4 ENCAMINHAMENTO METODOLÓGICO
4.4 TECNICAS E INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS
Neste estudo, foram escolhidos como técnicas para a coleta de dados o memorial descritivo e a entrevista semiestruturada.
O memorial descritivo é uma autobiografia que descreve, analisa e critica acontecimentos sobre a trajetória acadêmico-profissional e intelectual do profissional. Nesse caso, será usado o memorial como técnica para que o docente fale sobre a sua vida profissional, sua experiência de vida, sua escolha como profissional docente e a sua experiência com a docência online.
Elaborar um memorial descritivo é reconstituir a própria existência. Essa não é uma tarefa fácil, pois, na opinião de Moraes (1992), o memorial é um retrato crítico do indivíduo visto por múltiplas facetas através dos tempos, o qual possibilita inferências de suas capacidades. De acordo com Boaventura (1995, p. 15) “memorial é não somente crítico, como autocrítico do desempenho acadêmico do profissional. Crítica que conduz forçosamente à avaliação dos resultados obtidos na trajetória da carreira científica”.
Discorrendo sobre biografia, Bakhtin (1992, p. 166) afirma que o valor biográfico “pode ser o princípio organizador do que eu mesmo tiver vivido, da narrativa que conta a minha própria vida, e pode dar forma à consciência, à visão, ao discurso, que terei sobre minha própria vida”. Uma visão que, segundo o autor, não se constrói sem a participação de outros.
Para Bakhtin (1992, p. 166), o autor da biografia é o outro possível, que se encontra presente em todos os momentos em que o sujeito busca reconstrução de uma vida exterior para si: “é o outro possível que penetrou em minha consciência e que com frequência me governa a conduta, o juízo de valor e que, na visão que tenho de mim, vem colocar-se ao lado do meu eu-para-mim”.
Assim, ao relatar situações vividas, o sujeito objetiva-se por intermédio dos outros, os quais que fornecem a referência para a maneira de olhar para os eventos narrados.
Daí vale perguntar: é possível estabelecer algum tipo de distinção entre o sujeito da narração e aquele da vida vivida? As considerações de Bakthin sobre a autobiografia nos levam a pensar que sim,
pois mesmo que o sujeito que relata tenha como matéria a própria vida, ainda assim, a narração não se confunde com a vida vivida. No relato autobiográfico, organiza-se uma representação que o sujeito faz da sua vida. A narrativa implica, portanto, a construção de uma perspectiva a partir da qual o sujeito se olha, se fala, e fala sobre os outros e sobre o seu trabalho (Bakthin, 1992, p. 165).
Outro instrumento selecionado para coletar os dados foi a entrevista semiestruturada, que, de maneira flexível, permite ao entrevistado estruturar as ideias referentes ao foco de pesquisa do entrevistador. As entrevistas serviram como uma das informações da triangulação de dados, acrescentando ainda o memorial descritivo e as salas virtuais em que se tem a manifestação do profissional docente em seu processo de atuação no ambiente.
A interação que acontece entre os sujeitos envolvidos no processo da entrevista direciona para a construção de significados, pois o entrevistador possui conhecimentos sobre a temática a ser desenvolvida, e a situação exige uma organização do pensamento de forma que o momento da entrevista seja profícuo e possibilite ampliação de ideias e conhecimentos. Szymanski (2002) considera que o processo interativo resultante da entrevista é complexo e tem caráter reflexivo, ou seja, “refletir a fala de quem foi entrevistado, expressando a compreensão da mesma pelo entrevistador e submeter tal compreensão ao próprio entrevistado, é uma forma de aprimorar a fidedignidade” (SZYMANSKI, 2002, p.15).
Szymanski (2002) explica que a reflexividade se relaciona a dois aspectos: 1) como ferramenta que ajuda na construção de uma relação mais horizontal / simétrica entre pesquisador / pesquisado; 2) permite ao entrevistador analisar a compreensão que o pesquisado atribui à sua fala, de forma a garantir uma maior fidelidade aos significados por ele expresso nas entrevistas. O pesquisador, ao deparar-se com a própria fala, na fala do pesquisado, depara outro movimento
reflexivo, pode retomar o tema discutido, construindo uma nova narrativa, até com significados distintos do primeiro momento em que a entrevista foi realizada.
