3 QUE ESTRATÉGIAS DE MEDIAÇÃO DA AÇÃO TEATRAL
3.1 TEATRO EM COMUNIDADES NO CONTEXTO DA EXTENSÃO
UNIVERSITÁRIA
Para ampliar a visão sobre práticas de teatro na extensão que se relacionam com as diretrizes vistas no capítulo anterior, elegi duas iniciativas do chamado Teatro em Comunidades como inspiração para o trabalho desta pesquisa. Atualmente, no Brasil, o campo da Pedagogia do Teatro engloba o eixo específico do Teatro em Comunidades, dentro da Associação Brasileira de Pesquisadores em Artes Cênicas-ABRACE. Estas iniciativas existem no mundo todo, então, apesar de haver muitas terminologias ao redor desse tema, optarei pelo uso do termo Teatro em Comunidades ao longo da tese para
iniciativas realizadas no Brasil e Teatro para o Desenvolvimento26 para as realizadas no exterior.
É relevante considerar estas ações, em especial a pesquisa das autoras abaixo, ao investigar uma abordagem que alcançaria requisitos necessários para uma extensão universitária transformadora, pela proximidade de suas pesquisas com as necessidades normativas da extensão e o comprometimento com as ideias de mudança social. As iniciativas são das pesquisadoras Márcia Pompeo Nogueira27 e Marina Henriques Coutinho, cujas abordagens fazem parte do chamado Teatro em Comunidades. Nogueira, como professora do Centro de Artes da UDESC, criou um programa de extensão englobando três eixos: o Núcleo de Formação de Facilitadores (FOFA), o Grupo Experimental de Teatro e Comunidade e as Oficinas Intensivas de Teatro.
Segundo Nogueira, essas atividades integram-se e relacionam-se com o ensino na universidade e com o projeto de pesquisa coordenado por ela. Neste caso, podemos notar uma indissociabilidade do tripé universitário ensino-pesquisa-extensão. A autora relata que iniciou suas atividades de extensão nos anos noventa, a partir de um grupo de jovens da comunidade Ratones, que realizou uma apresentação teatral para os estudantes da UDESC. Nogueira percebeu o desejo dos jovens de fazer teatro, ao mesmo tempo que suas referencias eram todas baseadas em programas de televisão, apresentando imitações de programas de humor. Desta maneira, Nogueira estabeleceu parceria com esse grupo, criando um projeto de extensão que abarcasse esses jovens da comunidade e que abordasse temas mais próximos da realidade cultural da comunidade, privilegiando os interesses dos jovens.
O FOFA engloba estudantes de graduação e pós-graduação, além de participantes de fora da universidade, como lideranças de comunidades, e coordenadores de ações teatrais em comunidades, escolas ou sindicatos. A autora (2010) revela que os motivos que levam essas pessoas externas à comunidade a integrar o FOFA são variados, mas, apesar disso, todos contêm a mesma demanda: dialogar sobre as ações teatrais em comunidades. Abrir e oferecer formação para a sociedade civil, trazendo-a para dentro da academia, é um feito notável. Neste caso, para Nogueira, a diversidade de sujeitos que integram o núcleo tornam
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Theatre for Development –TfD, que está dentro das iniciativas chamadas de teatro aplicado. 27
Márcia Nogueira Profa. Dra. da Udesc-SC, Universidade do Estado de Santa Catarina, doutora em Drama pela University Of Exeter, e coordenadora extensionista do FOFA- núcleo de Formação de Facilitadores.
ricas as trocas realizadas, criando um espaço de diálogo, que investiga metodologias de teatro e auxilia cada um a realizar seu trabalho fora dali. A autora define o fio condutor do FOFA seguindo: “a proposta dialógica do teatro para o desenvolvimento, segundo o qual toda a fundamentação teórica e experimentação prática está centrada na valorização da voz das comunidades na construção do processo criativo” (2010, p.4).
