4. IDENTIDADE E FILOSOFIA PORTUGUESA
4.3. Teixeira de Pascoaes
Teixeira de Pascoaes (1877-1952), pseudónimo literário de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos, principal mentor do saudosismo português, foi advogado, juiz, poeta, ensaísta e escritor. Nacionalista arreigado, com o advento da República e as consequências políticas e socioculturais daí decorrentes, Pascoaes percebeu a necessidade de preservar a identidade nacional, levando o povo luso a encontrar as suas próprias raízes e a concatenar-se com os seus traços mais característicos. Marcou, assim, um período histórico-literário de início do século XX, distinguido pelo ressurgimento de um Portugal consciente da sua especificidade.
Dirigiu a revista A Águia, órgão oficial do movimento Renascença Portuguesa90,
imbuído do espírito de renovação da cultura em Portugal, deixando bem evidente, na sua metodologia, uma linha entre o passado e o futuro. Centra, por isso, o seu interesse maior no caráter ontológico da saudade, o traço mais genuíno da identidade nacional, tal como adiantam António José Barreiros91 e Carlos Reis92.
Tendo formado a sua personalidade sob influência do culto religioso tradicional que vivenciava no seio familiar, assumindo o seu cristianismo como “a mais alta expressão histórico-religiosa” (COUTINHO, J., 2001: 25), não deixou, no entanto, de questionar Deus e a sua religião. Esta vivência no meio familiar, a infância e a paisagem habilitaram- no a desenvolver uma sensibilidade quase metafísica, percetível por Jorge Coutinho que lhe reconhece o caráter religioso inquieto e o instinto metafísico de um poeta pensador, que fez da sua obra complexa o transporte de “pensamentos de cariz simultaneamente filosófico, religioso e místico” (idem, ibidem: 26).
A obra de Pascoaes é, pois, marcada por uma forte presença da religiosidade e da transcendência, “como uma inerência ao sentido da vida” (FONSECA, A. F. da, 2003: 234). Num poema dedicado a Guerra Junqueiro, verifica-se a junção de figuras míticas que povoam a sua infância e que se incorporam na sua própria pessoa:
90 O veículo de transmissão por excelência das teorias saudosistas foi, indubitavelmente, a segunda série da
revista A Águia, publicada, a partir de 1912, sob a direção de Teixeira de Pascoaes, que se assume particularmente empenhado nessa missão ao colaborar com quarenta e nove artigos.
91 BARREIROS, A. J., 1979. 92 REIS, C., 2006.
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Espectros nebulosos Remotos ascendentes
Emergem na penumbra que flutua Toda embebida em lua.
E rodeiam-me, tristes, misteriosos. Neles me perco e me difundo… Longe da minha idade…
E tudo, para mim, é trágica saudade
(idem, ibidem)
A ideia de decadência presente nestes versos remete para uma vivência do passado do seu autor (“longe da minha idade”), o que desencadeia nele a “trágica saudade”.
A pluralidade criativa alimentada pela profundeza do seu pensamento não mereceu ainda o devido reconhecimento, embora a sua obra, digna de um génio, esteja repartida por uma multiplicidade de géneros e modos de expressão literários. Místico e metafísico, o poeta não desconsidera a ciência mas realça, em O Homem Universal, “que a essência das coisas é de natureza poética e não científica”. A poesia escrita entre 1898 e 1913 denuncia preocupações filosóficas acerca do ser, de Pascoaes e do seu próprio ser, do ser português e do ser universal. Entre outras obras poéticas, contam-se Sempre (1898), A Minha Alma (1898), Terra Proibida (1899), Para a Luz (1904), Vida Etérea (1906), As Sombras (1907), Marânus (1911) e Regresso ao Paraíso (1913), cujos títulos denunciam a ideia de eternidade, percecionando-se o mito do eterno retorno. Em Jesus e Pã (1903), destaca-se o pendor filosófico do poeta, onde estão já presentes os princípios orientadores do saudosismo como doutrina de restauração nacional.
O mistério do ser, a redenção de Portugal e o saudosismo são, igualmente, marcas de alguns dos seus textos em prosa. Emprega uma linguagem de teor melancólico para retratar as paisagens de acordo com os estados emocionais saudosistas, envoltos numa perturbadora inquietude espiritual. Teixeira de Pascoaes, em 1907, apresentara duas longas exposições filosóficas sobre esta temática num jornal operário anarquista, A
Vida. Igualmente significativo foi o número de conferências que Pascoaes foi proferindo,
no norte do país, ao longo dos anos, nomeadamente aquela que realizou no Ateneu Comercial do Porto, em maio de 1912, intitulada O Espírito Lusitano e o Saudosismo, a qual “constitui um verdadeiro manifesto do Saudosismo como pensamento capaz de dar saída aos problemas mais urgentes do País” (FRANCO, A. C., 2008: 763). Em 1913, Pascoaes volta a proferir uma outra conferência, O Génio Português na sua Expressão
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anterior. Refira-se, ainda, a realização de uma conferência, em 1914, intitulada A Era
Lusíada, na qual, novamente, Pascoaes clarifica a sua doutrinação saudosista.
