No que se refere ao entendimento acerca dos processos de ensino-aprendizagem desenvolvidos na escola, é necessário relembrar que a base teórica da Teoria Histórico- Cultural de Vygotsky provê um conjunto de conceitos que expressam como os PEA’s compreendem a emergência e o transcorrer destes processos. Sinteticamente, é possível resumir a posição de Vygotsky da seguinte forma: a escola, como lócus de ensino e instrução das sociedades escolarizadas, desenvolve importante papel no desenvolvimento dos alunos, pois coloca constantemente estes sujeitos em processos de aprendizagem que abrem possibilidade para o estabelecimento da ZDP. A aprendizagem, assim encarada como desencadeadora dos processos de desenvolvimento, ocorre em um ambiente onde a interação social entre alunos e professores criam as condições para a cooperação, o diálogo e a autoria colaborativa de saberes. Nestes processos de aprendizagem escolar, os alunos internalizam os significados da cultura conferindo a estes um sentido próprio, conseguindo assim desenvolver cada vez mais seu pensamento conceitual, criando uma rede de conhecimentos que os habilitam a compreender o mundo e o ambiente cultural a sua volta.
Neste contexto, a apropriação das TDR’s em um ambiente educacional embasado nos pressupostos dos PEA encontra um ambiente profícuo para abertura de possibilidades para os processos de ensino-aprendizagem, visto que as suas características, advindas da hipermídia como linguagem para o estabelecimento de comunicações baseada na lógica reticular e hipertextual, provê meios para que processos de autoria colaborativa, de partilha de saberes e de criação de coletivos inteligentes no ciberespaço possam potencializar este ambiente educacional. Nestes termos, Lévy aponta que a “[...] direção mais promissora, que por sinal traduz a perspectiva da inteligência coletiva no domínio educativo, é a da aprendizagem
cooperativa”. (1999, p. 171, grifo do autor). Através do uso destas tecnologias, alunos e professores podem expandir as fronteiras dos processos de ensino-aprendizagem para além dos muros da escola, entrando em um espiral de interação com sujeitos espalhados pelo mundo. Estes processos de ensino-aprendizagem que se estabelecem tomando como infraestrutura e metáfora de compreensão à apropriação das TDR’s e das suas características vão ao encontro dos pressupostos de Vygotsky, visto que para este autor a aprendizagem é um processo eminentemente social, baseado na interação social estabelecida entre pessoas, na partilha de experiências, nos processos de colaboração e cooperação entre pares, onde se cria,
portanto, um ambiente propício a constituição de ZDP’s e dos processos de internalização da cultura.
A dimensão colaborativa da aprendizagem, baseada nos pressupostos de Vygotsky, coloca um papel importante para a apropriação das TDR’s no âmbito dos PEA’s, que tem, em sua gênese, o princípio de proporcionar processos de comunicação essencialmente cooperativos, interativos e reticulares. Nestes termos, a orientação dos PEA’s, baseada em Vygotsky no que se refere aos processos de ensino-aprendizagem, posiciona-se contra a lógica da distribuição unidirecional de informações que há séculos está enraizada nas práticas pedagógicas em sala de aula.
Portanto, o que se pretende em um ambiente educacional baseado nos PEA’s é que as TDR’s sejam apropriadas de forma crítica e reflexiva por alunos e professores, onde estas tecnologias possam ser utilizadas para o estabelecimento de processos de ensino- aprendizagem colaborativos, com base nas necessidades emanadas dos projetos. Assim, torna- se possível aos alunos colocar suas competências e conhecimentos em sinergia com as capacidades de seus colegas, professores e seres sociais espalhados pelo mundo, através da construção de coletivos inteligentes no ciberespaço, espaços de ensino-aprendizagem desterritorializados que têm como objetivo a apropriação coletiva de conhecimentos.
Outro ponto extremamente importante no entendimento de como as TDR’s podem potencializar os processos de ensino-aprendizagem nos PEA’s é a questão da necessidade inerente do aluno se tornar um nó ativo/participativo das redes sócio-técnicas que se articulam com base na apropriação destas tecnologias. A lógica das redes exige que cada nó da malha reticular, com base em processos essencialmente interativos, seja protagonista e atue no âmago das relações que se desencadeiam na rede, pois a atividade dos nós é pressuposto para a existência na, e da, rede. Nestes termos, a Teoria Histórico-Cultural de Vygotsky, ao tratar dos processos de apropriação da cultura coloca que, ao estabelecer um processo de internalização dos significados culturais por meio da interação social, o sujeito nunca age de maneira passiva, absorvendo estes significados sem operar sobre estes alguma transformação. Assim, a atividade transformadora do sujeito ao apropriar-se de um significado cultural e a ele imprimir um sentido próprio, com base em suas experiências, rede de conceitos prévios e modos de pensar, pressupõe um sujeito ativo que se insere em uma determinada rede de relações sociais e que, num processo dialético, transforma esta estrutura e por ela é também transformado. Os Projetos de Ensino-Aprendizagem entendem que os processos de ensino-aprendizagem pressupõem, inerentemente, uma lógica reticular baseada na atividade de cada nó da rede como sujeito protagonista das relações de conhecimento e
significação estabelecida nesta estrutura, e, neste contexto, as TDR’s podem ser um lócus para que estes processos ocorram.