Conforme Triviños (1987, p.146), “a entrevista semiestruturada valoriza a presença do investigador, oferece todas as perspectivas possíveis para que o informante alcance a liberdade e a espontaneidade necessárias, enriquecendo a investigação”.
Ainda para esse autor (1987, p. 146), a entrevista semiestruturada tem como característica questionamentos básicos que são apoiados em teorias e hipóteses que se relacionam ao tema da pesquisa. Os questionamentos dariam frutos a novas hipóteses surgidas com base nas respostas dos informantes. O foco principal seria posto pelo investigador-entrevistador. Complementa o autor afirmando que a entrevista semiestruturada “... favorece não só a descrição dos fenômenos sociais, mas também sua explicação e a compreensão de sua totalidade ...”, além de manter a presença consciente e atuante do pesquisador no processo de coleta de informações (TRIVIÑOS, 1987, p. 152).
Para Manzini (1990/1991, p. 154), a entrevista semiestruturada está focalizada em um assunto sobre o qual se confecciona um roteiro com perguntas principais, complementadas por outras questões inerentes às circunstâncias momentâneas à entrevista. Para o autor, “esse tipo de entrevista pode fazer emergir informações de forma mais livre e as respostas não estão condicionadas a uma padronização de alternativas”.
Além dos tipos de perguntas apresentados, Triviños (1987) distingue quatro categorias: 1) perguntas denominadas consequências, por exemplo, “o que pode significar para a comunidade urbana, na qual vive a grande quantidade de pessoas, quem não sabe ler nem escrever?”; 2) perguntas avaliativas, do tipo “como julga a resposta da vizinhança ao convite para participar da organização de uma cooperativa?”; 3) questões hipotéticas, tais como: “se você observasse que seus alunos brigam frequentemente entre si, qual seria seu comportamento como professor?”; 4) perguntas categoriais: se você observasse as respostas de seus vizinhos ante a possibilidade de organização de uma cooperativa, em quantos grupos nós poderíamos classificá-los”. Conclui o autor salientando que as categorias de perguntas não deveriam ser amarras para entravar a pesquisa, mas para abrir perspectivas para análise e interpretação de ideias.
Nessa pesquisa, para refletir sobre os resultados, utilizar-se-á a análise de conteúdo segundo Laurence Bardin. Bardin (2010), na sua obra, descreve a história da “análise de conteúdo” afirmando que
é essencialmente referenciar as diligências que nos Estados Unidos marcaram o desenvolvimento de um instrumento de análise de comunicações é seguir passo a passo o crescimento quantitativo e a diversificação qualitativa dos estudos empíricos apoiados na utilização de uma das técnicas classificadas sob a designação genérica de análise de conteúdo; é observar a posteriori os aperfeiçoamentos materiais e as aplicações abusivas de uma pratica que funciona há mais de meio século (BARDIN, 2010, p. 15).
Assim a autora reflete sobre a composição histórica, mas ressalta que se torna necessário pôr em questão as suas condições de aparecimento e de extensão em diversos setores das ciências humanas, sobretudo pela classificação que emerge das relações de análise do conteúdo, e não com disciplinas vizinhas pelo seu objeto ou pelos seus métodos Bardin (2010), antes de analisar as técnicas modernas do século 20 (operacionais pelas ciências humanas) perpassa por um breve passeio pela hermenêutica, retórica e lógica – práticas anteriores à análise de conteúdo.
