Ana Velosa, Albino Costa
Universidade de Aveiro, Departamento de Engenharia Civil, RISCO, Geobiotec Direção Geral de Cultura do Norte
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1. INTRODUÇÃO
O tabique é uma metodologia construtiva de utilização nacional, mas com larga preponderância no Norte e Cen-tro de Portugal, incluindo as regiões do interior. De construção simples, com base em madeira e revestido por argamassa de cal ou de terra, este elemento divisório tinha lugar tanto no património vernacular do Norte Trans-montano, como nas casas burguesas da cidade do Porto ou em prédios na cidade de Lisboa. Dada a escassez de informação relativa à conservação destes elementos, que muitas vezes se encontram em bom estado, atualmente são frequentemente demolidos, o que se traduz numa grande perda em termos culturais e de preservação do património.
2. TABIQUE, FRONTAL E O SEU REVESTIMENTO 2.1 Revisão Bibliográfica
Segundo a publicação “Curso Elementar de Construções, Imprensa Nacional” de Luís Augusto Leitão, (1896) “O tabique mais simples e ligeiro é formado por uma ordem de tábuas costaneiras não limpas, e pregadas ao alto, com o intervallo minimo de 0m,01, em duas réguas de 0m,10 a 0m,12 de largura, fixas, uma no sobrado e outra no tecto. Fasquias horisontaes, dispostas parallclamente com intervallos de 0m,03, são pregadas sobre as costa-neiras de modo que a face mais larga fique para fóra, a fim de poder ser retida n’esses intervallos a argamassa com que se faz o revestimento da parede. Este tabique é construído depois de assente o solho”, descrevendo desta forma os tabiques que atuavam como divisórias, sendo também relevante (segundo o mesmo autor) que
“os tabiques, destinados a formarem as mais pequenas divisões dos edifícios, devem ser pouco espessos para não roubarem muito espaço interior.” A Figura 1 representa uma tipologia de tabique (suspenso), que não tem ligação com as fundações do edifício.
Referindo-se aos tabiques utilizados com características estruturais para além de funcionar como simples di-visórias, afirma Leitão (1896) que “Ha um outro typo de tabique, de construcçâo análoga á dos frontaes: com-põe-se de prumos e escoras ou travessas...”.
Em termos das argamassas de revestimento, para além das argamassas de cal, Leitão (1986) não descura as ar-gamassas de terra: “Alem das arar-gamassas citadas em ... que são as de que se faz mais vulgar applicaçào, ha tam-bém as argamassas de terra, que podem ser empregadas em casas pobres de campo, em muros de vedação, etc, para ligação de pedras ou tijolos de alvenaria.” Remetendo o seu uso para as construções vernaculares, há um cuidado específico tanto na escolha de materiais, como na sua preparação: “A terra escolhida nem deve ser demasiadamente argillosa, porque se fenderia com facilidade na dessecação, nem muito arenosa para, depois
Figura 1 – Tabique suspenso (Leitão, 1896)
A terra bem triturada e amassada com agua deve formar uma pasta espessa e homogénea, sendo para isso indis-pensável expurgala previamente das pedras e hervas que contenha.”
Já no Século XX, Pereira da Costa (1930-39), menciona ainda a construção com tabique: “Quando se construia pelo sistema de esqueleto, as paredes interiores tinham as designações de frontale e tabique consoante a sua espessura. Os tabiques mediam de 0,06 a 0,10m e os frontais andavam de 0,15 a 0,20 e 0,25 cm depois de rebo-cados. Os tabiques eram construídos corn tabuas a prumo ~ em diagonal, sobre as quais se pregavam fasquias equidistantes de 0m,04 umas das outras.” Este autor especifica as diferenças entre tabique e frontal - “Os frontais para as divisórias mais espessas e os tabiques para as mais delgadas” – não deixando contudo de mencionar o início do seu desaparecimento como técnica construtiva – “Hoje, com os mais progressivos meios de construção, este género de trabalho quase que deixou de existir”. No entanto a execução de divisórias em tabique continuou para lá dos anos 30, alvez porque, como menciona Pereira da Costa (1930-39) “As divisórias com tosco de madeira são muito mais leves, não se sobrecarre-gando por conseguinte os pavimentos, que poderão não ter a resistência necessária para suportarem divisórias de tijolo, mesmo assente a cutelo”.
Este autor coloca na sua obra desenhos de frontais à Francesa (Figura 2) e tabiques ligeiros (Figura 3), mostrando diferenças relevantes na forma de construção, que se repercutem no funcionamento destes elementos construtivos.
Figura 2 – Frontal à Francesa (Pereira da Costa, 1930-39)
Em termos de revestimento, este autor menciona apenas que “Sobre o fasquiado dos tabiques fazia-se simples-mente o enchimento do pardo corn argarmassa.” Similarsimples-mente a Leitão (1896), muitos anos antes, Pereira da Costa (1930-39) remete o uso do tabique para as construções vernaculares: “Actualmente nao se usa este genero de trabalhos, senão em sótãos ou construçõess ligeiras no campo.”
