7: Jogos e brincadeiras na cultura indígena no Brasil
4.2 Tema 2: brincadeiras e jogos de raízes indígenas
As brincadeiras e os jogos de raízes indígenas assim como as africanas são de grande representatividade cultural, e presentes na cultura tradicional. Muito antes dos portugueses e africanos chegarem ao Brasil, os índios já tinham suas próprias formas de brincar e jogar. Nas literaturas verifica-se que as brincadeiras dos índios começavam de cedo, sendo vista não apenas como passatempo, mas como atividade preparatórias para a vida adulta. Segundo Costa (2013) ao fazer parte da cultura em que vive, as crianças indígenas desempenham o
papel do adulto no seu mundo lúdico. Suas brincadeiras tornam-se uma preparação para as funções que serão desempenhadas na vida adulta.
Desse modo, nas sociedades indígenas as crinças aprendem por meio do seu mundo lúdico, desenolvendo sua corporeidade e habilidades importantes para desempenhar papéis sociais na vida adulta, como traz Granado (2006, p. 231) “reconhece-se a capacidade de a criança aprender a partir dos jogos e brincadeiras”. Durante esse momento em que as crianças indígenas jogam e brincam, conforme Almeida et al. (2010), a criança se apropria de sua cultura, construindo sua identificação com seus pares e tornando-se única nesse contexto.
Percebe-se que em séculos passados as crianças indígenas tinham formas de jogar e brincar como podemos visualizar abaixo com algumas brincadeiras dos índios entre o século XVI e XVII em pesquisa feita pelo Folclorista Câmara Cascudo (quadro 5).
Arcos;
Em consonância com as brincadeiras abordadas por Cascudo (2001), Kishmoto (1993) ao tratar das crianças indígenas e suas brincadeiras, citando dentre elas a brincadeira de cavalinho, cama de gato (jogo de fio), jogo de imitação, peteca e acrescenta que o indiozinho brincava de pião, matraca, e ioiô. Segundo Kishimoto, as brincadeiras e os jogos indígenas não eram apenas vivenciados pelas crianças, os adultos também brincavam de peteca, de jogo de fio e imitação de animais.
Perante a isso, Costa (2013) afirma que ainda nos dias atuais existem brinquedos indígenas que permanecem nas brincadeiras das crianças brasileiras, tais como o “jogo do fio”, conhecido também por “cama de gato”; “a matraca”, cujo “movimento de virar e esticar o fio produz um ronronar que diverte os meninos”; a peteca, que é feita pelos adultos e crianças indígenas, brinquedo que tem sua origem nas tribos tupis do Brasil.
Muitas dessas brincadeiras e jogos são tratados por alguns autores em suas pesquisas como presentes nas diversas tribos indígenas, e trazem mais exemplos de brincadeiras. As crianças indígenas também passaram a incorporar a sua cultura lúdica às brincadeiras e aos
jogos de pular corda, pular elástico, queimado, ciranda, batata quente, soltar pipa, amarelinha, peteca, cobra cega, perna-de-pau. São brincadeiras que influenciaram o brincar popular das infâncias do povo brasileiro e se fazem presentes nos dias atuais nos povos indígenas, e representam parte da nossa cultura.
Conforme Grando, Xavante e Campos (2010) em pesquisa feita sobre os jogos e as brincadeiras entre etnias indígenas salientam que alguns dos jogos e brincadeiras são relatadas com os nomes que podemos identificar na cultura infantil em todo o Brasil, outros são jogos que são adaptados por cada povo para o brincar com as coisas da cultura e da natureza onde vivem. Alguns dos jogos e brincadeiras identificados por Grando, Xavante e Campos (2010) serão apresentadas a seguir (quadro 6).
brincadeira de faz de conta (cavalinho de bambu);
Cabo de guerra;
Rouba bandeira.
Quadro 6: Jogos e brincadeiras indígenas da pesquisa de Grando, Xavante e Campos (2010).
Fonte: Criação da autora (produzida em 2021).
As brincadeiras e os jogos citados foram destacados como memória da cultura lúdica das gerações mais velhas de várias etnias, através dessas brincadeiras e desses jogos, os indíos adentravam à cultura do seu grupo étnico e, assim, fazendo ressurgir no tempo e no espaço em que viviam com traços da suas histórias e identidades. Grando, Xavante e Campos (2010), abordam que na memória da cultura lúdica das etnias pesquisadas, as brincadeiras ressurgiam no espaço e no tempo como um traço não apenas do brincar em si, mas também da história e identidade de cada pessoa e de cada povo.
Em trabalho realizado com professores indígenas em algumas etnias sobre os jogos e as brincadeiras, Albuquerque (2010), destaca alguns jogos e brincadeiras presentes na cultura indígena brasileira (quadro 7).
Arco e flecha;
Peteca (txotaki);
Bilboquê;
Corridas;
Brincadeira de casinha;
Jogo de pião;
Sons e movimento em roda (brincadeiras de roda).
Quadro 7: Jogos e brincadeiras na cultura indígena no Brasil.
Fonte: Criação da autora (produzida em 2021).
Outros autores também discorrem sobre esses jogos entre os diversos povos indígenas em vários cantos do Brasil, como abordado pelo Programa Escolar da Família (2015), em pesquisa feita por alguns pesquisadores sobre jogos e brincadeiras dos diferentes povos indígenas em alguns cantos do Brasil, tem-se: o jogo de peteca, jogo cama de gato, quebra-cabeça, bilboquê, estilingue, jogo de bola de gude. Brincadeiras essas que já eram praticadas pelas crianças na cidade.
Mesmo sendo brincadeiras populares, presente em todas gerações e no mundo todo, seja com as mesmas características ou adaptadas, as brincadeiras e os jogos indígenas apresentam suas peculiaridades e finalidades em cada etnia indígena, haja vista que os indivíduos atribuem significados de acordo com sua cultura, assim cada cidadão ou grupos de cidadãos têm suas particularidades nas formas de brincar e jogar, atribuindo suas regras e costumes advindos da sua cultura corporal, do seu grupo social, construindo sua própria identidade nas brincadeiras e nos jogos. Nesse sentido, Almeida et al. (2010, p. 60) destaca que “as práticas corporais – jogos e brincadeiras – são entendidas como elementos da cultura
corporal de cada etnia indígena, portanto assumem sentidos e significados de acordo com o contexto social no qual são vivenciadas”.
Contudo, o que verificamos sobre as brincadeiras de raízes indígenas é que assim como as presentes na cultura africana não podemos dizer que são iguais as praticadas por todos os grupos sociais, percebemos que cada grupo atribui significados ao lúdico pelas brincadeiras de acordo com sua realidade, com seus costumes, com suas regras, com seus materiais, como também apresentam culturas corporais próprias, sendo assim, as brincadeiras e os jogos podem ser os mesmos, mas com traços culturais diferentes. Frente a isso, Tenório e Silva (2014) relatam que muitas dessas brincadeiras existem semelhanças com aquelas do universo indígena, no entanto, precisamos compreender que o significado dessas é diferente do nosso.
4.3 Tema 3: as brincadeiras e os jogos da cultura africana e indígena no ensino da