A casa representa o universo do ser, é o lugar ideal do aconchego, da contemplação, da intimidade, da plenitude; é dela que parte a energia que nos revigora após uma grande etapa de trabalho. O mundo é a casa maior que aconchega todas as coisas. A poética do autor nos afasta do sentido familiar do vocábulo casa, e, ao nos distanciar permite um olhar mais pleno, mais profundo. Percepção que a existência temporal, linear, da forma como foi construída ao longo de décadas, nos nega. Ao trazer novas possibilidades de releitura, o poeta nos coloca à deriva, já que transcende o sentido comum da linguagem. Essa possibilidade permite visualizar a identidade entre a vida e a arte. Além disso, essa união fortalece o sentido identitário do ser humano, pois a visão homogeneizadora, ao particularizar, o torna egoísta e incapaz, de se preocupar com o outro.
O pantanal, na sua dinamicidade, oferece permissão a Manoel de Barros para habitá-lo e mostrar a pulsação do cosmo. Por meio dele, o poeta expande a parede de sua casa individual e mostra a circularidade infinita das coisas do mundo, onde não se é possível dissociar pantanal/mundo. Essa casa/espaço, vista sob a ótica da
sensibilidade, derruba o arquétipo da casa comum, fazendo surgir um mundo/casa novo, que abriga todas as coisas.
Segundo Bachelard (2005), a casa, mesmo não mais habitável, não fica circunscrita no passado, pois a força criadora da memória permite que o ser humano a revisite, trazendo-a para o presente, ao sabor da novidade. A fenomenologia da imaginação exige que façamos esta transposição, pois a imagem nova nos permite visualizar também um mundo novo. Essa imagem dinâmica da casa integra os elementos da natureza e fornece possibilidades para ultrapassar os limites da parede.
Pois:
Abordando as imagens da casa com cuidado de não romper a solidariedade entre a memória e a imaginação, podemos esperar transmitir toda a elasticidade psicológica de uma imagem que nos comove em graus de profundidade insuspeitados. Pelos poemas, talvez mais que pelas lembranças, chegamos ao fundo poético do espaço da casa (BACHELARD, 2005, p, 26).
A imagem da casa, em Manoel de Barros, flui por meio de sensações. É uma casa universal, que abriga todos os seres que compõem o cosmo, num processo onde as diferenças ampliam as semelhanças e os conflitos geram sementes para se pensar que um mundo sonhado é possível, pois, “quando um sonhador reconstrói o mundo a partir de um objeto que ele encanta com seus cuidados, convencemo-nos de que tudo é germe na vida de um poeta” (BACHELARD, 2005, p. 82). Na poesia de Barros o conhecimento do mundo está inscrito na leitura do próprio mundo, nas suas vivências e devaneios, com conhecimentos que partem do eu poético, mas que, na singularidade, primam pelo coletivo.
O autor mutila a realidade e cria novas possibilidades de leituras para as coisas banais do cotidiano. Com expressões recriadas, reinventa a natureza e permite perceber que sua dor está aberta à dor universal. A força da palavra se imprime na retomada das emoções e sentimentos que permeiam o mundo sonhado pelo poeta, onde as imagens apresentam características emergentes, por meio da polissemia que envolve sua produção. O poeta brinca com os deslimites do pantanal, revisita as coisas e os seres que fizeram e fazem parte de sua casa: os passarinhos, os ventos, os vermes, entre outros. E, nesse aspecto, declara Bachelard (2005, p. 67) que:
A imagem dessas casas que integram o vento, que aspiram a uma leveza aérea, que abrigam na árvore de seu inverossímil crescimento um ninho prestes a voar, tal imagem pode ser rejeitada por um espírito positivo,
realista. Mas, para uma tese geral sobre a imaginação, ela é valiosa porque tocada, sem que provavelmente o poeta o saiba, pelo apelo dos contrários que dinamizam os arquétipos.
