A ORDEM MÉDICA E O MUNDO PATOLÓGICO
A PAISAGEM DA ASSISTÊNCIA : TECNOLOGIAS DO CORPO SOCIAL
1.3. TECNOLOGIAS DA NECESSIDADE : A FILANTROPIA
Na medida em que o problema da pobreza se desloca, o Estado começa a ser requisitado como um instrumento que deve interpelar em favor dos cidadãos e a garantir as necessidades dos verdadeiros pobres.
50 Discordo, nesse aspecto, portanto, de alguns trabalhos que tendem a colocar o período do liberalismo como uma época de inexistência da intervenção do Estado nas políticas de assistência, como é o caso de Imbert e de Staudler. Cf. IMBERT, J. Les hôpitaux en France. Paris : PUF, 1958 ; STAUDLER, F. L´hôpitaux en observation. Paris : Armand Colin, 1974.
51 A disposição da sociedade e do meio físico, a saúde perfeita dos cidadãos e o bem-estar do Estado começaram, no século XVIII a ser objeto de um mesmo aparelho que recebem, neste momento, o nome genérico Polizey (Polícia) O que chamamos de Polícia era, no século XVIII um conjunto de mecanismos capazes de assegurar a ordem e o bem-estar do Estado.Neste sentido, as condições de manutenção do estado de saúde da população também era tematizado como uma questão da Polícia. Em 1775 Johan Peter Frank sistematizou o conceito de Polícia Médica em sua obra System Einer Medizinischen Polizey. Cf. ROSEN. O Cameralismo e a trajetória do conceito de polícia médica (1789-1890). In: Op. cit, 171-1-90/
52 Derivado do grego politéia que significa “constituição” ou “administração”, o termo foi empregado durante o Cameralismo na Alemanha na questão da gestão do Estado. Sobre o conceito de Polícia Cf. ROSEN, Georges.
“A trajetória do conceito de polícia médica” In : op cit, e 171-190,.
Comparemos duas falas que permitem avaliar o sentimento filantrópico da época. O primeiro é o de Rochefoucault-Liancurt num relatório do Comitê de Mendicidade53 criado durante a Convenção :
É da opinião do Comitê de Mendicidade que esta verdade fundamental da sociedade, que exige imperiosamente um lugar na Declaração Universal dos Direitos do Homem, deve ser a base de toda lei e de toda a instituição política que se proponha a acabar com a mendicidade. Nenum Estado considerou o pobre em sua constituição. A idéia tem sido sempre fazer caridade ao pobre, mas nunca apoiar as reinvindicações dos pobres em relação à sociedade, ou aquelas da sociedade em relação à eles. Esta é a grande tarefa que a constituição francesa deve realizar.54
O segundo texto é de Fodéré no seu Essai sur la pauvréte des nations escrito em 1825 :
Foi-se o tempo em que se podia, até certo ponto, deixar de levar em conta o que acontecia nas classes inferiores e ater-se ao recurso de esmagá-las, caso necessário, quando se agitavam. Essas classes agora, pensam, raciocinam, falam e agem. Portanto, é muito mais sábio e mais prudente, sem qualquer dúvida, pensar em tomar medidas legislativas, algumas protegendo os costumes e prevenindo contra um novo desenvimento dos abandonados e, outras, tendentes a tornar realmente úteis todos esses seres abandonados e a dar-lhes a capacidade de desempenhar um papel ativo.55
Nos dois casos, os mesmos temas estão presentes, ou seja, a idéia de que o pobre tem direitos e reinvindicações, de que eles pensam, falam, agem, protestam. E a idéia de que eles desempenham um papel ativo na estrutura social, portanto, que não basta enclausurá-los, mas, de alguma forma, torná-los úteis e capazes de exercerem uma função produtiva na sociedade. Em nada essas afirmações contrastam com a antiga fórmula de tratamento da questão dos pobres. Porém, há uma intuição geral de que se trata de uma nova perspectiva e de que a antiga caridade não consegue dar conta de todos os novos problemas colocados pelo pauperismo. A filantropia surgiu nesse contexto, assumindo questões que não eram novas,
53 O Comité de Mendicité foi criado em 1790 pela Assembléia e tinha como objetivo investigar os problemas relativos à mendicidade e pauperismo. Presidida por La Rochefoucault-Liancurt tinha entre seus membros médicos Thouret e Guillontin.
54 ROCHEFOUCAULT-LIANCURT. Relatório sobre a nova distribuição do socorro público proposta no departamento de Paris pelo Comitê de Mendicidade, s.d., citado por ROSEN, p. 284.