3. ANÁLISE DOS REVESTIMENTOS
No desenvolvimento da dissertação, “Argamassas de revestimentos em tabiques no Norte de Portugal”, realiza-da no Departamento de Engenharia Civil realiza-da Universirealiza-dade de Aveiro, Albino Costa avaliou e identificou diversas tipologias de argamassas. Na pesquisa de amostras representativas da Região Norte de Portugal, ainda existem dois tipos distintos de argamassas que revestiam as paredes de tabique. Um grupo cujo ligante base é a cal, e um segundo grupo cuja base é o material terra. Após a realização de ensaios laboratoriais, no primeiro grupo temos argamassas de cal e saibro e de cal e areia (Figura 4). Nas argamassas com base em terra também foram detetadas duas tipologias diferentes, uma só com terra argilosa (Figura 5), mais na zona interior centro do Norte de Portugal, e outra de terra com palha (centeio), no planalto Mirandês (Figura 6).
Figura 5 – Argamassa de terra
Figura 6 – Argamassa de terra e palha Figura 4 – Argamassa de cal
É ainda evidente em alguns casos de edificado (usualmente abandonado), o uso destas técnicas, como mostra a
Figu-Figura 7 – Reboco de terra e palha (Velosa, 2016)
Figura 8 – Parede com revestimento em terra, Rio de Onor (OA, 1955-60)
Esta tipologia construtiva é também retratada no interior do país no livro “Arquitectura Popular em Portugal”, editado pela Ordem dos Arquitectos e baseado no Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa, realizada pelo Sindicato Nacional dos Arquitectos entre 1955 e 1960 (Figura 8).
4. AÇÕES DE CONSERVAÇÃO
Tendo em conta o vasto património ainda existente no que respeita a elementos de tabique, é fundamental pensar na sua preservação no contexto da intervenção no património edificado. Olhando especificamente para os tabiques com revestimento com argamassas de terra, constata-se que estarão dentro do grupo cuja construção perdurou no tempo, por estarem inseridos na arquitectura vernacular. Pese embora a falta de interesse das populações locais e, muitas vezes, a falta de conhecimento sobre a metodologia construtiva, é ainda possível resgatar alguns exemplos como testemunho cultural para a posteridade. É também relevante voltar a conhecer estes materiais e técnicas para aplicação não só na reabilitação, mas na construção nova, sob a égide da sustentabilidade e de uma visão mais focada na tradição, aliada à inovação. Neste contexto, manter as estruturas antigas, reparando apenas elementos degradados de madeira e manter as argamassas, sempre que possível, é o desejável. Sendo inevitável a utilização de novas argamassas, devem ser utilizados materiais similares aos originais (terra local, palha) e proporções similares às existentes.
5. BIBLIOGRAFIA
COSTA, A. (2021), Argamassas de revestimentos em tabiques no Norte de Portugal, Tese de Mestrado realizada no Depar-tamento de Engenharia Civil da Universidade de Aveiro, sob orientação de Ana Velosa
LEITÃO, L. A., (1896) Curso Elementar de Construções, Imprensa Nacional, Lisboa ORDEM DOS ARQUITECTOS, Arquitectura Popular em Portugal.
PEREIRA DA COSTA, F., (1930-39) Portugalia Editora, Lisboa, Obras de Alvenaria Fascículo 13 Interiores e Exteriores TEIXEIRA, J. (2004) Descrição do Sistema Construtivo da Casa Burguesa do Porto entre os Séculos XVII e XIX, Tese de Dou-toramento, FAUP.
Resumo
O Homem começou a utilizar a terra como material de construção há mais de 9000 anos, em vários locais do mundo, sendo que algumas dessas construções milenares ainda perduram.
Existem várias técnicas construtivas em terra crua. Na região do Ribatejo foram muito utlizadas as construções de taipa e sobretudo de adobe. Esta extensa região, atravessada pelo Rio Tejo, é car-aterizada pela existência de vastas zonas constituídas por solos aluvionares, onde escasseia a pedra.
A construção em taipa de pilão exigia uma melhor seleção dos solos argilosos e de mão de obra mais especializada. Por outro lado, o adobe era fabricado com solos menos selecionados, de modo mais improvisado e secos ao sol, o que permitia uma construção mais rápida e versátil.
O final do séc. XIX e início do Séc. XX foi um período de grande prosperidade, motivada pelo aumento da produção de materiais e componentes, devido ao desenvolvimento dos processos de produção, proporcionado pela máquina a vapor.
Uma das consequências foi a produção de cal, a custos mais acessíveis que, misturada com a terra, originava adobes com maior resistência mecânica, o que propiciou o aumento da construção em adobe. Também se registou um incremento na produção de azulejos e de maquinaria para o corte da pedra e para o aplainamento da madeira, entre outros.
As construções mais modestas eram feitas de abobes, fabricados com os solos mais pobres dos quintais ou com solos arenosos da beira do rio, aos quais a junção de cal facilitava a moldação e dava maior resistência. As pessoas mais abastadas construíam as suas casas com adobes de melhor qualidade e introduziam novos materiais como o azulejo, pedras trabalhadas e madeiras mais bem aparelhadas.
Este artigo apresenta as caraterísticas de dois exemplos de construções em adobe: popular e erudita.
Palavras-chave: adobe, construções, popular, erudita