Capítulo IV – Os confederados em Santa Bárbara e a escravidão: uma perspectiva
4.3. Temperamentos generosos; atitudes beligerantes
Pela história do povo americano, pode-se dizer que os Confederados eram
batalhadores e tinham atitudes de cristãos generosos, mas por conta da própria origem
(provenientes de uma guerra) e avaliando os registros de sua vida no Brasil, é possível
assumir que alguns deles tinham uma tendência à truculência e beligerância, especialmente ao
serem contrariados.
Na obra Soldado Descansa, Judith MacKnight Jones defende que seus
compatriotas eram pessoas boas. Alguns (americanos) se referiram a eles como heróis, mas
houve outros que os descreveram como gente de cabeça-quente: "Houve um escritor que se
referiu aos emigrantes como ‘um grupo de separatistas esquentadinhos, ao invés de
comprometidos com a fidelidade ... Agora eu defendo que eles não eram assim, mas heróis de
coração valente
57." (Dawsey & Dawsey, 1998, p. 27).
Há registros de confederados generosos e muito bons para os seus escravos
(Jones, 1998), como foi o caso de Edwin Britt. Segundo Jones, certo dia, um oficial lhe
ofereceu um escravo magro e doente chamado Manoel, que havia servido na guerra do
Paraguai (e deveria ter sido libertado por isso). Britt o tratou até que recuperou a saúde e o
escravo acabou adotando o nome de seu senhor: Manuel Britt. Edwin deixou, posteriormente,
em testamento, sua propriedade para o escravo (Jones, 1998, p.222).
Jones cita outro exemplo de bondade para com os escravos, mas sem o respectivo
reconhecimento: foi o caso de Lizzie, que havia criado um mulato como filho, mas “ao
dar-lhe um cavalo e uma sela, ele partiu e nunca mais voltou” (Jones, 1998, p.309).
Em contrapartida, familiares de Cob Cole, por exemplo, deixaram “a lembrança
de não terem sido muito bom para os seus escravos” (Jones, 1998, p.203).
Houve, também, histórias em que o escravo brasileiro protegeu seu amo dos
próprios vícios, como foi o caso de Ezequiel, escravo de Will Reese: ao perceber que seu
senhor iria gastar todo o dinheiro no jogo, o rapaz “tirou o dinheiro do bolso de Will Reese,
que pensou que havia gasto tudo no jogo. O empregado lhe deu o dinheiro no dia seguinte”
(Jones, 1998, p.337).
É possível supor que os escravos do Coronel Norris tenham sido tratados com
certa razoabilidade, pois ficavam acomodados a uma distância de três quilômetros da casa de
57 Tradução livre da pesquisadora: “One writer speaking of these emigrants said 'a number of hot-headed secessionists, rather than take the oath of allegiance' etc. Now I do not think them hot-headed, but brave-hearted hero[e]s”
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seu senhor e nunca tentaram fugir, nem mesmo depois de libertos, apegando-se à família com
quem tinham convido por anos (Jones, 1988).
Por outro lado, se era verdade que Norris era generoso, tinha, com certeza, um
temperamento explosivo. Por ter sido militar, havia se acostumado a dar ordens, exigir
disciplina e não ser contestado. Em certa ocasião, ao discutir com um compatriota,
Hawthorne, “tão inflamado ficou que sacudiu a bengala na frente do rosto do homem ...
acabou furando o olho do sr. Hawthorne ... foi levado a Campinas e detido ... exigiu que
trouxessem sua cadeira de balanço predileta” (Jones, 1998, p. 283). E foi atendido pelas
autoridades.
Norris não foi o único que feriu o olho de um companheiro em briga. O mesmo se
passou com Robert Jones, que brigou por causa de divisas.
Mas há fatos narrados por Jones que indicam a disposição violenta nas atitudes de
seus compatriotas: diversos crimes foram cometidos e, aparentemente, alguns encobertos
pelos próprios membros da comunidade, possivelmente por entenderem que, sendo
imigrantes, poderiam dispensar a participação da polícia ou da justiça brasileira em “seu
território”.
