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CAPÍTULO 3 – Do interdiscurso às práticas

2. Análise das práticas

2.2. Estrutura e funcionamento de um encontro de CEBs

2.2.1. Tema e símbolo do XI Intereclesial das CEBs

O tema do Intereclesial em 2005 foi CEBs e a Espiritualidade Libertadora. Como em todas as demais edições do evento, além do tema, os organizadores do encontro também propuseram um lema: Seguir Jesus no compromisso com os excluídos. O fato de possuir um lema é mais uma característica dos encontros das comunidades de base que os aproximam dos movimentos populares, tais como MST, sindicatos, associações de bairro, entre outros. Esses grupos, quando fazem algum tipo de manifestação popular, geralmente escolhem um tema e um lema. O lema é uma espécie de palavra de ordem que o grupo utiliza como um meio de especificação ou

111 No caso da RCC, os padres, bispos, religiosos e religiosas e também os líderes mais importantes do movimento carismático

delimitação do tema. Ele funciona também como uma motivação para os membros do movimento, pois define a linha de trabalho que será seguida para que o objetivo expresso no tema seja alcançado. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) - criada em 1952, pelo Arcebispo Dom Hélder Câmara - é responsável pela elaboração anual de uma Campanha da Fraternidade (CF). Essa campanha, organizada há vários anos pela Igreja Católica do Brasil, geralmente aborda temas ligados à realidade social do país, como desemprego, miséria, fome, entre outros. Além dos temas, a CNBB também escolhe um lema para cada Campanha da Fraternidade112. Há, portanto, um

diálogo entre essas campanhas da fraternidade e a Teologia da Libertação. A estrutura tema/lema e os temas de grande parte das CFs revelam uma forte ligação com os movimentos sociais e, conseqüentemente, com a TL. Além disso, o fato de a CNBB ser fruto da articulação de Dom Hélder Câmara, que ficou conhecido como o Bispo Vermelho, devido a sua ligação com os movimentos de esquerda, com outros bispos simpatizantes dos ideais libertadores também revela, como dito anteriormente, a proximidade desse órgão com a Teologia da Libertação113. O tema

CEBs e a Espiritualidade Libertadora possui uma estrutura que muito se assemelha aos temas dos demais encontros intereclesiais. A partir do V encontro das Comunidades de Base, quando o tema escolhido foi CEBs: povo unido, semente de uma nova sociedade, a sigla CEBs, seguida de dois pontos e de uma frase central passou a constar em quase todos os demais encontros. O tema do IX Intereclesial, por exemplo, foi CEBs: vida e esperança nas massas.

Na expressão espiritualidade libertadora, a segunda palavra, que não só qualifica, mas também restringe e especifica a primeira, faz parte da mesma cadeia paradigmática do termo libertação. No interdiscurso das CEBs o sema libertação e suas variantes (liberdade, libertadora, etc.) são constantemente repetidos. Saliento ainda que vários encontros intereclesiais retomam, no tema ou no lema, o sema libertação. O tema do terceiro intereclesial foi Igreja, povo que se liberta, e o quarto encontro teve o seguinte tema: Igreja, povo oprimido que se organiza para a libertação.

Além da repetição do sema libertação, note-se que, no terceiro e no quarto intereclesiais, a palavra destacada pelo recurso do aposto é Igreja. Não há nenhuma referência às Comunidades de

112 Alguns temas e lemas das últimas Campanhas da Fraternidade: 1) em 2003, o tema foi Fraternidade e pessoas idosas, com o lema:

Vida, dignidade e esperança; 2) em 2004, o tema foi Fraternidade e água, e o lema: Água, fonte de vida; e, finalmente, em 2005, o tema escolhido pela CNBB foi Solidariedade e paz, com o lema: Felizes os que promovem a paz.

113 Atualmente, apesar de ter perdido muito de seu caráter progressista, devido inclusive à reforma do bispado brasileiro, a CNBB

Base. O mesmo ocorre no primeiro e no segundo encontro, cujos temas são, respectivamente, Igreja que nasce do povo pelo Espírito de Deus e Igreja, povo que caminha. Nesses casos, a sigla CEBs também não aparece. Apenas no quinto encontro das comunidades de base os organizadores substituem o termo mais amplo (Igreja) pela sigla das comunidades (CEBs). O pré-construído criado pela frase- tema dos primeiros intereclesiais é o de que toda a Igreja participa do movimento pela libertação. A partir do quinto encontro, passa-se a ter uma maior especificação: não é a Igreja como um todo, mas são as Comunidades de Base que se preocupam com a libertação do pobre e do oprimido.

