GIL MARTINS E O COMÉRCIO NA PRIMEIRA REPÚBLICA
EXERCÍCIO CONTRIBUINTE CLASSIFICAÇÃO OBJETO DO
74 TEIXEIRA; CORREIA, 2018 75 QUEIROZ, 2006a.
76 QUEIROZ, 2006a, p. 176.
Dessa forma, vislumbramos uma grande capacidade de articulação de Gil Martins, se colocando como membro de diferentes organizações, de diversas naturezas, mas que tinham em comum a reunião dos membros da elite econômica e política do estado. Nesse sentido, ele se mantinha ligado a pessoas que ocupavam postos estratégicos em diferentes setores produtivos no âmbito da economia estadual, o que poderia vir facilitar eventuais negociações políticas.
Acreditamos que a ascensão comercial de Gil Martins também está relacionada ao apoio que ele recebia por parte do segmento da elite alinhada à Igreja Católica. O periódico O
Apostolo, órgão oficial da Igreja no Piauí, em diversos momentos tece comentários elogiosos
a respeito de sua atuação, corroborando para a construção da imagem de homem honesto e de bom comerciante, indicativo das relações que mantinha com aquela ala da sociedade, em especial, pelos laços com Elias Martins. Ao lado destes, Gil Martins encampou embates políticos nas disputas eleitorais.
Sobre o açúcar produzido pela sua usina, encontramos uma matéria no jornal O
Apostolo, datada de 1907, recomendando o consumo do produto e destacando a sua qualidade.
Assim diz:
Uzina Sant’Anna. Os senhores Gil Martins & Ci.ª, activos negociantes de nossa praça, nos enviaram, a amostra do assucar desse importante estabelecimento agrícola. A amostra do optimo producto que temos presente, é de 1.ª qualidade, nada deixando a desejar de melhor no seu genero. Os operosos industriaes podem, sem temer competencia, satisfazer ás mais finas exigencias dos consumidores do assucar nacional, com o que produz a Uzina Sant’Anna. Agradecendo os senhores Gil Martins &Ci.ª, recommendamos o producto de sua bem montada uzina, posto que já se ache recommendado pela sua fina perfeição78.
Tal dado nos remete, mais uma vez, ao lugar de destaque que Gil Martins e seus associados tinham na sociedade teresinense. Sendo o órgão oficial de comunicação da Igreja Católica, o periódico servia para a construção de discursos e representações acerca dos membros integrantes desta sociedade, recomendando ou não, o apoio e respeito a estes sujeitos. A recomendação de que seus produtos, nesse caso em específico o açúcar, deveriam ser consumidos, assume importância real em uma sociedade conservadora como aquela encontrada ali. A imagem e a honra de um comerciante naquele período significava muito, não podendo o mesmo se descuidar do modo como seus consumidores o viam. Uma acepção
negativa poderia comprometer o negócio, bem como as demais alianças a serem construídas com outros sujeitos do comércio local ou do meio político. É pensando de forma semelhante que Queiroz79 afirma que as “sociedades tradicionais são sociedades de honra”80, de forma que esta é muito relevante no contexto das relações construídas.
O mesmo periódico em outra oportunidade assim se pronuncia a respeito de Gil Martins:
Vio passar seu anniversario natalício, sendo bastante felicitado pelos seos innumeros amigos, o Coronel Gil Martins, conceituado commerciante em nossa praça. Aqui vai também nossa saudação a esse honrado, operoso e distincto luctador pelo progresso do Piauhy, e nosso particular amigo.81
Duas coisas chamam atenção nesse fragmento. A primeira delas diz respeito às felicitações pelo aniversário de Gil Martins. Embora essa fosse uma prática comum nos jornais do período, onde encontramos diversas mensagens semelhantes dirigidas a outros indivíduos, esse tipo de publicação indica o nível de prestígio do cidadão felicitado na comunidade eclesiástica. Sendo o editor do jornal, Elias Martins, aliado político de Gil Martins, as felicitações nos parecem também resultado de relações que iam além do mundo clerical. Talvez por isso a matéria enfatize o posto de coronel ocupado por Gil Martins, enquanto uma expressão de poder. Estas congratulações, inclusive, viriam a se repetir em outros anos durante o período em que o periódico circulou82.