Essa definição ratifica as necessidades da extensão universitária como um todo, mas essencialmente no âmbito dialógico, oportunizando que os sujeitos e as comunidades possam ter espaço para se expressar. O evento Oficina Intensiva, que acontece com os grupos de teatro de cada participante do FOFA, integra todos os grupos durante um final de semana, ocasião em que são ministradas diversas oficinas teatrais. Há um rodízio entre grupos que oferecem e que recebem o conhecimento de teatro, expandindo e partilhando de maneira coletiva os saberes teatrais. Há também o Grupo Experimental de Teatro em
Comunidades, unindo os integrantes do FOFA a alguma comunidade escolhida para
realizar uma construção teatral.
Nogueira define seus projetos como um meio de diálogo entre a academia e as ações teatrais que são feitas em realidades comunitárias, ressaltando a importância da via de mão dupla, tanto oriunda das contribuições da academia, trazendo uma participação com embasamento teórico, como das lideranças comunitárias, apresentando as suas experiências vividas em seus contextos, fundamentando um saber edificado pela prática direta, ampliando, segundo a autora, o debate e as avaliações realizadas.
Além do relevante projeto de extensão de Nogueira, que representa um claro exemplo de como a academia pode ser mobilizada para oferecer um retorno à sociedade, integrando a comunidade à universidade, também é importante analisar as ações extensionistas promovidas por Marina Coutinho, que atuou em projetos sociais nos anos noventa, viabilizados por ONGs que acreditavam no teatro como opção para melhoria da vida dos jovens e o enfrentamento da violência, a partir da ideia de que as artes oferecem a eles a ferramenta de expressão de sentimentos, como revolta e reivindicação, bem como a afirmação da identidade. Segundo a autora (2012), a expansão dessas ações de ONGs e outras entidades levou o ensinar e o fazer teatral para locais fora do ambiente escolar, e fundamentadas em um conceito de que as atividades de interação entre os sujeitos fomentam a construção do conhecimento.
Coutinho levanta temas importantes que a mobilizaram a desenvolver as suas pesquisas de pós-graduação, sobre, entre outros assuntos, como o teatro poderia contribuir
em contextos tão diferentes do seu; e também como se relacionar com as pessoas da comunidade, sendo proveniente de outro contexto. Ao ingressar como professora de teatro em 2010 na UNIRIO, criou um projeto de extensão intitulado Teatro em comunidades –
Redes de Teatro na Maré, em parceria com a Redes de Desenvolvimento da Maré
(REDES), uma ONG voltada para a transformação social das favelas da Maré. O projeto tornou-se, em 2011, o Programa Teatro em Comunidades28, integrando ações nos três eixos que compreendem a universidade: ensino, pesquisa e extensão. No site do programa, encontra-se a seguinte afirmação: “Consideramos também que as parcerias firmadas favorecem uma troca de saberes, um diálogo entre o conhecimento e a produção intelectual acadêmica e os saberes e formações culturais próprios das comunidades populares – numa via de mão dupla.”29
Essa afirmação corrobora totalmente as necessidades normativas da extensão social pelo viés das pedagogias críticas, o que coloca essa proposta carioca, junto com a de Nogueira, como modelo inspirador para esta pesquisa. O projeto de extensão coordenado por Coutinho conta com estudantes de graduação em Teatro, que ministram as ações teatrais em duplas ou trios para jovens e adolescentes do local, em núcleos de diferentes áreas do Complexo da Maré. Nota-se o alcance de Paulo Freire nas posições das autoras e também na versatilidade da teoria do educador brasileiro, tão harmoniosamente afinada com o fazer teatral, a exemplo do Teatro do Oprimido e de seus variados desdobramentos, conforme veremos adiante. É possível perceber o princípio de interação e troca entre
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O programa visa promover a produção de conhecimento em teatro, a prática artística e pedagógica, estimulada pelo encontro entre a Escola de Teatro (UNIRIO) e moradores da Maré. Sua ação principal é a atuação de estudantes do curso de Licenciatura em Teatro como orientadores de grupos formados por adolescentes e adultos em diferentes pontos do Complexo da Maré. Os licenciandos são responsáveis pela condução das aulas de teatro que ocorrem regularmente todos os sábados pela manhã. Na universidade, o programa realiza ações de formação integrando reuniões sistemáticas de avaliação e planejamento das atividades, disciplina obrigatória na matriz curricular do curso de Licenciatura e participação na pesquisa institucional coordenada pela professora Marina.Um conjunto de parcerias tem contribuído com a efetiva realização do diálogo entre a universidade e a Maré. As instituições parceiras estão comprometidas com a construção de uma rede de desenvolvimento sustentável, voltada para a transformação estrutural do conjunto de comunidades do Complexo da Maré. São elas: Redes de Desenvolvimento da Maré (REDES), com o Centro de Artes da Maré (CAM), comunidade de Nova Holanda, e o Centro Municipal de Saúde
Américo Veloso, em Ramos. Disponível em:
<http://www2.unirio.br/unirio/cla/teatro/departamentos/departamento-de-ensino-do-teatro/projetos- de-extensao/teatro-em-comunidades-redes-de-teatro-na-mare>. Acesso em 25 fev. 2019.
