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2 Produção convencional de moradias dos pobres no Brasil

2.1 Produção de interesse social hegemônica

2.1.3. Tecnologia e trabalhadores em transformação

Ao contrário do que faz parecer o discurso consagrado de estagnação e atraso, Farah aponta que historicamente “a construção tem experimentado uma série de transformações, tanto no plano tecnológico como no organizacional”.88 Para esse

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86 MARICATO, Indústria da construção: reflexão sobre o “atraso tecnológico”, 1986, p.122.

87 OLIVEIRA, Crítica à razão dualista: o ornitorrinco, 2003; O vício da virtude: autoconstrução e acumulação capitalista no Brasil, 2006, p.71.

88 FARAH, Processo de trabalho na construção habitacional: tradição e mudança, 1996, p.135. A autora faz a análise das principais mudanças no processo de trabalho do subsetor de construção habitacional diante da crise dos anos 1980. Para isso, ela também expõe as transformações tecnológicas e organizacionais anteriores.

exame, a autora expõe modificações no emprego de técnicas e da organização do trabalho da construção civil, a exemplo do processo de transição das atividades construtivas de edificações autoproduzidas para a formação de um mercado da construção propriamente. Em síntese ao seu resgate histórico, também amparada por outros autores — Ferro, Vargas e Santos, sobretudo —, pontuo aqui algumas das transformações que se aplicam aos arranjos produtivos da construção (mão de obra, técnicas e produtos), com ênfase na produção habitacional.

Farah parte da descrição da produção das construções no período colonial.

Realizadas em técnicas tradicionais vernáculas em terra crua (taipa de pilão, pau-a-pique, adobe), as casas populares desse momento consistiam em construções térreas ou assobradadas com plantas uniformes, majoritariamente autoproduzidas com mão de obra escravizada, ou ainda, com menor participação, de trabalhadores livres de corporações de ofício.89 Esses últimos, empregados em atividades menos dispendiosas de força bruta.90 Nessas corporações, os trabalhadores eram qualificados para exercer trabalhos de carpintaria, pedra e ferro por meio de um processo de difusão de conhecimentos. Era na prática dos ofícios, uma vez decorrido o período de instrução, que os aprendizes formados pelos artesãos passavam a assumir funções assalariadas de obreiro ou oficial para só então se submeterem a exames para obtenção do título de mestre. O período foi também assinalado pelo baixo emprego de materiais produzidos externamente ao canteiro de obras, configurando, como mencionado, a predileção por materiais locais que resultavam na ausência de ramo ligado à produção de componentes ou elementos construtivos.

Posteriormente, já no começo do século XIX, a chegada da família real e a abertura dos portos impulsionaram o país ao emprego mais amplo de técnicas com uso de tijolos cozidos (produzidos fora do canteiro) e de materiais e componentes vindos do exterior, esses últimos, especialmente, para a construção de habitações burguesas. Nesse momento, em decorrência da inauguração da Escola de Belas Artes, precursora do ensino técnico artístico no país,91 teve início “um processo de

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89 Já as casas burguesas, contam também com técnicas em pedra, barro e eventualmente em tijolo e cal.

90 A autora expõe que as corporações de ofício, por conta do escravismo, enfrentam dificuldades para se estabelecer no Brasil, permanecendo ativas somente até o início do século XIX.

91 Santos explica que a primeira proposta, de Lebreton, incluía o ensino técnico, mas a Academia que foi de fato fundada privilegiava a dimensão artística, ainda que da Missão Francesa tomassem parte artífices de ferro, couro etc. Já o ensino técnico (engenharia de fortificações e fabricação de pólvora) ficou a cargo da Escola Central, que se tornou Escola Politécnica e depois Escola de

formação profissional de caráter formal, distinto do que caracterizava as corporações”, com rebatimentos inclusive nas atividades de construção.92

Mas é com a expansão da economia cafeeira que se assinala uma ruptura mais profunda nos processos construtivos.93 Ruptura essa que trata especialmente da transição do trabalho escravizado ao assalariado, que passa então a contar especialmente com emprego de mão de obra imigrante num momento coincidente com a crescente relevância das cidades e do trabalho industrial do país.94 Nesse contexto, os planos de renovação urbana que se aplicam à São Paulo e ao Rio de Janeiro influenciam a demanda por obras de edificações e de mesoestrutura urbana.95 Diante dessas e outras demandas por obras no período,96 ocorreu diversificação seguida da segmentação das diferentes atividades construtivas.

