CAPÍTULO 2 O PARTIDO DOS TRABALHADORES E A REALIDADE BRASILEIRA
2.3 Um Partido construído pelas bases: A especificidade do Programa do Partido e dos Estatutos
2.3.1. Tarefas práticas do partido
Quando falamos das reivindicações práticas do partido citadas por Lênin e chamadas de Plano de Ação pelo PT nos deparamos com uma situação peculiar.
Apesar de ser caracterizado como plano de ação, ela contém reivindicações gerais, sem definição prática, acerca de como atingir esses objetivos. No item III, que corresponde às reivindicações quanto à política salarial, encontramos a reivindicação por “negociações diretas entre trabalhadores e patrões”251 Essa reivindicação vem ao encontro das necessidades do Capital e não dos trabalhadores, ou seja, negociações sem a intermediação dos sindicatos, o que se constitui um contra-senso, visto estar o tempo todo presente nas fileiras do partido uma luta de cariz sindical, além do fato de o partido ter nascido de bases sindicais.
Acreditamos, contudo, que o Plano de Ação contém um erro de redação e que a questão defendida neste item era uma tentativa de romper com as negociações salariais com a interferência do Ministério do Trabalho, na busca de romper com os chamados sindicatos “pelegos”. No entanto, a ausência de clareza pode produzir grandes “estragos” na consciência de classe, porquanto se permite uma interpretação ao sabor do leitor.
Outra situação que chama a atenção, no item III do presente plano de ação, é o discurso de que o partido irá lutar pela “garantia no emprego”. Partindo da idéia defendida em seus documentos de fundação – apesar de demonstrações contrárias nesses mesmos documentos – da independência dos sindicatos em relação ao partido, percebemos mais uma vez seu pragmatismo e seu perfil sindical. Caberia ao partido, enquanto mediador do movimento, esclarecer às massas que um dos pontos principais da lógica capitalista é a intensificação da concorrência entre os trabalhadores252.
Para um partido classista que possua um real projeto socialista, a defesa deveria ser pelo fim do emprego ou melhor dizendo, pelo fim do trabalho assalariado, fonte da exploração de classe. Dessa forma, o partido acaba negando o esclarecimento necessário à classe trabalhadora.
Como tarefa prática poderia lutar para minimizar o quadro de desemprego, sem contudo lograr extinguir essa situação, enquanto relação de expropriação da força de trabalho. Encontramos ainda nesse item a ação “contra o desemprego”. É preciso ficar claro, o que não acontece no programa do partido, se esse “contra o desemprego” se refere à totalidade da
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Partido dos Trabalhadores, Resoluções de Encontros e Congressos., op.Cit., p.72
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classe explorada, porque, se assim for, como já exposto acima, mais uma vez nos deparamos com uma situação impossível dentro da ordem capitalista, posto que contraria a sua própria lógica. Como será possível a relação do capital com a força de trabalho, enquanto uma mercadoria que se vende como qualquer outra, se não houver mercado concorrencial e portanto desemprego?
Tendo em seu nascimento, como um dos elementos fundantes, os movimentos sociais, o PT tenta contempla-los com ações práticas. O Plano de Ação incita ao apoio aos movimentos dos direitos das mulheres, negros e índios, mas trabalha a questão de uma perspectiva de gênero, não inserindo essas minorias como parte da complexa lógica da luta de classes. Ao não fazer esse esclarecimento, isola-se a questão da perseguição às minorias como uma parte do processo de expropriação capitalista, tirando o foco da luta de classes.
Mesmo sabendo que o Estatuto buscava ater-se à Legislação Eleitoral na busca da legalidade do partido, quando seu artigo 4º estipula que será admitido nas fileiras do partido todo eleitor que se comprometa com o seu Programa e Estatuto, o Estatuto está colocando um peso ainda maior na elaboração dos dois. Com o caráter de Partido de Classe indefinido nos documentos em questão, abrem-se as portas a todo interessado, que queira militar nas fileiras do partido, correndo-se o risco de uma descaracterização do partido.
É interessante observar o § 1º do Art. 10º que fala explicitamente que “o filiado, segundo seu juízo político, poderá deixar de executar tarefas ou atividades políticas, determinadas pelo partido, que entrem em conflito com a deliberação do órgão de classe ao
qual pertence”253 . Se o partido é o partido da classe trabalhadora e tem clareza disso, se possui em suas fileiras filiados com interesses comuns à classe trabalhadora, como poderá determinar atividades que se choquem com o órgão de classe do filiado?
Essa questão, debatida em grande extensão, está diretamente ligada à crítica “ao conceito de partido dirigente”254. Gramsci, ao discutir a questão da subordinação ou não dos sindicatos ao partido, coloca uma questão que nos permite encaminhar a discussão do artigo em questão. Para Gramsci, cada membro do partido, não importa sua posição ou o cargo que ocupe, é sempre um membro do partido e subordinado à sua direção. Não existe subordinação de órgão de classe, o “órgão de classe”, que aceita um membro do partido está aceitando livremente as diretivas do partido. A situação objetiva do PT era inversa, ou seja, buscava-se trazer para o interior do partido a diversidade de organizações dos trabalhadores, contudo,
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Partido dos Trabalhadores, Resoluções de Encontros e Congressos., op.Cit., p.77. Grifo nosso
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como não tem clareza de seus pontos de vista, isso se torna um problema, a diversidade de organizações que se aliariam às fileiras do partido é que o transforma.