3. CAPÍTULO II – PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS: ENTRE TEIAS E LAÇOS
3.4 Teias e laços de ser mulher pesquisando homens
O sexo do pesquisador geralmente influencia no grupo de informantes que ele toma como objeto de estudo. Ora
Gênero faz parte de uma identidade operacional que nos marca como membros de uma categoria e nosso corpo atua grande parte desta identidade. (...) Assim, o contexto da entrevista de pesquisa pode se transformar tanto em uma circunstância favorecedora, quanto em ameaça ao eu. (JUNIOR e SOUZA, 2008, p. 1)
Nesta pesquisa, surgiram dificuldades dessa ordem. Além da questão de gênero, a dificuldade era de que o contato com os interlocutores da minha pesquisa era um contato social misto (Goffman, 1988), ou seja, eu, suposta representante normal da sociedade, estava na presença física imediata de um grupo de estigmatizados. Uma das principais dificuldades metodológicas na inserção no campo de pesquisa foi a incorporação de um papel que não era o meu para tornar-me mais respeitável diante deles. Eu tinha que me vestir de forma peculiar: roupas que não mostrassem muito a silhueta do corpo, brincos bem pequenos, um anel que simbolizasse um compromisso, pouquíssima maquiagem e sapatos sem salto. Era difícil, porque eu não podia ir a campo tão simples (afinal, estava numa instituição judiciária, que exigia certa formalidade), mas também tinha que me vestir discretamente. Mesmo assim, ainda ouvia comentários dos presos, tais como: “De nada, princesa!”, quando eu agradecia por ter colaborado com o questionário; “Ô meu Deus!”, quando eu entrava na cela;
“Volte sempre!” quando eu saía da cela; “Solteiro, viu?”, quando eu perguntava o estado civil. Dessa forma, percebi que a violência simbólica não é unidirecional, que é a do pesquisador para o pesquisado, mas também deste para com o pesquisador. Isso porque eu me sentia inferiorizada como mulher. Essa era uma forma que eles encontravam de me subestimar, colocarem-se numa postura de poder diante de mim, um poder masculino. A minha entrada na cela, quando eram muitos presos, causava certo frisson: “Ô meu Deus!”. Eu ouvia muitos risos entre eles e muitos olhares eram direcionados para mim.
...a situação de entrevista, porque ela oferecer uma oportunidade para que o homem se represente a si próprio como alguém capaz de manter o controle, autonomia e assim por diante, ou se tornar uma ameaça, pois o coloca sob uma situação na qual é o/a entrevistador/a quem controla a interação, formulando perguntas que podem colocar em
xeque estes elementos da auto-representação viril. (JUNIOR e SOUZA, 2008, p. 2)
No penúltimo encontro de um dos grupos reflexivos coordenados pelo NUAH, ao final, pedi que dois participantes permanecessem ali. Dois que tinham um discurso muito marcante sobre a prisão. No último encontro um dos que abordei sentou no lado oposto a mim no círculo e tirou uma foto minha utilizando seu celular. Apenas dias depois, o psicólogo comentou o fato e eu pude ter certeza, então. Depois soube que esse mesmo homem chegou a ameaçar de morte uma funcionária do Ministério Público. A mesma teve que se deslocar do trabalho para outro setor por medida de segurança.
Em outra oportunidade, ao final de um atendimento feito pelo NUAH, expliquei que eu fazia mestrado em sociologia na UFC, que pesquisava a versão dos homens de todo o percurso de prisão e perguntei se outro egresso poderia me conceder uma entrevista no dia em que viesse para o grupo reflexivo. No dia, após o grupo, ele mesmo me procurou “Você vai querer?” e eu, surpresa, respondi que sim. Pedi que ele me aguardasse um momento enquanto eu pegava gravador e a caneta. Ao voltar, ele havia saído temporariamente para comprar água e pastilhas de halls. Trazia também uma agenda e um livro de Semiótica, incomum para um profissional da área de Informática. Ao entrarmos na sala da entrevista, ele me oferece uma pastilha “Está
servida?” e eu agradeci “Não, obrigada!”. Pedi que ele aguardasse mais uma vez enquanto eu imprimia uma cópia do roteiro de entrevista e ele, antes de sentar, diz sorridente: “Eu deixo. Eu sou bonzinho!”.
Sentei do outro lado da mesa. Pedi para gravar a entrevista. Ele ajeitou o cabelo, sorriu, e eu expliquei que não seria uma entrevista filmada e sim gravada, apenas a voz. Então ele tomou goles da água, treinou a voz. Perguntei se poderia começar e ele disse que sim, sempre sorrindo muito. No meio da entrevista, ele fala dos filhos. Explica como fazia para que os filhos não sentissem medo de injeção, fugindo muitas vezes do contexto da pergunta que eu fazia. Na ocasião ele me pede com licença e pede minha mão e eu, sem jeito, entrego. Ele acaricia, explicando como fazia com os filhos, tomando-me como exemplo.
