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O Teatro como Ritual e o Ritual como Teatro

4.2 O RITO

4.2.1 O Teatro como Ritual e o Ritual como Teatro

Não nos interessa aqui uma leitura histórica e aprofundada sobre as transformações teórico- metodológicas trazidas pelos chamados antropólogos da pós-modernidade. É necessária uma exposição, pontual que seja, de como algumas categorias destas “escolas” auxiliam em nossas análises sobre a temática levantada por este trabalho monográfico. Ainda menos, não se pretende analisar a vastíssima história do teatro mundial, nem mesmo os seus aspectos considerados mais ocidentais. O que se busca aqui é se fazer uma demonstração de como o teatro traduz-se em elementos rituais e como os rituais se constroem em aspectos dramatúrgicos.

Vale ressaltar, também, o sentido aplicado aqui para o termo dramaturgia. Esta é compreendida, neste estudo, em seus aspectos mais amplos, que envolvem práticas, mitos, ações teatrais, indo além da exclusiva acepção que toma a dramaturgia como sendo o texto construído para ser encenado. Uma leitura assim desenvolvida permite-nos compreender as simetrias existentes entre rituais não artísticos e os que acontecem formalmente nos “teatros”; tanto nos rituais do cotidiano social dos indivíduos, como em outros elementos cênicos do teatro que não estão necessariamente vinculados a um texto literário a ser dramatizado.

A dramatização está presente nas relações sociais entre as pessoas de uma sociedade. Não é à toa que se nomeiam os indivíduos, do ponto de vista sócio-antropológico, de atores socais, levando célebres autores da sociologia, como Erving Goffman, da antropologia, como Victor Turner, da antropologia e do teatro, Eugenio Barba e Richard Schechner e da antropologia, Stanley Tambiah, a levantarem estudos baseando-se nas formas dialógicas entre os rituais de outros setores sociais e as suas semelhanças com os rituais ocorridos nas ambiências do espaço/palco também chamadas de teatro.

O mestre do interacionismo simbólico Erving Goffman (2003), em suas análises sobre representações e as relações que envolvem os indivíduos no cenário social, defendeu a tese de que o indivíduo age socialmente de modo a impressionar os outros, buscando fazer crer que atua à idéia (ou ideal) que o mesmo tem de si, e performatizando-se para outros dentro da esfera do que chamamos como meio social. Goffman utiliza uma linguagem emprestada do teatro, em que o eu interpreta para uma platéia (os outros), e procura se representar conforme

as situações cotidianas exigem. Sendo assim, segundo este sociólogo, “quando uma pessoa chega à presença de outras, existe, em geral, alguma razão que a leva a atuar de forma a transmitir a elas a impressão que lhe interessa transmitir” (Goffman, 2003, p.13-14).

Seguindo a concepção de representações do eu na vida cotidiana, surge em Goffman (2003) o conceito, aqui muito operacional, de ação teatral. As representações dos indivíduos em vida comunitária podem ser lidas como pequenos “espetáculos” cotidianos, marcados pela idéia de que tal como nos teatros, todo ator social atua, representa suas personagens segundo as injunções que o ambiente social determina.

Em Victor Turner a noção de ritos como processo, no qual os elementos simbólicos devem ser, segundo este autor, analisados pormenorizadamente, através de estudos que compreendam o fazer ritual dos povos em questão, nos trazem para idéia de dramatização dos rituais como um sistema vasto de símbolos multivocais e polissêmicos, guiados a resolução dos conflitos existentes no seio desta população. A assertiva de Turner identifica uma dramaturgia nos rituais, semelhante ao fazer teatral, que ele conceituou como drama social.

Entre os antropólogos mais contemporâneos, existe Richard Schechner (1985), norte- americano, diretor teatral, que fundou o Departamento de Estudos da Performance da Universidade de Nova York. Para ele tanto os rituais como as representações teatrais devem ser entendidas como performances. A performance é diagnosticada por este autor como algo mais profundo que a mera interpretação de textos, ela se faz integrativa, envolvendo atores, espectadores, autores, diretores, alterando-se dentro deste processo de integração que envolve, também, a crítica especializada sobre teatro e áreas afins, como os estudos antropológicos sobre manifestações teatrais. Portanto, para Schechner a performance é resultado de um movimento continuum que vai do rito para o teatro e do teatro para o rito.

Na seara dos dramaturgos antropólogos, um dos nomes contemporâneos mais destacados é o do italiano Eugenio Barba. Ele foi o criador da Antropologia Teatral, fundamentando-se em um hibridismo entre antropologia e teatro, Barba (1995), estudando os comportamentos cênicos dos atores, criou o conceito de pré-expressividade, presente, segundo o autor, na base das diferentes tradições e estilos teatrais. A sua investigação e o seu método em função de um olhar antropológico do teatro o levaram a criar o chamado Teatro Antropológico, onde a

dimensão analítica desta escola repousa na auto-observação dos aspectos identitários que compõem a história de cada ator.

Eugenio Barba (1991) definiu o seu Teatro Antropológico como “o teatro cujo ator enfrenta sua própria identidade”, imprimindo questões de modo extensivo que acabam por investigar aspectos conceituais da antropologia como a alteridade e identidade e, por conseqüência destes, o próprio etnocentrismo. Os seus estudos sobre a constituição do ator a partir desse seu auto-enfrentamento identitário serviram como luz para as especulações científicas da etnocenologia, que será mais bem explicitada no sexto capítulo deste texto dissertativo.

Nesta caminhada epistemológica de associações entre antropologia e teatro, teatro e rituais, surgiu o nome de Stanley Tambiah, com seu (aqui) proveitoso conceito de ação performativa, que será melhor trabalhado nos capítulos subseqüentes. Tambiah, segundo Peirano (2003, p.39), muito contribui para as análises antropológicas na contemporaneidade, ao reafirmar que tanto os mitos como os ritos são “bons para pensar e para viver”, sem se fechar em elaborações que buscassem defini-los de modo conclusivo e categórico.