Algumas intercorrências afetam a investigação e a prática da análise de conteúdo. Para Bardin (2010), a primeira é a recusa do uso do computador; a segunda é o interesse pelos estudos inerentes à comunicação visual; a terceira é a inviabilidade de precisão dos trabalhos linguísticos. Assim, a autora utiliza como marco, após meados dos anos setenta, a importante proliferação dos computadores pessoais e as experiências em inteligência artificial, aumentando, nesse contexto, a esperança nas possibilidades informáticas. Porém, a análise de conteúdo multiplica as aplicações ao concentrar-se na transposição informática, em matéria de inovação metodológica. “Mas observa com interesse as tentativas que se fazem no campo alargado da análise de comunicações: lexicometria, enunciação linguística, análise de conversação, documentação e base de dados, etc” (BARDIN, 2010, p.27).
Bardin (2010, p.20) conceitua a análise de conteúdo como uma “técnica de investigação que tem por finalidade a descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto da comunicação”.
Nesse tipo de análise, a autora aponta como pilares a fase da descrição ou preparação do material, a inferência ou dedução e a interpretação. Dessa forma, os principais pontos da pré-análise são a leitura flutuante (primeiras leituras de contato - os textos), a escolha dos documentos (no caso, os relatos transcritos e o memorial descritivo), a formulação das hipóteses e objetivos (relacionados com a temática), a referenciação dos índices e elaboração dos indicadores (a frequência de aparecimento) e a preparação do material. Por isso, todas as entrevistas foram registradas por meio de gravação em áudio, transcritas na íntegra e autorizadas pelos participantes. Ademais, os textos passaram por pequenas correções linguísticas, não eliminando, porém, o caráter espontâneo das falas. Para o tratamento dos dados, a técnica da análise temática ou categorial foi utilizada e, de acordo com Bardin (2010), baseia-se em operações de desmembramento do texto em unidades, ou seja, descobrir os diferentes núcleos de sentido que constituem a comunicação e posteriormente realizar o seu reagrupamento em classes ou categorias. Assim, na fase seguinte, exploração do material, tem-se o período mais duradouro: a etapa da codificação, na qual são feitos recortes em unidades de contexto e de registro; a fase da categorização, na qual os requisitos para uma boa categoria são: exclusão mútua, homogeneidade, pertinência, objetividade, fidelidade e produtividade. Já a última fase, do tratamento e inferência à interpretação, permite que os conteúdos recolhidos constituam dados quantitativos e/ou análises reflexivas, em observações individuais e gerais das entrevistas e do memorial descritivo.
Para o encaminhamento da análise de dados, foram definidos os seguintes códigos e categorias, apresentados no Quadro 8, conforme esquema de descrição sugerido por Meyer (2010):
Quadro 8 – Códigos de análise
CÓDIGO EXPLICAÇÃO FINALIDADE
Ser professor - Trajetória
Por que escolheu a profissão de professor?
O objetivo era identificar se escolheu a profissão por desejo, influência da
família, outro motivo. Ser professor –
Importância
social Visão que tem da profissão.
O objetivo era distinguir se tem uma visão positiva ou negativa da profissão. Ser professor -
Desafios magistério e na formação. Desafios na carreira de Identificar as opiniões, as experiências em ser docente. Ser professor –
na EaD
As experiências na EaD, a atuação; se o fato de estar na EaD, o uso tecnológico modificou
Dados para analisar como os docentes se sentem no ambiente em EaD, proporciona ganhos ou perdas à
a prática em sala de aula. docência. Ser professor –
Estímulo e Desestímulo
O estímulo para experenciar a
modalidade da EaD. Por que entrou na modalidade EaD. Ser professor -
Formação
A formação ajudou a desempenhar melhor o papel na
vida profissional.
Como vê a própria formação para desempenhar o seu papel na docência na modalidade presencial ou a distância. Ser professor -
papéis Como vê a docência na EaD em seus diversos papéis. Como os participantes exercem o seu papel e o que acham dele. Ser professor –
Metodologia UAB
Como o docente vê a metodologia da UAB na sua
prática docente.
Verificar os aspectos positivos e negativos da metodologia UAB na
prática docente. Ser professor –
Presencial X EaD
O docente nas diferentes
modalidades. O que é ser professor, a sua identidade nas diferentes modalidades. Fonte: A autora (2012).