4 ROTA CRÍTICA DE MULHERES NO ENFRENTAMENTO À
4.2 Tecendo “redes” de apoio no combate à violência contra a mulher
O surgimento da internet e seu avanço de forma avassaladora conferiram a presença de novas ferramentas em nosso cotidiano, tais como as redes sociais, que hoje têm um papel relevante, especialmente na popularização do feminismo e na articulação desse campo, promovendo um ativismo virtual, ampliando as redes de atuação no combate à violência contra a mulher. A internet tem representado nos últimos anos uma base para a atuação de vários grupos, fazendo com que pautas importantes de movimentos marginalizados na sociedade como população LGBT, negros, indígenas e mulheres, sejam discutidas via on- line, favorecendo o debate e a visibilidade desses grupos, ampliando os espaços de atuação e mobilização política. Para Val Franco (2017):
As novas mídias aceleram a difusão de práticas de protesto uma vez que a mensagem chega mais rápido e de forma mais abrangente, tudo isso com menor custo não só da produção, mas também menor custo de participação para os usuários. Sincronicamente, os usuários saem de uma posição de meros consumidores para agentes ativos na produção de conteúdo, além de
obterem maior apelo quanto a cobertura midiática. (VAL FRANCO, 2017, p. 7).
Um dos fatores que aproximam os usuários dos meios virtuais promovendo uma rede de relacionamentos e novas amizades é a interação que a internet proporciona aos seus usuários, onde eles podem criar conteúdos na rede, seja blogs, sites, campanhas virtuais, fazendo com que surjam coletivos, em especial de mulheres, que são construídos a partir desse processo no qual essas relações estão estruturadas. Determinados conteúdos da internet não é de livre acesso do usuário, sendo necessário o pagamento de uma assinatura para ter acesso a canais, porém, há conteúdos onde as pessoas têm acesso direto às plataformas digitais, podendo conhecer e se engajar em causas variadas, participando de organizações e coletivos. É o que Castells (2003) define como “comunidades virtuais”, que seria:
[...] uma das camadas da cultura da Internet, e que carregam os princípios que estimularam o próprio desenvolvimento do mundo virtual, tais como liberdade de expressão e a formação autônoma de redes. Entendendo rede como comunicação entre múltiplos indivíduos, para além do compartilhamento de afinidades, elas também funcionam como “instrumento de organização, ação coletiva e construção de significado. (CASTELLS, 2003, p. 49).
Considerando tal fato, onde o ativismo tem sido um instrumento potente e atuante na internet, a militância feminista tem usufruído dessa ferramenta para realizar campanhas on- line no enfrentamento à violência contra a mulher, através da criação de blogs, comunidades que defendam essa pauta, eventos públicos no Facebook como uma forma de aproximação desses grupos, hashtags e seu uso político, entre outros meios. Essas iniciativas têm proporcionado que alcance um número maior de pessoas e espaços, chegando até mesmo em outros meios de comunicação como a televisão, com o apoio de profissionais do meio artístico. Porém, apesar da inovação oriunda do desenvolvimento desses meios virtuais, abrindo uma nova agenda para o debate sobre determinadas questões que, até então eram tabus, um fator preponderante para a discussão desses pontos é o usuário, que direciona esse debate no intuito de fazê-lo avançar além do meio virtual, causando impactos e mudanças no mundo real.
As internautas e os internautas é que dão sentido para a utilização de plataformas digitais e no caso dos movimentos feministas, tais fenômenos estão circunscritos em uma onda maior de atuação que ultrapassa o Feminismo Online e o Hashtag num confronto sistemático com as estruturas que operam as relações sociais. Mas a atuação online é inovadora porque
vem abrindo caixas pretas antes intocadas, trazendo à tona desabafos sobre questões como o assédio, sofrido muitas vezes desde a infância, e que antes ficavam restritos à esfera privada ou permaneciam guardados sob o silêncio das vítimas. (VAL FRANCO, op.cit., p. 9).