Todavia, ao aperceber-se da desvinculação do saudosismo de alguns dos seus contemporâneos, passamos a ler um escritor desiludido e profundamente mergulhado num hermetismo identitário que o conduz a recordações saudosas da sua infância. Esta melancolia acaba por inibir a sua criação artística profundamente diminuída entre os anos de 1925 e 1934. Apesar desta evidência, é de realçar o seu Livro de Memórias (1928), que se veio juntar a outros títulos de prosas como O Espírito Lusitano ou o Saudosismo (1912) e O Génio Português ou sua Expressão Filosófica, Política e Religiosa (1913). Destacamos, ainda, dois ensaios filosóficos: O Homem Universal (1937) e Agostinho (1945), consistindo o primeiro num esclarecimento do pensamento enraizado na sua expressão poética, e o segundo na revelação das suas preocupações filosóficas perante a existência do mal.
Ao longo da sua vida, Teixeira de Pascoaes publicou ainda vários outros livros onde expôs, de forma bem incisiva, as teorias saudosistas; destaca-se, por exemplo,
Elegias, em 1913, em que expressa “um lusitanismo emergente da terra, da história, dos
costumes ou da cultura e de um aprofundamento do sentido linguístico, filosófico ou ontológico da palavra saudade, a partir da qual desenvolveu uma teoria do ser português” (QUADROS, A., 1989: 92), ou ainda, em 1951, A Minha Cartilha, em que reúne um conjunto “de aforismos e pensamentos mais ou menos sintetizados” (idem: 93) e de que transcrevemos aquele com que termina a obra, espécie de síntese de toda uma vida dedicada à reflexão sobre a saudade: “Salvamo-nos em esperança ou em lembrança, que a lembrança também incide sobre o futuro na poesia camoniana. E que é a lembrança incidindo sobre o passado e o futuro? É a alma lusíada, a Saudade”93.
Arte de Ser Português
Quanto à vasta produção literária de Pascoaes com finalidade essencialmente didática, destaca-se uma obra publicada em 1915 – Arte de Ser Português. Segundo António Cândido Franco, este livro é uma “espécie de súmula preparada para divulgar em escala alargada as ideias do saudosismo e que, escrito e pensado para as escolas da
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República, se destinava a ser um manual cívico”94. A situação de crise e desânimo nacional
era de tal ordem grave – também no plano espiritual95, mítico e cultural – que Pascoaes
escreve-o em duas semanas e publica-o de imediato, dedicando-o a todos os jovens portugueses.
De acordo com a confissão apresentada pelo autor, este texto é resultado de uma síntese de ideias que o próprio Pascoaes tinha espalhado em conferências e artigos publicados em A Águia, e cuja publicação foi apressada, pela urgência que o próprio Pascoaes tinha em divulgar a arte de ser português (PASCOAES, T. de, 1978: 17)96. Nesta
altura, já o escritor tinha publicado a maior parte da sua obra poética, embora no âmbito dos textos doutrinários e ensaístas, apenas fossem conhecidos O Génio Português na sua
Expressão Filosófica, Poética e Religiosa (1913) e A Era Lusíada (1914).
Logo no primeiro capítulo, Pascoaes afirma:
Ser português é também uma arte, e uma arte de grande alcance nacional, e, por isso, bem digna de cultura. […] O fim dessa Arte é a renascença de Portugal, tentada pela reintegração dos portugueses no carácter que por tradições e herança lhes pertence, para que eles ganhem uma nova actividade moral e social, subordinada a um objectivo comum superior. Em duas palavras: colocar a nossa Pátria ressurgida em frente do seu Destino.
(PASCOAES, T. de, 1978: 17)
Importa realçar a originalidade e a inovação desta obra, como salienta o escritor no início do texto prefacial, “Ignoro qualquer livro escrito no género deste” (ibidem: 11), o que condiciona, de certo modo, a sua perfeição por não ter seguido qualquer modelo, mas, ao mesmo tempo, surge como algo jamais pensado e único, promovendo, por isso, um maior interesse e com boas perspetivas de se tornar um protótipo educativo.
