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TECENDO CONSIDERAÇÕES

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O trabalho que ora se encerra não aceita ponto final. Pretendo trazer pontos de reflexão acerca dos instrumentos e estratégias do “como” e “por que” a memória social e os objetos biográficos se fazem presentes na constituição das referências culturais e identitárias do sujeito narrador. Sem dúvida, omiti alguns pontos relevantes sobre as temáticas a que me propus a investigar, mas o que é o processo de construção do conhecimento científico senão uma convergente interconexão de pontos de pauta e motivação para outras pesquisas? Tanto aquelas que as antecederam e ao mesmo tempo contemporiza rumos para futuras investigações. Memória e esquecimento são indispensáveis nesse processo:

Sem experiência histórica como segurança contra surpresas desagradáveis de toda sorte, as ciências humanas e sociais não podem operar. Por isso, ainda que sem recair no memorialismo da ciência antiga, precisamos fazer pactos com a memória. Mas por outro lado as ciências humanas e sociais, tendo que andar lado a lado com o tempo, são submetidas às regras de jogo e de linguagem do oblivionismo104 científico. (WENRICH, 2001, p.296)

Considero que o presente trabalho, respeitadas as limitações, apoia sua relevância na vocação em contribuir com o fomento de novos elementos para melhor compreensão da dimensão e do papel dos objetos biográficos associados às histórias de vida e histórias ou vice-versa. Pensar em uma memória construída coletivamente em estreita ligação com os lugares que percorremos, os acontecimentos que nos atingiram, aquelas e aqueles com quem convivemos sugere a importância do sentimento de pertencimento e identidade ao compartilhar narrativas de vida. De certa forma, “A história de cada indivíduo na cidade é a história das situações que ele enfrentou em seus territórios e é a ação desse sujeito nesses espaços que faz de um episódio banal uma situação, para ele, de reinvenção de suas tradições”

104Ao discorrer sobre a busca (campo) o escrever (publicação) e o armazenar (disponível pela documentação), fases inerentes as funções de pesquisador, Wenrich 2001 reflete sobre o par: memória e esquecimento. Assim definindo o oblivionismo científico: “É exatamente essa arte do esquecimento que o cientista precisa dominar se não quiser que essa crônica superinformação o paralise na sua atividade de pesquisador. Passaremos a chamar essa competência para a rejeição sensata de informações de oblivionismo da ciência” (Ibid., p.292/293).

(ECKERT e ROCHA, 2005 p.30). As narrativas da história de vida ouvidas durante esse trabalho apresentaram situações de vivências urbanas e vivências rurais envolvendo as categorias de representação social: infância; família; trabalho/ saberes e ofícios; fazenda/terra e herança. A vida adivinhada em suas lacunas e narrada a partir do próprio ritmo pode revelar-se extremamente surpreendente. A compreensão de ações vividas no dia-a- dia pode levar a descobertas de algumas atitudes-símbolo que, fora do contexto pesquisado, não nos diriam muito. Ouvi muitas histórias de família durante esse período e a velha frase: “(...) é de família” soou em meus ouvidos por algumas vezes.

Há episódios antigos que todos gostam de repetir, pois a atuação de um parente parece definir a natureza íntima da família, fica sendo uma atitude símbolo. Reconstruir o episódio é transmitir a moral do grupo e inspirar os menores (...) tocamos sem querer na história, nos quadros sociais do passado: moradia, roupas, costumes, linguagem, sentimentos (...) - (BOSI, 1994, p.424)

Assim também fizeram os narradores de Hidrolândia-GO. Nesse sentido, acredito que esta investigação poderá constituir-se em fonte de consulta para estudiosos sobre os bens culturais de natureza imaterial, contribuir para o registro do patrimônio cultural regional por reunir informações que possibilitarão conhecimento de referências culturais e identitárias das diversas formas de expressão presentes no processo de construção da memória coletiva, para além de classificações “excepcionais”.