O Coronel A. Thompson Oliver (o mesmo que havia perdido esposa e filhas para
a tuberculose e, sepultando-as nas próprias terras – o Sítio da Serra, que deu origem ao
Cemitério do Campo), depois de enviuvar, contraiu novas núpcias com Drusilla Daniel, filha
do Rev. James Daniel, Ministro Batista do Alabama.
Oliver era homem de posses e decidiu adquirir mais escravos, um deles, de nome
Lourenço. Este, desafiando as ordens de seu senhor, saía durante a noite e quando o fazia, o
Coronel o castigava, pondo-o a ferro. Revoltado com a penalidade, jurou matar seu senhor,
bem como seu capataz, Orvile Whitaker. Em uma manhã de domingo do dia 27 de julho de
1873, antes de ir à igreja, o Coronel circulava pela propriedade quando surpreendeu o escravo
Lourenço furtando batatas e repreendeu-o severamente. Em resposta, o escravo “sacou de
uma faca reluzente ... e num brusco, violento e infame movimento, cravou a faca ...
ocasionando quatro perfurações mortais nas costas, no peito e nas virilhas, além de outros não
mortais nas diversas partes do corpo” (Veiga, 1989, p. 96).
Não foi possível aferir se o escravo passava fome e por isso furtava batatas. De
toda forma, conta-se que o Coronel reagiu, mas sucumbiu em decorrência dos ferimentos.
Lourenço foi levado a juízo e absolvido por unanimidade pelo júri, pois a
promotoria não conseguiu demonstrar a culpabilidade do escravo. O veredicto teria provocado
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indignação entre os membros da comunidade confederada, que estava convencida de que não
havia dúvidas ser Lourenço o assassino do Coronel. Em seguida, Lourenço foi assassinado.
Para a justiça, os dois assassinatos, do Coronel e do escravo, ficaram sem solução,
mas Jones revela quem matou Lourenço:
Quando souberam do brutal assassinato do Coronel Oliver, se indignaram e se
comoveram, temendo ao mesmo tempo pela segurança de suas famílias. Não
havia policiamento a não ser nas cidades grandes e a polícia não se metia em
questões de escravos. O fato de um escravo ter exterminado seu dono não era
novidade para os sulistas que presenciaram o saque das suas fazendas e o
ataque às suas mulheres por outros escravos, que não diferiam daquele.
Defenderam-se da maneira mais acertada para eles: os moços se reuniram e
enforcaram o negro numa árvore da própria fazenda. Conforme o costume
entre eles, ninguém ficou sabendo quem foram os executores. Só depois de
passados muitos anos e mortos os personagens, revelou-se o segredo: Dick
Crisp, Robert MacFadden e Bony McAipine (Jones, 1998, p. 224).
Outro episódio entre a comunidade de sulistas narrado por Jones demonstra que,
mesmo entre eles, questões de somenos importância poderiam gerar conflitos fatais. É o caso
envolvendo Green Ferguson, descrito como “homem autoritário, senhor de diversos escravos”
(Jones, 1998, p. 225) e seu vizinho, James Miller. Pelo fato de não haver cerca entre suas
propriedades, era comum que os animais invadissem as terras vizinhas, especialmente “se a
grama parecesse mais verde”, pelo menos aos olhos dos animais. Em uma determinada
ocasião, quando isso aconteceu, Miller teria afirmado ser insuportável que os animais de
Ferguson invadissem suas terras e que portanto, “se não mudarmos daqui, terei de matar ou
ser morto” (Jones, 1998, p. 225).