55 FODERE, E. Essai sur la pauvreté des nations, 1825m p. 556, citado por DONZELOT, op. cit, p. 61.
mas reinterpretando-as na busca de um novo projeto político. Ela surgiu, como uma iniciativa que está equidistante tanto da intervenção do Estado quanto da iniciativa privada e individual sob a forma de esmola.
A filantropia pretendia ser uma tecnologia que tinha como objetivo intervir, no âmbito privado, nas questões relativas ao pauperismo e a pobreza. Ela pretendia regular as questões relativas a “classe mais numerosa da sociedade” e as regulações do intercâmbio econômico numa relação humanizada. É assim que a filantropia se distingue da caridade, já que não se trata de suprimir a pobreza, mas interpretá-la em sua implicação política. Portanto, a filantropia não pode ser interpretada como uma ordem apolítica. Muito pelo contrário, é na sua interface política que a filantropia pretende resolver as questões relativas ao pauperismo e a pobreza.
Podemos pensar o espírito filantrópico do final do século XVIII a partir de duas linhas de progressão. A primeira é a da atuação do duque de Rochefoucault-Liancurt e do Comitê de Mendicidade. Conhecido como o pai da filantropia, o duque de Rochefoucault-Liancurt era também o presidente do Comitê de Mendicidade, criada pela Revolução, para discutir os problemas relativos ao pauperismo e a indigência na França. Uma das propostas do comitê de mendicidade era a inclusão dos direitos dos pobres na Constituição Francesa. Segundo Rochefoucault-Liancurt, nenhuma nação havia dado importância aos pobres, a idéia sempre tinha sido a de fazer caridade aos pobres, mas não atender as suas reivindicações. O duque de Rochefoucault-Liancurte segue, portanto, uma extensa linhagem que de argumentações que já se encontrava em Baudeau.em seu Idées d´un citoyen sur les besoins, les droits et les devoirs des vrais pauvres 56 A mesma posição defendida pelo duque de Rochefoucault-Liancurt já vinha sendo pensada por diversos teóricos durante o final do século XVII e início do XVIII. Pierre Le Pesant de Boisgullebert em 1687 escreveu um livro sobre a miséria
56 Sobre Rochefoucault-Liancurt e o Comitê de Mendicidade Cf. ROSEN, George. Mercantilismo e política de saúde no pensamento francês do século XVIII, p. 243.
econômica na França intitulado Detail de la France, Factum de la France57 Os trabalhos de Boisgullebert demonstravam que era necessário enfatizar a situação da classe trabalhadora, principalmente rural, para melhorar a situação econômica francesa. Boisgullebert afirmava que as ondas de pobreza acompanhavam e pioravam de acordo com as variações dos preços dos produtos. Finalmente em Dissertation sur la Nature dEs Richeses, Boisguillebert afirmava que o homem era um ser social que deveria trabalhar para viver, sendo o trabalho uma condição necessária para a sociedade.
Em 1754, Claude Humbert de Chamousset, um rico filantropo parisiense, também começou a se interessar pelo assunto. Chamousset começou a se preocupar com o problema da pobreza logo após o incêndio no Hotel-Dieu, quando era Inspetor Geral dos Hospitais Militares. Em 1757 escreveu Vues d’um citoyen, em que propunha o desenvolvimento de um sistema social em que fosse possível prevenir a miséria, ou pelo menos atenuá-la.
Dos maiores flagelos da humanidade, a doença e a pobreza, o primeiro é inerente à nossa natureza, é um mal físico que pede alívio. O segundo é uma força externa, o fruto da negligência e pede medidas preventivas... A miséria entre as classes produtivas que vivem de seu trabalho e esforço tem como origem a combinação de dois efeitos da doença, os gastos das poupanças nos cuidados necessários e a conseqüente perda de tempo de trabalho.58
Nesse seu plano de proteção social, Chamousset esboçou a idéia de que os homens sadios eram um bem valioso ao Estado, e portanto, não basta dar condições para ele se recuperar, mas efetuar meios de preservar a saúde do miserável. Assim, esboça-se a idéia de que o miserável deve ter a garantia de assistência do Estado.
