (cf. supra p.76)
A partir do estudo do Statuto Albertino, os outros três tópicos evidenciavam temas que eram muito caros aos princípios fascistas. Como no ponto nove, quando eram estudados os movimentos e os mártires do processo de unificação da Itália (Risorgimento), o problema da unidade e o problema institucional, o federalismo, o unitarismo e as condições econômicas da Itália entre 1815 e 1870. O tópico dez tratava das condições da Europa antes e depois da guerra mundial (1914-1918) e apresentava notas gerais sobre a forma de governo, a
143 “Tutto ciò, è ovvio, non si potrà richiedere nel grado elevato che si richiederà in studi superiori ma nella
misura che è necessaria per essere buoni cittadini.” (ITALIA, 1923b)
144“L’esame dev’essere una conversazione che riveli la maturità di animo dello scolaro, la sua preparazione alla
vita modesta, ma non perciò, priva di gravi e difficili doveri, ch’egli dovrà vivere come uomo e come cittadino.” (ITALIA, 1923b)
religião e a estrutura econômica de vários Estados europeus. E finalmente, o tópico onze que tratava da Itália através de suas leis eleitorais, as obrigações militares e sobre as funções do júri. Além disso, apresentava notas gerais sobre os tributos e as despesas do Estado. E ainda, noções muito gerais sobre o direito penal, – distinção entre crime doloso e culposo, – e sobre os direitos civis – propriedade, obrigações e família.
Ricuperati aponta ainda algumas questões interessantes acerca da escola complementar. Primeiramente, ela não era a escola destinada ainda à classe mais subalterna, como os operários e agricultores. Segundo o autor, para estes, “existiam os cursos integrativos da escola elementar ou pós elementar.”145 (RICUPERATI, 1973, p. 25, tradução nossa). Tais
cursos estão normatizados segundo o Régio Decreto 2.185, de 1º de outubro de 1923, que trata da organização dos graus escolares e dos programas didáticos do ensino primário e dos primeiros anos da escola elementar. Segundo o artigo dois deste Régio Decreto, estes cursos integrativos são profissionalizantes e são oferecidos aos alunos que tenham estudado até a quinta série da escola elementar.
Como a escola complementar assumia a função de completar os estudos da escola elementar, apresentaremos a seguir um quadro que demonstra esta fase de ensino a partir da reforma Gentile (tabela 15). Veremos ainda, que ao concluir a escola elementar, o aluno poderia prosseguir os estudos seguindo para a escola média, onde iria para o ginásio trilhando a formação clássica, para o instituto magistral inferior, ou ainda, para o instituto técnico inferior. Como vimos anteriormente, aqueles que não aspirassem a continuar estudando, poderiam seguir a formação profissionalizante, ou ir para a escola complementar.
TABELA 15 - ESCOLA ELEMENTAR – A PARTIR DA REFORMA GENTILE