Tomando como base estas colocações iniciais, o debate acerca dos pressupostos educacionais dos PEA’s que vão ao encontro do movimento contemporâneo das TDR’s pode embasar-se também nas proposições de Serpa (2004, p. 173), que elabora algumas reflexões acerca de uma pedagogia intrínseca às novas tecnologias. Alguns pontos a serem destacados deste processo reflexivo são:
Participação necessária - todo sujeito, para vivenciar o processo pedagógico, tem
de participar na rede, sendo impraticável um mero assistir. [...]
Processos coletivos necessários – sendo uma dinâmica de rede e necessitando da
participação de todos, a produção é necessariamente coletiva.
Cooperação como traço fundamental – para o sistema de rede funcionar, os
participantes necessariamente têm que colaborar.
É possível imbricar todos estes pontos levantados por Serpa com as concepções educacionais propostas pelos PEA’s, no que se refere aos processos de ensino-aprendizagem desta proposta de utilização de Projetos na Educação. Estes três traços da pedagogia
intrínseca às novas tecnologias – a participação necessária, os processos coletivos necessários e a cooperação como traço fundamental -, encontram na matriz teórica de Vygotsky um elo para a união dos PEA’s com as características genéticas que embasam as TDR’s: a lógica das redes, o hipertexto/hipermídia como linguagem que proporciona, em última instância, as bases para o estabelecimento de processos interativos de autoria colaborativa, de protagonismo criativo e crítico, de criação de coletivos inteligentes.
Algumas outras considerações podem ser levantadas tomando como base estes pontos e, neste contexto, um conceito importante a ser verificado para estabelecer uma ligação entre o entendimento dos processos de ensino-aprendizagem nos PEA’s e a apropriação das TDR’s para potencializar estes pressupostos é o de interatividade. Levando em conta as reflexões de Silva (2002) para a análise deste conceito através da descrição dos binômios da participação- intervenção, bidirecionalidade-hibridização e potencialidade-permutabilidade, afirma-se que os processos de ensino-aprendizagem desenvolvidos nos PEA’s buscam, na apropriação das TDR’s, uma potencialização da interatividade proporcionada em sala de aula. Para que isso se torne realidade, as TDR’s, que têm como base a linguagem hipermídia, essencialmente interativa e baseada na lógica hipertextual, necessitam ser apropriadas em processos de
ensino-aprendizagem que rompam com a lógica do falar/ditar monológico do professor, onde os alunos não são considerados como seres ativos na aprendizagem e na internalização da cultura, negando assim o pressuposto essencial para que a educação ocorra: o estabelecimento de processos colaborativos, de negociação e diálogo, de partilha de saberes.
Nestes termos, os PEA’s apropriando-se das TDR’s podem possibilitar processos educativos baseados na participação-intervenção de todos os envolvidos na rede de ensino- aprendizagem, tendo como premissa que atuar colaborativamente exige, invariavelmente, considerar a bidirecionalidade-hibridização das relações entre os envolvidos no ato educativo, tornando assim possível o surgimento de processos de ensino-aprendizagem potenciais- permutáveis.
Ao adentrar de modo mais incisivo nos aspectos dos processos de ensino- aprendizagem, pode-se afirmar que um ponto de reflexão importante neste contexto diz respeito às formas de estabelecimento da relação educativa entre professores, alunos e demais seres sociais atuantes no espaço escolar. Neste sentido, pretende-se demonstrar que, partindo dos pressupostos educacionais dos PEA’s, é possível realizar uma apropriação das características das TDR’s, tais como a lógica das redes e o hipertexto, para a efetivação das relações entre os sujeitos do processo educativo através de redes de ensino-aprendizagem.
Ainda, pretende-se propor um conjunto de reflexões sobre a necessidade de modificação dos papéis tradicionalmente impostos aos professores e alunos para a realização do processo de ensino-aprendizagem em um ambiente educacional pautado pelas ideias de intersecção entre PEA’s e TDR’s.
4.2 Relação professor-aluno nos PEA’s: criação de redes de ensino-aprendizagem e re-