Assim, num processo lento, a construção deixou de se organizar majoritariamente por autoprodução e passou a ter caráter independente.

É também nesse cenário de expansão urbana que os maiores centros evidenciavam um processo de segregação social estendido às habitações. A desigualdade social era patente tanto na separação entre bairros burgueses e bairros operários, quanto nas moradias que passavam a se diferenciar por tipo e padrão construtivo. De um lado, teve origem o mercado de construção de moradias de alto padrão, voltado para as elites, de outro, de moradias de aluguel,

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Engenharia da Universidade do Brasil, hoje UFRJ (SANTOS, A armação do concreto no Brasil:

história da difusão da tecnologia do concreto armado e da construção de sua hegemonia, 2008).

92 FARAH, Processo de trabalho na construção habitacional: tradição e mudança, 1996, p.138.

93 A afirmação procede de um recorte um tanto “sudestecêntrico”, visto que grande parte dos autores aqui citados tratam sobretudo da realidade de São Paulo. Em contraposição, Santos explica que Vauthier, por exemplo, provocou muitas mudanças na construção de edificações e na organização do canteiro, no Recife, a partir de 1846. (SANTOS, A armação do concreto no Brasil:

história da difusão da tecnologia do concreto armado e da construção de sua hegemonia, 2008).

94 Em suma, depois da Lei de Terras (1850) o capital invertido em escravizados migra para a terra.

A partir desse momento é que se compreendeu que a construção de cidades era um bom negócio, pois literalmente criava a base para a acumulação capitalista. É nesse sentido que outras cidades, a exemplo de Recife e Juiz de Fora vão promover reformas ou mesmo serem construídas do zero, como é o caso de Belo Horizonte.

95 Adoto ‘mesoestrutura’ em substituição ao termo ‘infraestrutura’. Segundo classificação proposta pelo geólogo Edézio Teixeira de Carvalho em “Geologia urbana para todos: uma visão de Belo Horizonte” (1999), mesoestrutura se refere ao sistema que faz transição entre a base físico-natural (infraestrutura) e as construções/edificações (superestrutura). Logo, mesoestrutura é denominação que compreende sistemas de esgotamento sanitário, pavimentação, drenagem, iluminação e demais suportes ao funcionamento das superestruturas.

96 Obras viárias, de portos, usinas etc.

em resposta ao público de trabalhadores imigrantes europeus e migrantes do campo que se instalam nessas cidades.97

O adensamento dos principais centros urbanos no fim do século XIX, evidência da omissão do Estado, foi acompanhado da presença crescente de habitações precárias, as casas incompletase os cortiços.98 Sob um discurso higienista, camuflado somente de “preocupação com as más condições de higiene desse tipo de habitação”,99 o Estado, apoiado por camadas dominantes da sociedade, impôs novas medidas ao ordenamento dos assentamentos informais. Legitimadas por técnicos,100 essas medidas eram vistas tanto em códigos sanitários que determinavam aspectos de salubridade dos edifícios – como a altimetria das edificações em relação às vias, a espessura mínima das paredes e a impermeabilização da construção – quanto na exigência de demolição dos cortiços, em parte substituídos por “vilas operárias higiênicas”. 101 Cabe dizer ainda que essas vilas recebiam incentivos para serem produzidas por produção estatal.

De maneira geral, as práticas higienistas eram parte de um “esforço modernizador”

que se estende também às regulações urbanas (traçados viários, mesoestrutura etc.).102 Ampliava-se assim a intervenção e o controle do poder público que não ficavam somente restritos à produção das habitações operárias como também recaíam sobre a vida privada ao incutir o ideário de ordem e salubridade num novo padrão construtivo e espacial de moradia. Em que pese o discurso de melhoria das condições da população, na prática, a proibição dos cortiços elucidava “como o Estado (regulador/legislador urbano) age em nome da técnica, da higiene, para favorecer interesses privados”.103

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97 Ibidem.

