6° Táxon Formas de Processos
3.2.1 Tabuleiros Costeiros
A unidade padrão de formas semelhantes, denominada Tabuleiro costeiro, compõem a paisagem das praias de São Cristóvão e Ponta do Mel, localizadas no litoral setentrional do estado do Rio grande do Norte. O tabuleiro é uma área considerada quase plana e formada por rochas pertencentes ao Grupo Barreiras. Villwock (2005) destaca que os sedimentos encontrados no Grupo Barreiras são do Neógeno e foram retrabalhados no Pleistoceno e no Holoceno, dando origem às feições geomorfológicas dos tabuleiros costeiros. Sobre esta unidade observam-se tipos de formas de relevo caracterizados por dunas móveis, dunas parcialmente cobertas por vegetação e as falésias demarcando a transição para a planície praial. As dunas móveis estão associadas aos campos de dunas do tipo barcana e barcanoíde, sendo a primeira tipologia caracterizada, conforme Giannini et al. (2008), por duas caldas desprovidas de vegetação que se alongam a favor do vento, apresentando tamanho pequeno e rápida mobilidade. A duna barcanoíde possui as mesmas características, contudo se formam mediante a maior disponibilidade de sedimentos, tornando-se maiores. As dunas parcialmente cobertas por vegetação são encontradas em menor proporção nesse litoral devido ao clima semiárido limitar a colonização de espécies. A vegetação que se desenvolve é do tipo restinga arbustiva, contendo espécies típicas da caatinga (Quadro 7).
As falésias também se destacam na paisagem da praia de São Cristóvão e de Ponta do Mel e podem ser consideradas como uma escarpa coberta ou não pela vegetação, com declividades muito acentuadas e de alturas variadas, podendo ser classificadas como vivas ou mortas, localizadas próximo ao contato entre a terra e o mar. (CHRISTOFOLETTI, 1980, p. 133), onde são consideradas como resultado de movimentos tectônicos. As falésias de São Cristóvão e de Ponta do Mel são vertentes desprovidas de vegetação e com trechos demarcados por processos erosivos, caracterizados por sulcos e ravinas. Em São Cristóvão é possível observar planos de falhas geológicas e um tipo de vegetação fossilizada.
De acordo com Guerra e Cunha (2009) os fatores controladores da erosão em vertentes são: erosividade da chuva, propriedades do solo, cobertura vegetal e características da encosta.
A combinação desses fatores, atrelada à ação antrópica, pode determinar a capacidade de erosão das encostas.
O Ponto A, localizado na praia de São Cristóvão possui falésias com processos erosivos ocasionados pelo fluxo das águas pluviais que devido ao escoamento concentrado em determinados pontos, associado à falta de vegetação, convergem para escarpa desencadeando a formação de sulcos e ravinamentos. Outros elementos catalisadores da erosão acentuada nesta localidade são as falhas geológicas e a vasta presença de rizólitos (Figura 41) contribuindo para concentração do runoff.
Figura 41 - Presença de rizólitos, ravinas e falhas geológicas nas falésias situadas em São Cristóvão, Areia Branca-RN.
Fotos: Zuleide Lima.
Klappa (1980) definiu os rizólitos como estruturas organossedimentares que preservam a atividade das raízes das plantas superiores. Os rizólitos foram reconhecidos como produtos de exposição subaerial e pedogênese. São corpos de origem orgânica, substitutos por minerais ou impregnações minerais que preservam as características anatômicas da raiz. De acordo com Kraus e Hasiotis (2006), a formação dos rizólitos ou traços de raízes indicam palessolos e estão relacionadas a presença das raízes da planta e suas interações com microorganismos que produzem compostos, os quais afetam o ferro (Fe) e/ou manganês (Mn) presentes nas áreas vizinhas das raízes. Os padrões produzidos pelas raízes representam a busca de água e minerais intersticiais pela planta através de seu sistema radicular, desse modo, podem indicar condições de drenagem outrora existentes em paleossolos.
Além disso, a falésia analisada em São Cristóvão possui granulometria classificada como areia média, que de acordo com Farmer (1973) e Poesen (1974) apud Guerra (2009) é
02/06/2017 02/06/2017
considerada uma fração de maior susceptibilidade à erosão quando comparada às frações granulométricas finas e grossas. Foram identificados sedimentos esféricos, ou seja, não trabalhados pelo ambiente praial e sedimentos bastante oxidados, refletidos na coloração do depósito, o qual se apresenta avermelhado (2.5 YR 5/8 - vermelho). Na figura 42 pode ser observada a amostra retirada da falésia de São Cristóvão e suas características morfoscópicas.
Figura 42 - Detalhe dos sedimentos da falésia de São Cristóvão, Areia Branca-RN.
Fotos: Joyce Clara.
Na esfera da intervenção antrópica foram identificados elementos agravantes desses processos como, por exemplo, a presença de cabos que atravessam a escarpa para suprir de luz elétrica os bares e restaurantes localizados na praia, tal como, a ausência de um sistema de drenagem da pista localizada no topo da falésia. Observou-se, ainda, a presença de residências e um cemitério público ambos instalados no topo dos tabuleiros (Figura 43).