Entre esses dois extremos está a classe constituída pela maioria dos cidadãos, que não sendo suficientemente rica para ser atendida em casa ou suficientemente pobre para ser levada para um asilo, definha e freqüentemente morre na miséria, vítima das circunstâncias a que está submetida em virtude de sua classe social. Trata-se dos artesãos, dos comerciantes cujo comércio é limitado e em geral de
57 BOISGUILLEBERT, Pierre Le Pesant de. Le Detail de la France, Factum de la France, citado por ROSEN, p. 248.
58 CHAMOUSSET, Vues d’un citoyen, citado por ROSEN, p. 260.
todos estes valorosos homens que vivem cotidianamente do fruto de seu trabalho e que, freqüentemente, por este motivo, não têm recursos para o tratamento quando uma doença se torna incurável. O começo de uma doença exaure todos os seus recursos e, quanto mais precisam de ajuda, menos conseguem se beneficiar do que lhes resta e acabam em asilos públicos.59
Essa linha de argumentação resume a idéia dos defensores da atuação do Estado na assistência aos pobres. O pobre é a classe da maioria dos cidadãos, aqueles que passam sua vida trabalhando e portanto, quando são acometidos pela doença, não possuem recursos próprios para proverem sua recuperação. O Estado, nesse caso, deveria assegurar o bem-estar social, já que o Homem sadio, como já afirmou Chamousset, correspondia a riqueza do Estado. Esta é a linha de argumentação dos filantropos do século XVIII, de Baudeau, Boisgullebert, Chamousset e outros, passando pelo duque de Rochefoucault, expressão máxima, quando este afirma que o problema do pauperismo não se restringe a caridade, mas deve ser um direito reconhecido pela Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão.
Nesse sentido, o livro de De Gerando, Le visiteur du pauvre, publicado em 1820, parece colocar a questão do pauperismo e da pobreza num outro nível. De Gerando, nesta obra que constitui um dos clássicos do pensamento filantrópico da época, propunha a pensar as técnicas em relação ao problema da pobreza em suas implicações políticas. Em primeiro lugar, ele difere da maior parte dos defensores de uma Caridade Legal. Este termo, Caridade Legal, é hoje caído no desuso. Mas, no século XVIII essa concepção dizia respeito a passagem da caridade na forma de esmola individual como uma obrigação dos laços de estreitamento entre os homens para uma caridade de Estado, ou seja, o Estado seria responsável pela redistribuição da riqueza. Isso fazia do Estado um agente de nivelamento das riquezas. A Caridade Legal, supunha, portanto, que o papel do Estado era redistribuir a riqueza, nivelando-a através de uma caridade de Estado, cuja principal função era acabar com
59 Ibid.
a separação entre os ricos e “a classe mais numerosa da sociedade”60 Da caridade privada passava-se assim a beneficência pública.
De Gerando, em Le Visiteur du Pauvre, tem uma posição ligeiramente diferente, mas mais hábil. Em primeiro lugar, ele não defende o Estado como o responsável pela caridade pública. Isto faria do Estado um agente nivelador da riqueza, o que iria contra os pressupostos do liberalismo econômico. Em segundo lugar, ele não considera efetivamente a pobreza um mal em si, já que era fruto do desenvolvimento da própria máquina social. A defesa da propriedade e da busca do lucro seriam assim preservadas, uma vez que o Estado não deveria ser um agente nivelador entre pobres e ricos.
Se existiam pobres, estes deveriam obter a mínima satisfação de suas necessidades, para evitar que, levados pelas suas misérias, fossem impelidos a luta social. Porém, essa satisfação não seria realizada como um direito exigível, mas estariam inseridas numa relação de subordinação em que os ricos, investidos de dignidade, beneficiariam as necessidades dos pobres, numa relação de tuteta. Portanto, De Gerando, ao contrário dos defensores da caridade de Estado, propunha que a questão da miséria deveria ser resolvida através de uma relação regulada e de subordinação a qual um rico, através de um patrocínio direto e individual, beneficiaria um pobre, sob a forma de tutela:
A pobreza está para a riqueza assim como a infância está para a idade madura. Ricos, reconheceis a dignidade de que estais investidos. Mas, compreendei bem, não sois chamados a um patrocínio direito, vago e indefinido. Deveis exercer um patrocínio pessoal, direto, individual e imediato. Sois chamados a exercer uma tutela, mas uma tutela de vossa escolha, real e ativa.61
60 Sobre a caridade legal ou a caridade de Estado no século XVIII, Cf. CASTEL, p. 124
61 La pauvreté est pour la richesse comme l’enfance est pour l’âge mure. Les riches, reconnaissez la dignité dont vous portez! Mais, comprenez bien, vous n’êtes pas appelé à un parrainage correct, vague et indéfini. Vous devez plutôt exercer un parrainage personnel, direct, individuel et imédiat. Vous êtes appelé à exercer une tutelle, mais une tutelle de votre choix, réelle et active. DE GERANDO, Le visiteur du pauvre, 1820, p. 9-10.