Outro delito implicando duas pessoas da comunidade foi o que envolveu Robert
Daniel e Zeke Baird (James Ezequiel Baird). O primeiro, por ter uma extensa propriedade,
permitiu que o segundo plantasse, em sociedade, milho em suas terras. Aconteceu que Zeke
vendeu um burro a Robert, que demorou a pagar. Zeke entendeu que deveria ser
recompensando colhendo o milho, o que Robert não concordou, mas Zeke ignorou. “Mais
tarde Zeke foi encontrado morto na roça, vítima de um tiro de espingarda” (Jones, 1998,
p.334). Esse acontecimento foi ratificado pela pesquisa de Silva (2007):
Em 28 de junho de 1896, Robert William Daniel é acusado de atirar com uma
espingarda na cabeça de James Ezequiel Baird. Robert e James tinham um
acordo, em que este plantaria cana e milho nas terras do primeiro. Os dois se
desentenderam a respeito do acordo e Robert foi encontrado morto enquanto
colhia milho (Cf. AGFP-UNIMEP, 1896, 1° of. Caixa 264/C). (Silva, 2007,
p.89).
Fica evidente que houve crimes praticados e encobertos pelos confederados, que
não foram esclarecidos pelas autoridades (alguns deles, a polícia nem chegou a tomar
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conhecimento). Jones reconhece tais crimes ocorridos no seio da comunidade, mas os aborda
de forma jocosa. Apesar de alguns (não se sabe quantos) desses delitos terem ficado adstritos
aos americanos à época, outros foram objeto de investigação.
Corroborando alguns fatos criminosos apresentados por Jones (1998), o trabalho
de pesquisa de Silva (2007), que analisou diversos processos-crime envolvendo os
norte-americanos estabelecidos em Santa Bárbara, indica que a disposição beligerante os havia
acompanhado ao Brasil. Algumas contendas envolveram não somente aqueles que pertenciam
à comunidade confederada, mas também a população local.
Os Tanner, por exemplo, por terem os ânimos muito exaltados, fizeram vários
inimigos na região. Além de seu temperamento explosivo, eram dados à bebedeira, o que
piorava seu espírito desordeiro.
Silva (2007) reporta que os Tanner eram descritos como bárbaros e explica a
razão disso: em janeiro de 1874, o inspetor de quarteirão, Bento Antonio de Santanna, teria
denunciado John Tanner por castigar, de forma violenta, uma escrava que tinha
aproximadamente 10 anos de idade, chamada Generosa. Em decorrência do castigo, foram
identificados na menina ferimentos “tanto na bunda, como na parte genital, que horroriza
ver-se, porque nessa parte, Jones Tanner, depois de empregar os bárbaros castigos, introduziu à
força um pedaço de fumo com um pau que teria seis polegadas mais ou menos (AGFP-
UNIMEP, 1° of. , caixa 03/A)” (Silva, 2007, p. 96). Ao ser chamado a depor, o pai de Tanner
assim se posicionou perante o inspector: “a negrinha seria infalivelmente morta cortando-lhe
o pescoço, visto que outros matam e não sofrem crime algum (AGFP- UNIMEP, 1° of. , caixa
03/A)” (Silva, 2007, p. 96). Para Silva (2007).
Tanner talvez estivesse se referindo ao assassinato do Coronel Oliver:
a crença na impunidade dos atos contra a escrava por parte de Mathews Lewis
Tanner o levou a responder ao inspetor de quarteirão ... que nada sofreriam ele
ou seu filho em virtude das únicas testemunhas dos atos praticados por seu
filho serem seus escravos que, de acordo com Mathews, não poderiam depor
em juízo” (Silva, 2007, p. 105). E, de fato, ele estava certo: “Após três
julgamentos, John Tanner é absolvido (Silva, 2007, p.105).
Em 1873, quando Eduardo Tanner e seu irmão, João, eram ainda adolescentes,
com aproximadamente 15 anos de idade, João teria desferido um tiro no irmão. O caso não foi
a juízo porque, segundo o subdelegado, houve recusa em proceder-se ao exame de corpo de
delito. Na opinião dos Tanner, uma vez que o fato se dera entre os membros de uma família,
era “intempestiva a intervenção da justiça quando esta não for chamada!” (Silva, 2007, p. 84).
Os membros da comunidade teriam sido convencidos pelos Tanner a se negarem a contribuir
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como testemunhas ou informantes. O delegado tinha dificuldades de exercer seu papel junto
aos confederados.