O segundo elemento que consideramos relevante é o adjetivo “conceituado commerciante”83, mostrando uma intencionalidade do editor, que se diz amigo particular de
Gil Martins, em reforçar a imagem de homem forte da economia local. Ao longo deste capítulo demonstramos a pujança da atuação deste sujeito no cenário local e além dele, sobretudo a partir do alcance dos seus produtos de norte a sul do Piauí quer através da navegação, quer na interlocução com o mercado maranhense.
Vê-se aqui, também, uma estratégia eclesiástica de manter os laços cordiais com os sujeitos que tinham influência política no estado do Piauí. Considerando que o jornal se apresentava como órgão oficial de comunicação da Igreja, não podemos reduzir as menções de Gil Martins aos laços políticos e cordiais com o editor Elias Martins, mas antes
79 QUEIROZ, 1994. 80 QUEIROZ, 1994, p. 143.
81 SEM TÍTULO. O Apostolo, Teresina, ano II, n. 51, p. 3, 19 maio 1908. 82 SEM TÍTULO. O Apostolo, Teresina, ano II, n. 100, p. 2, 9 maio 1909. 83 SEM TÍTULO. O Apostolo, Teresina, ano II, n. 51, p. 3, 19 maio 1908.
acreditamos que sua figura era benquista entre os membros eclesiásticos que dirigiam a instituição no estado. Em outras instâncias de sua atuação, política inclusive, a Igreja parece se posicionar a favor de Gil Martins e outros nomes, fato que não pode ser atribuído apenas a Elias Martins.
Gil Martins era um destes homens cujo nome frequentemente aparecia nos jornais como um sujeito querido. O Jornal do Brasil reproduz matéria publicada no estado que busca construir essa imagem quando informa que “procedendo dessa capital [Rio de Janeiro], chegou hoje aqui o Coronel Gil Martins, tendo uma recepção muito carinhosa”. 84 Desse modo, há um esforço por parte do jornalismo local, seja o católico ou não, de atribuir adjetivações positivas a este sujeito.
Lepera85, analisando as disputas pelo poder local travadas entre a Igreja e a
comunidade eclesiástica em Tucumán, Argentina, argumenta em torno das influências políticas que se fazem presentes no universo religioso. Embora seja de conhecimento público que existem diferenças significativas entre a Igreja Católica no Brasil e na Argentina, sobretudo pela realidade diversa dos dois países, é preciso reconhecer que há práticas que são comuns à instituição e que passam por adaptações e reapropriações no meio local.
Nesse sentido, vemos em Teresina uma prática comum a outras regiões que é ação da Igreja no sentido de se manter próxima aos grupos que detêm o poder político e econômico. Publicizar a figura de Gil Martins e de seus empreendimentos foi um mecanismo encontrado pela instituição para demonstrar que respeitava o lugar de destaque ocupado por ele, ao mesmo tempo em que mantinha atados os laços de solidariedade e reciprocidade com este membro da elite local que era também membro da Igreja.
Estratégia também utilizada pela Igreja era a de inserir sujeitos como Gil Martins nas atividades religiosas. Por ocasião da Festa de Nossa Senhora das Dores, o periódico relata:
No proximo mez de Setembro será celebrada, na Cathedral, com a maior pompa possível, a festa das Dôres, cujo novenario começará no dia 10, encerrando-se os festejos no dia 19. No intuito de dar o maior brilhantismo a festa da nossa Padroeira, resolvi distribuir as novenas por classes, designando Juizes e Juizas, como protectores da nossa grande festividade, esperando que todos acceitarão o meu convite, concorrendo, assim, cada um, na medida das suas forças, para que o culto á Virgem Santissima tome ainda maior incremento. JUIZES: - Dr. Collect Antonio da Fonseca, Coroneis Antonio Campos, Leocadio Alves dos Santos, Domingos Santos, Gil
84 INTERIOR. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, anno XXI, n. 129, p. 8, 9 maio 1911.
85 LEPERA, L. C. Entre la autoridad eclesiástica y el liderazgo local: los curas párrocos de la diócesis de
Martins. JUIZAS: - Exmas. D. D. Maria Emilia da Silva Martins, Lydia Christina da Silva Santos, Joanna Portellada de Areia Leão, Rosa de Hollanda Carvalho, Maria Coêlho Broxado.86
Pinheiro87 afirma que os espaços de lazer e sociabilidades em Teresina nas primeiras
décadas do século XX não eram muito diversificados, de forma que os festejos religiosos se constituíam em um importante momento de aglomeração de pessoas, destacando-se o festejos de Nossa Senhora das Dores e de Nossa Senhora do Amparo, bem como os novenários como o que Gil Martins participou, que se não podem ser considerados como momentos estritamente de lazer, não deixam de ser espaços para construção e fortalecimento de laços de fraternidade entre os membros da elite. Ser juiz nessas festividades significava reforçar sua imagem como católico e, portanto, como um homem honrado na sociedade em que estava inserido, mas também de um homem financiador dessas atividades.