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Disponível em: <http://www2.unirio.br/unirio/cla/teatro/departamentos/departamento-de-ensino- do-teatro/projetos-de-extensao/teatro-em-comunidades-redes-de-teatro-na-mare>. Acesso em 25 fev. 2019.
sujeitos como via de constituição de saberes, autenticando as demandas presentes nas diretrizes da extensão universitária.
Coutinho defende a unidade dialética freireana entre teoria e prática, aliadas para o bom desenvolvimento do teatro na comunidade, afirmando a extensão como local fértil para a investigação científica, e também agregando pesquisa, extensão e ensino em sua docência universitária. A autora reflete:
Os anos dedicados à pesquisa contribuíram com a formação de um olhar mais crítico em relação à prática que eu desenvolvia nos anos noventa, quando comecei a atuar no campo, hoje reconhecido pelo meio acadêmico brasileiro como do teatro em comunidades ou ação cultural e, em outras partes do mundo, como o do teatro aplicado, applied theatre. Embora cada uma dessas nomenclaturas apresente formulações teóricas próprias, não é difícil identificar entre elas algumas características comuns: são práticas que acontecem longe do âmbito das salas tradicionais de espetáculo, além do território do mainstream, ou do teatro comercial; que levam o teatro a determinadas comunidades, que envolvem a participação de pessoas comuns, suas histórias, lugares, desejos, prioridades e que são motivadas pelo desejo político de transformar, por meio do teatro, realidades individuais e coletivas. (COUTINHO, 2012, p.72)
Apesar das diferentes nomenclaturas, é possível perceber a essência em comum destas iniciativas, em que o teatro é veículo de provocação da consciência crítica e do diálogo entre os participantes. O termo Teatro em Comunidades é utilizado por Nogueira em muitas publicações e, a partir dela, Coutinho também optou por seu uso. A autora alerta que é comum na área da Pedagogia do Teatro o termo ação cultural, conceito-chave para essa pesquisa que será aprofundado mais adiante, e cita Nogueira e Tim Prentki30 como autores que vêm descortinando o entendimento destas práticas no Brasil.
A ação cultural dialógica, a partir da união de sujeitos, observa, critica e idealiza a realidade de forma coletiva, transformando educandos em sujeitos mais propensos a refletir, opinar e transformar o contexto social e histórico. O Teatro em Comunidades representaria, portanto, uma forma de ação cultural.
A autora menciona uma passagem de Nogueira como definição para o Teatro em Comunidades:
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Trata-se de um teatro criado coletivamente, através da colaboração entre artistas e comunidades específicas. Os processos criativos têm sua origem e seu destino voltados para realidades vividas em comunidades de local ou de interesse. De um modo geral, mesmo usando terminologias diferentes, esboça-se um método baseado em histórias pessoais e locais, desenvolvidas a partir de improvisação. Cada terminologia, a seu modo, guarda relações com um processo educativo entendido ou não como transformador. Do meu ponto de vista podemos, no Brasil, chamar essas práticas de Teatro em Comunidades (NOGUEIRA apud COUTINHO, 2012, p.73).
