AURITA POLINIZADA
2.3 Temperamentos e materialidades
“De cabaça na mão, céu nos cabelos à tarde era que a moça desertava
32(LISPECTOR, 1998, p. 12).
33 Observação: Algumas imagens foram retiradas do diário de bordo (tópico 1.5), estas não estão incluídas na lista de imagens, pois a intenção é que elas deem continuidade a escrita de forma a aproximar o leitor à dinâmica que o diário propõe. As demais imagens, que surgem durante a escrita, pelo contrário, tem função de demonstrar acontecimentos, pessoas e materialidades que contextualizam a escrita.
dos arenzés de alcova. Caminhando
um passo brando pelas roças ia nas vingas nem tocando; reesmagava na areia os próprios passos, tinha o rio
com margens engolidas por tabocas, feito mais de abandono que de estrada e muito mais de estrada que de rio
onde em cacimba e lodo se assentava água salobre rasa. Salitroso
era o também caminho da cacimba
e mais: o salitroso era deserto. A moça ali perdia-se, afundava-se enchendo o vasilhame, aventurava
por longo capinzal, cantarolando: desfibrava os cabelos, a rodilha e seus vestidos, presos nos tapumes
velando vales, curvas e ravinas (a rosa de seu ventre, sóis no busto) Liberta nesse banho vesperal
Moldava-se em sabão, estremecida cada vez que dos ombros escorrendo o frio d’água era carícia antiga. Secava-se no vento, recolhia só noite e essências, mansa, carregando-as
na morna geografia de seu corpo.
Depois, voltava lentamente os rastos em deriva à cacimba, se encontrava nas águas: infinita, liquefeita.
Então era que a moça regressava tendo os olhos cânticos e aromas
apreendidos no entardecer rural.” (MAMEDE, apud. CASTRO e MARIHO, 2003, p. 88)
Durante minha intervenção no Estágio de Docência Assistida para os alunos da disciplina de Encenação I34, vivenciei a persona Aurita através de um experimento inspirado
34 Ministrada pela Professora Dr.ª Naira Ciotti, no curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
nos exercícios de rasaboxes35, treinamento do performer baseado na emoção, criado por Richard Schechner.
Primeiramente, se faz necessário uma breve explicação sobre o treinamento, o qual eu me refiro. No artigo O Ator Como Atleta das Emoções: O Rasaboxes (2011), as professoras Michele Minnick e Paula Murray Cole explicam sobre a origem e o significado de rasa:
Rasa é uma palavra em Sânscrito que significa, literalmente, essência, suco, sabor e pode ser encontrada em antigos textos indianos Ayurvédicos para descrever os seis sabores encontrados nos alimentos: salgado, doce, amargo, ácido, acre e adstringente. (MINNICK e COLE, 2011, p. 6)
Posteriormente, as autoras apontam que Bharata, autor do Natyasastra, diz:
Porque ela [performance] é experimentada com prazer, ela é chamada rasa. Como o prazer surge? Pessoas que comem alimentos preparados e misturados com diferentes condimentos e molhos, etc, se elas forem sensíveis, depois de apreciarem as várias emoções expressas por um ator através de palavras, gestos e sensações, sentem prazer, etc. Este sentimento (final) dos espectadores é aqui explicado como (várias) rasa-s de Natya. (MINNICK e COLE, 2011, p. 6 apud VATSYAYAN, 1996, p. 55)
Deste modo entende-se que a experiência no rasaboxes é gerada pelo prazer em passar pelas nove emoções básicas (chamadas de sthayi bhavas no Natyasastra36): amor, raiva, tristeza ou compaixão, medo, repugnância ou nojo, coragem, riso, maravilha ou surpresa e paz, do mesmo modo que é prazeroso provar diferentes tipos de sabores. Rasa é a experiência evocada pelas emoções; é a experiência em sentir o sabor, seja doce ou amargo, de uma fruta, por exemplo. O doce ou o amargo em si, são as emoções isoladas. Para que haja a experiência, é necessária a presença. Tanto o performer quanto o expectador podem vivenciar a rasa, a emoção.
Uma grade composta por nove quadrados é desenhada ao chão. Nos exercícios básicos propostos por Michele Minnick e Paula Murray Cole, são designadas cada uma das oito emoções (rasa) para cada “caixa” periférica. A caixa central é reservada para a tranquilidade e é frequentemente interpretada como um estado neutro, de desapego das outras emoções.