No contexto de histórias de vida, os objetos biográficos foram sendo (re)significados pela narrativa de seus possuidores em torno da memória familiar. A tecelagem em Hidrolândia esteve sempre associada à intimidade de cada grupo de convivência próxima. Nossas primeiras narrativas ouvidas e relatadas provavelmente se deram em condições semelhantes, ligadas ao aconchego dos acalantos, primeiras histórias cantadas de outros lugares. A presença feminina associada a essas lembranças é quase uma constante. Ao longo dos tempos, nem sempre as escolhas de vida foram privilégio desse ambiente doméstico, principalmente das mulheres. A odisséia de Homero apresenta Penélope

como “a primeira mulher na história da literatura que está numa posição de livre escolha quanto à história que quer para sua vida105” (MACHADO, 2001, p.40). Uma (re)leitura pode ter repercussões interessantes para a tecedura de considerações a respeito dessa pesquisa:

Deixemos Ulisses, já enfastiado da hospedagem na deliciosa ilha do deus Calipso, e transportemo-nos para o seu palácio em Ítaca, que ele abandonara há quase vinte anos para ir guerrear em Tróia.

Do sucedido com quantos outros chefes gregos que também foram pelejar nas plagas troianas, todo mundo estava a par. Alguns haviam perecido durante o assédio, outros depois de regressarem à pátria; o chefe supremo fora perversamente assassinado pela esposa, um fugira do pai e fundara uma cidade em terras longínquas e vários, mais cedo ou mais tarde, tornaram são e salvos e vivos ainda estavam. Mas de Ulisses ninguém sabia notícias e muita gente acreditava até que já tivesse morrido.

Não é para se estranhar, portanto, que muitos nobres de Ítaca e das ilhas vizinhas tentassem persuadir Penélope a se casar novamente, na convicção de que ela era viúva. A fiel esposa, porém, a todos dissuadia. Acreditava piamente que o marido ainda vivia e, de uma hora para outra, pisaria a porta do lar. E embalada por tal esperança, embora tristonha, via escorrer os dias. Mas o povo de Ítaca insistentemente vinha à sua presença pedir que ela contraísse novo matrimônio, alegando estar mal governado sem um rei; acrescentava ainda que um novo marido, mesmo sem muitas virtudes, era preferível à multidão de pretendentes que afluía ao palácio, comendo, bebendo, jogando e assim dilapidando os haveres do rei desaparecido. De tal forma assediada, Penélope tratou de ganhar tempo, engendrando uma desculpa:

-Todos sabem que o pai do meu marido é um ancião e seria desprimoroso para mim se ele morresse e não tivesse vestes à altura para ser enterrado. Não ignoram que ele era rei e que deve ser sepultado com honras. Deixem-me, pois, tecer uma mortalha para meu sogro. Quando terminá-la, escolherei um dos pretendentes para esposo. Povo e pretendentes, todos ficaram satisfeitos com a decisão – a tarefa não poderia durar muito tempo. E, menos impacientes, esperaram o dia do noivado. Mas acontecia que o trabalho não rendia. É que Penélope, ardilosamente, desfazia de noite o que fizera de dia.

Largo tempo durou o embuste, até que uma serva da rainha, descobrindo a tramóia, contou tudo a um amigo que figurava ente os pretendentes, e, na mesma noite, três postulantes, guiados pela denunciadora, penetraram nos aposentos reais e surpreenderam Penélope desfazendo a obra que executara de dia. Assim, com o mesmo ardil, ela não pôde afastar os pretendentes por mais tempo; acabou de tecer a mortalha e não atinava com uma saída para a situação (HOMERO. s/d. p. 38).

Na verdade, Penélope deve parte da sua fama ao estratagema do tear. Passa a ser considerada modelo de fidelidade conjugal, esperando Ulisses por dezoito anos sem admitir substituí-lo. Mas há quem diga que Penélope foi fiel a ela mesma. Às suas escolhas.

Nesse sentido, gostaria de destacar que em todas as quatro narrativas apresentadas

105 De acordo com Machado (2001), esse aspecto é enfatizado por Carolyn Heilbrun,da Universidade de Columbia, em ensaio premiado. Nesse estudo, “a autora examina a situação dessa tecelã tão famosa, que ficou mais célebre por desmanchar o que fazia do que propriamente pelo tecido que criava. A primeira coisa que chama atenção é que Penélope, na Odisséia, vive ‘uma situação única para uma mulher de sua cultura: ela tem uma escolha’” (Ibid, p.39, grifos do original.)

no capítulo segundo, os objetos biográficos foram também escolhas de fragmentos de vida e nessa seleção outras escolhas foram sendo reveladas à medida que cada narrativa avançava.