Os coletivos de mulheres que surgiram na internet favoreceram o compartilhamento de experiências, aproximando mulheres de diversas partes do mundo, fortalecendo uma unidade de grupo, onde elas acolhem umas às outras. A identificação com histórias que são compartilhadas nessas redes, sem a necessidade de um contato físico prévio, demonstra um meio de reconhecimento na pessoa que fala e no problema apresentado e, portanto, visibiliza questões presentes da sociedade, incentivando o enfrentamento de situações de violência e de vulnerabilidade. A possibilidade de novas redes e de criação de conteúdos próprios na internet é um fator positivo para a reformulação de novas práticas de ativismo. Para Bennett (2008), esse fenômeno se explica devido ao fato de descrença quanto ao Poder Público, que faz com que esse tipo de ativismo cresça a cada dia:
Somadas a uma crescente desconfiança perante o modelo democrático representativo e todas as instituições e organizações que o compõem, inclusive o voto, vêm configurando novos processos culturais no modo de fazer ativismo, que estão na esteira de uma nova dimensão de socialização, a cibercultura que nasce do ciberespaço. Parte da literatura tem se dedicado a pesquisar essa tendência ao afastamento de organizações formais tais como partidos políticos, sindicatos e movimentos sociais, simultânea à descoberta pelos espaços digitais como canais de expressão independentes. (BENNETT, 2008, p. 67).
O uso das mídias digitais fornece espaços que podem favorecer a autonomia e a criatividade de seus usuários, que, mais do que consumidores dessas ferramentas, passam a ser produtores de conteúdos, apropriando-se dessas plataformas de modo que construam redes de acordo com interesses e afinidades, em prol de determinada causa. As inovações ocorridas devido ao avanço da internet e seu uso cotidiano fizeram do uso da tecnologia um instrumento de luta a favor de uma causa.
Podemos citar como exemplo a Marcha das Vadias43, que teve origem em Toronto, no Canadá, e que no Brasil ocorreu em 2012, a partir de mobilizações ocorridas pela internet, via redes sociais, que alcançou um grande número de mulheres. Os protestos
43 A Marcha das Vadias teve início no Canadá, quando um oficial de segurança, ao ministrar palestra na
Universidade de Toronto, orientou as mulheres “a não se vestirem como vadias” como medida de segurança para evitar o estupro. A fala do policial causou revolta nas mulheres canadenses e mais de 3 mil mulheres foram às ruas de Toronto para protestar. No Brasil, a Marcha das Vadias ocorreu no ano de 2012, em Brasília, com o intuito de protestar pelo fim da violência doméstica, física, simbólica e sexual.
enfatizaram a relevância das discussões de gênero nas mais diferentes esferas, mobilizando milhares de pessoas no Brasil, evidenciando a luta das mulheres pelo fim do machismo e da violência de gênero. Durante a marcha, cartazes, palavras de ordem e alguns gritos como: “o corpo é meu, a cidade é nossa” e “meu corpo, minhas regras” destacaram que a liberdade das mulheres passa pelo direito de se vestir e agir livremente, sem que se justifique qualquer agressão ou culpabilização.
Os movimentos sociais podem fazer uso da internet para seu ativismo, aproveitando as facilidades que esse meio oferece de modo que divulguem suas ideias, permitindo o diálogo com outras organizações, tornando visíveis os grupos marginalizados, trazendo novas perspectivas e possibilidades de ativismo, ressignificando ferramentas a partir de sua utilização de um modo político e crítico:
Movimentos mais abrangentes não necessariamente ligados a entidades formais, como é caso do movimento feminista, do movimento LGBT e do movimento negro, também conseguem pautar debates e conectar pessoas por meio de comunidades virtuais, e talvez constituam os exemplos com maior reverberação no âmbito virtual, no que tange à difusão de discursos. (FRIEDMAN, 2017, p. 4).
O uso da internet também proporciona o registro da realidade a partir do autor, o que pode significar uma importante ferramenta no combate à violência contra a mulher. Apresentamos como exemplo a violência ocorrida em julho de 2018 contra uma mulher no interior de São Paulo44. A vítima usou as redes sociais para fazer um desabafo da violência sofrida durante 11 anos de casada. Na imagem compartilhada, ela aparece com o rosto ensanguentado, alegando que o agressor quebrou o seu nariz. Ela faz um relato também de como era seu casamento, as constantes humilhações e agressões no qual era vítima e, por fim, faz um alerta para mulheres que vivem em um relacionamento abusivo.