O título do livro ─ Arte de Ser Português ─ pressupõe um conjunto de desígnios que “ensinam” a “ser português”, permitindo entender esta existência como se de uma arte se tratasse. Se considerar o vocábulo “arte” como sinónimo de “habilidade”, o leitor poderá entender este título como uma “capacidade especial” que é um imperativo do “ser
94Teixeira de Pascoaes pretendia que o livro fosse ensinado em todas as escolas públicas, na medida em que
cada professor “aos seus alunos trabalhará como se fora um escultor, modelando as almas juvenis para lhes imprimir os traços fisionómicos da Raça lusíada. […] a nossa instrução secundária, além das verdades que ensina aos alunos, ensinar-lhe-ia igualmente a verdade portuguesa, cujo conhecimento se impõe como força reconstrutiva da Pátria, dentro do seu carácter, da alma tradicional evoluída até ao grau de perfeição atingido pelo espírito humano, no século presente. Instruir, educar e criar portugueses seria visar um duplo ideal humano e patriótico, e a bela conclusão do curso geral dos liceus” (PASCOAES, T. de, 1978: 17).
95Para Dionísio Vila Maior, nesta obra, Teixeira de Pascoaes procura combater essa crise de índole espiritual
ao “sublinhar a complexa rede de virtualidades espirituais subjacentes a esse sentimento [saudade] definidor da cultura portuguesa.” (VILA MAIOR, D., 1996: 46).
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português”, ou seja, “ser português é […] uma arte de grande alcance nacional” (PASCOAES, T. de, 1978: 17). Por outro lado, o verbo “ser”, como verbo predicativo ou de significação indefinida, assume semanticamente os significados de existência, identidade ou predicação, associando-se obrigatoriamente a um predicativo que, neste título, é o adjetivo “português”. Logo, “ser português” constitui-se como um conjunto de características sui generis que permanecem no “όντοσ” natural de Portugal, na sua essência.
Teixeira de Pascoaes pretendia que o livro fosse ensinado em todas as escolas públicas, na medida em que cada professor “aos seus alunos trabalhará como se fora um escultor, modelando as almas juvenis para lhes imprimir os traços fisionómicos da Raça lusíada […]” (idem, ibidem). A preocupação de Pascoaes é óbvia, neste excerto, pondo a ênfase no papel a desempenhar pelo professor na moldagem da alma lusíada, reconhecendo-lhe o poder, ou capacidade, para imprimir nessa alma os “traços fisionómicos da Raça”, a qual pretende elevar da decadência até à perfeição.
A abrir este verdadeiro tratado de educação, o autor apresenta uma dedicatória à Mocidade Portuguesa, justificando-se com a vertente doutrinária que lhe está subjacente, pois, segundo Pascoaes, este livro “contém a boa e sã doutrina portuguesa” (ibidem: 7). A dimensão pedagógico-didática é anunciada logo no Prefácio, afirmando o autor que “deveria ser lido, estudado e comentado nos cursos de Literatura e História Pátria, sendo certo que poderia mesmo constituir um curso independente e o último dos Liceus” (ibidem: 11). Percebe-se, assim, a intenção de a Arte de Ser Português constituir um ideal de educação a ser seguido pelos jovens, mais tarde, os protagonistas da realidade e da verdade portuguesas, moldando o seu caráter num sentido patriótico. Para Pascoaes, com “este pequeno trabalho […] instruir, educar e criar portugueses seria visar um duplo ideal humano e patriótico” (ibidem: 12). Saliente-se, a este propósito, a insistência no campo lexical de “educação”, percetível ao longo da obra, em vocábulos como “mestre” ou “alunos”. Exprime, ainda, o “desejo sincero de [se] tornar útil à [sua] terra” (ibidem: 13), na recuperação da alma nacional, explorando sabiamente a nossa tradição poética, religiosa e artística.
Os doze capítulos do livro abrangem as mais variadas áreas do saber (Literatura, Religião, História, Arte, Filosofia, Ciências…) e estão organizados segundo uma lógica semântica, começando cada capítulo com o assunto tratado no fim do capítulo anterior,
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recorrendo, inclusivamente a palavras/expressões redundantes ou muito semelhantes. Esta espécie de anadiplose serve o propósito didático, uma vez que, pela repetição, se vinca melhor a ideologia que pretende inculcar nos mais novos. A subdivisão em outros pequenos capítulos, destacando-se os seus títulos em maiúscula, como forma de alertar para a importância dos conceitos aí apresentados, contribui para uma leitura mais atrativa e mais fluente. O constante recurso ao exemplo e as recorrentes notas de rodapé revelam a riqueza do conhecimento e permitem outrossim credibilizar o discurso. É muito usual, também, a frase subordinada causal para explicitar as ideias enunciadas pelo autor.