O Sr.Militino escolheu ensinar o que aprendeu repetindo a mesma estratégia de seu pai. “deixa quebrar a cabeça”, ele sempre fez questão de frisar. Confiando em sua história de vida, devolve aos seus aprendizes os ensinamentos paternos associados à lida diária.

D. Rita escolheu não aceitar o abandono, negar aquela ‘sorte’, casar, sim, e aceitar o sofrimento sem reagir, não. Escolheu narrar o lamento da perda de toda fortuna deixada pelo pai. Principalmente a falta que sua figura lhe fez pela vida afora. Escolheu reagir à exclusão familiar diante da ausência do pai. Escolheu lutar pela máquina objeto-sujeito 106de sua história.

Zilmar escolheu esquecer “as coisas tristes” do viver. Melhor seria dizer que pensou ter feito sua escolha, pois como já foi ressaltado, nesse e em outros estudos, a memória é seletiva. Queria contar e lembrar só boas lembranças. A infância vivida na fazenda, como demorou! Como durou! Mas, diante do ritual de Natal vivido por várias gerações de sua família, e sem que suspeitasse, o rico imaginário de vozes, cores, sabores, imagens e romarias, trazem sutilmente à memória, “coisas tristes”, lembranças da morte da mãe e da avó materna.

D. Lurdes escolheu o gravador desligado para não ‘armazenar’ dores de humilhações sofridas, traições, morte ou qualquer tipo de violência doméstica. Tanto fez em

106 Provavelmente a intimidade forjada, de relatar suas memórias vividas, tenha possibilitado aos colaboradores e, a mim, a pesquisadora, momentos de sintonia em torno de memórias que embora construídas no e pelo coletivo, narrem também espaços totalmente desconhecidos. Como os móveis de uma casa guardam lugares inimagináveis. Dito por Gaston Bachelard (1993): “armário e suas prateleiras, a escrivaninha e suas gavetas, o cofre e seu fundo falso são verdadeiros órgãos da vida psicológica secreta. Sem esses “objetos” e alguns outros igualmente valorizados, nossa vida íntima não teria um modelo de intimidade. São objetos mistos, objetos- sujeitos. Tem como nós, por nós e para nós, uma intimidade” (Ibid, p. 91.)

busca de esquecimento107 que mesmo tendo escolhido um só objeto, na sessão de fotos, muitos outros objetos surgiram, trazidos por ela, como testemunhas silenciosas de tempos mais ou menos felizes: a vida e o trabalho na roça108·. Um ferro a brasa marcando a espera do primeiro filho, enquanto lavava roupas e passava “... pra fora”, preparava os pequenos trajes de quem chegaria em breve. E até a vinda dos netos Lurdes repetiu as mesmas ações inúmeras vezes. Sempre uma nova Lurdes. Sempre o mesmo ferro?

A relação que acho importante deixar clara entre essa fração de vida de Penélope e a vida narrada pelos narradores de Hidrolândia-GO é a possibilidade que cada ser tem de fazer suas escolhas. Outro ponto é a riqueza que se descortina quando a opção de desmanchar o que já se encontrava tecido pode ser uma forma de construir sentidos em busca de fidelidade a si mesmo. Desconstruir e destruir podem ser momentos de descobertas. Dona Rita relatou-me, com o gravador desligado, que, ao ganhar uma boneca de presente de sua mãe, quando esta retornava de mais uma de suas viagens, afastou-se de todos foi para uma bica d’gua e bateu a boneca nas pedras até que esta estivesse completamente destruída. “Eu tinha muita raiva dessa boneca! Não tinha tempo de brincar”. (Rita - fragmento narrativo/2008). Este seria um fértil acontecimento para o campo das abordagens psicológicas. O que me interessa, no entanto, é observar que esse momento de desconstrução de sua boneca na infância possibilitou a Dona Rita uma relação intensa com as bonecas fiandeiras, construídas em sua atividade de artesã. Tais processos de desconstrução, esquecimento e reconstrução dão-se em movimentos que podem ser ponto de reflexão para

107 No filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança, o casal Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) é daquele clássico tipo em que os opostos se atraem. Clementine decide se submeter a um procedimento inventado pelo doutor Howard em que parte da memória pode ser apagada. Durante o procedimento, no entanto, ele redescobre o amor pela namorada ao entrar novamente em contato com os momentos especiais vividos com ela, que ficaram registrados em sua mente.