Desta forma, segundo as autoras, estas ações incluem muitas vezes a interação entre participantes das comunidades e educadores teatrais de fora delas. Sendo assim, a abordagem de quem vem para mediar o teatro gera diversas questões e demandas em relação às posturas dos educadores frente aos participantes. Coutinho relata que, entre os principais desafios no Teatro em Comunidades conduzido pela extensão universitária, estão as questões de mediação, que serão aprofundadas neste capítulo, assim como a instauração de um “processo” em vez de um “projeto” (p.74) entre os graduandos educadores e os participantes da comunidade. Este processo cria um lugar onde o teatro possa ser capaz de gerar um procedimento em que os educandos tornem-se protagonistas ativos de seu próprio desenvolvimento, a partir da representação do dia a dia em cena, estudando o contexto cotidiano disparador da criação artística, e um veículo de expressão de ideias, posturas, opiniões e sentimentos.
A partir da argumentação da autora, concordo que um processo de Teatro em Comunidades vai muito mais além do que a ideia de um projeto com início e fim, apenas cumprindo os objetivos mais imediatos sem uma observação e acompanhamento mais amplo e a longo prazo, além de não assumir a visão de processo, que envolve diversos âmbitos de desenvolvimento de cada educando.
Coutinho ressalta a relevância de Freire como base teórica para o campo do Teatro em Comunidades. A teoria do autor é norteadora para essas problemáticas de relação a partir de sua teoria da ação dialógica, afirmando que os indivíduos são capazes de mudar a realidade coletivamente, em “co-laboração” (FREIRE, 2011, p. 233), rechaçando as práticas educacionais baseadas na dominação do educando por abordagem vertical, em que este seria objetificado.
O Teatro em Comunidades não se restringe à extensão universitária. No artigo O universo e a abrangência do Teatro Aplicado (2010), Coutinho amplia a compreensão de onde podem acontecer as práticas de Teatro em Comunidades:
Todo dia o teatro encontra um lugar diferente para acontecer. Um fenômeno evidente aqui no Brasil e também em outras partes do mundo tem levado esta arte aos mais variados contextos e ampliado o seu acesso a diversos segmentos da população. Uma grande diversidade de práticas teatrais cruza a fronteira das salas convencionais do teatro para alcançar e agir em outras esferas: como em projetos comunitários realizados nas periferias e favelas das grandes cidades; em ações na área da educação não formal, fora dos muros das escolas; nos hospitais, nas prisões; em ações patrocinadas por empresas ou nos projetos das organizações não- governamentais (ONGs). Apesar de se tratar de um universo que cresce com grande velocidade, a reflexão teórica e crítica sobre este campo, entre nós, ainda é pouco sistematizada. Muito embora, recentemente, elas tenham começado a atrair a atenção do meio acadêmico e a despertar reflexões sobre o tema também aqui no Brasil. (COUTINHO, 2010 p. 1)
Nesse trecho, a autora justifica a relevância de pesquisar esta área em expansão, reconhecendo como crescente as iniciativas de Teatro em Comunidades. Traz, no mesmo artigo, a afirmação de que o aumento e a propagação de iniciativas desta natureza tem levado os processos de criação teatral a espaços muito além do escolar, como ONGs, instituições ligadas ao poder público na área da cultura e saúde, e outras múltiplas esferas. Portanto, é um critério de relevância desta pesquisa sistematizar procedimentos para um teatro voltado para a transformação social, tendo como meio a extensão, reforçada pelo fato de oferecer o curso em um contexto de carência local de um estado nordestino.
Coutinho sustenta que, anteriormente, o campo de estudo da Pedagogia do Teatro se restringia mais ao espaço escolar, mas, no presente, já existem outros espaços expandidos para além desse contexto, ampliando a perspectiva na área. Essas esferas abrangem uma ampla gama de iniciativas reconhecidas como Teatro em Comunidades. Para compreender o que se entende por comunidade nesse estudo, Nogueira (2008) traz as contribuições do professor Baz Kershaw. Ele cita dois tipos de comunidade:
‘Comunidade de local’ é criada por uma rede de relacionamentos formados por interações face a face, numa área delimitada geograficamente.
