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2 O DECLÍNIO DO PAI: GESTO FINAL, INÍCIO DA

2.1 O tabu do incesto

A imagem viril do pai já fora amplamente abordada no texto

Totem e Tabu13 de Freud, cuja função do pai é exatamente a do pai morto. No texto, Freud se pergunta sobre o real sentido da proibição: “os diversos totens dentro do grupo social cumprem a função de resguardar o incesto, na medida em que o totem codifica os matrimônios proibidos e os matrimônios permitidos” (MASOTTA, 1987, p. 113). Percebe-se então que o tabu do incesto passa a ser uma espécie de código amplamente direcionado aos costumes familiares. Uma organização promovida a fim de comportar uma dinâmica de convivência, por vezes sem fundamento, mas funcional, pois havia o surgimento de possíveis pais e mães simbólicos, assim como também irmãos simbólicos. A proibição geral entre essas pessoas tornava menor a possibilidade de aproximação entre parentes realmente consanguíneos. Muitas vezes aquilo que é proibido se torna objeto de desejo. Se por um lado lidamos com o sagrado, por outro temos o profano. Submeter uma tribo inteira a uma proibição era comum, já que os habitantes membros da tribo sabiam que qualquer tipo de violação levaria a uma punição severa e as consequências seriam dolorosas, em muitas situações seria a própria morte. Sendo assim, a própria sociedade se encarregava de punir um transgressor. E em muitos casos a punição era moral e atribuía ao profanador o esquecimento: “a violação de um tabu transforma o próprio transgressor em tabu” (FREUD, 1996, p.48). Ocorre que a proibição era insuficiente, não tinha forças para abolir o instinto ou bani-lo por completo do inconsciente. Esta ambivalência era a razão para a realização de atos proibidos, como o de matar o pai, o chefe do clã.

O pai que encontramos em Totem e Tabu é o pai viril, macho, o único possuidor do direito de domínio sobre as fêmeas do grupo. É aquele que desperta a inveja e a ira dos outros integrantes, causando o manifesto desejo de assassiná-lo para tomar o seu lugar. Esse pai macho, em uma ordem natural, está diretamente ligado à criação do tabu cultural. Freud (1996, p. 39) afirma ser isso o “resultado da tradição transmitida através da autoridade paternal e social”. A mesma

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Totem e Tabu trata da origem da religião e da moralidade, de acordo com o prefácio escrito pelo próprio Freud à primeira edição. Faz-se neste livro uma tentativa de deduzir o significado original do totemismo dos seus vestígios remanescentes na infância – das insinuações dele que emergem no decorrer do desenvolvimento de nossos próprios filhos. (FREUD, 1996, p.18).

autoridade questionada e negada por André, em Lavoura arcaica, que busca a morte inconsciente do pai impositor da proibição do incesto.

O que se percebe, então, é que com a morte do pai temos o surgimento do arrependimento, da dor e do medo. E o medo é maior que o desejo, pois ao invés de os filhos virem a possuir as mulheres ocorre exatamente um sentimento ambivalente. Há uma negação a relação com essas mulheres por pertencerem ao mesmo totem que antes eram possuídas pelo pai totêmico. Temos, então, o que poderia ser o princípio do horror ao incesto. Os sentimentos de ódio ao pai - que representava um obstáculo para os anseios de desejo e poder dos filhos, se relacionavam aos sentimentos de amor e admiração. A perseguição ao pai está intimamente ligada à admiração a ele. O desejo de matá-lo, de enfrentá-lo, como em Lavoura arcaica, é associado à vontade de possuir o seu lugar, elevar-se à categoria de pai. Observe-se a descrição de Freud, em Totem e Tabu, em que temos a comprovação da obediência adiada, procedimento psicológico bastante familiar na Psicanálise. É o pai morto se tornando mais forte que o pai vivo:

Anularam o próprio ato proibindo a morte do totem, o substituto do pai; e renunciaram aos seus frutos abrindo mão da reivindicação às mulheres que agora tinham sido libertadas. Criaram, assim, do sentimento de culpa filial, os dois desejos reprimidos no complexo de Édipo. Quem quer que infringisse esses tabus tornava-se culpado dos dois únicos crimes pelo quais a sociedade primitiva se interessava. (FREUD, 1996, p. 147)

Os dois tabus dizem respeito à moralidade humana, o primeiro se refere à lei que protege o animal totêmico e o segundo diz respeito ao incesto. Os desejos sexuais tornam os homens adversários e para compreendermos isso basta imaginarmos o caos em que se transformaria uma suposta “aldeia” onde os irmãos teriam se unido para derrotar o pai. Tornar-se-iam rivais quanto ao desejo de possuírem as mulheres do grupo e esse desejo resultaria em uma guerra familiar. Freud concluiu que não haveria outra saída senão a de proibir esses relacionamentos, ainda que decorrente de muita dor e crises, através da criação da lei contra o incesto.

É a partir deste simbolismo que, em Lavoura arcaica, a figura de André vai se encaixar. Ele sabia que o retornar à casa do pai acarretaria em muitas mudanças. A primeira delas, e não menos importante, foi o

confronto com o seu pai em mais uma busca de reaproximação de ideias. O pai era o obstáculo às suas aspirações. O segundo momento foi o assassinato de Ana, ao menos no que sugere a própria obra, durante a festa que marcou a volta do filho pródigo.

Num gesto profano a fortaleza arcaica vem abaixo, e aquele que há muito falava de paciência, moralidade e sabedoria, transgride em um só ato os seus ensinamentos. Os que estão a sua volta se calam, como se cala um narrador diante de uma catástrofe, lembrando o que diz Benjamin sobre os soldados que horrorizados voltavam emudecidos da guerra. A perda da fala dos familiares equivale ao mesmo questionamento de uma linguagem que se impõe. Ou seja, o Pai Real, Iohána, se mostra vulnerável, equivocado, vingativo e, consequentemente, um homem fraco. Daí acontecer a passagem da morte do Pai Simbólico: aquele que não pode mais exercer a função de ser seguido como pai por ter mostrado a sua face humana (demasiadamente humana, como diria Nietzsche). Carência e excesso por não poder seguir o que propõe. Portanto, o pai acaba sendo quem, no ato de matar, morre.

2.2 Mãe-Terra, nos teus braços me envolverei