Faz parte da competência e compromisso do Estado a elaboração, aprovação e implementação de legislações no seu território delimitado. Porém, em pautas econômicas estratégicas que envolvem a colaboração do setor privado necessitam de capacidades adicionais (MURTHA;
LENWAY, 1994). Se por um lado existe esta demanda de interação do setor público com o setor privado, Baron (1995, 1997) defende que a maioria das empresas têm suas performances econômica, política e social afetadas por ações de não-mercado. Podem ser consideradas ações de não-mercado aquelas que não são voltadas ao mapeamento da estrutura da indústria para posterior ação mercadológica, como atuação em preços, melhorias de qualidade de venda ou diferenciação de produtos. Ou seja, aquelas atividades que envolvem o relacionamento com o governo, como defesa de interesse do setor privado em pautas legislativas e/ou reguladoras, fazem parte das estratégias de não-mercado. Os dois tipos de estratégia podem oportunizar uma vantagem competitiva no mercado atuante (DOH; LAWTON; RAJWANI, 2012).
As atividades corporativas que objetivam influenciar decisões governamentais e políticas públicas que sejam favoráveis às empresas são conhecidas como Corporate Political Activities (CPA) (Hillman et al., 2014; Lux et al., 2011). Na tentativa de compreender o fenômeno de CPA, pesquisadores concentraram seus esforços em entender por que as políticas governamentais podem ser consideradas importantes para a rentabilidade das firmas (HILLMAN; HITT, 1999; KEIM, BAYSINGER, 1988; SCHULER, 1996; SHAFFER, 1995);
quais os objetivos da atividade política da firma (BAYSINGER, 1984; HILLMAN, HITT, 1999; WEIDENBAUM, 1980); e quais tipos de corporações são mais propensas ao engajamento nas atividades políticas (HILLMAN, HITT, 1999; PITTMAN, 1976;
ZARDKOOHI, 1985).
Hillman et al (2004) sugere que uma das possibilidades para fazer a conexão entre CPA e o campo de pesquisa em Estratégia Empresarial seria pela Visão Baseada em Recursos (Resource Based View – RBV). Segundo os autores, esta conexão tem o objetivo de destacar os aspectos
firma-específicos da CPA, assim como discutir as escolhas gerenciais (Hillman et al., 2004).
Além disso, Lawton, McGuire e Rajwani (2013) argumentam que a utilização de RBV em CPA pode contribuir para a compreensão da integração, reconfiguração e utilização dos recursos políticos pelas firmas (LAWTON, et Al., 2013). Outro motivo para a utilização de RBV refere-se ao conceito de recursos intangíveis que esta lente teórica aborda, pois este elemento é muito importante na CPA (OBERMAN, 2008). Um dos recursos intangíveis que é significativo em CPA refere-se ao relacionamento entre os atores políticos e os demandantes de políticas públicas (LAWTON; RAJWANI, 2011), pois o tempo disponíveis de uma autoridade é escasso e concorrido e, segundo Oberman (2008), pode existir uma relação forte entre o relacionamento e o acesso a estes atores políticos (OBERMAN, 2008). Além destes motivos, outros argumentos podem ser elencados para explicar as vantagens de utilizar-se a RBV em estudos de CPA. A primeira delas é o emprego de teoria predominante em estratégia para análise de CPA (HILLMAN ET AL., 2004; LAWTON; MCGUIRE, ET AL., 2013); assim como a consideração de recursos intangíveis importantes em CPA, como relacionamento, já citado, e também reputação (OBERMAN, 2008; LAWTON; RAJWANI, 2011; RAJWANI; LIEDONG, 2015); a prática de CPA por intermédio de bundles – que será traduzido nesta pesquisa como
“conjuntos” – de recursos e capacidades (FRYNAS ET AL., 2006); por reconhecer que a adoção de recursos pode ser de forma diferente entre as empresas e sugerir que isto explica as distinções dos desempenhos políticos entre elas (WOLL, 2007).