98 SANTOS, A armação do concreto no Brasil: história da difusão da tecnologia do concreto armado e da construção de sua hegemonia, 2008.

99 FARAH, Processo de trabalho na construção habitacional: tradição e mudança, 1996, p.139-140.

100 Santos aponta a colaboração da Escola Politécnica de São Paulo (1893) no aperfeiçoamento dos códigos higienistas. Isso indica que essas mudanças são acompanhadas por um reconhecimento e ampliação do domínio técnico sobre a produção das habitações. (SANTOS, A armação do concreto no Brasil: história da difusão da tecnologia do concreto armado e da construção de sua hegemonia, 2008).

101 Ibidem, p.90.

102 Ibidem.

103 MASCARENHAS, Fragmentos do Canteiro: a produção habitacional sob a ênfase da racionalização construtiva, 2015, p.46.

As ações promovidas pelo Estado, em conjunto com novos marcos regulatórios e, sobretudo, o processo de urbanização em curso, já no final do século XIX, foram determinantes para o incremento da demanda por habitações populares. Essas últimas, em particular, absorvidas pela recém surgida “empresa construtora nacional” em substituição à expressiva autoprodução que predominava até então.104 Sobre a origem da empresa construtora nacional, Farah aponta que

“decorreu de um longo processo de transição da autoprodução (atividade de construção centrada no valor de uso) para a produção para o mercado (centrada no valor de troca)”, entretanto ela enfatiza que somente no começo do século XX é que “se difundiu a produção para o mercado, baseada em uma organização empresarial, na qual a valorização do capital empregado passa a ser um elemento central à atividade de construção”.105 Nesse sentido, a construção da habitação passou a constituir por ela mesma atividade relevante e a ter caráter autônomo no arranjo das atividades produtivas necessárias para esse fim. Em detrimento da autoprodução, a produção habitacional que se iniciou nesse momento se revelava produção capitalista, isto é, a moradia passou a ter efetivamente caráter de mercadoria.

Sem surpresa, essa mudança foi seguida pela reorganização do processo de trabalho, em que foi significativo o fracionamento entre construção e fabricação de componentes construtivos, por sua vez, acompanhado do uso mais amplo de materiais e componentes fabricados externamente ao canteiro e da propagação do tijolo de barro cozido (especificamente em São Paulo) e de telhas de barro.

Santos explica que entre 1850 e 1990 houve um período de consolidação da alvenaria que passou então a ser a técnica construtiva mais utilizada nas principais cidades do país.106 É central, portanto, evidenciar o papel que medidas e códigos técnicos higienistas exerceram na transição das técnicas tradicionais em terra crua para um uso mais difundido de novos materiais e elementos construtivos.

Sob a influência de legislação higienista e de um mercado produtor de materiais,

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104 Segundo Farah: “A moradia de aluguel foi a forma hegemônica de habitação popular até os anos 40, quando a autoprodução voltou a ganhar importância, para as camadas populares, mas inserida num novo contexto social e econômico” (FARAH, Processo de trabalho na construção habitacional: tradição e mudança, 1996, p.142).

105 Ibidem 141-142.

106 Contudo, em algumas cidades do nordeste, como é o caso de Recife, o tempo de transição das técnicas em terra crua, a exemplo da taipa, para a alvenaria é mais longo, na qual só se torna majoritária a partir de 1920 (SANTOS, A armação do concreto no Brasil: história da difusão da tecnologia do concreto armado e da construção de sua hegemonia, 2008).

naturalizada mais “higiênica”, a alvenaria se firmou como a técnica da produção de moradias no país.