A temática do pantanal, abordada por Barros, perpassa a região de mato grosso e se universaliza, ao suscitar a subjetividade do sujeito: “uma casa tão dinâmica permite ao poeta habitar o universo. Ou, noutras palavras, o universo vem habitar a sua casa” (BACHELARD, 2005, p. 67). A sua poesia, tal qual o pantanal, fica repleta de novas possibilidades de interpretações. Neste sentido, a fenomenologia, ao abordar a poesia como objeto de estudo, não se preocupa em analisar a natureza humana, mas busca compreender aquilo que a transcende, a exemplo dos fenômenos que estão intricados no fazer poético, como: as imagens, as expressões e impressões decorrentes da imaginação do artista. São projeções criadas pela sensibilidade de um ser humano que percebe na concretude de uma parede, a mágica que ultrapassa as barreiras e é capaz de enxergar as asas livres da imaginação, onde “a casa participa de todo um devir. Ela é vida, ‘vida não orgânica das coisas” (DELEUZE E GUATTARI, 2007, p.233).
A fenomenologia do imaginário “estuda o fenômeno da imagem poética no momento em que ela emerge na consciência como um produto direto do coração, da alma, do ser do homem tomado na sua atualidade” (BACHELARD, 1998, p. 341).
Portanto, as novidades que imprimimos às coisas dependem da elasticidade que atribuímos aos nossos devaneios. O cuidado com a casa implica no olhar e cuidado que devemos lançar sobre o cosmo. No entanto, a busca incessante pela funcionalidade tecnicista das coisas, ou pela explicação, nos impede, muitas vezes, de percebermos as aberturas que se inscrevem nos textos poéticos e, assim, perdemos a oportunidade de aceitar o convite provocador da linguagem metafórica da poesia, para com o cuidado com a casa. O poeta incita-nos a partir da metáfora da casa a expandir as paredes que nos impedem de
transver o mundo
. Ele nos instiga a aceitar e compreender o devaneio do repouso, pois:A casa é, a primeira vista, um objeto rigidamente geométrico. Somos tentados a analisá-la racionalmente. […] Mas a transposição para o humano ocorre de imediato, assim que encaramos a casa como um espaço de conforto e intimidade. Como um espaço que deve condensar e defender a intimidade.
[...] Mas o complexo realidade-sonho nunca é definitivamente resolvido.
Mesmo quando começa a viver humanamente, a casa não perde toda a sua objetividade. É preciso analisar melhor como se apresentam, na geometria do
sonho, as casas do passado, as casas onde vamos reencontrar, em nossos devaneios, a intimidade do passado (BACHELARD, 2005, p.63-64).
Barros, ao relatar sua conexão cósmica com o passado, nos mostra na primitividade do refúgio, na busca pelo desconhecido, o seu eu mais profundo. A viagem, no entremeio de sua produção, nos possibilita caminhar por entre os seus devaneios, onde as imagens, muitas vezes, não foram vividas, mas criadas pelo artesão da palavra, que admite viver o não-vivido e se abre às novidades que a linguagem propicia. Estas imagens são articuladas no contexto da casa/pantanal e se abrem ao cosmo, pela via dupla de sua poesia.
Segundo Deleuze e Guattari (2007) “a arte começa, não com a carne, mas com a casa; é por isso que a arquitetura é a primeira das artes” e, portanto, “se a natureza é como a arte, é porque ela conjuga de todas as maneiras esses dois elementos: a casa e o universo”, nos permitindo viver os nossos devaneios em busca de um mundo ideal, onde seja possível nos desnudar ou fortalecer os conhecimentos que temos das coisas, compreendendo, conjuntamente, que o meio ambiente está intrínseco em nós, que é preciso percebermos o encontro entre as coisas ínfimas (figura 11) para que a vida se torne mais plena e bela.
4 – Conforme sua poética há possibilidades de um perceber o mundo para além da ordem funcional que lhe impõe o capitalismo. O que essa maneira de enxergar o mundo permite vislumbrar?
Figura 1 Figura 1 Figura 1
Figura 11111: : : o encontro : Elizabete Oliveira 2009