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1. Televisão, realidade e sociedade

1.3. Televisão e vida social

Então, qual é o papel da televisão hoje, especialmente quando se leva em conta sua dimensão como experiência sociocultural, como apontado por Dahlgren (1995)? De fato, algumas pesquisas de mercado ainda demonstram que, mesmo competindo dentro de um mercado em que o consumidor está se habituando a novas tecnologias, dispositivos e formas de consumo, a televisão – e mesmo a televisão no estilo broadcasting – ainda possui um espaço importante. Uma pesquisa da Ericsson12, publicada em 2016, coletou dados de 22 mercados de TV de países de todos os continentes13 e apontou que a TV habitual – com programação linear pré-definida por uma emissora14 – ainda é o meio eletrônico de vídeo com maior número de horas vistas ao dia em todo mundo.

12ERICSON. TV and Media 2016: the evolving role of TV and media in consumers’ everyday lives. Estocolmo, Suécia: Ericsson, novembro de 2016. Disponível em: <https://www.ericsson.com/assets/local/networked-society/consumerlab/reports/tv-and-media-2016.pdf>.

13 Os mercados são da Austrália, Brasil, Canadá, China, Colômbia, República Dominicana, Alemanha, Grécia, Índia, Itália, México, Holanda, Polônia, Portugal, Rússia, África do Sul, Coréia do Sul, Espanha, Suécia, Taiwan, Reino Unido e Estados Unidos.

14 Não se trata aqui, portanto, da TV Pay Per View (que você escolhe um produto audiovisual e somente paga pelo o que vê), TV on demand (plataformas que você escolhe o conteúdo audiovisual desejado e o horário desejado para a exibição), ou vídeos online.

No Brasil, a TV Globo – o canal aberto declarado como o preferido por 56% dos entrevistados pela Pesquisa Brasileira de Mídia (PBM) de 201615 – mostra que “ainda consegue mobilizar grandes audiências em torno de seus principais produtos [...] e resiste a mudanças que ameacem à lógica da programação” (FECHINE, 2014, p. 115-116), mesmo considerando “como estratégia a oferta de conteúdos para segunda tela que, operando sinergicamente com a grade e explorando a articulação da TV com redes sociais, estimulem formas de sociabilidade em torno da sua grade de programação” (FECHINE, 2014, p. 129). Para os anunciantes no país, o meio televisivo ainda representa o maior lugar de compra de espaço publicitário: um levantamento do Kantar Ibope Media em 201516, mostrou que 53% dos investimentos de publicidade foram voltados para a TV aberta, 11% para a TV paga e 5% para merchandising em TV – inserção de publicidade dentro do conteúdo produzido pela própria emissora. No total, a televisão agregou quase 70% da compra de espaço publicitário no Brasil, seguida pelo jornal (13%), telas digitais (7%) e rádio e revistas (4% cada).

De fato, a televisão ainda é o meio de comunicação mais usado pelos brasileiros em comparação a outras mídias, de acordo com a PBM 2016. Cerca de 77% dos 15.050 entrevistados de todos os estados do país alegaram assistir à televisão todos os dias – o número para 201517 era de 73%, e para 201418, 65%. Ainda segundo o levantamento, a média de horas de televisão vistas pelos entrevistados é de três horas e 39 minutos – no ano anterior, para a mesma pesquisa, a média era maior: quatro horas e 31 minutos. Os entrevistados da pesquisa também responderam qual era o nível de confiança das notícias recebidas de cada meio (televisão, rádio, jornal, revistas e internet): 28% dos participantes afirmaram confiar sempre nas notícias da TV, 26% confia muitas vezes, 38% confia

15 BRASIL, PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, SECRETARIA DE COMUNICAÇÃO SOCIAL. Pesquisa brasileira de mídia 2016. Brasília: Secom, 2016. Disponível em: <http://www.secom.gov.br/atuacao/pesquisa/lista-de-pesquisas-quantitativas-e-qualitativas-de-contratos-atuais/pesquisa-brasileira-de-midia-pbm-2016.pdf/view>.