‘Comunidade de interesse’, como a frase sugere, são formadas por uma rede de associações que são predominantemente caracterizadas por seu comprometimento em relação a um interesse comum. Quer dizer que estas comunidades podem não estar delimitadas por uma área geográfica particular. Quer dizer também que comunidades de interesse tendem a ser explícitas ideologicamente, de forma a que mesmo que seus membros venham de áreas geográficas diferentes, eles podem de forma
relativamente fácil reconhecer sua identidade comum. (KERSHAW apud NOGUEIRA, 2008, p.131)
Esta concepção de comunidade pode parecer um tanto simplificada, mas consiste em uma forma bem eficiente para este estudo. Em ‘Comunidade de local’, parte-se da ideia que as pessoas que ocupam determinada área, seja a trabalho ou como moradia, partilham de questões cotidianas em comum, ao passo que na ‘Comunidade de interesse’ caracterizam-se por grupos com o mesmo ideal, características, ou sofrendo a mesma injustiça social, por exemplo, negros, mulheres, LGBT’s, moradores de rua, prostitutas, etc.
Nogueira (2003) afirma que a influência das técnicas de A. Boal são determinantes para a ação de Teatro em Comunidades, em especial as do Teatro Fórum. Existem diversos termos e definições para o teatro em contextos comunitários, e não é a intenção desta pesquisa aprofundar as variadas terminologias, porém, apesar das diferenças, o que há em comum entre elas é o fato de serem práticas criadas coletivamente, de maneira participativa, cujos processos criativos estão relacionados com as realidades vivenciadas em comunidades, seja de local ou de interesse.
Sobre a mediação da ação teatral em Comunidades, como artistas e educadores, é necessária a observação e leitura crítica das próprias estruturas que nos apoiam dentro do trabalho criativo, como a universidade, incluindo pesquisa e extensão. Além do mais, tentar perceber onde residem as armadilhas de cada contexto, porque há o risco fácil de os padrões de relações de poder que existem dentro de cada educador perpetuarem-se em pequenas atitudes.
O trabalho em comunidades contempla múltiplos aspectos e sutilezas nessas relações. Assim, grande parte do trabalho envolve, de fato, o estudo das relações sociais, condição imprescindível para a autonomia de uma dada comunidade. Nogueira defende a criação e adaptação de estratégias para aprofundar o estudo das relações sociais do nosso cotidiano a partir das pedagogias críticas, e chama a atenção para o fato que, apesar da variedade na compreensão do que significa o trabalho em comunidades e dos termos utilizados para defini-lo, existe uma conformidade no reconhecimento da base fundamentadora como sendo Freire e A. Boal.
Coutinho também elucida:
Muitas práticas, além de adotar métodos mais participativos, têm explorado as possibilidades do palco como um espaço que vai além de
uma arena para a discussão de problemas locais, mas como um lugar onde a cultura, as memórias, lutas e conquistas de uma comunidade podem ser tratadas a partir de uma perspectiva mais artística. (COUTINHO, 2012, p.125)
É deveras significativo o entendimento de que o trabalho não se limita a tratar de problemáticas comunitárias, mas também de construir um processo criativo cuja inspiração é a comunidade e a sua história. A autora exemplifica com o trabalho do grupo carioca Nós do Morro, seu objeto de estudo situado na favela do Vidigal, pioneiro longevo nas práticas de teatro concretizadas com participantes de comunidades no Brasil. Ocupam, segundo Coutinho, um espaço de destaque no universo do Teatro em Comunidades.
O grupo consolidou uma forte relação com a comunidade através dos anos, garantindo participantes, continuidade e também originalidade ao tratar de maneira cômica e irreverente o dia a dia na favela, conquistando os moradores locais e fortalecendo o vínculo entre as produções teatrais do grupo e o público. A favela do Vidigal foi eleita por seus participantes como protagonista das performances. O Nós do Morro foi responsável pela criação autoral de cenas e dramaturgias para comunicar-se com a comunidade, convertendo assuntos corriqueiros locais em material artístico, provocando o imaginário de seus moradores a partir de situações fantásticas, trazendo, impregnada na performance dos atores, a “alma vidigalense” (2012, p.125), fazendo emergir um cenário característico local a partir do diálogo travado entre artistas e comunidade.
As práticas de Teatro em Comunidades tem grande potencial para contribuir para a extensão universitária, sendo possível a utilização de suas diferentes abordagens. Nogueira, em seu artigo Diálogos entre o Teatro em Comunidades e a Academia (2010), oferece uma referência sobre a forma de interação da universidade com as comunidades, fundada na