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4 A MODA ALÉM DA ROUPA

4.5 TECNOLOGIA, CORPO E MODA

Tornou-se imperativo ter um corpo camaleônico, sujeito initerruptamente às transformações aceleradas. As imagens promocionais do corpo mutante, em toda parte, evocam muitos modos em que esse objeto pode ser manipulado e agenciado, em nome de uma perfeição sempre distante e, talvez por isso mesmo, cada vez mais desejada (COUTO, 2012, p.120). O corpo na moda é transformado e apresentado das mais variadas formas. Na obra Discursos da Moda: Semiótica, Design e Corpo, Kathia Castilho e Marcelo M. Martins (2005, p.93) comentam que o corpo é uma das formas pelas quais o indivíduo se expressa; é um “reconstruir-se por meio de artifícios inéditos, geradores de significações”, que, para os autores, esses valores são oriundos da cultura

contemporânea, que através das diversas mídias incentivam e valorizam a imagem pessoal.

Como já apresentado anteriormente, no decorrer do século XX e nessas primeiras décadas do século XXI, o corpo passa a ser incentivado à modificação, seja por meio de procedimentos cirúrgicos ou por métodos estéticos, farmacêuticos, entre outros. E a moda faz parte dessa lógica de consumo, já que oferece símbolos que decodificam estilos de vida a ser seguidos, por meio de grandes marcas, com desfiles, publicidade, revistas e mais especificamente nos dias atuais, através das mídias sociais.

Não basta ter um corpo saudável e belo. É necessário reconstruí-lo sempre, adaptá-lo aos cânones disponíveis nos meios de comunicação especialmente na moda e na publicidade (COUTO, 2012, p.120).

Com certeza, o desenvolvimento tecnológico nos mais variados campos, como medicina, biologia, farmacêutica, etc. possibilita que o ato de pensar em um corpo modificado por aparatos tecnológicos torne-se algo mais comum.

A roupa e os acessórios não são os únicos a constituírem o corpo contemporâneo, mas também todas as possíveis modificações às quais ele está sujeito, e pelos mais variados métodos. Agora, possibilitando o questionamento desse corpo modificado por meio de dispositivos tecnológicos que podem alterar esteticamente o indivíduo, e também com a utilização de tecnologias que alteram a estrutura “original” do corpo humano, iniciou-se um processo cuja concepção física irá alterar a subjetividade do indivíduo, podendo, assim, pensar no “homem máquina”.

Para Avelar (2011, p.135), “o limite do corpo é testado e questionado milímetro por milímetro, ou melhor, nanômetro por nanômetro”, isto é, segundo a autora, essas novas tecnologias redefinem o humano, e, assim, o novo “corpo contemporâneo”.

Logo, na moda, por exemplo, há uma série de roupas tecnológicas que melhoram o desempenho em esportes e que facilitam a condição de adaptação em ambientes inóspitos, aumentando a capacidade de quem as utiliza.

Decerto, a gama de fibras e tecidos que são estudados e produzidos apresentam a consolidação da moda no mercado tecnológico, pois “agora a vestimenta é o objeto dessas novas tecnologias, e esses tecidos estão atuando na superfície dos corpos de maneira antes desconhecida”, afirma Avelar (2011, p.148).

Para a autora, a utilização dessas roupas inteligentes, que funcionam como uma “segunda pele supersensível”, auxilia a compreensão de que a vestimenta está além das significações advindas da subjetividade do indivíduo para um potente invólucro que permite que esse sujeito se modifique por meio de tecnologias acopladas ou desenvolvidas na peça.

Precursor na utilização de tecnologia nas roupas, Hussein Chalayan, em seu desfile em primavera-verão 2007, trouxe às passarelas roupas conectadas por meio de fios e aparatos eletrônicos que, ao longo do evento, mudavam suas formas, transformando-se em peças diferentes e futurísticas. As criações vanguardistas de Chalayan são sempre reverenciadas pelo alto grau de criatividade e inovação.

Figuras 29 – Vestido da coleção de Hussain Chalayan.

Fonte: Hussain Chalayan, Airbone (2007). Coleção Primavera-Verão.

Figura 30 - A parte interna do vestido referente à Figura 29.