Figura 43 - Construções localizadas próximo as falésias de São Cristóvão, Areia Branca-RN.
Foto: Zuleide Lima.
As erosões nas falésias de São Cristóvão podem ser percebidas à luz de Santos Jr. et al. (2009) que identificaram diversos processos erosivos nas falésias do Rio Grande do Norte. Em São Cristóvão, embasando-se nos autores, identificou-se o processo de queda de blocos conforme pode ser conferido na Figura 44.
Figura 44 – A- Modelo de tombamentos de blocos. Fonte: Santos Jr. et al. (2008). B - Tombamentos de blocos nas falésias de São Cristóvão, Areia Branca-RN. C - Blocos advindos das falésias de São
Cristóvão, Areia Branca-RN.
Fotos: Joyce Ferreira.
Esse tipo de erosão, está associada às zonas de fraqueza que são formadas em materiais submetidos a condições de clima semiárido/árido, pois passam por um processo físico denominado de dilatação térmica - referente a termodinâmica. Esse fenômeno gera fissuras ocasionadas devido à contração e expansão dos minerais presentes na rocha, o que, quando
02/06/2017 12/07/2017 02/06/2017 B C A CEMITÉRIO PÚBLICO
ocorre em demasia, acaba desagregando o corpo rochoso que, posteriormente, submetido as intempéries climáticas condicionadoras de reações químicas, transforma-se em arenito ferruginoso comumente encontrado nesse litoral.
De acordo com o IDEMA (2006) e a CPRM (2006) a unidade padrão de formas semelhantes, Tabuleiro costeiro, localizada na praia de Cacimbinha situada no litoral oriental do estado, mais precisamente no município de Tibau do Sul, apresenta topografia suavemente plana, com drenagens de baixa densidade e vertentes com pouco declive. O limite que separa o Tabuleiro da praia é demarcado por falésias com granulometrias de areia média que, por mais das vezes, apresentam processos erosivos como sulcos e ravinas, maximizados pela ocupação antrópica irregular ocasionando a má drenagem das águas continentais (Figura 45). Nesta tipologia de tabuleiro, nota-se a maior cobertura vegetal em virtude das condições climáticas mais úmidas, caracterizado pelo clima Tropical Nordeste Oriental que origina solos do tipo latossolo.
Figura 45 - Processos erosivos instalados nas falésias da praia de Cacimbinha, destaque para os sedimentos da falésia.
Sob o tabuleiro costeiro desta localidade encontram-se dunas parcialmente vegetadas que se apresentam em forma de campos de duna do tipo parabólicas devido à fixação de suas caldas por meio da vegetação desenvolvida sob condições climáticas mais úmidas. As áreas desprovidas de vegetação podem ser consideradas como blowouts, que de acordo com Goldsmith (1978) são corredores de vento formados onde acontece o rebaixamento da crista de duna. Os depósitos de dunas desta região são compostos por sedimentos quartzosos na fração areia grossa e os solos são do tipo neossolos quartzarênicos, capazes de desenvolver vegetação do tipo restinga arbustiva. Para uma melhor análise dos depósitos encontrados nas áreas estudadas, foram elaboradas cartas de assinaturas, referentes aos materiais encontrados nas praias de São Cristóvão, Ponta do Mel e Cacimbinha, podendo ser conferidas a seguir (Quadro 8 e 9).
Tomando como referência as cartas de assinaturas apresentadas, nota-se que as praias de São Cristóvão e de Ponta do Mel há o predomínio de materiais arenosos com granulometrias variando entre fina e média, sugerindo a maior incidência do transporte eólico. Enquanto que em Cacimbinha, ocorrem sedimentos na fração areia média na maioria dos depósitos e areia grossa na duna parabólica localizada sob o tabuleiro do Ponto B, o que pode indicar alta energia.
As falésias também se destacam nas paisagens de ambas as localidades, sendo nas praias de São Cristóvão e Ponta do Mel desprovidas de vegetação e com trechos demarcados por processos erosivos, enquanto na praia de Cacimbinha observa-se cobertura vegetal em alguns trechos e em áreas onde não ocorre vegetação, há erosão caracterizada por sulcos e ravinas. Isto posto, será analisada a erodibilidade das falésias no subtópico a seguir.
Quadro 9 - Carta de assinatura dos depósitos de encontrados na praia de Cacimbinha, Tibau do Sul–RN.
3.2.1.1 Erodibilidade das falésias
Visando testar a erodibilidade das falésias de São Cristóvão, Ponta do Mel e Cacimbinha, foram realizados ensaios geotécnicos com base na metodologia de Inderbitzen. Assim, foram retiradas do topo das falésias amostras indeformadas em anéis concêntricos, para traçar uma estimativa percentual do potencial de erodibilidade das falésias. Os resultados podem ser conferidos na tabela 7:
Tabela 7 - Resultado do ensaio de erodibilidade nas praias de São Cristóvão, Ponta do Mel e Cacimbinha.