Em 2017, uma mulher postou um vídeo no Facebook com vários hematomas no rosto, denunciando que tinha acabado de ter sido agredida pelo seu ex-marido45. O caso ocorreu no município de Volta Redonda, interior do Estado do Rio de Janeiro. A vítima faz um relato emocionante no vídeo dizendo sobre todas as agressões que sofreu ao longo de 8 anos de casada. Afirma que chegou a ser agredida durante a gestação. Ressaltou que fez a denúncia do ex-marido na delegacia, com o intuito de conseguir medida protetiva e que ele
44 Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/mulher-publica-foto-com-rosto-
ensanguentado-para-denunciar-agressao-do-ex-cansei-de-me-calar.ghtml. Acesso: 04.11.2018.
45 Disponível em: https://emais.estadao.com.br/noticias/comportamento,mulher-denuncia-agressao-do-ex-
fosse preso, fato que não aconteceu. Por causa disso, a mulher afirma no vídeo o medo que tem de morrer. Assim sendo, a vítima resolveu fazer o vídeo e compartilhar em sua rede social, a fim de que os usuários compartilhassem até chegar às autoridades, como uma forma de ajudar a vítima. O material teve um número significativo de visualizações, tendo sido compartilhado 277 mil vezes.
Considerando a ampla divulgação de casos e acontecimentos pela internet, muitos movimentos sociais ampliam suas ações com o intuito de denunciar a criminalização e a violência sofrida. Segundo Val Franco (2017):
Ativistas independentes utilizam as mídias para a construção de canais pessoais de expressão, assim como para ganharem projeção nas comunidades virtuais das quais participam. Além de transmissão, com algumas limitações, as plataformas digitais tornam-se repositórios importantes de eventos e demonstrações. (VAL FRANCO, op. cit., p. 21).
As novas tecnologias são potentes e causam impacto na medida em que atribuem valores às oportunidades que oferecem, gerando, desse modo, um leque de possibilidades e atuações, e, dependendo do interesse de seu usuário. Contudo, para que o ativismo presente na internet seja significativo, é necessário articular com o mundo real, através de práticas que favoreçam os movimentos sociais já existentes. A utilização de hashtags, comum em plataformas como Twitter, Facebook e Instagram, são recursos apropriados e utilizados pelos movimentos feministas como uma forma de conscientizar a sociedade sobre temas importantes para as mulheres. A hashtag tem como símbolo a cerquilha (#), e é um recurso que se originou no Twitter, rede social on-line que possibilita aos utilizadores o compartilhamento de textos de até 280 caracteres. Val Franco (2017) explica como se dá o uso da hashtag e seu modo de articulação com os usuários:
O uso da cerquilha vem acompanhado por strings (o mesmo que cadeia de caracteres no vocabulário dos programadores, correspondentes a palavras ou frases) que podem ser replicados pelos usuários nos posts, disseminado também em várias outras plataformas tais como Facebook e Instagram, possibilitando uma conexão dos indivíduos em torno de assuntos-chave. (VAL FRANCO, op. cit., p. 22).
Ao pesquisarmos na internet qualquer tipo de hashtag, temos acesso ao que foi compartilhado em modo público, possibilitando que o usuário saiba de que forma e contexto foi utilizada a hashtag. Os diferentes usuários que a compartilharam, promovem a criação de comunidades de acordo com interesses, constituindo um mecanismo de demarcação de
posicionamento político sobre diversos assuntos. Muitos movimentos feministas ganharam visibilidade nos meios de comunicação depois de terem tido ampla repercussão na internet, apropriando-se de discussões importantes na pauta feminista, tais como a violência de gênero, aborto, denunciando situações de abuso sexual, machismo, criando redes de apoio entre as mulheres, e, em determinados momentos, essas discussões surgiram a partir do uso da
hashtag, apresentando seu caráter político. O uso da hashtag “quando comparado ao ativismo
face a face envolve menores custos de participação. Mas não menos complexa se analisarmos a construção de discursos por trás dessas hashtags e sua função enquanto meio de disputa de pautas e enquadramentos.” (VAL FRANCO, 2017, p. 23).