A consolidação da alvenaria nos centros urbanos foi também resposta técnica às habilidades dos muitos imigrantes europeus que incorporaram a mão de obra da construção. “A técnica construtiva da alvenaria de tijolos é dominada por estrangeiros, principalmente italianos, portugueses e alemães”.107 Assim, o período foi marcado pela contratação de mão de obra assalariada, com o estabelecimento de uma nova categoria de trabalhadores denominados operários da construção.108 Essa contratação foi feita pelas primeiras construtoras em substituição aos escravizados e aos artesãos independentes. Os operários da construção se caracterizavam especialmente “por seu padrão cultural [...], combativo e sua capacidade de mobilização”.109 Essas qualidades podem ser atribuídas à organização do trabalho exigente de habilidades individuais e, por consequência, ao controle desses trabalhadores sobre os processos de trabalho, à herança política dos imigrantes incorporados à essas atividades e à relação dos operários com as construtoras que os contratavam como empreiteiros remunerados ao final do serviço executado.

Mesmo que as atividades da construção desse momento mobilizassem trabalhadores muito qualificados e com autonomia sobre a produção, desde meados da década de 1900, passa a se observar “tendência de separação entre concepção e execução, através da cientifização da atividade de projeto”.110 Essa divisão é explicada pelo surgimento dos primeiros cursos de engenharia no país.

Inicialmente restritas à construção pesada (obras viárias, por exemplo) as práticas de cientifização foram aos poucos também incorporadas às obras de edificações e aos seus projetos.111 Em adição ao que aponta Farah, Santos explica que mesmo

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107 Ibidem, p.91.

108 No geral, eram contratados como operários da construção civil profissionais com experiência prévia, como trabalhadores de outros ramos do setor ou formados nas corporações de ofício.

109 Essas características refletem, até os anos 1930, em salários intermediários quando comparados aos demais trabalhadores urbanos. (FARAH, Processo de trabalho na construção habitacional: tradição e mudança, 1996, p.144-145).

110 Ibidem, p.146.

111 Ruy Gama defende que é só a partir do século XIX, com a criação dos cursos de engenharia, que se pode falar de uma tecnologia da construção no Brasil, isto é, de uma disciplina científica que sistematiza os conhecimentos acerca da produção. Por esse motivo para ele, é necessário distinguir o termo técnica de tecnologia. (GAMA, História da técnica no Brasil colônia, 1992)

havendo espaço para a qualificação e o ensino profissional,112 no começo do século XX “o mercado de trabalho da construção se caracteriza por uma carência generalizada de profissionais qualificados e pela ausência de legislação de regulamentação profissional”.113 Se de um lado, ocorria o prevalecimento do saber-fazer e autonomia do trabalhador perante as atividades do canteiro, de outro, a falta de capacitação profissional; a formalização da profissão de engenharia; a introdução do projeto; e o rompimento com a tradição das corporações de ofícios parecem juntos impulsionar um processo de empobrecimento da formação empírica dessa mão de obra.

Foi a partir dos anos 1920, em observância às mudanças na legislação de uso e ocupação do solo para ampliação do potencial construtivo de novas áreas urbanizadas — resultadas na crescente verticalização dos centros urbanos e na ampliação das atividades construtivas— que a produção de edificações passou por novas configurações. Segundo Santos e Farah, a verticalização das construções estava nesse período atrelada à maior cientifização da construção edilícia,114 com interferência direta nos projetos e no setor produtor de materiais e componentes construtivos que passam a contar com testes e ensaios em laboratórios. Por sua vez, esse processo foi acompanhado de uma transferência do saber acerca dos materiais dos trabalhadores aos engenheiros e, com auxílio de legislação profissional, a um quadro de fragmentação mais evidente do controle do processo de construção pelos operários, que, particularmente, aplicou-se à produção habitacional. Mas esse quadro não chegou a romper definitivamente com a autonomia do trabalhador na execução das atividades sob sua responsabilidade no canteiro.

Ainda que se persistam as características da estrutura de ofícios, já no final dos anos 1920, visando a economia de custos, houve maior homogeneização e simplificação das moradias, processo que vem acompanhado da progressiva desqualificação dos profissionais da construção. Além disso, as novas configurações das edificações, que passaram a incluir instalações

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112 Santos aponta como entidades para formação profissional a Sociedade Propagadora da Instrução Popular (1873) e o Liceu de Artes e Ofícios (1882). (SANTOS, A armação do concreto no Brasil: história da difusão da tecnologia do concreto armado e da construção de sua hegemonia, 2008).

