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edificações promove comodidades aos pescadores e possibilita a pesca em locais mais piscosos.

Autor: BRACONARO, Fernando. 2009.

Como atividade lúdica, a pesca popularizou a utilização de apetrechos simples, como varinhas de bambu e posteriormente, a utilização de molinetes. Com a utilização destes equipamentos, o esforço da pesca se dava sobre as espécies de pequeno e médio porte, tais como, piau, piapara, mandi, lambaris, traíra, raramente esses equipamentos permitiam, quando capturados, retirar da água espécies de grande porte, tais como Jaú, Pintado, Dourado.

Mesmo como atividade lúdica, a captura de grandes quantidades de peixes e o sacrifício dos mesmos eram sinônimo de uma pescaria realizada com sucesso, e os peixes capturados, invariavelmente tornavam-se alimentos dos pescadores, amigos e familiares.

Pelo que expomos até o momento, fica evidente a metamorfose pela qual esta atividade passou. Tais transformações envolvem modificações simbólicas, sociais e temporais que resultam em novas mediações entre homem e natureza, resultando assim, em novas formas de uso do espaço e das formas de pescar.

Mas a transformação exposta até o momento é ainda parcial. A maior transformação se processa quando o peixe, alvo de toda pescaria começa a desaparecer dos rios decorrentes, sobretudo, da edificação de hidrelétricas, da sobre pesca e das modificações impostas pela sociedade a natureza.

2.4 Novas práticas e sensibilidades em relação aos peixes

Nos relatos colhidos em campo, percebemos que o prazer proporcionado pela pesca, por vezes a decepção de vários dias de pesca sem êxito, levou a um questionamento das próprias condutas dos pescadores, pois se o ato de pescar lhe proporcionava prazer, o sacrifício dos peixes contraditoriamente eliminava o que de mais atrativo havia na atividade. Desta forma, a captura dos peixes não necessariamente passou a ser acompanhada do sacrifício dos mesmos.

Esta prática de capturar os peixes e depois devolvê-los ao ambiente teve início nos Estados Unidos na década de 1940 e foi denominada de Cath &

Release (Pesque-&-Solte). No Brasil, esta prática se popularizou a partir da

década de 1980 com a divulgação de vários programas televisivos75 sobre

75 São exemplos de programas de pesca existente no Brasil: Pesca Alternativa, Coração de Pescador, Hora do Pescador, Momento da Pesca, Pescar e Preservar, Pesca e Prosa, Pesca e Lazer, Pesca Dinâmica, Pescando Aventura, Pesca sem Fronteira, Pesca Pará, Pesca Rondônia, Pesca Amazônia, Rancho do Pescador, Show de Pesca, Terra da Gente, Trilhas da Pesca, Pesca Gerais, curva de rio. Destacamos que estes últimos dois são exibidos em Minas Gerais, sendo o último, um programa local, realizado muitas vezes nas represas do Triângulo Mineiro e exibido principalmente nos municípios de Uberlândia e Araguari.

pesca, aos quais foram influenciando e incentivando os pescadores a incorporarem esta conduta nos momentos dedicados a pesca.

eu sou de Uberlândia, sempre pesquei aqui na região. Aprendi a praticar a pesca do tucunaré né, e a partir que eu comecei a pescar tucunaré, eu aprendi uma coisa muito importante, que é a pesca esportiva, entendeu? Ai depois disso eu mudei meu conceito de pesca, porque antes eu era o predador né, matava... pescava e matava e levava pra casa. Hoje não, hoje eu pesco e solto76.

Entendemos que essa transformação é uma verdadeira revolução na conduta humana, que transforma de forma geral, toda uma prática e uma concepção sobre a atuação do homem na natureza. Cândido (1982) observou também uma profunda transformação das bases alimentares das comunidades tradicionais que estudou, transformado também, pelas condições impostas pelo urbano e pelo lazer. Assim, segundo este autor:

O que era básico se torna acessório, o acessório se torna básico, e vemos um meio de subsistência tornar-se atividade lúdica, dando lugar a uma constelação inteiramente renovada. O animal, que antes era uma espécie de comparsa antagônico num drama, alvo de solicitações, propiciações, verdadeiros entendimentos em que o homem se incorpora ao mundo natural, passa agora a integrar uma realidade diferente, a que o homem se opõe. As novas fontes de abastecimento levaram a uma rearticulação das relações com o meio, em que aposição do alimento é outra. (CÂNDIDO, 1982, p. 30)

A pesca também transformou-se ao longo do tempo e no espaço, e em função da concretização do processo urbano na bacia do rio Araguari, promoveu uma rearticulação das relações com o meio, elevando a pesca e o peixe, de uma importante fonte alimentar à uma apaixonante atividade lúdica com uma constelação de significados totalmente renovada que enxerga o peixe como um animal que deve ser preservado.