O Lobby é uma das táticas mais utilizadas de CPA. Estudiosos argumentaram que as escolhas estratégicas quanto a quem influenciar, quando exercer influência no processo de política e quais instrumentos de influência específicos - estratégias e táticas – para maximizar seus objetivos de influenciar os resultados das políticas são determinados por fatores como: a Natureza do Lobby - se é um interesse econômico ou não; Tamanho e recursos do Lobby - se está concentrado em uma área geográfica ou não; e se é ou não uma operação multinacional (FRIEDEN, 1991; KENNEDY, 2004). Estes fatores econômicos e de outras naturezas são realmente importantes na explicação da variação dentro de um determinado sistema, entretanto raramente levam em consideração o ambiente político doméstico de um país (YADAV, 2008).
Deve-se esperar que, por exemplo, a indústria agrícola brasileira faça escolhas semelhantes no alvo de Lobby, as etapas do processo para exercer influências e estratégias e táticas como nos Estados Unidos, na África do Sul, Canadá, Holanda ou Inglaterra? Os grupos de estruturas de incentivos enfrentam estas decisões independentemente da estrutura institucional do processo político e, portanto, são uniformes em todos os sistemas políticos? Ou são condicionados
sistematicamente pela estrutura das instituições políticas e sua confiabilidade que rege o processo político?
As configurações de CPA são contexto-dependentes, muitas tomadas de decisões neste campo estão conexas ao processo e sistema político vigorante (HILLMAN; KEIM, 1995) e obter o conhecimento das singularidades das operações da esfera política é fundamental para o bom desempenho da firma em CPA (BONARDI ET AL., 2006; GALAN, 2012; LAWTON;
RAJWANI, 2011). Uma investigação sobre a escolha dos Gerentes seniores na concepção de suas capacidades de Lobby interno ou externo demonstra que, em condições de incerteza, os atores privados devem fazer julgamentos sobre o curso correto de ação (PETERAF; REED, 2007). Henisz e Delios (2004) argumentam que existem dois tipos de incerteza ambiental: um baseado na falta de informações sobre um ambiente particular e o outro decorrente a uma mudança neste ambiente. Yasuda e Mitsuhashi (2017) definem mudanças políticas como mudanças dos Executivos no poder como resultado de eleições nacionais causando o redirecionamento das áreas de atuação política, como por exemplo tributárias, empregos e proteção ambiental e com isto criam uma descontinuidade das operações (YASUDA;
MITSUHASHI, 2017). Além de eleições nacionais, é de conhecimento comum de que ambientes políticos que experimentam trocas nos executivos no poder por impedimento de seus mandatos, também podem ser considerados como ambientes de mudanças políticas.
A questão do ambiente político e sua imprevisibilidade é endereçada por Lawton e Rajwani (2011). Kim e Prescott (2005) defendem que o contexto previsível é aquele no qual a empresa espera ser confrontada com decisões políticas, partes interessadas, questões ou ações dentro de um sistema político, ex. o início da desregulamentação do mercado (KIM; PRESCOTT, 2005).
Como resultado, a empresa deve reagir proativamente a este contexto de política previsível. Já o contexto político imprevisível é aquele no qual a empresa é inesperadamente confrontada com decisões políticas, partes interessadas, questões ou ações dentro de um sistema político.
Como resultado, a empresa deve reagir de acordo a este contexto de política (LAWTON, RAJWANI, 2011).
Há arcabouço literário de pesquisa sobre mudanças e incertezas políticas em investimento (JULIO; YOOK, 2012; BERANKE, 1983; BLOOM, et. Al., 2007; RODRIK, 1991; PINDYCK, SOLIMANO, 1993; BLOOM, et. Al., 2009) ; em como as Multinacionais respondem a este tipo de ambiente (YASUDA, MITSUHASHI, 2017; JULIO, YOOK, 2016); sobre o impacto
das eleições nacionais na volatilidade do mercado (BOUTCHKOVA, et. Al, 2011); e sobre as consequências do ambiente de mudanças políticas, como as trocas de poder, controle e redistribuição de recursos políticos (BIALKOWSKI et al. 2008). Porém, existe ainda limitado conhecimento sobre como as atividades políticas de Lobby da firma são realizadas em ambientes de mudanças políticas. Uma vez que o contexto político deve ser levado em consideração na análise de Lobby, já que ele influencia na implementação desta tática, faz-se necessário explorar melhor esse fenômeno. Para tanto, a presente pesquisa utilizará o período de 2016 no Brasil como laboratório, uma vez que ele apresenta ambiente de mudança política propício para o objeto da pesquisa.