Capitulo 2 Enquadramento teórico
2.2 Conceito de conhecimento
2.2.2 Taxonomias do conhecimento
As taxonomias do conhecimento, para além de permitirem uma simplificação pedagógica, informam da necessidade de suportes dos diferentes tipos de conhecimento e dos fluxos entre estes diferentes tipos. Na Tabela 2.3 estão indicados os diferentes tipos de conhecimento, que se caracteriza nos parágrafos seguintes.
Tabela 2.3 - Diferentes tipos do conhecimento
Tipos de conhecimento Definições Exemplos
Tácito
O conhecimento é enraizado nas acções, na experiência (num contexto específico)
As melhores formas de lidar com um cliente específico
Tácito cognitivo Modelos mentais Crenças individuais das relações de causa e efeito
Tácito técnico Saber fazer, aplicado a um
trabalho específico Tarefas cirúrgicas
Explícito Conhecimento articulado e
generalizado
Conhecimento sobre a maioria dos clientes numa região
Individual Criado e inerente ao indivíduo
Compreensão adquirida a partir de um projecto completo
Colectivo Criado e inerente a acções colectivas de um grupo
Normas para a comunicação inter grupo
Declarativo Saber sobre Qual o medicamento apropriado para uma determinada doença
Processual Saber como Como administrar um determinado medicamento
Causal Saber porquê Perceber a razão de prescrever um medicamento
Condicional Saber quando Perceber quando prescrever um medicamento
Relacional Saber com Perceber como um medicamento interage com outros
Pragmático Conhecimento útil para uma
organização
As melhores práticas, experiências em projectos, projectos de
engenharia e relatórios de mercados
Conhecimento tácito e explícito
Segundo Nonaka (1991) a conversão do conhecimento individual em recurso disponível para outras pessoas assume por vezes formas inesperadas. O autor descreve então, um caso elucidativo, de busca e compreensão do conhecimento tácito. Numa empresa, em Osaka, os especialistas em desenvolvimento de novos produtos, estavam com problemas para conseguir um equipamento doméstico que amassasse correctamente a farinha para fazer pão. Após muito trabalho de pesquisa, os técnicos não conseguiam obter bons resultados, chegando mesmo a comparar, por meio de raios x, a massa produzida pela sua máquina e por padeiros profissionais; Ikuko Tanaka, projectista de software, propôs então uma solução criativa: sabendo quem tinha a melhor reputação de fabrico do melhor pão, submeteu-se a treino no fabrico de pão pelo chefe-padeiro que o produzia. Tanaka observou este fabrico e durante um ano de tentativas com os engenheiros projectistas, conseguiu propor as especificações que puderam reproduzir com sucesso as técnicas de estiramento da massa, obtendo um pão de qualidade. O resultado foi um novo produto que atingiu recordes de vendas a nível de electrodomésticos.
A inovação de Tanaka ilustra a evolução entre dois tipos muito diferentes de conhecimento, o conhecimento tácito e o conhecimento explícito.
O ponto final do processo é o conhecimento explícito, ou seja, a especificação do produto. Este conhecimento é formal e sistemático, logo facilmente comunicado e compartilhado. Mas o ponto de partida foi o conhecimento tácito, o conhecimento do chefe-padeiro que era pessoal, de difícil formalização e cuja transferência era reduzida.
A distinção entre estes dois tipos de conhecimento sugere quatro tipos de padrões básicos de conversão de conhecimento, esquematizado na Figura 2.4 que será explicado, de modo simplificado, mais adiante.
Figura 2.4 - Modos de conversão do conhecimento (SECI)
Fonte: adaptado de Nonaka (1991)
A conversão de conhecimento tácito em tácito acontece quando certa pessoa compartilha conhecimentos tácitos directamente com outra pessoa. É assim, por exemplo, quando o aprendiz de padeiro aprende com o chefe-padeiro (aprende os segredos tácitos do padeiro - socialização).