35 “Fascinado pela teoria clássica indiana de rasa, estimulado pelas descobertas da ciência contemporânea, desafiado pela proposta de Artaud do ator ser um “atleta das emoções”, e destemido da ideia provinda de muitos treinamentos baseados no método Stanislavski onde um ator não deve nunca “representar a emoção”, Schechner concebeu os exercícios de rasaboxes, o componente prático de seu argumento teórico da Rasaesthetics.” (MINNICK e COLE, 2011, p.4)
Aminha proposta de intervenção consistiu em eu me colocar à disposição da turma de encenadores em formação, para que eles pudessem de alguma forma, me direcionar e interferir nas ações/imagens que estavam sendo desenvolvidas, através dos elementos de estímulos, ou seja, as emoções e, por conseguinte, as materialidades. Decidimos, ao invés de nomear as caixas com as emoções, associarmos as mesmas aos sabores, ou seja, aos temperamentos que a persona pudesse mergulhar.
Em cada espaço um sabor37/temperamento e seus respectivos condimentos, frutas ou verduras38, sendo eles: azeda (limão a fruta e em pó), doce (açúcar e rapadura), muito doce (melaço), adstringente (banana muito verde), agridoce (beterraba, inteira e em pó e repolho roxo), salgada (sal), picante (pimenta, alho, gengibre) e amarga (pó de café). O espaço central se manteve neutro, sem temperamentos, porém nele foram dispostos alguns objetos que poderiam também ser utilizados para a criação.
Além da possibilidade de intervenção dos alunos, através da indicação dos temperamentos que eu devia seguir e dos objetos na caixa central, havia outro estímulo disponível para a condução: a interferência sonora. Havia trechos de vários poemas escritos por Zila Mamede39 espalhados ao chão, em papéis fora da estrutura que podiam ser lidos a qualquer momento.
Segundo as Minnick e Cole (2011), o princípio básico do rasaboxes é que cada ideia que o performer deseja comunicar deve ser expressa pelo corpo. A partir disso, é acionado um circuito que coloca as percepções internas e externas em relação. Nisto ocorre um trabalho com as emoções que se destina à conexão do corpo e da mente.
Tal princípio também se manteve em minha investigação, mas, ao invés de trabalhar partindo diretamente da emoção, eu pretendia manter a relação interno/externo a partir da ação de deglutir. Desta forma, a experiência de sentir o sabor/temperamento concretizava-se corporalmente pelo encontro com os objetos. Se o sabor se referia ao meu estado emocional, a relação com os objetos me auxiliou na percepção da materialidade da ação presente.
Ao entrar no espaço central, meu corpo esteve submerso nas águas da criação que cintilaram metamórficas personas de mim. Olhando de cima dava para ver
37 Os sabores foram tratados no gênero feminino, fazendo referência ao estado emocional e corporal da persona em ação.
38 A ideia de utilizar outros alimentos além diferente da beterraba, nasce do desejo em experimentar novas materialidade levando em consideração a possibilidade de ressignificação que elas podem suscitar.
39 Os poemas foram retirados do livro Zila Mamede: se esse humano dos meus gestos (2003) de Angela Almeida, Marize Castro e Vânia Marinho.
o contorno do que fui. Mas, estive nas profundezas. Somente lá era possível me encontrar. O estado da performance me evoca vida e presença. Me sinto ao avesso. O avesso do pensamento é meu inconsciente, minha criação, minhas palavras de fundo. As que não podem ser lidas ou ouvidas, pois foram trancafiadas desde a infância. Mas aqui, elas deixarão de ser implícitas. Comporão o plano principal. Nem mesmo existirão os pudores que provavelmente desmanchariam sua fluidez. Desfiz-me de qualquer rigor que pudesse barrar a correnteza das imagens que reexistem no circuito da criação, no circuito das imagens e das materialidades. (Trecho de meu diário de bordo)
Saindo então do espaço central, as sensações do corpo ocasionadas pelos sabores, se cruzaram com as imagens construídas a partir da relação com os objetos.