16 KANTAR IBOPE MEDIA. Estudo Retrospectiva e Perspectivas: movimentação do investimento publicitário em meios, setores e anunciantes no último ano. São Paulo: KANTAR, 2015. Disponível em: <https://www.kantaribopemedia.com/a-compra-de-espaco-publicitario-em-2015/>.

17 BRASIL, PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, SECRETARIA DE COMUNICAÇÃO SOCIAL. Pesquisa brasileira de mídia 2015. Brasília: Secom, 2014. Disponível em: <http://www.secom.gov.br/atuacao/pesquisa/lista-de-pesquisas-quantitativas-e-qualitativas-de-contratos-atuais/pesquisa-brasileira-de-midia-pbm-2015.pdf>.

18 BRASIL, PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, SECRETÁRIA DE COMUNICAÇÃO SOCIAL. Pesquisa brasileira de mídia 2014. Brasília: Secom, 2014. Disponível em: <http://www.secom.gov.br/atuacao/pesquisa/lista-total-de-pesquisas/relatorio-final-pesquisa-brasileira-de-midia-2014.pdf>.

poucas vezes e 8% nunca confia19. Segundo o PBM 2015, as principais razões pelas quais eles assistem à TV é para se informar/saber as notícias (79%), para se divertir/como entretenimento (67%) e para passar o tempo/tempo livre (32%). De acordo com dados do Censo 201020, 95,1% dos brasileiros possuíam televisão em casa: a TV tirou o posto do rádio que, em 2000, era o bem durável mais popular nos lares. Uma pesquisa feita pelo Sesc em parceria com a Fundação Perseu Abramo21, em 2013, com um grupo de 2.400 brasileiros, revelou que a televisão aberta era o meio de preferência da grande maioria para se informar sobre o que acontece na cidade que reside (67%) e no Brasil e no mundo (77%).

Observamos, até aqui, algumas das complexas relações que as forças políticas, corporativas e econômicas mantêm com a indústria televisiva. Enquanto é notável que a programação da TV é diretamente impactada por essas searas, precisamos lembrar que não são somente essas as forças em jogo que unicamente moldam e controlam o conteúdo e as grades da emissora. As formas de produzir TV envolvem “intensa divisão de trabalho e participação de profissionais e especialistas com orientações diversas, o que gera diferenças, impossibilita um controle estrito da natureza do produto” (FRANÇA, 2006, p. 21). Temos, portanto, conflitos dentro das formas de produzir TV: os interesses dos produtores com os diretores de um canal, por exemplo, podem divergir. Nos bastidores da TV, é comum que haja uma disputa ou discordância entre diferentes posicionamentos, de modo que o controle absoluto dos donos de uma emissora se torna inviável. Portanto, ao revisarmos a formação da indústria televisiva, devemos estar atentos ao fato de que

a televisão é moldada tanto por fatores internos como influências externas, abarcando um grande número de atores e instituições sociais na criação, na realização, na programação, na divulgação, na regulamentação, na crítica, no debate e no consumo de seus serviços e de seus produtos. Logo, qualquer estudo a propósito da formação e do desenvolvimento de uma cultura televisiva no país [...] tem obrigação de contemplar, independente de qual seja o âmbito da pesquisa, outros elementos, além de notáveis agentes políticos e econômicos. (FREIRE FILHO, 2004, p. 209-210).

19A maior confiança parece ser depositada no jornal impresso: 29% dos entrevistados alegam confiar sempre nas notícias do jornal, enquanto 30% confia muitas vezes.

20IBGE: PELA 1ª vez, domicílios brasileiros têm mais TV e geladeira do que rádio. iG São Paulo, 27 de abril de 2012. Disponível em: <http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2012-04-27/ibge-pela-1-vez-domicilios-brasileiros-tem-mais-tv-e-geladeira-d.html>.

21 SESC; FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO. Pesquisa de opinião pública: públicos de cultura. Agosto-setembro de 2013.

Para além do reconhecimento da TV como um lugar de forças econômicas, é preciso enquadrá-la a partir de seu papel social. Afinal, o meio televisivo é também uma experiência sociocultural: ele “liga o mundo cotidiano com ordens simbólicas mais amplas da vida social e política” (DAHLGREN, 1995, p. 39, tradução nossa22). Mas como podemos visualizar a relação entre TV e sociedade? Quem pauta quem?

