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4 Análise dos dados

4.2.2 Tarefa Completion Expert

Relembrando o que foi referido anteriormente, a diferença entre a tarefa Completion

Expert e a tarefa Completion Naïve consiste no facto de as mesmas frases usadas como

estímulo experimental terem sido produzidas por um falante expert; ou seja, por um falante treinado consciente da ambiguidade, que se espera ser mais eficaz na resolução prosódica da ambiguidade nas suas produções. O procedimento de análise estatística segue os mesmos passos da análise dos dados da tarefa Completion Naïve. Relembra-se que os sujeitos que realizaram a tarefa Completion Expert são diferentes dos sujeitos que realizaram a tarefa Completion Naïve.

Reportamos em seguida os resultados da ANOVA por sujeito. Testando o cumprimento do princípio da Esfericidade, o p valor suporta a assumpção de Esfericidade para a variável condição prosódica (χ2 (14) = 18.12, p>.05), e para a variável nível de fronteira prosódica (χ2 (14) = .000 , p>.05), mas indica a violação da Esfericidade para a interacção entre as variáveis condição prosódica e nível de fronteira prosódica (χ2 (14) = 35.05, p < .01), como se verifica na tabela 5. Assim sendo, para a interacção entre as variáveis condição prosódica e nível de fronteira prosódica, será reportado o valor

46 apresentado no teste Greenhouse-Geisser, cujo valor resulta da correcção dos graus de liberdade ( = .49).

Registam-se efeitos significativos dos factores principais (condição prosódica e nível de fronteira prosódica), bem como da sua interacção: condição prosódica, F(5, 55) = 9.70, p <. 001; nível de fronteira prosódica, F(1, 11) = 76.33, p <. 001; interacção entre as duas variáveis, F(2.44, 26.87) = 6.54, p < .01. Tal como nos resultados obtidos para o falante

naïve, também aqui ser verifica que nem todas as variáveis se comportam da mesma forma.

Quanto ao nível de fronteira prosódica, os resultados indicam que os sujeitos respondem de diferente forma a cada nível, como desejado (médias: nível fronteira baixa, .178; nível fronteira alta, .558, dif. .381). Os resultados da interacção indicam a existência de diferenças de comportamento nas respostas dadas para os dois níveis entre as várias condições. Assim sendo, também aqui se observa que nem todas as condições são alvo de desambiguação.

A figura 8 mostra a distribuição das respostas dos sujeitos por condição prosódica e nível de fronteira. A observação da figura revela diferenças entre as resposta para as condições 1 e 2 e condições 3, 4 ,5 e 6 e verifica-se que o tipo de fronteira prosódica tem um efeito diferente dependendo do tipo de condição prosódica. Para a produção falante

expert, obteve-se desambiguação para todas as condições prosódica, excepto para as

condições ao nível da palavra (Sem Fronteira/PWG e PW/PWG). As médias das respostas por condição e nível de fronteira prosódicas são observáveis na figura 9.

47 Olhando aos valores da condição 1, nota-se que apesar de a direccionalidade das respostas ser para a fronteira mais baixa nos dois níveis, os sujeitos respondem diferentemente para os dois níveis (fronteira mais alta menos baixa do que fronteira baixa), comportamento diferente daquele registado nos dados para o falante naïve (ver figura 6).

Os testes post-hoc de contrastes entre as condições adjacentes distinguem entre as condições 2 e 3 (p= .006) e entre as condições 4 e 5 (p= .002). Os contrastes revelaram também interacções significativas quando comparadas as fronteiras altas com as fronteiras baixas em todas as condições prosódicas, com excepção das duas últimas condições, que envolvem a fronteira de IP. Isto sugere alguma variabilidade adicional nas respostas para as fronteiras altas e baixas nestas últimas condições, que merece análise detalhada (ver secção 4.2.3)