disponível em http: www.gallica.bnf.fr consultado em 12/05/2005
Esse texto demonstra a distância entre uma caridade sancionada pelo Estado e uma relação de subordinação regulada sob a forma de tutela. Desta forma, o benefício não seria uma obrigação do Estado, portanto, um direito exigível do pobre, mas uma beneficência que seria o resultado de um patrocínio direto e individual dos ricos. As relações econômicas, numa sociedade burguesa são impessoais, reduzindo ao cálculo das trocas o universo da justiça social. No entanto, em contrapartida, no jogo das trocas econômicas, as desigualdades exigem um fluxo de outra ordem, que reestabelecem um vínculo pessoal e direto entre benfeitor e beneficiado.
Neste aspecto, a beneficência filantrópica ganha sentido se a pensarmos através da piedade tal como a expressou Rousseau. Em seu texto sobre a “Introdução à Época de Rousseau” em Gramatologia, Jacques Derrida observou que para Rousseau: “A piedade, esta afeção fundamental, é tão primitiva quanto o amor de si, e que nos une naturalmente a outrem: ao homem, certamente, mas também a todo ser vivo.”62 A piedade, para Rousseau, no seu Discours sur l’origine et les fondements de l inegalité parmi des Hommes, é o que
“nos conduz sem reflexão ao socorro de quem vemos sofrer”63. Porém, como já demonstrou Derrida, a piedade é o analogon da lei, sua metáfora, seu suplemento, ela indica o lugar onde a lei não pode se manifestar em sua forma própria.64 Assim, podemos dizer, acompanhando Derrida, que a beneficência filantrópica seria, em certo sentido, a reinterpretação da piedade rousseauísta, ela instaura, com aqueles que escapam ao legalismo, uma relação que não é de reciprocidade, mas de subordinação regulada.
Portanto, o principal objetivo da filantropia seria intervir em qualquer local onde não houvesse o equilíbrio entre os ricos e a “classe mais numerosa da sociedade” a ponto dos direitos da humanidade encontrarem-se ameaçados. O objetivo da filantropia não seria acabar com a pobreza, mas reestabelecer o equilíbrio social. Le visiteur du pauvre trouxe o
62 DERRIDA, Jacques. Introdução à Época de Rousseau. In: Gramatologia. São Paulo : Perspectiva : 1973, p.
130
63 Ibid.
64 Ibid.
problema do pauperismo para um outro nível. Mas também revela um paradoxo que é próprio do Liberalismo Econômico. Se a pobreza era um mal necessário ao desenvolvimento da máquina social, não se tratava mais de excluir o pobre, enclausurando-o num espaço fechado.
Em outras palavras, ocorre com isso uma linha de recomposição da problemática da pobreza.
Não se trata mais de excluir, mas de vigiar, educar, enquadrar, domesticar populações num espaço social liberalizado. É a estratégia inversa do Antigo Regime, já que se trata do controle das populações liberalizadas, daqueles que encontram-se inseridos no intercâmbio econômico. Não se tratava de absorver “a classe mais numerosa da sociedade” e nem de acabar com a pobreza, mas equilibrá-la. Donde a função da filantropia não seria a inculcação do hábito do trabalho, mas de criar um objetivo moral, segundo De Gerando, que possibilitasse a sujeição dos homens às disciplinas.
Essa linha de recomposição é o que aproxima as diversas tecnologias do corpo social que trataremos neste capítulo, no percurso em seguida. Assim, se quisermos compreender, a partir de um mesmo leque de problemas, como se entrecruzavam esses diversos campos, a medicina, a higiene pública e a psiquiatria, diríamos que todas elas buscavam estratégias de controle social. A fórmula definitiva ainda não estava dada. Donde as técnicas enfrentadas pela medicina, pela filantropia e pela higiene pública, poderiam ser intercambiáveis. Vejamos, portanto, na etapa seguinte, como diversas estratégias estavam a procura de uma fórmula definitiva para aquilo que De Gerando chamou de objetivo moral.
Isto é, todas as disciplinas buscavam instaurar uma relação de controle que permitisse desenvolver uma tecnologia do corpo social. Mas, como veremos a seguir, a maior parte dessas disciplinas encontravam-se entre o amadorismo de suas técnicas artesanais e a impossibilidade de instrumentalizar seu projeto político.
1.4 MEDICINA : FILOSOFIA DA VIDA E APERFEIÇOAMENTO DA