O destaque dado ao sema libertação no discurso das CEBs reforça a ligação entre Comunidades de Base e Teologia da Libertação. Afinal, foi na TL que a palavra libertação ganhou força e passou a funcionar como uma espécie de slogan dos movimentos sociais da Igreja Católica. Nesse sentido, ao apresentar o adjetivo libertadora como um especificador do substantivo espiritualidade, o enunciador das comunidades de base responde a vários outros discursos que estão presentes na sociedade contemporânea. São muitos os livros de auto-ajuda, programas de rádio e televisão, igrejas, etc. que, atualmente, recorrem ao mundo espiritual ou fazem referência a uma (ou várias) forma(s) de viver uma certa espiritualidade. Esse apelo ao mundo espiritual e a vivência de uma espiritualidade é, segundo Prandi (1997), mais uma característica do individualismo presente nas religiões contemporâneas. Ainda de acordo com Prandi, a Renovação Carismática Católica é um exemplo dessa renovação espiritual vivenciada a partir de experiências de transcendência individual, obtidas por meio da efusão no Espírito Santo (cf. Prandi, 1997:62).

Quando utiliza o substantivo espiritualidade, o enunciador das CEBs está dialogando com a rede interdiscursiva que prioriza o mundo espiritual e a vivência de uma espiritualidade baseada na relação com o sobrenatural. Para a Teologia da Libertação, toda vivência espiritual deve ter como base uma preocupação social. No texto Libertar a espiritualidade, de autoria de José Carlos Picoli e publicado na página www.cebsuai.org.br, há a seguinte definição para o termo espiritualidade:

Exemplo 23

Espiritualidade é o gás espiritual que nos anima numa caminhada de Fé. Não é a mesma coisa que momentos de oração e de celebração. É o espírito com que fazemos tudo o que fazemos. Se no dia-a-dia fazemos as coisas com amor, pensando no bem de todos, com espírito de serviço e solidariedade, sendo desta maneira, fiéis a Deus e a seu projeto, essa é a

Há ainda vários outros textos, publicados por ocasião do XI Intereclesial das CEBs, que procuram explicitar o sentido do termo espiritualidade. A preocupação em precisar esse termo está relacionada ao fato de ele estar presente em vários outros discursos e alguns deles, como é o caso do da Renovação Carismática, serem adversários discursivos da Teologia da Libertação114.

Quando os organizadores do XI Intereclesial escolhem o tema Espiritualidade Libertadora é como se eles afirmassem que a espiritualidade vivenciada pelas CEBs é aquela que conduz à libertação. Por isso, o lema: Seguir Jesus no compromisso com os excluídos. Essa frase cria o pressuposto de que Jesus Cristo tem um compromisso com os excluídos e é a partir desse compromisso que o cristão deve segui-lo.

Os membros das CEBs defendem que não basta ter uma espiritualidade, é necessário que essa espiritualidade conduza à libertação. Da mesma forma, não basta seguir Jesus, é preciso segui-lo assumindo o compromisso que Ele mantém com os excluídos. O símbolo do XI Intereclesial reforça o discurso materializado no tema e no lema do encontro. Vejamos uma cópia da imagem-símbolo do evento:

114 Courtine (1989), ao tratar de alguns aspectos do discurso político, afirma que quando uma determinada palavra funciona como

um qualificador de um outro termo, como, por exemplo, a classe operária (operária qualifica o sentido de classe) é porque existem zonas onde as contradições aparecem, onde as palavras são disputadas e as posições devem poder apoderar-se dessas palavras para interpretá-las a seu favor (Courtine, 1989:48). Nesse sentido, se há a necessidade de qualificar (ou especificar) o sentido de espiritualidade é porque essa palavra não pertence a uma zona consensual do discurso religioso, mas, ao contrário, revela um lugar de contradição entre diferentes posicionamentos.