Trabalhos como este citado acima tornaram-se mais comuns no mundo da moda. Chalayan foi o pioneiro na criação dos wearables (tecnologias vestíveis), que mais uma série de estilistas e grandes marcas utilizam do desenvolvimento no setor têxtil das mais diversas tecnologias para melhorar não só o desempenho e a qualidade das roupas, como atrelar a utilização de materiais e resíduos focando em um mundo sustentável.

Além do grande mercado que vem se consolidando na criação dessas roupas tecnológicas, a tecnologia passa a ser motivo de reflexão nos grandes desfiles da moda, como a coleção de primavera-verão 2017 da grife Chanel, cujo desfile foi ambientado em uma gigante base de dados.

Figura 31 – Desfile abordando reflexões sobre tecnologia, Chanel.

Fonte: Chanel, Printemps por Karl Lagerfeld (2016). Coleção Primavera-Verão 2017.

Iniciado com duas modelos com cabeças de Stormtroopers – os soldados do filme “Guerra nas Estrelas” – fez-se uma menção à sequência de filmes que fazem parte de um grande marco tecnológico nos efeitos especiais. Vestindo o mais famoso tailleur da Chanel, o desfile foi marcado por uma sequência de combinações entre referências clássicas da marca – nos tecidos e nas modelagens – e um toque futurístico, mas com muitas cores.

Nesse desfile, o estilista Karl Lagerfeld (1933-2019) buscou trazer à reflexão o quão presente a tecnologia está no cotidiano das pessoas, mostrando que a utilização dos dispositivos portáteis era só o começo, sendo que a seguir vêm a inteligência artificial e os robôs.

Em 2018, a tecnologia voltou a ser tema de reflexão em uma outra grande grife da moda, dessa vez na gigante Gucci – os produtos da marca estão entre os mais vendidas do mundo, sendo uma das mais rentáveis do universo da moda. Em sua coleção outono-inverno 2018, o diretor criativo da marca, Alessandro Michele, trouxe para as passarelas um desfile inspirado no ensaio de 1985, da bióloga- filósofa Donna Haraway, o manifesto do ciborgue. Nesse desfile, ambientado em uma espécie de sala cirúrgica, trouxe à tona uma discussão do famoso ensaio filosófico de Haraway, que é muito utilizado por diversos autores para falar das questões do ciborgue contemporâneo. Em uma citação da reportagem do site Huffpost Brasil11, Alessandro Michele diz:

Gucci Cyborg é pós-humana: tem olhos nas mãos, chifres de fauno, filhotes de dragão e cabeças duplicadas. É uma criatura biologicamente indefinida e culturalmente ciente. O último e extremo sinal de uma identidade miscigenada em constante transformação (ROSA, 2018).

Para Michele, o humano está a caminho do seu próximo passo, de se transformar em pós-humano. Esta abordagem do estilista sobre o ciborgue e o pós- humano está também relacionada à facilidade de se recorrer a procedimentos cirúrgicos que alteram o corpo nas mais variadas formas. No desfile, o estilista abordou o tema com uma apresentação inusitada em que uma modelo desfila com um terceiro olho, mas também havia algumas com chifres e outras segurando bolsas feitas por impressoras 3D que reproduziam a cabeça de quem a estava desfilando. Indubitavelmente, Alessandro Michele utiliza dos exageros do mundo fantástico para refletir acerca dos possíveis caminhos que a influência tecnológica terá sobre o corpo humano.

As peças apresentadas na coleção são repletas de sobreposições, algumas referências dos anos 1980, muito xadrez e brilho, com peças que misturavam alfaiataria, vestidos e modelagens exageradas. Alguns modelos desfilaram com capas sobrepostas, sugerindo que os corpos estavam embalados.

Por meio dessa coleção, é plausível compreender um dos caminhos possíveis da moda contemporânea, o local das criações, experimentações e reflexões fomentadoras de debates que vão além do design das roupas e dos acessórios.

                                                                                                               

11 Citação disponível em: https://www.huffpostbrasil.com/2018/02/22/o-desfile-da-gucci-em-milao-e-o-

manifesto-ciborgue-de-donna-haraway_a_23368497/  

Figuras 32 e 33 – Desfile da Gucci inspirado no Manifesto do Ciborgue

5 DO CIBORGUE AO INDIVÍDUO PÓS-HUMANO: A CAMINHO DA FILOSOFIA