Os Tanner (pai e filhos) se embriagavam com frequência e tinham certas
altercações em família. Em uma delas, João bateu na cabeça do pai com um pedaço de
madeira, mas o crime não foi reportado à polícia. Em outra oportunidade, Eduardo “trancou
seu pai em um quarto e o fechou com chave, tentando assassiná-lo, quando foi impedido por
John Tanner que arrombou a porta. Houve uma luta entre os dois e Eduard feriu John com
uma faca, que por sua vez desferiu um tiro contra Eduard. (Cf. AGFP- UNIMEP, 1873, 2° of.,
caixa 76/D)” (Silva, 2007, p.85). Não fica claro se esse tiro é o mesmo de quando eles eram
adolescentes.
Já em 17 de dezembro de 1877 houve outra tentativa de assassinato envolvendo
um membro da família Tanner:
Está provado com o inquérito incluso, que o denunciado (Eduardo Tanner)
tentou matar a Joaquim Antonio Bastos, o que não realizou, por circunstâncias
independentes da vontade do denunciado ... É geralmente sabido que o
denunciado é desordeiro, que faz parte de uma família já muito conhecida nos
anais do crime desta Comarca (AGFP- UNIMEP, 1877, 1° of., caixa 4/G).
(Silva, 2007, p.81).
Silva (2007) conta que “de fato, os nomes de seu pai (Tanner) e de seu irmão
aparecem diversas vezes em autos de processos-crime. Eduardo Tanner não foi condenado por
esse crime (assassinato de Joaquim Bastos), mas por roubo cometido em Belém do
Descalvado” (Silva, 2007, p.81).
Tanner também já havia se envolvido com a justiça no ano anterior, mais
precisamente em abril de 1876, ao agredir Jesse R. Wright. E não somente isso:
em 6 de outubro de 1878 o réu (Tanner) assinou um termo de bem viver,
comprometendo-se a não mais se embriagar e comprometer o sossego público,
sob pena de três meses de prisão; todavia, em 12 de fevereiro de 1883
promove desordens em casa de sua própria mãe (AGFP- UNIMEP, 1883, 1°
of. , caixa 1/D). (Silva, 2007, p.83).
Como se não bastasse, em 1884, Tanner, desferindo três facadas em Victor
Aquilino de Freitas, tira-lhe a vida. O crime teria ocorrido em Santa Bárbara.
De acordo com o réu, o motivo teria sido uma dívida de jogo, já que Victor
cobrou roupas que perdera em aposta para Tanner, ao que este respondeu que
só as devolveria se a quantia fosse dada em dinheiro. Victor armou-se de um
porrete e desferiu um golpe em Tanner, que em seguida sacou a faca e o
golpeou. As testemunhas de defesa de Eduardo Tanner eram todas da
comunidade confederada (Cf. AGFP- UNIMEP, 1884, 1° of. , caixa 34/C).
(Silva, 2007, p.83).
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Wilber Mc Knight, bem como seu tio, Thomas Sterret Mc Knight, eram tidos,
pela comunidade, como desordeiros e dados ao consumo de álcool. Os membros da
comunidade chegaram a acionar o pastor para que os reprendesse, na esperança de que o
religioso os convencesse a mudar de atitude.
Esse mesmo Wilber, que no início não sabia falar português, possuía um escravo
com o qual se comunicava por mímicas. Conta Jones que, em determinada ocasião, Wilber
muito se aborreceu com o dito escravo e como punição, prendeu-o a um coqueiro. O escravo,
irado, “xingou até não poder mais. Wilber, quando ouviu todo aquele palavrório, pensou que
o negro estava arrependido e pedindo perdão; foi depressa e soltou-o, achando que estava
fazendo grande coisa” (Jones, 1998, p.228).
Jones relata um crime reportado por Wilber: em uma noite escura, o Sr. Anderson
percebeu uma agitação com os cavalos nos pastos: eram ladrões que queriam roubá-los. O
proprietário e seu funcionário atiraram para assustá-los, mas atingiram um deles, que morreu
no local. O que fazer? “Fizeram um buraco no bagaceiro e enterraram o homem lá” (Jones,
1998, p. 254). Wilber chegou a ser eleito vereador em Santa Bárbara, de 1896 a 1898,
“primeiro americano a tomar parte ativa na política” (Jones, 1998, p. 302).