Durante toda a entrevista, o mesmo entrevistado se referia ao livro de Semiótica e sobre a Teoria do Caos. Ele procurava também formular respostas embasadas em filosofia, fugindo sempre ao tema da pergunta. Ao final da entrevista, eu deixo que ele vá mais à frente, na saída da sala. Mas no caminho acabo passando por
ele, que perguntou se eu iria almoçar ali mesmo, pelo Fórum. Respondi que não e ele me perguntou onde eu iria almoçar, e eu respondo que seria em casa. Então ele pergunta
“Onde você mora?” e eu respondo que muito longe dali, atendo um telefonema e me afasto dele, indicando para ele a direção da saída.
Noutra oportunidade um entrevistado sempre fazia referência sobre um possível contato entre nós fora do ambiente do Fórum:
Se tu sair uma vez comigo, vou te mostrar as meninas, as meninas se oferecendo por causa de uma pedra de crack! Zé da Casa Verde
O mesmo homem também comparava seus relacionamentos amorosos a uma possível relação entre nós dois:
Te dar um exemplo (...) só um exemplo, certo? A gente é junto, certo? A gente se relaciona. Tu bebe e eu bebo. Tu me conheceu, mas só que tu não gosta que eu bebo, mas tu bebe comigo (...) aí de vez em quando a gente discute, tu me bate, me empurra e tal, me dá uns arranhão, mas tranquilo (...) a gente passa e fica se acostumando, me xingando, falando palavras, maltratando na frente dos meus amigos, falando umas coisa comigo assim num barzinho e eu sempre na minha (...) aí um dia tu já me encheu o saco pra caralho e vai um dia eu te dou um tabefe aí tu pega e chamou a policia (...) aí vai eu, vou bater na CPPL III (...) a policia só chegou lá e tu disse que eu só tinha te dado um tapa (...) vou botar nem um tapa não, vou dizer que eu te ameacei! Zé da Casa Verde
Esse entrevistado levou ao cerne da questão que nem eu mesma conseguia enxergar: o fato de responderem à Lei Maria da Penha afetava diretamente a masculinidade em termos de novas relações afetivas que possam estabelecer:
Em tudo! Até se eu não te conhecesse. Se eu te conhecesse em outro canto, em outra circunstância, eu dissesse que tinha ido preso num Maria da Penha, tu já ficava assim comigo. Num ia?... Ia ou não ia?... Talvez!? Talvez não! Ia, má! Tu tá querendo dizer que não, mas ficou toda vermelha aí! Zé da Casa Verde
Costumamos pensar/desejar o ambiente/espaço da coleta de dados como algo asséptico, ou seja, longe de erros, de interferências pessoais, tanto do pesquisador quanto do pesquisado, longe de julgamentos de ordem moral, de interferências externas, mas todo o processo de coleta de dados envolve dificuldades difíceis de administrar. Porém, é a partir do conhecimento delas, que podemos tentar administrá-los:
...consiste em descobrir no decorrer da própria atividade cientifica, incessantemente confrontada com o erro, as condições nas quais é possível tirar o verdadeiro do falso, passando de um conhecimento
menos verdadeiro a um conhecimento mais verdadeiro, ou melhor, como afirma Bachelard, ‘próximo, isto é, reificado’. (BOURDIEU, 2010, p. 17)
Quase todas as entrevistas tiveram teor também de conquista. Às vezes isso me dava certa insegurança: estaria eu deixando brechas para isso? Estaria sorrindo de forma desnecessária ou vestindo-me ou comportando-me inadequadamente?
Certas vezes me era penoso voltar às gravações das entrevistas pela repugnância que eu sentia daqueles momentos, que eu desejava que fossem estritamente para fins de pesquisa e que, no entanto, tornavam-se momentos para “parcerias potenciais” (Meinerz, 2007). É que se quer pensar o contexto da entrevista sem implicações pessoais para os dois lados da pesquisa (pesquisador e pesquisados). Porém, “Ainda que a relação de pesquisa se distingua da maioria das trocas da existência comum, já que tem por fim o mero conhecimento, ela continua, apesar de tudo, uma relação social que exerce efeitos (...) sobre os resultados obtidos.” (Bourdieu, 1997, p. 694). Portanto, do começo ao fim da pesquisa, além de questões de gênero dos participantes com as vítimas do processo, eu tinha que lidar com questões de gênero deles com relação a mim.
O fato de eu ser mulher, às vezes controlavam eles em algumas falas:
...porque não tá sendo aplicada do jeito que é pra ser (...) tá havendo erro (...) fazia qualquer coisa pra me ver na prisão (...) se disser que num quer mais ela, vai preso! Tem muita mulher bandida! [repensa a frase] Num é todas, mas tem! (Diário de campo, 10/11/2011)
Muitos homens também trazem os corpos marcados de uma relação violenta com a mulher, no entanto, muitos omitem esse fato com receio de que sua masculinidade possa ser questionada. Daí o foco melhor ser a relação e não o homem ou a mulher. O fato é que eu não queria cair na simplificação de enxergá-los apenas por um viés agressivo. Havia outros aspectos identitários nesses homens que não se resumiam ao ato praticado que desencadeou a prisão.