A utilização de um exímio registo metalinguístico, que percorre todo o texto, é visível em pequenas explicações semânticas de vocábulos, como, por exemplo, a respeito do emprego da palavra “raça” (ibidem: 18), ou na intraduzibilidade da palavra “saudade” (ibidem: 29). O emprego expressivo da pontuação (travessão e reticências) e o uso do itálico conferem ao texto uma potencialidade de didatismo também associada ao tom assertivo, que deixa entrever uma intromissão do enunciador; dá a ideia de ouvirmos as palavras do próprio autor, incisivas e contundentes. Esta presença é subentendida na forma verbal de primeira pessoa do plural e nas sucessivas interrogações retóricas, que servem o propósito de questionar o recetor, para o prender ao texto e lhe espoletar a reflexão.
A vertente comunicativa é muito relevante num discurso pedagógico-didático, porque consegue manter a atenção do destinatário (capatatio benevolentiæ), permitindo, assim, incutir nos jovens o ideário do seu autor. O poeta do Marão satisfaz, pois, as dimensões clássicas da retórica ─ delectare, movere e docere ─ em que o uso da palavra está ao serviço da formação do homem, estabelecendo uma conexão com a arte de educar as novas gerações.
O último capítulo, intitulado “O Nosso Idealismo”, subdivide-se em três capítulos mais pequenos e funciona como uma espécie de conclusão, iniciado com uma epígrafe a D. Sebastião, da autoria de António Ferreira, como forma de antecipar o discurso encomiástico ao Desejado, visto por Pascoaes como “o futuro sol da Renascença” (ibidem: 139). Subjaz ao texto o desejo messiânico e visionário, reiterado pelo excerto das trovas de Bandarra e pelo discurso exortativo presente no emprego do conjuntivo (“acreditemos”, “adoremos”). O pedagogo termina a sua “lição” com uma invetiva aos leitores, qual trabalho de casa, na seguinte nota de rodapé (ibidem: 149): “Estudai o Cancioneiro
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Popular, a Tentativa Teológica, de António Pereira, e o Direito Pátrio, de Coelho da Rocha”.
A partir de autênticos axiomas, Pascoaes revela uma argúcia incontestável, capaz de impulsionar à ação, não apagando o passado, mas desenhando o futuro, num traço muito peculiar definido pela nossa raça, nas suas origens, gravado na lembrança, e que será revelado pela saudade, como o motor do ressurgimento pátrio. De realçar o profundo conhecimento de “todos [os] assuntos” (ibidem: 12) versados na Arte de Ser Português, obra que constitui um verdadeiro manual para todos os portugueses, de todos os tempos.
Pascoaes denuncia o esquecimento dos costumes nacionais e a crescente desvalorização do seu país face às restantes nações europeias, alertando a sua geração para os efeitos de tal comportamento. Assim, para Teixeira de Pascoaes, a Arte de Ser
Português é ter consciência ativa desta arte e exercitá-la quotidianamente, a partir do
resgate e valorização das tradições culturais lusitanas. Descreve, por isso, as peculiaridades da raça lusitana, as características singulares do seu povo, motivos que deveriam orgulhar todos os portugueses a enaltecerem a sua raça.
Deste modo, o objetivo principal desta obra é refletir sobre esta arte e preservá-la através de um movimento cultural, que promoveria a renascença de Portugal, como nos faz saber o próprio autor: “O fim desta Arte é a renascença de Portugal, tentada pela reintegração dos portugueses no carácter que por tradição e herança lhes pertence […]” (ibidem: 18); “o fim deste livro é dar acção moral ao indivíduo, num sentido patriótico, fortalecendo-lhe o carácter português” (ibidem: 20).
Esta é, indubitavelmente, uma obra essencial “para qualquer estudo da psicologia portuguesa” (QUADROS, A., 1989: 95), assente na perspetiva de um ressurgimento pátrio97, consubstanciado numa visão messianicamente sebastianista. Criticando as teorias
positivistas, opõe-se “a uma educação universalista abstracta ou a uma educação concreta e pragmática de costas voltadas ao ideal nacional ” (PATRÍCIO, M. F., 2000: 81).
Na Arte de Ser Português, o saudosismo pascoaisiano parte de um levantamento antropológico-cultural para chegar às ideias de Raça e de Pátria como algo de espiritual e universal. Para ele, existiria um destino português, uma maneira de ser lusitana que assenta
97 Conforme salienta, a este propósito, Manuel Ferreira Patrício, para Teixeira de Pascoais, “Trabalhar
educativamente com sentido nacional é trabalhar para a renascença de Portugal” (PATRÍCIO, M. F., 2000: 81).