Figura 4 - Símbolo do XI Intereclesial das CEBs

Trata-se de um círculo (provavelmente uma peneira, pois este foi um dos principais símbolos do XI Intereclesial) que traz na sua borda uma série de imagens: um trem (símbolo das CEBs), uma mulher segurando uma bandeira com uma pomba (símbolo do Espírito Santo), um homem tocando tambor, um boi, um homem tomando chimarrão e um outro com um chapéu de boiadeiro e tocando flauta, o Palácio do Congresso Nacional, onde estão situados o Senado e a Câmara de Deputados, a bandeira de Minas Gerais, entre outros. Esses desenhos, que aparecem como uma espécie de silhueta, fazem referência à história das CEBs: a presença do Espírito Santo, as diferentes culturas que se reúnem, a preocupação com o social e com a política e, principalmente, as diferentes cidades e regiões por onde o “trem das CEBs” já passou. O sentido de cada imagem é construído a partir de uma cadeia interdiscursiva que refaz toda a trajetória das Comunidades de Base ao longo de seus 30 anos de história. O círculo que se fecha, mas deixa de

pelos enunciadores ligados à Teologia da Libertação. Como visto em relação à acomodação de Bispos e Padres no XI Intereclesial, não há uma hierarquia nas CEBs, pois todos fazem parte da base. Para Boff (1986:85), a hierarquia, exatamente por ser hierarquia e assumir o ministério do governo, não é base.

No centro da figura, há a imagem de um livro (provavelmente a Bíblia) no qual estão fincados um crucifixo e um mapa da América Latina115. O crucifixo é sustentado por duas pessoas,

um homem de traços indígenas116, que toca uma flauta, e uma mulher negra, com um lenço na

cabeça. Ao lado dos dois, há um outro homem, que está tocando um tambor. Ele, assim como a mulher, tem traços da raça negra. Os três estão descalços e de pé sobre a bíblia e olham para parte superior do crucifixo. Eles representam os diferentes povos que formam as nações latino- americanas (negros e índios) e materializam a imagem do pobre e do oprimido, representada pelos pés descalços. Essas pessoas representam a base da Igreja de Cristo. São eles que, de pés descalços sobre o livro que contém a palavra de Deus e com os olhos voltados para cruz, constituem a Igreja do povo de Deus. Nota-se a omissão da raça branca, que não aparece na figura. Isso se deve ao fato de, no discurso das comunidades de base, os brancos não serem vistos como marginalizados.

Há, na parte superior da cruz, várias faixas que apresentam alguns enunciados ligados à história das CEBs e da TL, tais como: Por uma terra sem males (lema da Campanha da Fraternidade de 2002, organizada pela CNBB117); vidas pelo reino, e a reforma agrária é a volta do agricultor à paz

(slogans repetidos em quase todas as reuniões de CEBs); pão em todas as mesas, e uma mulher que sabe viver e amar (trechos de canções entoadas nas reuniões das comunidades de base). A faixa de terra representando a América Central liga o desenho do mapa a um dos vagões do trem, que está na borda do círculo. Essa imagem, além de reforçar o desejo de unidade entre as Américas do Sul e Central, remete à história da Teologia da Libertação, movimento que teve origem nos países da América Latina (cf. Löwy, 1991).

115 Em princípio, poder-se-ia pensar que se trata do mapa do Brasil, pois ele muito se assemelha ao mapa da América do Sul.

Entretanto, existem alguns indícios que desfazem a confusão. Primeiramente, o mapa da América Central, também presente na figura, indica que se trata do mapa da América Latina. Em segundo lugar, a memória interdiscursiva das comunidades de base remete à forte ligação que esse movimento mantém com os demais países que constituem a América Latina (países da América do Sul e da América Central).

116 Tais traços estão baseados em um estereótipo segundo o qual o índio tem pele amarela e cabelos lisos. Também é por meio de um

estereótipo que podemos afirmar que os outros dois personagens têm traços da raça negra. De acordo com tal estereótipo, os negros são pessoas de pele escura (no desenho, de cor marrom) e cabelos crespos.

A figura do centro também apresenta uma série de indícios que dialogam com o discurso da Teologia da Libertação e, principalmente, com o tema do XI Intereclesial: Espiritualidade Libertadora. A Bíblia e o crucifixo representam o mundo espiritual e materializam a importância que as comunidades de base atribuem à leitura bíblica e à figura de Jesus Cristo118. As três pessoas,

que representam o pobre e o marginalizado, e as faixas, presas no crucifixo, fazem referência à relação da Teologia da Libertação e das Comunidades de Base com a realidade sócio-econômica e com a luta do povo oprimido (cf. Boff, 1986). Nesse sentido, o símbolo do XI Intereclesial materializa e corrobora o enunciado central do encontro: A espiritualidade das CEBs deve ser vivida por meio do compromisso com o povo excluído.