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PARTE II DAS TAXAS E DAS TARIFAS

2.7. Taxas e extrafiscalidade

A taxa, como tributo que é, possui, além de uma função de arrecadar e gerar receitas para os cofres públicos, uma função social secundária em face do Estado. Ora, as lições de BERNARDO RIBEIRO DE MORAES confirmam meridianamente a função extrafiscal e social das taxas:

O tributo serve: para modificar os costumes, discipliná-los, moderar o uso de certos produtos, combater o jogo e o álcool, regular direitos, etc. (...)

A taxa passa a ser um instrumento tributário ‘sui generis’ que, além de tributo específico, traz em si a idéia de realização de objetivos sociais e políticos do Estado. As taxas de polícia, para serem arrecadadas, exigem a ação do Estado, através da regulamentação e limitação dos direitos individuais.456

Há opiniões na doutrina que demonstram uma posição ainda mais contundente sobre o caráter extrafiscal da taxa do que a apresentada na presente pesquisa, como por exemplo, a de RUBENS MIRANDA DE CARVALHO: “ (...)

entendo que as taxas, por não serem tributos meramente arrecadatórios, ditos estes ‘fiscais’, mas sendo fundamentalmente interventivos, ou ‘extra-fiscais’, não se prestam à transferência de riqueza de uns para outros administrados”457.

455

“Assim, por exemplo, se a Administração resolve beneficiar determinado local com serviço de

água, não poderá exigir contribuição de melhoria. Embora deva realizar obras para o fornecimento, prepondera o serviço estas”. - RÉGIS FERNANDES DE OLIVEIRA, Taxas de ..., op. cit., p. 32 -.

456

Doutrina e prática ..., op. cit., p. 276.

457

A extrafiscalidade deve ser sempre utilizada com parcimônia a fim de que não desrespeite o princípio da capacidade contributiva, é o que leciona JOSÉ ROBERTO VIEIRA:

(...) no campo da extrafiscalidade, reside um grande perigo, que é o eventual desrespeito ao princípio da capacidade contributiva, decorrência, por sua vez, da igualdade tributária. Esse perigo é tão eminente que nós encontramos com facilidade, no século XX, figuras das mais respeitáveis do mundo jurídico tributário, que se manifestam por uma absoluta e radical oposição entre a tributação extrafiscal e a capacidade contributiva.458

E o jurista continua: “É evidente que, no caso da tributação extrafiscal,

trata-se de uma atividade instrumental para a realização de determinados objetivos constitucionais.”459 Logo, a utilização da extrafiscalidade deve estar amparada na Constituição Federal para evitar o desrespeito a direitos e garantias fundamentais.

No decorrer do trabalho, percebeu-se a evolução do Estado e da sociedade, o que acabou atingindo o sistema tributário. Para além disso, nas taxas de polícia, observou-se que elas vêm limitar ações a fim de preservar direitos e garantias fundamentais. Dentre a preservação de diversos direitos, pode-se colocar em pauta que os direitos ambientais vêm sendo cada vez mais disciplinados e regulados por meio das taxas de polícia. Essa função de extrafiscalidade, que apresenta como objetivo desestimular determinada conduta, é destacada por MARÇAL JUSTEN FILHO:

Em tais hipóteses, ditas de extrafiscalidade, haveria outras finalidades a orientar o regime tributário, que não o simples objetivo de arrecadação de recursos. O Estado, ao estabelecer uma carga tributária elevada, pode não estar desejando arrecadar recursos, mas evitar a prática de determinada conduta.460

As taxas ambientais não possuem uma função fiscal, mas extrafiscal, cujo intuito é a preservação de um ambiente sustentável. RICARDO LOBO TORRES explica o fundamento das taxas de polícia para o meio ambiente:

458

Tributos Federais ..., op.cit., p. 75.

459

Id, p. 76.

460

O poder de polícia se exerce, no caso, preventivamente, para evitar danos ambientais. É a contraprestação estatal de ‘prevenção’ que constitui o aspecto material do fato gerador, justificando a prestação tributária.461

Assim, as taxas vêm ao encontro dos objetivos delimitados pelo Direito Ambiental, como, por exemplo, o princípio da precaução, que, nas palavras de PAULO AFFONSO LEME MACHADO tem como objetivo “ (...) a durabilidade da

sadia qualidade de vida das gerações e à continuidade da natureza existente no planeta”462.

Frise-se que a extrafiscalidade das taxas não possui como objetivo permitir que atividades ilícitas, desde que tributadas, sejam permitidas, mas sim o de proteger o meio ambiente por meio de taxas preventivas, que nada mais são do que taxas de polícia voltadas para a sustentabilidade do meio ambiente.

O Direito Ambiental caminha no mesmo sentido do Direito Tributário, e basta observar um dos muitos princípios existentes, como o do usuário-pagador, para perceber que não há qualquer incentivo à prática de atividades ilícitas. Veja-se lição de PAULO AFFONSO LEME MACHADO:

O princípio usuário-pagador não é uma punição, pois mesmo não existindo qualquer ilicitude no comportamento do pagador ele pode ser implementado. Assim, para tornar obrigatório o pagamento pelo uso do recurso ou pela sua poluição não há necessidade de ser provado que o usuário e o poluidor estão cometendo faltas ou infrações. O órgão que pretenda receber o pagamento deve provar o efetivo uso do recurso ambiental ou a sua poluição. A existência de autorização administrativa para poluir, segundo normas de emissão regularmente fixadas, não isenta o poluidor de pagar pela poluição por ele efetuada.463

As taxas que apresentam o caráter extrafiscal, buscam preservar direitos e garantias fundamentais, fortalecendo o desenvolvimento da sociedade. A tributação deve caminhar no mesmo sentido dos direitos fundamentais, a fim de que possa desenvolver o Estado e estar em consonância com os objetivos da população. Não

461

A fiscalidade dos serviços públicos no estado da sociedade de risco, in HELENO TAVEIRA

TÔRRES (coord.), Serviços públicos ..., op. cit., p. 130.

462

Direito ambiental brasileiro, p.63.

463

se deve pensar, neste caso, em tributos como um mal, mas, ao contrário, como um benefício, como instrumentos que devem ser utilizados corretamente para implementar o desenvolvimento social.

Ao longo do presente trabalho, observou-se, claramente, que cada regime jurídico possui princípios próprios que possibilitam uma interpretação mais correta e, portanto, facilitam o trabalho do cientista do Direito.

Não é diferente no âmbito das tarifas. Evitando que o trabalho tome grande extensão, serão estudados, de modo breve, os princípios eleitos como os mais importantes, no que toca às tarifas.