A transformação do conhecimento explícito para explícito surge, por exemplo, quando recolhemos informação contabilística e elaboramos uma síntese dos dados. Não estamos a elaborar documentos que ampliem a base de conhecimento já existente, só estamos a sintetizar. Modificando o conhecimento explícito possibilita que ele se transfira mais facilmente para a equipa - combinação).
A conversão de conhecimento tácito em explícito ocorreu quando Tanaka foi capaz de expressar os fundamentos do seu conhecimento tácito sobre a fabricação do pão. Assim, converteu conhecimento tácito em explícito, o que permitiu à equipa de desenvolvimento do projecto compartilhar este conhecimento (articulação).
A conversão de conhecimento explícito em tácito observa-se à medida que um novo conhecimento explícito é compartilhado por toda a organização. Outros podem absorvê-lo
Socialização
Internalização
Articulação
Combinação
Tácito Tácito Explícito Explícito Explícito Tácito Tácito Explícitoe utilizá-lo para ampliar, estender e reformular os seus próprios conhecimentos tácitos (internalização).
O processo de conversão de conhecimento deve ser contínuo e combinado. Retomaremos este tema de modo mais profundo no ponto quatro do presente capítulo, pois ele assume grande importância na criação de conhecimento, tanto a nível individual como organizacional.
Outra perspectiva, para classificar o conhecimento, considera duas categorias: conhecimento individual e conhecimento colectivo. Conhecimento individual refere-se àquele que é criado e interiorizado pelo indivíduo; a sua existência limita-se ao indivíduo. Em contraponto o conhecimento colectivo é criado e próprio de acções colectivas.
O debate sobre conhecimento focalizado no indivíduo dos anos 1970-1980 evolui para o debate focalizado no conhecimento de grupo dos anos 1990-2000. Paralelamente, nesta fase, é dada ênfase ao conhecimento tácito e à interacção entre este e o conhecimento explícito. Contudo, existe controvérsia sobre a existência de conhecimento para além do indivíduo. Abordaremos este tema quando discutirmos se o conhecimento pode ou não ser gerido.
O conhecimento declarativo, ou o conhecimento sobre, refere-se à capacidade de reconhecer e classificar conceitos, coisas e estados do mundo. Exemplos deste tipo de conhecimento são as cartas dos géneros e espécies dos seres vivos, o esquema da classificação decimal ou a tabela periódica.
O conhecimento procedimental, ou o saber como, refere-se à apropriação sobre a sequência dos eventos num conjunto de acções. Isto pode incluir cerimónias e rituais bem como os procedimentos e rotinas quotidianos. Partilhar o conhecimento procedimental permite coordenar acções de modo eficiente nas organizações.
O conhecimento causal, ou o saber porquê, refere-se à compreensão sobre a razão da ocorrência de algo, como por exemplo a identificação dos factores que influenciam a
qualidade de um produto ou a satisfação de um cliente. Pode ser formalmente representado descrevendo as ligações causais ou, de modo menos formal, através de histórias organizacionais. A partilha destas histórias pode permitir à organização desenvolver consensos sobre as razões que sustentam as acções a serem tomadas para atingir objectivos semelhantes.
A compreensão das condicionantes de aplicação de determinada acção, para obter resultados específicos, pode constituir o denominado conhecimento condicional.
O conhecimento relacional refere-se à compreensão sobre as relações entre estes diversos tipos de conhecimento. Por exemplo, a aprendizagem e a inovação são muitas vezes resultado da criação ou da modificação de relações entre conceitos e ideias já existentes. Aplicado às organizações, o seu desempenho pode estar fortemente relacionado com o conhecimento de como os recursos e as competências internas estão relacionadas umas com as outras. O desenvolvimento de novos produtos e mercados é, muitas vezes, a recombinação de recursos existentes em vez da aquisição de novos (Grant, 1996 e Schumpeter, 1934).
Considera-se conhecimento pragmático o que é identificado como útil para a organização. Ao identificar as boas práticas, os processos, as experiências obtidas através da realização de projectos e mesmo a utilização das ferramentas é passível de inclusão nesta categoria.