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numa energia virada para um futuro de liberdade, numa espécie de superação hegeliana espiritual e não materialista.
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Saudosismo: a relevância da Saudade
“A Saudade é a personalidade eterna da nossa Raça; a fisionomia característica, o corpo original com que ela há de aparecer entre os outros Povos.”
TEIXEIRA DE PASCOAES, “O Espírito da Nossa Raça”, 1912.
O saudosismo foi um projeto nacional de âmbito cultural, religioso e educacional desenvolvido em Portugal no início da primeira década do século XX. Naquele momento histórico, era premente a criação de um projeto nacional que promovesse a renovação da mentalidade e da cultura portuguesas com a finalidade de fazer renascer a pátria. De acordo com Eduardo Lourenço (1923-), esse pensamento é fruto de uma tradição que percorre a literatura lusitana desde Garrett até Pessoa, ou seja, a obsessão de criar uma obra que regenerasse, ainda que simbolicamente, a nossa nação.
Trata-se de um “movimento estético-filosófico de carácter panteísta e nacionalista, que se opõe ao racionalismo e ao positivismo da Geração de 70 […]. A ele se deve a corrente mística que busca o âmago da alma lusitana, conhecida por doutrina do saudosismo (CARVALHO, J. C. F. A. de, 2009: 86)98, e que se constituiu como um
movimento literário de expressão densamente filosófica e ideológica que atribuía à saudade a regeneração da pátria, mergulhada, então, numa crise profunda99, pressupondo
um sopro de messianismo sebastianista. Considerando o povo português como “o maior lírico do mundo”100
, Guerra Junqueiro (1850-1923) impele-nos para a análise dos sentimentos desta “raça”, entre os quais encontramos, primacialmente, o saudosismo. Teixeira de Pascoaes, em O Génio Português Na Sua Expressão Filosófica, Poética e Religiosa, chamou saudosismo “ao culto do nosso espírito sintetizado na Saudade […] [a
98 Segundo Carlos Reis, trata-se de “um dos movimentos literários mais relevantes do princípio do século em
Portugal” (REIS, C., 2006: 166). Acentuando a importância desta escola literária, António Cândido Franco refere que “dela saíram, por contraposição imediata ou solução de continuidade, todas as mais significativas formas poéticas das gerações seguintes” (FRANCO, A. C., 2008: 764).
99 De acordo com Carlos Reis, o movimento “Tentava promover a unidade de um país que, na sua óptica, se
encontrava dividido e ameaçado por toda uma série de problemas políticos que a proclamação da República não resolvera” (idem, ibidem).
100 Tal como afirma Alfredo Antunes, “o lirismo de um povo é […] a expressão mais autêntica da intimidade
sentimental desse povo – a comunicação e visibilização da sua saudade. A saudade é vivência, o lirismo, expressão dessa vivência” (ANTUNES, A., 1983: 298).
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qual] nasceu da fusão que se fez, no povo lusíada, do sangue romano com o sangue semita; e por isso, ela é pagã e cristã […]” (PASCOAES, T. de, 1913: 15, in COSTA, D. P. da e GOMES, P., 1976: 64).
Acrescenta, ainda, Pascoaes que “o Saudosismo (nome que eu dou à Religião da Saudade) está criado no campo do sonho e da arte” (ibidem, in idem: 61). Após apresentar uma proposta de vários períodos da saudade, Pascoaes incide sobre o período da decadência e, partilhando da preocupação em encontrar as causas da decadência pátria, identifica o estrangeirismo como uma das mais importantes. Com este poeta, recuperar-se- ia o nacionalismo cultural, e acentuar-se-ia a diferenciação e o exclusivismo nacionais. Assim, resistiram os intelectuais portugueses desse início do século XX à europeização e ao processo globalizador, pretendendo algo que fosse gloriosamente português. Nesse sentido, Moreira afiança que
este será o principal suporte da nossa reacção aos desafios que a globalização coloca: a identidade cultural portuguesa, enquanto espaço de autonomia e diversidade, já que é o produto de uma certa globalização que ela mesma fez formando uma identidade de país pluricontinental, algo diferente, é certo, daquela que hoje se manifesta”.
(MOREIRA, F. A. T., s/d: 02)
No que reporta à cultura portuguesa, é numa atmosfera social de desencanto e deceção, gerada pelo sentimento de fracasso do projeto republicano, que a Renascença