No espaço azeda, começo empurrando a banda de um limão para dentro das minúsculas taças de vidro. O ato parece não findar, visto que o limão é maior que as taças. Apesar de parecer impossível uma grande banda de um limão adentrar no interior de uma pequena taça, prossigo com a ação. O suco, então, escorre pelo chão. Depois de usufruir do seu gozo, a casca do limão finalmente consegue o que quer e se encontra internalizada naquele corpo transparente. Coloco uma rodela de limão com casca na boca. Sinto o sabor do desespero. Sou envolvida pela vontade de arranhar duas taças medianas pelo chão, e assim faço. Uma em cada mão. Como se compreendessem os gestos. Recebo uma indicação externa40 para ir ao espaço doce. Quebra extrema. O sabor do açúcar derretendo na língua é o resgate da criança antes do azedo estado. Mas não pude negar o limão. Já havia acontecido. Estupro. Fui indefesa. Do doce passei ao muito doce. Ainda agarrada, aquelas taças, preencho seus vazios com o mel que de alguma forma tenta me falar algo. Ponho as taças próximas aos ouvidos, e ouço (imagem 15). Balanço a cabeça. O mel, estável, dentro do oco das taças, se agita desenfreadamente como uma tempestade. As mãos que seguram as taças que empurram a cabeça que se movimenta de um lado ao outro que desestabiliza o mel em sua eterna solidão, calam-me a visão. Desprezo às taças. (trecho de meu diário de bordo)
Imagem 15: Ação construída pelas interações com os espaços azeda, doce e muito doce. (28/08/2019)
Foto: João Azevedo.
Meus cabelos, melados, passam a fazer parte da ação. Construo duas tranças. Inocentemente, acolho-as e sou acolhida. Os cabelos que antecedem a tranças caem sob meus olhos, como quando uma cortina se fecha para não entrar luz ou quando como a água do mar, tão apressada, cobre a areia da praia deixando-a invisível. As trdeixando-ançdeixando-as pdeixando-assdeixando-am deixando-a guideixando-ar meu corpo como se tivessem viddeixando-a própria. Na ação me encontro cega. Violada. As tranças enforcam-me (Imagem 16).
Cabelos entorpecentes. Cabelos livres da cabeça, mas presos no emaranhado que entope o ralo. Cabelos musgos. Cabelos cortantes, ardentes. Velhos cabelos que carregam cicatrizes: resíduos efêmeros, levados e ressignificados pela água, resíduos rígidos que estacionam no corpo e na alma. (Trecho de meu diário de bordo)
Imagem 16: Sequência de ações com a trança, construída a partir das interações com os espaços azeda, doce e muito doce. (28/08/2019)
Fotos: João Azevedo.
A voz externa me indica o espaço adstringente. Descasco lentamente uma banana muito verde, tão verde que sua casca ainda nem se reconhece enquanto casca. Ela se confunde com a própria fruta. Ponho na boca. A dura e rançosa. Mesmo não querendo mordê-la, os dentes mastigam-na. A língua se contrai. Pego uma faca e apunhalo o resto da banana. Estraçalho em pedacinhos aquela fruta que por fim das forças quer adentrar em mim. Um falo.
Em seguida arrasto um elemento do espaço agridoce. A beterraba, rodeada por sua secreção sanguínea, me impulsiona a alterar aquela imagem. Mastigo o vegetal enquanto banho o corpo morto com o líquido vermelho que se mistura com minha saliva escorrendo pela boca. Vomito. (Trecho de meu diário de bordo)
Imagem 17: Ação no espaço adstringente com intervenção do elemento agridoce. (28/08/2018)
Foto: João Azevedo.
Por conseguinte, experimento entrar na estrutura salgada.
Tempero-me, purifico-me. Algo dentro do meu corpo tenta sugar a pele exposta. A começar pelos lábios que aos poucos vão se escondendo no interior da boca. A sensação é de ter me engolido toda. Centrifugo-me. Sou o nada que pulsa dentro de mim.
Diante de minha inexistência salgada, o pulso é picante. A pimenta em meu céu da boca, ferve e me expande. Sou anêmona inflada de ar como uma bexiga solta. O universo de cabeça para baixo é o mesmo. Não vivo e não morro. Sou amarga. Pó de café que não desce garganta abaixo. (Trecho de meu diário de bordo)