A transformação da pesca praticada por lazer em esportiva é nas palavras de muitos entrevistados, considerada uma evolução da pesca amadora, pois envolve novos equipamentos, iscas e maneiras diferentes de

praticar a pesca e a captura dos peixes. No relato abaixo, um entrevistado revela sua experiência com a pesca esportiva:

Eu passei a conhece o rio Araguari desde menino, né. Conheci o rio, todas as suas corredeiras, todas as suas curvas, e todos os peixes que tinha no rio Araguari. Então quer dizer, era um rio onde o peixe subia do Paranaíba pra desova né, um berçário, um lugar onde a piracema era bem efetiva, todo os anos tinha mesmo a piracema, e eu praticava sempre a pesca amadora. Mas em meado dos.... no começo da década de 90 (1990), eu comecei a ter contatos com pescadores esportivos. Começou a vir pro Brasil, essa ideia do Pesque & Solte, pescaria esportiva... Então em 91, 92, 93 eu já tava pescando com iscas artificiais. E aconteceu que a pesca esportiva foi tomando conta, e agente foi se inteirando como é que funcionava, foi apaixonando, conhecendo novos equipamentos, embarcações novas, que a pesca esportiva é totalmente diferente né... O estilo da pesca esportiva é totalmente diferente, ela é apaixonante né, ela tem uma adrenalina a mais, porque você na verdade não vai pra beira do rio esperar o peixe vir no anzol, você vai pra beira do rio, entra no rio, e circunda e anda todo rio, procurando, caçando o peixe. Então pra isso nós temos que, na verdade, começar a entender o comportamento dos peixes, então o pescador esportivo ele é um estudioso do comportamento do peixe, porque ele só tem chance de capturar peixe se ele começar e conhecer na íntegra, o seu dia a dia, o dia a dia do peixe, onde ele mora, o que ele come, porque que ele tá ali. Na verdade, o ciclo do peixe, eu percebi, que o ciclo do peixe, ele é metódico. Se não variar muito o clima, no ano que vem ele tá fazendo a mesma coisa praticamente nos mesmos lugares, ali próximo. Então a pesca esportiva pra mim, foi de fácil assimilação porque eu sempre gostei dessa dinâmica, e dessa pescaria corrida que é né, estudiosa, em buscar o novo77[...].

A pesca esportiva como demonstra o relato populariza-se principalmente na década de 1990, período no qual ampla maioria dos rios da região do Triângulo Mineiro já se encontravam barrados por grandes hidrelétricas. Neste tipo de pesca, há uma completa reformulação do universo lúdico que abarca a pesca e as formas como tal atividade é praticada.

As transformações passam pelos equipamentos, pois como refere o relato acima, é o pescador quem vai à procura do peixe, e para isso utilizam-se embarcações que possibilitam o deslocamento a grandes distâncias. O ambiente também não é mais um rio com corredeiras e de difícil navegação, este tipo de pesca, embora praticado nos ambientes lóticos, só se populariza com a construção das hidrelétricas que criam uma lamina de água favorável à navegação.

Em função da construção das represas e da formação dos lagos, como dito anteriormente, algumas espécies são extintas, enquanto outras são favorecidas pela formação do novo ambiente. Umas das espécies que se estabelecem nos reservatórios com sucesso é uma espécie exótica78, originária da bacia amazônica e conhecida popularmente como Tucunaré, e que é a principal espécie procurada por quem pratica a pesca esportiva na região do Triângulo Mineiro e na bacia do rio Araguari.

Para capturar esta espécie, utiliza-se principalmente carretilhas que permitem arremessos constantes e precisos, e não mais molinetes e varas de bambu como na pesca amadora. As iscas utilizadas são artificiais, produzidas com materiais de plásticos, madeiras e alumínio, e quando arremessadas e arrastadas na água, imitam o nadar de pequenos peixes, estimulando o ataque dos peixes contra a mesma.

A pesca esportiva então, praticada principalmente dentro das embarcações, ocorre principalmente nas represas, e o pescador sai em busca dos cardumes de peixes, principalmente tucunaré e traíras, ao longo da extensão das represas, arremessando constantemente suas iscas artificiais nos locais onde possivelmente os peixes se encontram.

A utilização das carretilhas é fundamental, pois este equipamento permite maior precisão dos lances, evitando que as iscas enrosquem nas galhadas e matos existentes nas margens das represas, e, além disso, um bom equipamento não ultrapassa em média, 200g, evitando um desgaste físico e muscular após horas de arremessos constantes durante um dia de pescaria.

No universo da pesca esportiva, galhadas e vegetação expostas e submersas são denominados estruturas de pesca. Estruturas de pesca são os locais procurados pelos peixes onde encontram abrigo e alimentação. Detendo este conhecimento, os pescadores procuram locais com estas características e se deslocam até os mesmos para praticarem a pesca.

78 Considera-se exótica, toda espécie de peixe que originalmente não se encontrava na bacia e que foi introduzida pelo homem no ambiente.

FOTO 20: Estrutura de pesca na UHE de Nova Ponte. Este tipo de estrutura é comum no lago