113 Ibidem, p.92.

114 FARAH, Processo de trabalho na construção habitacional: tradição e mudança, 1996; SANTOS, A armação do concreto no Brasil: história da difusão da tecnologia do concreto armado e da construção de sua hegemonia, 2008.

hidrossanitárias e elétricas, impuseram novos trabalhadores “especializados” às obras, que foram então absorvidos dentro da lógica pré-existente do canteiro manufatureiro.

Por sua vez, nos anos 1930 foram observadas outras mudanças significativas nos processos de trabalho da construção, em que pese a literatura da época sugerisse o contrário, consolidando o imaginário mencionado antes do atraso e da estagnação das técnicas vinculadas à produção de edificações. São apontadas como importantes fatores no surgimento de alterações estruturais na construção de edificações a “intensificação do processo de urbanização, a crescente importância e a diversificação de atividades tipicamente urbanas, a implantação de uma infra-estrutura que viabilizasse a industrialização e a redefinição do papel do Estado”,115 acrescidas pela demanda da construção de novas moradias populares diante do malsucedido modelo habitacional baseado no aluguel, que era até então predominante. As reivindicações da classe trabalhadora por habitação foram determinantes na colocação do Estado como responsável por esse atendimento, portanto, protagonista dessa produção. No entanto, nesse momento a ação do poder público é tímida e pouco eficaz diante do déficit que se alastra pelo país.

A Era Vargas (1920-1945), período político complexo e marcado por contradições,116 protagonizou nova onda migratória campo-cidade e uma estratégia de contenção da crise econômica que estava atrelada à industrialização e ao estabelecimento de normativas incentivadoras do uso de sistemas construtivos de concreto armado e cimento Portland.117 Um cenário que foi marcado pela consolidação de “um aparato institucional de regulamentos técnicos, urbanos e profissionais que seria inatingível para qualquer autoconstrutor, mestre-de-obras ou artesão, tornando ilegais os procedimentos tradicionais”.118 Em síntese, houve compulsória substituição das técnicas ________________________________

115 FARAH, Processo de trabalho na construção habitacional: tradição e mudança, 1996, p.151.

116 Periodizada em três momentos — Governo Provisório (1930-34), logo após a Revolução de 30;

Governo Constitucional (1934 [constituição]-1937); e o Estado Novo (1937-45) — a Era Vargas ao mesmo tempo em que centraliza no Estado o controle – especialmente da educação, das corporações profissionais, do mercado de obras públicas– ela também promove a construção dos fundamentos de todo o aparato legal de amparo ao trabalhador.

117 SANTOS, A armação do concreto no Brasil: história da difusão da tecnologia do concreto armado e da construção de sua hegemonia, 2008; KAPP &BALTAZAR, Metropolitan Vernacular: on the history of informal construction in a Brazilian City, 2012.

118 KAPP &BALTAZAR, Metropolitan Vernacular: on the history of informal construction in a Brazilian City, 2012, p.6 [tradução minha].

tradicionais (pau-a-pique, adobe, taipa), então centradas em habilidades manuais dos trabalhadores, para o concreto armado, exigente de conhecimentos técnicos muito específicos, dando origem a:

Um trabalhador em posição subordinada não poderia mais ascender ao topo da hierarquia, porque isso pressupunha uma formação acadêmica ou, pelo menos, uma difusão do conhecimento acadêmico em que os novos mestres [arquitetos e engenheiros] não tinham nenhum interesse. O que de fato se espalhou entre os trabalhadores foi a atitude dissimulada e competitiva, que caracteriza qualquer organização altamente hierárquica.119

A questão acima exposta não é um caso isolado de estratégia de desmobilização dos trabalhadores por meio de uma aparente “evolução” da tecnologia empregada na construção, como apontei antes. Ferro expõe que no fim do século XIX, na Europa, a ameaça do controle produtivo pelos operários teria imposto que a pedra e a madeira, materiais mais utilizados na produção artesanal e representativos dos sindicatos mais fortes do período, fossem substituídas pelo ferro e, mais tarde, pelo concreto.120 O que o autor esclarece é que a mudança dos materiais, muitas vezes, quando não sempre, vem acompanhada do discurso da neutralidade tecnológica. Na teoria, é como se a racionalização construtiva fosse uma resposta óbvia e necessária a uma inovação baseada em materiais tecnicamente superiores. Distante disso, sob controle do capital tais inovações acabam sendo usadas como “arma” contra os trabalhadores, ou seja, os alvos são justo aqueles que ainda se autodeterminam pelo monopólio de um saber-fazer.