Antes de nos voltarmos a essas perguntas, precisamos esclarecer o nosso posicionamento perante o estudo da televisão. É importante expressarmos que este estudo – e os demais feitos dentro do Grupo de Pesquisa em Imagem e Sociabilidade (GRIS), da UFMG, ao qual pertencemos – se afasta de uma perspectiva que enquadra a televisão somente como um “lugar de alienação e empobrecimento cultural, criação de valores e mitos contemporâneos, instrumentos de poder e reprodução da estrutura de dominação [...]” (FRANÇA, 2006, p. 16). Acreditamos que muitas pesquisas, ao adotar uma crítica redutora perante a TV e meios massivos, muitas vezes influenciadas por uma abordagem questionável da conceituação da Indústria Cultural de Adorno e Horkheimer e pelo pessimismo dos escritos sobre televisão feitos por Bourdieu23, acabam ignorando a complexidade do meio televisivo no tecido social.

O lugar social da televisão hoje é menos “um resultado de uma imposição arbitrária ou política de um meio sobre uma cultura que se resiste a ele” (SILVERSTONE, 1996, p. 48, tradução nossa24) e mais um espaço construído a partir de sua aceitação e articulação na vida social dos sujeitos. Segundo Roger Silverstone (1996), muitos estudos de televisão falham ao não enxergar a inserção do meio televisivo dentro do cotidiano dos sujeitos. Para o pesquisador, a televisão está inserida na nossa rotina, de forma que ela

nos acompanha quando nos levantamos, tomamos o café da manhã, bebemos um chá ou vamos a um bar. Nos reconforta quando estamos sozinhos. Nos ajuda a dormir. Nos dá prazer, nos aborrece e às vezes nos questiona. Nos dá a oportunidade de sermos sociáveis e também

22 “[...] links the everyday world to the larger symbolic orders of social and political life” (DAHLGREN, 1995, p. 39)

23 Sobre Bourdieu, Jost (2010) faz a seguinte afirmação: “O pequeno livro vermelho do sociólogo, intitulado sobriamente Sobre a televisão (1996), sintetiza as críticas direcionadas ao campo jornalístico: a influência do jornalismo sobre os campos da produção cultural, que ele chama simplesmente de a influência da televisão, é responsável para o sociólogo, por inúmeras ameaças à democracia: circularidade da informação,

fast thinking, falsos debates, etc. [...] O fato de Bourdieu haver se referido à televisão, quando de fato ele critica apenas o funcionamento da informação, é sintoma de uma redução muito comum da mídia televisão a uma parte desses programas [...]” (p. 30).

24 “resultado de una imposición arbitraria o política de un medio sobre una cultura que se resistía a él […]” (SILVERSTONE, 1996, p. 48).

solitários. [...] A televisão nos parece hoje natural como nos parece a vida cotidiana. (SILVERSTONE, 1996, p. 20, tradução nossa25).

De fato, nas sociedades ocidentais, a televisão oferece um universo de sentidos compartilhados, organiza-nos numa agenda de acontecimentos (desde megaeventos esportivos, à finais de reality shows, telenovelas, seriados, acontecimentos do mundo das celebridades e da mídia); ela pauta nossas conversas diárias (FRANÇA, 2006). Com uma programação contínua – chamada de fluxo26 por Raymond Williams – a televisão funciona “como uma espécie de ‘relógio’ social capaz de pautar as práticas domésticas dos telespectadores” (FECHINE, 2014, p. 124).

Silverstone (1996) afirma que existem certos programas e momentos da televisão que são considerados importantes, especiais ou mesmo sagrados por um ou um conjunto de indivíduos e, por isso, têm reservado um lugar e tempo determinado no cotidiano doméstico desses sujeitos27. O pesquisador fala também de uma capacidade mítica dos meios contemporâneos: inseridos na vida social, eles falam dela e oferecem aos sujeitos uma oportunidade de refletir sobre seus cotidianos. Citando Paul Ricoeur, Silverstone afirma que as narrativas de meios como a TV “têm seu equivalente e sua extensão em

25 “La televisión nos acompaña cuando nos levantamos, tomamos el desayuno, bebemos um té o vamos a um bar. Nos reconforta cuando estamos solos. Nos ayuda a dormir. Nos brinda placer, nos aburrece y a veces nos cuestiona. Nos da la oportunidade de ser sociables y también solitários. [...] La television nos parece hoy natural como nos lo parece la vida cotidiana.” (SILVERSTONE, 1996, p. 20).