O alcance da mídia e a facilidade de seu acesso permitem que os movimentos feministas atuem de forma interseccional, configurando um novo momento na luta pelos direitos das mulheres, ampliando seu debate na sociedade. O feminismo on-line faz uso dessas novas plataformas para realizar discussões importantes para a sociedade em geral, promovendo fóruns de debates, criação de eventos como uma forma de fortalecer a união entre os usuários. Além dessas iniciativas, a criação de blogs com temas específicos, tais como empoderamento feminino, feministas negras, saúde da mulher e surgimento de coletivos constituem instrumentos no enfrentamento à violência contra a mulher, o que ressignifica as formas de interação, construindo novos canais de ativismo devido ao modo como os usuários se apropriam desses recursos virtuais disponíveis.
Apesar de essas iniciativas terem sido construídas no ambiente virtual, isso não significa que o ativismo no mundo real ficou enfraquecido, pelo contrário, as mobilizações realizadas em um primeiro momento no meio virtual oferecem ferramentas e modos de atuação no cotidiano como, por exemplo, os inúmeros eventos que são compartilhados via Facebook, a convocação para protestos que envolvem temas importantes às mulheres, como por exemplo,a manifestação #EleNão46 em repúdio ao candidato a presidência Jair Bolsonaro, que esteve presente por cidades brasileiras em 29 de setembro de 2018, configurando a maior manifestação de mulheres na história do país. Essa manifestação contou com a ampla participação de mulheres, em diversas regiões do Brasil e em países do mundo, fruto de uma ideia que surgiu no grupo de Facebook “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro”, que tem hoje 3,88 milhões de membros. A partir disso, o movimento viralizou pelas redes. Mulheres anônimas e famosas, brasileiras e estrangeiras, começaram a postar a hashtag nas redes sociais, entre elas, a cantora Madonna. O movimento tomou uma amplitude, nunca antes
imaginada, resultado de uma popularização de um público heterogêneo e complexo nas redes sociais, liderado por um público feminino jovem, que tem buscado uma politização sobre temas importantes na pauta feminista.
Essa não foi a primeira vez que as redes sociais impulsionaram movimentos feministas no Brasil. Em março de 2014 surgiu uma das primeiras hashtags feministas nacionais, a #NãoMereçoSerEstuprada47. Em 2015, foi a vez de #PrimeiroAssédio48 e #MeuAmigoSecreto49. Nesse mesmo ano, várias mulheres convocaram protestos pelo Brasil contra o PL 5.069, de autoria do então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que dificultava a realização do aborto em casos de estupro. No final 2017, o #MeToo50 viralizou fora do Brasil e também aportou por aqui.
A mobilização dos grupos minoritários, seja através da internet ou por meio de movimentos sociais, é um reflexo de como esses grupos foram invisibilizados e silenciados pelo Estado e por setores da sociedade civil, e, por esse motivo, buscaram outras alternativas e ferramentas para a garantia de seus direitos.
Os movimentos por direitos civis, nos anos 60, tal qual a longa luta das mulheres por reconhecimento enquanto sujeitos autônomos desvinculadas da tutela masculina compõem as trajetórias comuns dos grupos subalternos que numa posição de subordinação na hierarquia social tiveram de buscar visibilidade por fora do escopo da política convencional, o que não significa o abandono desta última por completo, embora, o neoliberalismo tenha
47#NãoMereçoSerEstuprada foi um protesto que surgiu na internet em 2014, pela jornalista Nana Queiroz, contra
o resultado da pesquisa do Ipea divulgada naquele mesmo ano, que constatou que 65% dos brasileiros acham que "mulher de roupa curta merecia ser atacada".
48#PrimeiroAssédio foi uma campanha criada pela Ong feminista Think Olga, em 2018, em apoio à menina de
12 anos que foi alvo de comentários de cunho sexual na internet durante sua participação em um reality show de culinária. A campanha teve como intuito que as usuárias compartilhassem nas redes sociais, a partir do uso da
hashtag #Primeiro Assédio, suas experiências e histórias na qual foram vítimas, ainda na infância, de assédio
sexual. O resultado foi surpreendente, e 3.111 histórias foram compartilhadas via Twitter, chegando à triste constatação que a idade média do primeiro assédio é de 9/7 anos.