Por consequência da omissão do Estado no atendimento à crescente demanda por habitação popular, no fim dos anos 1940, que foi quando o concreto armado já estava legitimado, as cidades vivenciaram um cenário de crescimento expressivo de ocupações informais com moradias autoproduzidas.121 Nesse interim, a partir da regulamentação das profissões de engenharia civil e arquitetura, “completou-se o deslocamento da responsabilidade pelo ato de construir para engenheiros e

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119 Ibidem, p.6.

120 FERRO, Concrete as Weapon, 2018.

121 Cabe dizer, que o capitalismo “à brasileira” sempre fez da negligência com a moradia um fator estrutural, pois desonera os salários da parcela relativa a ela. Em outras palavras, os salários jamais incorporaram a parte da reprodução relativa à habitação. Nesse sentido, o crescimento das cidades, equivalente à industrialização, é responsável por formar um exercício de trabalhadores sempre em número superior ao dos postos de trabalho, contribuindo assim para o rebaixamento dos salários baixos. Essa discussão será retomada na Seção 2.2.

arquitetos, detentores de um conhecimento técnico, em detrimento dos trabalhadores-empreiteiros, possuidores de um saber prático” e também a predileção por empresas de construção comandadas por engenheiros no lugar da contratação de trabalhadores com conhecimentos empíricos.122 Essa situação refletiu na progressiva substituição do saber prático pelo saber científico e na ampliação da fragmentação entre concepção e execução. Um saber científico, a frisar, que diz respeito ao planejamento e ao controle, isto é, à administração da obra. Já que na prática quem tinha domínio do saber-fazer eram os operários e esse mencionado saber-científico não ocupou o mesmo lugar no canteiro. De toda maneira, esse processo recaiu na fragilização do saber-fazer dos trabalhadores, ou seja, numa perda de conhecimentos sobre os processos de execução exigidos nos canteiros, que não chegam a ser efetivamente absorvidos pelos engenheiros.

Vargas expõe a circunstância de rebaixamento das habilidades da força de trabalho no campo da produção habitacional:

Na construção, a separação entre a concepção e a execução é por demais antiga. Particularmente na construção habitacional, já se encontra também bastante marcada essa separação. [...] na construção habitacional o trabalho encontra-se bastante parcelado. Os trabalhadores são executores de projetos que não sabem ler e cuja tradução é feita na sequência engenheiro-mestre-encarregado; a cada elo dessa transmissão de ordens o conhecimento vai restringindo-se a partes menores da construção. A figura do “oficial” guarda somente uma semelhança terminológica com relação ao uso desta palavra na antiguidade. O seu trabalho encontra-se bastante desqualificado e parcelado, restando-lhe somente o conhecimento de uma pequena parte da obra. As instruções são-lhe dadas para que execute o trabalho exatamente como é determinado pelos seus superiores.123

O cenário de esvaziamento de conhecimento do setor, iniciado em meados dos anos 1920, foi acompanhado da abertura de firmas especializadas, refletindo uma ainda maior fragmentação das atividades do canteiro de obras, o que é descrito por Farah como um “novo padrão de divisão do trabalho”.124 Se de um lado essas ações desembocaram numa ampliação da lacuna entre o conceber e o executar das obras, de outro não foram efetivamente empregados procedimentos de

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122 FARAH, Processo de trabalho na construção habitacional: tradição e mudança, 1996, p.145.

123 VARGAS, Racionalidade e não-racionalização: o caso da construção habitacional, [1979]1987, p.196.

124 FARAH, Processo de trabalho na construção habitacional: tradição e mudança, 1996, p.159.