Para dar esse enfoque maior no teatro na Escola, inicio compartilhando a construção histórica de inserção do teatro na Escola Educar-se, antes mesmo de ser curricular.
Oficialmente, o teatro inicia na Escola pelos “Clubes” que eram atividades extraclasse, oferecidas pelos/as estudantes, em sua maioria, de educação física da Escola Superior de Educação Física. Segundo consta no livro dos 35 anos da Escola Educar-se, os Clubes já existiam desde a fundação da Escola, mas o teatro passou a fazer parte dessa organização no ano de 1992.
Na entrevista, a atual vice-diretora compartilhou sobre sua jornada na Escola, a qual iniciou no ano de 1998, entrelaçando com a história do teatro na Escola, isso porque ela
coordenava o turno oposto, no qual aconteciam os “Clubes”. Ela afirmou que nesse período existia um Clube de Teatro cujo objetivo era o de se reunir para os/as estudantes participantes apresentarem peças. E compartilhou que quem ministrava as aulas desse Clube era a professora Pilly Calvin, também responsável pela disciplina de espanhol, na qual sua ação com teatro eram
“aulas muito dinâmicas” e contemplava, principalmente, “uma faixa etária dos mais pequenos que participavam do teatro, não eram assim os tão maiores.” (DIÁRIO DE CAMPO). Essa professora era uma atriz, recém-chegada na cidade de Santa Cruz do Sul e se envolveu muito na cena artística teatral da cidade, deixando seu nome marcado na história artística da cidade de Santa Cruz do Sul, onde ainda atua.
Nessa linha histórica das professoras responsáveis pelas vivências de teatro na Escola, a vice-diretora contou que, em substituição à Pilly Calvin que passou a se dedicar mais ao teatro santacruzense, entrou outra professora. Essa professora fazia o deslocamento de Porto Alegre para ministrar as aulas em Santa Cruz do Sul e, segundo a vice-diretora, “ela trouxe uma característica muito interessante para nossa dinâmica, assim, de Escola e com isso começou a crescer esse grupo de teatro no sentido, assim, de maiores terem o desejo né, ou melhor dizendo, quem era pequeno não deixava de estar nessa aula.” (DIÁRIO DE CAMPO).
Quando essa professora precisou sair, principalmente pelo fato do deslocamento de cidades, em seu lugar entrou a professora Cristiane Schneider a qual era professora formada em Educação Física, com especialização em Artes Visuais e engajamento na prática da expressão corporal e teatro. Por ser professora de Educação Física dos anos finais do ensino, ela tinha maior contato com os/as estudantes dos anos finais e do ensino médio, estabelecendo o crescimento das disciplinas facultativas, envolvendo os/as estudantes dessas etapas nos grupos de teatro.
No ano de 2002, os Clubes tiveram uma renomeação, passando a se chamar “Disciplinas Facultativas” e “foram sendo ampliados e novas disciplinas sendo oportunizadas.” (EDUCAR-SE, 2020, p. 87). As oficinas, bem como os antigos clubes eram ofertadas aos estudantes de forma não obrigatória, onde cada um/a escolhia qual gostaria de fazer e vivenciava a prática de cada “disciplina” que compunha esse currículo extra.
Nos anos de 2015 e 2016, o teatro com crianças dos anos iniciais, participantes da disciplina facultativa de teatro, também era ministrado por uma professora formada em Educação Física, porém ela não atuava no currículo escolar obrigatório. Na ideia de aproximar os/as professores que davam aula no curricular das disciplinas facultativas, e, tendo eu, uma professora formada em teatro na Escola, no final de 2016 a direção me convidou para ser a professora da disciplina de teatro para os anos iniciais. Com muita alegria, eu que havia
começado a trabalhar naquele ano com a disciplina de Artes para os anos iniciais, aceitei o convite. Com alegria e, ao mesmo tempo, com um pouco de medo pela responsabilidade atribuída a mim de ocupar o lugar de outra professora e atuar na minha área de formação, passando a ser, além de professora de artes, a professora da Oficina de Teatro.
