3.4 A PERFORMANCE DOS SAMBAS DE UMBIGADA
3.4.4 TAMBOR DE CRIOULA
“Chega pra roda mulher, chega pra roda mulher, coreiro tá lhe chamando, chega pra roda mulher...”
O Tambor é dançado em roda, composta pelos coreiros (tocadores de tambor) e por coreiras (as mulheres que dançam). A dança é executada somente pelas mulheres, que evoluem individualmente na roda. Embora há notícia de que a manifestação era a princípio dançada por homens. Ainda hoje, é possível ver os homens brincarem de pernada (ao invés da umbigada) fora da roda, enquanto acontece o tambor.
49 O tambor de crioula foi observado nas festas do Morro do Querosene e em festas particulares
O tambor de crioula é uma manifestação afro-brasileira que acontece na maioria dos municípios do Maranhão, envolvendo uma dança circular feminina, canto e percussão de tambores. Dela participam as coreiras ou dançadeiras, conduzidas pelo ritmo intenso dos tambores e pelo influxo das toadas evocadas por tocadores e cantadores, culminando na punga ou umbigada – gesto característico, entendido como saudação e convite. O tambor de crioula inclui-se entre as expressões do que se convencionou chamar de samba, derivadas originariamente do batuque, como o jongo no Sudeste, o samba de roda do Recôncavo Baiano, o coco no Nordeste e algumas modalidades do samba carioca. Além da sua origem comum, constatam-se traços convergentes na polirritmia dos tambores, no ritmo sincopado, nos principais movimentos coreográficos e na umbigada. Praticado livremente, seja como divertimento seja como devoção a São Benedito, o tambor de crioula não tem local definido ou época fixa de apresentação embora se observe uma maior ocorrência durante o Carnaval e nas manifestações de bumba-meu-boi. Trata-se de um referencial de identidade e resistência cultural dos negros maranhenses, que compartilham um passado comum. Os elementos rituais do tambor permanecem vivos e presentes, propiciando o exercício dos vínculos de pertencimento e a reiteração de valores culturais afro-brasileiros.
Assim como no batuque, jongo e samba de roda, em geral cabe aos homens função de tocar e puxar as músicas para que o coro responda, o qual é composto pelas mulheres que estão na roda e outros observadores. Não obstante, no tambor de crioula, parece que existe uma maior restrição ao acesso das mulheres aos tambores.
O ritmo é marcado pela parelha, três tambores que recebem o nome de: tambor grande, meião e crivador. Também como no batuque paulista as matracas fazem o acompanhamento - dois pedaços de madeira, tocadas na parte posterior do tambor grande. As palmas eventualmente também acompanham. O conjunto de tambores muitas vezes recebe um nome, outorgado em uma cerimônia de batismo.
O meião inicia os toques com seu ritmo marcado. Seguido do som agudo ou “repicado” do crivador. Por último, o tambor grande se apresenta “rufando” a liberdade e o improviso.
A dança executada pelas mulheres é caracterizada pela punga, umbigada dada em outra mulher e, também, marcação de passo realizada junto com a marcação rítmica do tambor grande, realizada em frente ao mesmo. A dança é marcada por uma sutil sensualidade expressa principalmente na movimentação com o quadril. A saia, adorno fundamental para performance, faz parte da dança, na qual giros e movimento de quadril são valorizados.
A coreira entra no meio da roda e dança para os tambores (com especial importância ao tambor grande), sem deixar de “correr a roda”, considerando a presença dos demais participantes do evento. A passagem de uma coreira para outra é feita através da punga ou umbigada, um gesto de prolação do abdômen.
A punga é o seguinte: quando o tambozeiro bate a punga, a mulher tem que marcar certo com ele. Isso quando ela é dançadeira que sabe dançar... Porque, minha filha, a punga é uma das coisas mais linda que tem dentro desta dança de tambor. Uma punga bem dada não é qualquer mulher que sabe dá... é assim: a mulher ne aqui na roda dançando e ele ne lá no tambor grande, aí ele marca de lá e ela marca daqui, aí ela punga a outra companheira certo com a batida do tambor. Essa mulher que dá a punga sai da roda e a outra entra.
(Dona Áurea apud FERRETTI, 1981, pág.8).
Como no jongo e no batuque os tambores são afinados no fogo. Sendo que ascender a fogueira e “esquentar” (quentar) os tambores são os dois ritos inicias para se começar o tambor. No tambor, como jongo a fogueira em geral (sempre que possível) é acessa ao lado do local onde haverá a roda.
Um dos principais pesquisadores do tambor de crioula, Sergio Figueiredo Ferretti (1981) chama atenção para ancestralidade africana que se manifesta no tambor, que ele identifica na corporeidade, no uso rústico dos tambores e também na punga.
“Eu vou falando mal, eu vou falando mal, tambor que não tem cachaça eu vou falando mal”
Se o assunto é esquentar, a cachaça no tambor de crioula é imprescindível, assim como também o é em todas os outras sambas de umbigada citados.
O tambor de crioula está intimamente ligado a crença em São Benedito, como padroeiro dos negros. O Santo italiano de descendência etíope é referenciado na manifestação nas letras de músicas, em ladainhas que precedem a dança, em altares e na própria dança, onde as mulheres dançam com o santo na cabeça ou encostado na barriga. A relação entre entidades religiosas e o tambor de crioula e explicada por Renata dos Reis Cordeiro no dossiê sobre tambor do IPHAN (2006, p. 32)
A ligação feita entre tambor de crioula, santos e entidades foi mencionada em todos os grupos. Alguns afirmam que a prática do tambor só se justifica se em louvou a São Benedito, ou outro santo festejado. Outros consideravam que o tambor é um festa, uma diversão, logo a presença do santo só é necessária quando se está pagando promessa. Para alguns apenas santos católicos. Já outros reverenciam santos, entidades de culto afro, sobretudo do tambor de mina.
A tradição do tambor de crioula foi introduzida em São Paulo pela comunidade maranhense que se instalou no Morro do Querosene e pelo Grupo Cupuaçu que realizam o tambor nas festas de Bumba meu Boi. Por essa via o tambor se popularizou e hoje é realizado por outros grupos e em festas particulares.
Conforme aparece na introdução do dossiê sobre tambor de crioula do IPHAN (2006, p. 15)
[...] não é difícil perceber sugestiva referências e conotações sensuais nas disposições de seus elementos cênicos. De um lado, o tambor grande é fixado em riste entre as pernas do tocador, aludindo à virilidade e fecundidade masculino. De outro, o insinuante bailado das coreiras, o requebro diante da parelha de tambores e o movimento sugestivo da punga – gesto ancestral que remota à fecundidade e ao universo feminino. Revelam que esta dimensão consiste num aspecto fundamental da linguagem da brincadeira.
Novamente, assim como no batuque e também no samba de roda, de forma mais explícita, o pulsar das polaridades masculino e feminino da roda funciona como uma motivação. No entanto, é curioso como essa força da paidia se confronta com o
ludus de forma diferente do que no samba de roda, muito embora a estrutura das duas
rodas seja muito parecida. No tambor de crioula, embora a coreira possa ser totalmente tomada pelo “trânsito” da encruzilhada ela tem o compromisso de pungar, isto é, realizar o passo da dança e também a umbigada junto com a marcação do tambor grande. O que solicita por parte da coreira certo grau de atenção. A punga no tambor de crioula é um objetivo claro que não pode ser negligenciado como acontece com mais freqüência em relação ao passo do samba de roda. A dança do tambor de crioula é mais complexa tecnicamente.