108 Uma vez mais remeto o leitor às idéias de Bachelard (1988) ao refletir sobre a dialética da duração: “São (...) os largos ritmos marcam a vida humana. Será preciso, por exemplo, lembrar o interesse que encontra uma vida sábia e pensativa ao regular-se pelo dia, pela marcha regular das horas? Será preciso descrever a duração bem ritmada do homem do campo, vivendo de acordo com as estações, formando sua terra sobre o ritmo de seu esforço?” (Ibdem, p.131-132).

negociações em torno de identidades, memória coletiva e maneiras de inserir e legitimar a pluralidade de narrrativas do vivido na gestão e interpretação de bens patrimoniais. O dito e o não dito por palavras encontra-se presente nessas narrativas pois, “nesses jogos perceptivos, são colocadas em destaque as formas sensíveis que movem os habitantes em suas lógicas de viver os espaços e tempos culturais” (ECKERT, 2007, p. 1). Exatamente aí onde estão essas pessoas, de corpo e alma, seja em espaços rurais ou urbanos e suas escolhas.

Embora tenham sido apresentadas e destacadas as categorias infância; família; trabalho/ saberes e ofícios; fazenda/terra e herança, sem dúvida existem muitos outros pontos nodais que constituem essas memórias de vida. A figura materna, por exemplo, citada por todos os entrevistados, várias vezes e em diferentes fases de vida, é reconstituída pela lembrança. A mãe aparece em suas memórias como um ponto de convergência nessas narrativas, associado aos objetos biográficos. A mãe arquetípica. A representação simbólica da figura materna pode assim ser considerada elemento constitutivo da memória familiar e coletiva. “A busca da origem manifesta-se sempre como retorno à inocência, a infância” (JEUDY, 1990, p.58). Associadas à mãe, figura presente quando se busca o sentido originário da vida, as narrativas ouvidas trazem também outros elementos ligados aos fios da vida e a circularidade presente no cotidiano pesquisado: os novelos, a roda de fiar; a terra-mãe; o círculo dos mutirões. Há uma “superabundância de signos” e o “jogo social intersubjetivo das origens e dos traços (...) também coloca em cena esse movimento da decomposição” (Idem, p.64), considerando temporalidades diferenciadas como são também os ritmos da vida.

Para Bachelard (1988), nossos ritmos não são fundados numa base temporal uniforme e regular. Quanto à continuidade, os fenômenos temporais têm um caráter essencialmente metafórico: “para durarmos é preciso que confiemos em ritmos, ou seja, em sistemas de instantes. Os acontecimentos excepcionais devem encontrar ressonâncias em nós para marcar-nos profundamente.” (idem, p.9). O filósofo acrescenta que, sem dialética, sem

ritmo, nenhuma vida, nenhum pensamento, pode estabilizar-se e ser seguro.

No esforço de demonstrar os ganhos advindos das descobertas técnicas e cientificas dessas formas de conhecer o outro – a antropologia com palavras e a fotografia e o cinema com imagens -, os pesquisadores esqueceram-se de considerar um elemento fundamental que permeia a ação de ambos: a imaginação. (BARBOSA e CUNHA p. 14)

Guardo algumas imagens de Hidrolândia-GO, algumas no acervo fotográfico da pesquisa outras em minha memória. Muitas delas apreciadas no museu imaginário.109 Posso afirmar que acontece nesse pequeno centro urbano muitos ritos que simbolizam o “viver na roça”. O turismo local (ver artigos jornalísticos nos anexos) se beneficia dessa imagem. Os narradores que entrevistei viveram e ainda continuam vivendo e trabalhando no meio rural, especialmente em suas memórias afetivas.

Carlos Brandão (1995) constatou em pesquisa sobre o município de São Luis de Paraitinga, um pequeno centro urbano, em São Paulo, algo semelhante: como aquela cidade “tornou-se um ponto de referência muito próximo, incorporado mesmo aos símbolos da vida e à rotina dos dias do cotidiano da ‘gente da roça’” (BRANDÃO. 1995.78). As identidades coletivas também são constituídas por esse (e nesse) mundo rural. Os objetos biográficos escolhidos e apresentados por desse mundo vivido por eles falam de sua memória de trabalho; definem os referenciais culturais de uma memória coletiva. São eles os verdadeiros narradores, aceitam versões de histórias, do contexto social de D. Rita, Sr. Militino, Zilmar e D. Lurdes e continuam com seus possuidores, assim como muitos objetos estiveram com seus possuidores em outros tempos e agora estão nos museus110 narrando biografias. Os narradores

109 O conceito musée imaginaire, de André Malraux (1901-1976), possui mais de um sentido em sua obra. Traduz inicialmente a idéia de um museu de imagens para depois vir a significar, sobretudo um museu do imaginário.