Além disso, como aponta Castelo Branco88, as sociabilidades religiosas serviam para reforçar o caráter tradicional da sociedade teresinense da Primeira República ao passo que indicavam o poder que a Igreja Católica exercia sobre a vida das pessoas. Considerando, assim, que o público letrado em Teresina era limitado, com predomínio de analfabetos89, a publicação de matérias pela Igreja em seu veículo oficial tinha como alvo os membros da elite abastada de Teresina, os quais possuíam acesso a níveis mais altos de instrução. Essa realidade não é diferente daquela encontrada em outras regiões do Brasil, como é destacado por Mota e Lopez90, que chegam a afirmar que a maioria da população brasileira era composta
de pessoas analfabetas. Ao mesmo tempo, a publicação de convites como o expresso na transcrição acima era símbolo de prestígio entre aqueles que tiveram seus nomes lembrados. Neste aspecto, Gil Martins se destaca como nome constantemente citado, o que pra nós se mostra como reflexo da importância que ele assumiu no comércio e na política local, bem como na industrialização, por meio de sua atuação junto à Companhia de Fiação e Tecidos
Piauhyense e com o início das atividades da Uzina Sant’Anna que se encontrava em
funcionamento desde 1906.
86 FESTA de Nossa Senhora das Dores. O Apostolo, Teresina, ano III, n. 115, p. 2, 22 ago. 1909.
87 PINHEIRO, A. P. As ciladas do inimigo: as tensões entre clericais e anticlericais no Piauí nas duas primeiras
décadas do século XX. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 2001.
88 CASTELO BRANCO, P. V. Mulheres plurais: a condição feminina na Primeira República. Recife: Bagaço,
2005.
89 QUEIROZ, 1994.
Gil Martins Gomes Ferreira, ou Gil Martins como ficou conhecido possivelmente por conta da marca imprimida por meio da Gil Martins & C.ª, foi um destes brasileiros que acreditavam que o progresso e a modernização também poderia alcançar as terras mais distantes da capital nacional, o Rio de Janeiro, possibilitando o avanço da urbanização e o desenvolvimento econômico de sua região. A cidade de Teresina, capital do Piauí, teve muito a ganhar com os investimentos deste homem, cujas relações sociais o colocavam no centro do poder político e econômico estadual.
Nesse sentido, a primeira parte da tese abordou um aspecto da trajetória de Gil Martins que aparece aos nossos olhos como o ponto de partida que o levou a ocupar o espaço de poder político e econômico que desfrutou: o comércio. Assim, buscamos pensar este sujeito inserido em seu contexto, atentando para as orientações de Levi91 no que diz respeito a pensar o
indivíduo em suas relações com o grupo em que estava inserido. Conforme discorremos ao longo da narrativa, as raízes comerciais de Gil Martins o alçaram para o centro da política estadual e da economia industrial que nascia timidamente na capital piauiense, utilizando da sua experiência com a navegação fluvial e com o comércio como pontos fortes na construção de relações comerciais competitivas naquele momento.
Também acreditamos que a participação de Gil Martins nas diferentes agremiações a que esteve ligado possibilitou-o desfrutar de sociabilidades, ao lado de outros grandes comerciantes da capital, as quais possibilitaram, por seu turno, fortalecer as alianças políticas das quais fazia parte. Na seção seguinte vamos aprofundar a análise da participação política de Gil Martins, de forma que será possível compreender os mecanismos de interação e relações de poder diretamente relacionados à política partidária e às eleições no Piauí durante a Primeira República. Gil Martins se mostra um sujeito que teve muitas faces, sendo o comerciante apenas uma destas. O desvelar do seu eu político nos ajuda a compreender ainda mais a singularidade e a importância desse indivíduo para a sociedade do período.
91 LEVI, G. Usos da biografia. In: AMADO, J.; FERREIRA, M. M. (Org.). Usos e abusos da história oral. 8 ed.