26 Para Williams, a televisão se compunha, não por segmentos unitários, mas por uma dinamicidade de inserções e sequências que formam uma narrativa em fluxo. “A celebrada descrição que William fez do ‘fluxo’ televisivo – relato do primeiro encontro dele com a TV norte-americana em um hotel em Miami – é uma das passagens mais citadas na literatura internacional sobre televisão. [...] Ao longo do tempo, a ideia de fluxo foi também superada na medida em que a radiodifusão cedeu lugar a outras plataformas que – como Williams havia previsto – influenciaram a estrutura das formas textuais que veiculam. O que permanece, contudo, mesmo depois que a noção de fluxo perdeu em importância, é a característica marcante da abordagem que Williams faz da televisão como experiência cultural: uma experiência engendrada pela articulação complexa entre práticas produtivas, determinantes tecnológicos e econômicos e a função social da televisão dentro do lar – assim como as estruturas formais de gêneros televisivos individuais. É notável como essa abordagem multiperspectivada ainda se coaduna bem com as abordagens mais frequentemente recomendadas na literatura dos estudos contemporâneos de televisão” (TUNER, 2016, p. 8).

27 Aqui, vale atentar a uma nova mudança no modo que consumimos o conteúdo gravado da TV: temos agora uma disponibilidade de assistir aos nossos programas da TV on demand, ou seja, pela oferta de plataformas digitais em que podemos acessar esse conteúdo a qualquer hora, em qualquer momento (SCOLARI, 2014). Acreditamos que essa mudança na distribuição de produtos midiáticos e esse aumento do poder de escolha do consumidor, por sua vez, não eliminam a possibilidade de que haja, mesmo assim, um espaço reservado no cotidiano dos sujeitos para a experiência quase afetiva de assistir a certos programas de TV.

narrativas vivas da vida diária e, claro, ambas adquirem seu sentido precisamente em virtude dessa justaposição constante” (SILVERSTONE, 1996, p. 276, tradução nossa28). Portanto, podemos considerar a televisão como um agente dentro do jogo social. Ela alimenta a vida social e, ao mesmo tempo, bebe das fontes da sociedade, seus grupos, instituições e sujeitos; há, portanto, alguma porosidade na TV, ou seja, aberturas nos modos de produção desse meio que “captam os humores da sociedade, se encharcam de seus desejos, temores, tendências” (FRANÇA, 2009a, p. 51). Dessa forma, a relação entre televisão e vida cotidiana é reflexiva: ao mesmo tempo que a televisão pode agendar a vida cotidiana, ela também pode ser pautada por ela – e essa “dinâmica de reflexividade que a atravessa [a televisão] faz dela um laboratório privilegiado de estudo, um ‘instantâneo’ da vida social em seu movimento, cristalizações e mudanças” (FRANÇA, 2012, p. 39).

Podemos ver esse fenômeno reflexivo com a sociedade, de fato, em diversos meios massivos: é quase impossível investigar um meio sem que se investigue, consequentemente, o modo como ele se insere no cotidiano dos sujeitos e na vida social (SILVERSTONE, 2002). Ao localizarmos o meio televisivo como atravessador da vida cotidiana dos sujeitos e, ao mesmo tempo, por ela, atravessado, devemos, como defende Silverstone (1996), afastarmo-nos do debate sobre a passividade dos telespectadores diante das mensagens da TV, e nos voltarmos para a preocupação em “compreender o compromisso que se estabelece entre a televisão e o telespectador. Esse compromisso pode ser fraco ou forte, positivo ou negativo em suas consequências” (SILVERSTONE, 1996, p. 280, tradução nossa29).