49#MeuAmigoSecreto: surgiu espontaneamente no Twitter no final de 2015, fazendo uma analogia com a
brincadeira típica de final de ano, o amigo oculto. A campanha expôs atitudes machistas que passam despercebidas no cotidiano e que são naturalizadas. Na época, mulheres compartilharam experiências que vivenciavam até mesmo por pessoas próximas de seu círculo de amizade e que evidenciam o quanto o machismo está presente na sociedade. A campanha contou com ampla participação das mulheres na época, inclusive com mulheres da política como Jandira Feghali (PCdoB RJ) e Luciana Genro (PSOL).
50#MeToo: essa expressão surgiu em 1996, pensada pela ativista Tarana Burke, que lutava pelo empoderamento
de jovens negras. Na época, em 1996, a ativista foi surpreendida pelo relato de uma menina que desabafou sobre os abusos que sofria de seu padastro. Depois de ter ouvido o relato da menina, Tarana Burke não teve coragem de falar “eu também”, o que desencadeou em um remorso grande na ativista que, anos depois, em 2017, propagou o movimento #MeToo, como uma forma de criar empatia entre as vítimas de assédio. Muitas mulheres usaram essa hashtag, inclusive atrizes de Hollywood, para denunciar os abusos sofridos, popularizando a nível mundial o movimento, que apresentou como um ponto positivo, ter sido adotado por homens, com o intuito de discutir o respeito e a igualdade entre os sexos.
fragilizado o poder estatal enquanto veículo de empoderamento dos cidadãos e da justiça social. (FRASER, 2009, p. 27).
A partir do processo mencionado anteriormente, constatamos que a luta pela organização desses grupos minoritários se deu muito antes do surgimento da internet, porém, esse meio serviu como uma intensificação do movimento, constituindo uma forma de conexão entre indivíduos que compartilham identidades, crenças e valores, permitindo o acesso a diversos temas e a criação de comunidades digitais para debatê-los. Esses mecanismos adotados por diversos coletivos fortalecem seus discursos e propagam suas ideias em vários âmbitos da sociedade. Devido à descrença com a política, por conta da ausência de iniciativas públicas que atendessem as pautas desses grupos, os movimentos têm se engajado em outros espaços, que apresentam uma conexão com o que acreditam e defendem:
A resistência dos cidadãos em dialogar com as instituições recai como responsabilidade destas últimas, caracterizadas pela ausência de credibilidade e por performances ultrapassadas, inconsistentes com o hall de possibilidades adquiridas com o desenvolvimento das novas tecnologias de informação e comunicação (BENETT, 2008, p. 2-3).
Assim sendo, percebemos uma preocupação dos movimentos sociais em fazer políticas no seu cotidiano, sendo favorecidos pelas múltiplas possibilidades ofertadas pelo meio virtual e o seu poder de abrangência. O movimento feminista faz uso dessa multiplicidade produzindo conteúdos nos canais presentes na internet, possibilitando um protagonismo, onde, as usuárias nesse contexto, são ativistas atuantes. Os coletivos, blogs e grupos que surgiram na internet unem usuários segundo ideias, valores, possibilitando uma interação e uma construção de diálogo, resultando em um engajamento democrático dos indivíduos. Val Franco (2017) ratifica esse processo na medida em que:
Dada a autonomia e agência às usuárias de controlarem publicações em comunidades que participam ou em seus perfis e blogs, se intensifica uma dinâmica com as mídias que tende mais à expressão, performance e colaboração do que à simples recepção e processamento da informação como era o caso de meios tradicionais de comunicação, os jornais, a TV e o rádio, em que os indivíduos eram apenas espectadores com pequenas brechas de interlocução. (VAL FRANCO, op. cit., p. 30).
O Coletivo Mete a Colher51, que se originou na internet em março de 2016, é símbolo de resistência e da luta de mulheres engajadas no combate à violência contra elas,
promovendo uma rede de solidariedade e assistência a mulheres vítimas de violência doméstica. A iniciativa surgiu com cinco jovens de Recife, que resolveram criar um canal no Facebook onde as vítimas de violência doméstica pudessem buscar um apoio e uma ajuda