110 Remeto o leitor ao estudo realizado por Roseli Barreto (2001) sobre um museu biográfico. O Museu Pedro Ludovico Teixeira em Goiânia-GO. A autora estabelece alguns eixos para reflexão em torno da memória familiar e memória coletiva, para ela a criação do museu “representou uma etapa fundamental para que a memória do ludoviquismo, já consagrada pela historiografia, ganhasse um espaço capaz de evocar, por meio da cultura material, as etapas de um tempo vivido: as fotografias, as poses, a casa, o escritório e a família. A memória familiar se transubstanciou em história da região” (BARRETO, 2001, p.107/108).

entrevistados não demonstraram nenhum interesse em compartilhar fotografias (que, em minha opinião, também enquadram-se como objeto biográfico) e quando questionados diziam não ter mais as fotos (estavam com alguns membro da família, não existiam mais, ou desconversavam). Considero oportuno investigar melhor esse aspecto.

Encaminhando para a finalização desse estudo recorro às memórias da linguagem cinematográfica e ao filme citado na introdução dessa investigação, um encontro (etnográfico) entre o carteiro e o poeta, como tantos outros momentos de relações sociais e humanas que vivemos no dia-a-dia.

Convido o leitor(a) para avançar, pelo viés da memória, em direção à última mensagem enviada pelo carteiro ao poeta. Fica claro nessas cenas que ele já sabia fazer metáforas. Com o gravador, nas mãos, Mário (o carteiro) olha, ouve e sente a ilha com seus sons, seus movimentos, cores e beleza. Extasiado, decide enviar uma mensagem ao poeta – já de volta ao seu país, grava, então, o barulho das ondas do mar, o vento nos rochedos, nos arbustos, as redes tristes do pai pescador, a noite estrelada na ilha e o sorriso de seu filho! Ao receber a mensagem, Pablo Neruda (o poeta) emociona-se, chora e vai ao encontro do amigo, mas (...).

Espero que este trabalho desperte nos leitores o desejo de ir ao encontro das referências culturais111 deixadas pelas memórias individuais e coletivas suscitadas pelo “encontro” com essas pessoas. Acredito que as políticas públicas direcionadas para a gestão de memórias como bens patrimoniais precisa ouvir outras vozes. Impossível não sintonizar com as idéia de Eckert (2007) sabendo que os narradores estão usando linguagens variadas para ressignificar o tempo vivido tanto nos pequenos quanto nos grandes centros urbanos:

111Considerando uma vez mais que: “As culturas não são desiguais, não há uma hierarquia, as culturas indígenas não são culturas rústicas, ou sertanejas, empobrecidas e as culturas rústicas e sertanejas não são culturas civilizadas empobrecidas. Elas são culturas diferenciadas, a relação entre elas é uma relação entre diferenças. (BRANDÃO, 2006) Entrevista disponível em

Os habitantes investem nas formas de continuar na vida social do interagir cotidiano em suas memórias e trajetórias, perscrutando paisagens, arranjando as imagens em constelações em que podem acomodar as sensibilidades e desejar a continuidade da experiência de jogar o social. (ECKERT, 2007, p. 1)

Entendo as memórias de histórias de vida112 como Patrimônio de natureza imaterial (ver anexo H - Decreto n. 3.551, de 4 de agosto de 2000). As memórias são a garantia de continuidade, de cada pessoa e dos que compõem sua história, no tempo. Em todas as memórias de vida narradas, um universo de sentidos se revela. A materialidade dos objetos, dos espaços, lugares e acontecimentos que nos cercam e nos afetam é indissociável dos sentimentos que lhes depositamos:

Como tudo se torna concreto no mundo de uma alma quando um objeto, quando uma simples porta vem proporcionar as imagens da hesitação, da tentação, do desejo, da segurança, da livre acolhida, do respeito! Narraríamos toda nossa vida se fizéssemos a narrativa de todas as portas que fechamos, que abrimos, de todas as portas que gostaríamos de reabrir. Mas aquele que abre uma porta e aquele que a fecha será o

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