Estes resultados são em tudo idênticos aos obtidos para a tarefa Completion Naïve, com duas diferenças. A direccionalidade das respostas para os níveis de fronteiras prosódicas dentro de cada condição vai no sentido esperado em ambos os casos (fronteira mais baixa mais próximo de 0 e fronteira mais alta mais próximo 1 – p < .001), mas a diferença nas médias das respostas para as duas fronteiras é reveladora dos efeitos do falante expert sobre os resultados (diferença média de .381 na tarefa Completion Expert

versus diferença média de .248 na Completion Naïve). Por outras palavras, nos dados do

falante expert, as produções com fronteira baixa são globalmente percebidas como mais próximas de 0 e as produções com fronteira alta são globalmente percebidas como mais próximas de 1 (diferença visível nas figuras 8 e 9). Para além desta diferença, apenas no caso do falante expert o contraste entre fronteira alta e baixa na condição 4 (PWG/PhP) é significativo.

Figura 8: ANOVA por sujeito - tarefa Completion Expert.

Respostas sujeitos em cada condição prosódica por nível de fronteira prosódica.

Figura 9: ANOVA por sujeito - tarefa Completion Expert.

48 Consideremos agora os resultados da ANOVA por item. O teste de Mauchly apresenta o resultado máximo do p valor (p=1), cumprindo-se o princípio da Esfericidade (tabela 6).

Registam-se efeitos significativos do factor do nível de fronteira prosódica, F(1, 40) = 52.45, p < .001, assim como da interacção entre a variável nível de fronteira prosódica*condição prosódica, F(5, 40) = 2.88, p < .05. Quanto ao efeito da condição prosódica sobre as respostas, os resultados do factor entre sujeitos (efeitos between

subjects) mostram que não há um efeito significativo desta variável (p = .094). Como já

verificado nos dados para o falante naïve, os resultados para o falante expert indicam que as respostas foram diferentes em função do nível de fronteira prosódica, na direccionalidade esperada (média: fronteira baixa, .164; fronteira alta, .538; dif. .374). Os dados da interacção nível de fronteira prosódica*condição prosódica revelam diferenças no comportamento dos sujeitos para os dois níveis, dependendo da condição prosódica em teste. Mais uma vez, nem todas as fronteiras são alvo de desambiguação, o que valida os resultados obtidos na análise por sujeito.

Os resultados da análise post hoc das comparações emparelhadas entre cada condição e as restantes mostram que as respostas dos sujeitos não são significativamente diferentes (p > .05), independentemente do nível, o que é indicador do efeito de item sobre a variável condição prosódica; i.e., há itens que apresentam padrões de resposta diferentes.

De forma a averiguar a existência de eventuais efeitos de frequência nas respostas dadas pelos participantes, realizámos um levantamento dos dados de frequência dos elementos alvo de ambiguidade (ver Anexo 3). A partir dos valores de frequência obtidos, esperavamos que quanto mais frequente fosse uma das duas formas o elemento-alvo ambíguo, mais rapidamente seria activado e seleccionado na resposta (ver Pulvermüller, 2007). Concluiu-se que os dados de frequência não justificam o efeito de item sobre os resultados, uma vez que os valores de frequência de alguns itens vão contra as previsões dos resultados das tarefas. Ou seja, em pares em que um dos itens regista um valor de frequência mais alto, a tendência de respostas dos sujeitos vão no sentido do item menos frequente.

Em suma, os resultados da tarefa Completion com produção do falante expert mostram a existência de efeitos do nível de fronteira prosódica e da sua interacção com a

49 variável condição prosódica. Diferentemente dos resultados para o falante naïve, os resultados da variável condição prosódica também foram significativos para o contraste entre PWG e PhP (condição 4), para além dos contrastes PW/PhP (condição 3), PWG/IP (condição 5) e PhP/IP (condição 6). Apesar das diferenças observáveis na figura 8, comparativamente aos resultados da tarefa Completion Expert, os valores obtidos para as condições 1 (Sem fronteira/PWG) e 2 (PW/PWG) foram igualmente não significativos, indicando a não desambiguação ao nível das fronteira de palavra.