No ano de 2017 assumi duas turmas de teatro das disciplinas facultativas dos anos iniciais de 1ºs e 2ºs anos e outra com os estudantes dos 3ºs e 4ºs anos. Um dos objetivos dessas oficinas ainda é o de apresentar um espetáculo para a comunidade no final do ano, na já mencionada “Noite Cultural”. Para isso, ao longo do ano, fui buscando possibilidades para montarmos esses espetáculos, dentro do que eu defendia como sendo o teatro com crianças. A montagem se deu a partir de temas que surgiram em pequenos jogos, brincadeiras e improvisações nas oficinas. Mesmo sendo com crianças pequenas, as cenas foram construídas coletivamente e as crianças traziam ações e ideias para colaborar na montagem.
No ano seguinte, a professora das oficinas de teatro dos anos finais e ensino médio ficou grávida, saiu em licença maternidade e assumi as turmas dela até seu regresso. No entanto, ela não regressou e eu fiquei com todas as turmas de teatro da Escola, ampliando o número de turmas sob minha responsabilidade.
No final do ano de 2019 houve uma nova readequação do nome das oficinas ofertadas, deixando de serem chamadas de “Disciplinas Facultativas”, para então ser denominado
“Currículo Complementar”. Dando continuidade a ideia já consolidada de que os/as estudantes escolhem qual oficina querem realizar para complementar seu currículo escolar. Além do teatro, naquele ano, eram oferecidas outras 20 possibilidades entre modalidades artísticas, atividades desportivas e relacionadas aos conhecimentos tecnológicos e criativos. O que, no ano seguinte, precisou ser interrompido por conta do vírus Covid-19 e da suspensão das aulas presenciais.
Antes dessa suspensão, o interesse pela busca às oficinas de teatro estava em ascensão, bem como, a escola ampliava74. Havia um número limitado para a participação nas oficinas, na média de 15 estudantes por turma, podendo, em alguns casos ser mais, para que fosse bem aproveitada por todos/as e que, na hora dos espetáculos, cada estudante se sentisse valorizado em sua apresentação. De acordo com a coordenadora do currículo complementar desde o ano de 2013, os números de estudantes que participaram, sem contar os que precisaram ficar em lista de espera, articulavam-se em 2013 - 57 participantes; 2014 - 47 participantes; 2015 - 42 participantes; 2016 - 45 participantes; 2017 - 41 participantes; 2018 - 61 participantes; 2019 -
74 No mesmo período de 2013 a 2020, a Escola crescia em número, aumentando de 403 em 2013 para 567 em
2020.
79 participantes e em 2020 haviam 77 inscritos até março, mas houveram poucas aulas e a lista final, com os ajustes de lista de espera ainda não estavam finalizadas, pois tão logo tivemos que encerrar as ações devido a pandemia.
A coordenadora, que além de coordenadora do currículo complementar é a professora responsável pelas aulas de dança da Escola acredita que “a procura pelo teatro, da dança, do balé, da música, no geral, das atividades extraclasse, nosso currículo complementar, vem aumentando a cada ano, isso só prova a importância e o bem que as artes fazem na vida desses estudantes.” (DIÁRIO DE CAMPO).
Essa contextualização tem mais a ver com a localização histórica e partilha de organização do teatro na Escola, o foco maior da pesquisa acaba sendo o ensino médio, etapa essa que pouco participava das oficinas extracurriculares de teatro. No entanto, é importante localizar de onde falo e como o teatro se presentifica, para além do currículo obrigatório. Talvez até a obrigatoriedade do teatro no currículo do Ensino Médio seja por isso, por ser uma etapa em que não há tanta procura para atividades extras na Escola. Mas, a partir de agora, vou me deter ao Ensino Médio, a história dessa construção curricular.