3.5 Sistemas Colaborativos
3.5.2 Tailoring Adaptável e Sistemas Colaborativos
Sistemas tais como e-mails, chats, sistemas de armazenamento na nuvem, blogs, sites, entre outros, são, muitas vezes, sistemas de uso frequente. Além da frequência de uso, outra característica comum aos sistemas colaborativos é sua abrangência, visto que muitas vezes um mesmo sistema é utilizado por múltiplos(as) usuários(as) inseridos(as) em contextos distintos. Conforme Randall Trigg e Susanne Bødker (1994) comentam, o tailoring adaptável é também um processo coletivo, que remodela o padrão das tecnologias em uso para criar um ambiente tecnológico local e compartilhado. Este caráter coletivo possibilita um entendimento próprio ao contexto dos sistemas colaborativos.
As diferentes naturezas de uso dos sistemas colaborativos podem se mostrar complexas para projetistas, principalmente pela sua heterogeneidade e imprevisibilidade. O quinto desafio de Grudin e Poltrock (2013) é relativo ao tratamento de exceções e a forma como incorporar desvios no padrão de uso que havia sido previsto na etapa de desenvolvimento. Oliver Stiemerling, Helge Kahler e Volker Wulf (1997) comentam que a diversidade de requisitos é um motivo que favorece
projetar sistemas que propiciem tailoring. Essa diversidade de requisitos é encontrada, por exemplo, no desenvolvimento de produtos para grandes mercados, em que o tailoring adaptável contribui para que um produto genérico satisfaça as diversas demandas de muitos clientes. Além de grandes mercados, em mercados pequenos também existe uma diversidade de contextos e pessoas envolvidas que justifique a demanda por flexibilidade nos sistemas.
A adoção de um sistema colaborativo, por sua vez, está fortemente atrelada à motivação de uso. Seja a adoção espontânea ou imposta, esta muitas vezes se mostra desafiadora, pois é preciso entendê-la como um processo mutável com o decorrer do tempo. O oitavo desafio para CSCW trazido por Grudin e Poltrock (2013), “Projetar com um processo de adoção em mente”, propõe que os(as) projetistas devem considerar o que será necessário para promover uma adoção bem- sucedida desde o início do desenvolvimento. Com o passar do tempo, o indivíduo, sua relação com o sistema, o contexto e outros fatores envolvidos assumem novas configurações, e a interação por consequência se modifica. Neste sentido, é um desafio para os sistemas colaborativos apoiar a alteração da interação, fornecendo recursos para atender indivíduos e grupos em seus diferentes níveis de experiência. Este pode ser um fator que motive o desenvolvimento de sistemas que propiciem tailoring. Segundo Slagter, Biemans e Hofte (2001) as tarefas colaborativas se alteram, e enquanto não é possível prever quais mudanças técnicas serão necessárias no futuro, é possível propiciar às pessoas os meios para fazer estas alterações. Uma das formas de propiciar condições para que as pessoas façam por conta própria as alterações necessárias em um sistema colaborativo, é por meio do tailoring. Seja por meio de customização, integração ou extensão conforme as divisões propostas por Mørch (1997). Por exemplo, considerando o caráter mutável do uso, entende-se que, com o passar do tempo, a interação entre usuário(a) e sistema permite que novas configurações sejam descobertas ou requeridas. O tailoring adaptável seria, portanto, uma opção para executar estas novas configurações.
Wendy Mackay (1991), relata que o tailoring adaptável possui forte caráter social. A autora relata que em sua pesquisa todos os(as) usuários(as) emprestaram alguns ou todos os seus arquivos de tailoring de outras pessoas na organização. A autora comenta que esta também é uma maneira de reduzir erros, porque como alguém já investiu tempo para fazer uma atividade de tailoring funcionar, as chances de dar errado quando compartilhada são menores. Mona Haraty, Joanna McGrenere e Andrea Bunt (2017) em seu estudo sobre compartilhamento de atividades de tailoring on-line, comentam que há um perfil de usuário(a) que são “compartilhadores”. Estas são pessoas que criam e ajudam os(as) usuários(as) interessados(as) a usar suas atividades de tailoring. Algumas destas pessoas também relataram criar atividades de tailoring específicas mediante solicitação. Como resultado, o compartilhamento de atividades de tailoring online geralmente tem um papel mais complexo e multifacetado do que aqueles identificados em estudos anteriores de compartilhamento dentro de organizações, por exemplo.12
12O termo original empregado pelas autoras Mackay (1991) e Haraty, McGrenere e Bunt (2017) é customização,
O tailoring adaptável tem se mostrado como um recurso relevante no desenvolvimento e no uso de sistemas colaborativos. Greenberg (1991), em seu estudo sobre sistemas colaborativos que contém funcionalidades de tailoring13 afirma que um pré-requisito para um sistema colabo- rativo de sucesso é que este deve ser aceitável pela maioria ou por todos os membros do grupo. Neste sentido o autor argumenta que estes sistemas podem ser adaptados para corresponder às necessidades específicas dos(as) participantes do grupo (ou seja, cada membro do grupo pode observar um comportamento diferente) e as necessidades particulares do grupo como um todo (ou seja, cada grupo pode observar um comportamento coletivo diferente). Após um estudo de caso, o autor defende que sistemas colaborativos que propiciam tailoring podem levar a uma maior aceitação do produto, oferecendo um sistema que atenda às necessidades individuais dos participantes e dos grupos. Porém, cabe aqui fazer uma ressalva pois o tailoring adaptável não pode se resumir à implementação de ferramentas ou funcionalidades que atendam às necessi- dades correntes das pessoas. Mais do que isso, é preciso oferecer meios para que as pessoas criem coisas novas, ressignifiquem, e por consequência se apropriem. Conforme Spinuzzi (2003) comenta, o ideal é que o sistema seja um núcleo oficialmente projetado que forneça espaços para as contribuições das pessoas. O objetivo não é “resgatá-las” com um sistema melhor projetado, mas fornecer uma base para que elas também construam.
Entretanto, ao mesmo tempo em que é um recurso que apresenta suas vantagens, o tailoring adaptável também traz adversidades para os grupos e para os sistemas colaborativos. No contexto de uso dos grupos, atividades de tailoring adaptável que tenham efeito no sistema como um todo, pode contradizer algumas preferências individuais de certos membros. Além disso, a possibilidade de aumentar o controle sobre outras pessoas (por exemplo, em sistemas de gerenciamento de tarefas) pode ser um aspecto desvantajoso dependendo do ponto de vista. No contexto de desenvolvimento de sistemas colaborativos que permitam tailoring, aspectos como maior tempo para desenvolvimento, maior demanda de investimentos em um estágio inicial e a propensão a erros se mostram como obstáculos. Fernandez (2005) menciona a dificuldade de entender e dar suporte para que as necessidades dos membros, desde o momento em que encontram falhas no trabalho até o momento que tenham implementado as mudanças que julgarem necessárias. Pipek (2005) comenta que, muitas vezes é necessário, no cenário de tailoring, preparar uma tecnologia para trabalhar em conjunto com outras. Isso traz uma série de desafios para o desenvolvimento, que pressupõem um background tecnológico compartilhado, protocolos padronizados, configurações de hardware em comum além de outras padronizações que devem ser compartilhadas. Já no contexto de uso, as funcionalidades de tailoring adaptável podem exigir aprendizado por parte do(a) usuário(a) e atrapalhar a privacidade (GULLÀ et al., 2015).
13O termo original utilizado pelo autor é “Personalizable groupware”, entretanto, a definição de personalizável