Jesse (ou Jess) Wright também era, como muitos de seus compatriotas,
“hot-headed
58” e não desenvolveu tal temperamento em terras brasileiras. Sua vinda para o Brasil
foi, de certa forma tumultuada, pois por conta de um incidente com o navio (que poderia ser
considerado um naufrágio), precisaram desembarcar em Cuba. Enquanto vigiava os pertences
dos confederados, uns cubanos tentaram furtá-los e foram advertidos (por Wright) para não o
fazerem. Ignoraram a ordem. Wright atirou e matou um dos cubanos. Depois disso os
confederados precisaram embarcar rumo a Nova Iorque, pois de lá, partiriam em um vapor
regular com destino ao Rio de Janeiro. Ficaram hospedados em um hotel, de onde seus cães
de caça desapareceram. Furioso, vestiu seu uniforme confederado e saiu, armado, em busca
dos animais, chamando-os. Ao passar em frente a um bar, os cães reconheceram sua voz e
começaram a latir. Os que detinham os animais, diante do homem com pistolas em punho,
não resistiram e lhes entregaram os cães (Jones, 1998, p. 99).
Jones reporta um crime cometido por Jess Wright contra Harvey Hall, seu
vizinho. O motivo do delito teria sido porque Hall, que mantinha suas roças bem cuidadas, ao
encontrar um animal de Wright pastando em suas plantações, atirou, matando-o. O dono do
animal, considerado um
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homem genioso, como o eram a maioria daqueles homens ... um dia, depois de
tantos goles, e estimulado por Dock Tarver, foi tomar satisfação com o
vizinho. Achou-o na roça e logo que Hervey o viu, disse: ‘matei o seu burro;
e agora você vem me matar’. E foi mesmo. (Jones, 1998, p.246).
Silva (2007) corrobora esse fato ocorrido em outubro de 1877 entre Jesse e
Harvey Hall, apresentando o que ficou registrado nos autos dos processos judiciais: o texto
refere-se a Jesse como “homem de má índole e provocador” (Silva, 2007, p.86). O resultado
do conflito foi, de fato, o assassinato de Harvey, morto por um tiro disparado por Jesse. Os
filhos de Harvey, que estavam nas proximidades, ao ouvirem o disparo, dirigiram-se para lá e
tiveram oportunidade de ainda presenciar o último fôlego do pai, que poucos minutos antes de
morrer, ainda teve tempo de informar quem havia cometido o crime. Segundo o testemunho
do filho, Hall teria dito: “Foi Wright, que me atirou por supor que eu havia dado um tiro em
uma besta dele” (Silva, 2007, p.86).
O filho de Jesse Wright, Guilherme Wright, teria concorrido para a
perpetração do crime vindo ao lugar armado de revólver em companhia de seu
pai, sendo além disso seguidos por mais dois indivíduos, que não foram
conhecidos por serem vistos de longe quando já se retiravam"
(AGFP-UNIMEP, 1877, 1° of. Caixa 41G). (Silva, 2007, p.86).
Para tentar evadir-se da punição, Guilherme dirigiu-se à casa de João Bentley e
tentou vender-lhe um animal e levantar recursos para fugir. “Jesse Wright nunca foi
encontrado e em 14 de janeiro de 1878 concluíram-se os autos (AGFP-UNIMEP, 1877, 1 o
of. Caixa 4/G)” (Silva, 2007, p. 86).
Wilber Mc Knight, que tinha um sítio em Matão, recebeu o assassino (Jesse),
dando-lhe cobertura e ajuda para evadir-se da pena. “Tudo isso aconteceu em fins de Outubro
de 1877” (Jones, 1998, p.247). Ao final, Jesse conseguiu fugir para os
Estados Unidos e pediu a Wilber que vendesse seu sítio e embarcasse sua
família de volta aos Estados Unidos. Wilber fez a vontade do amigo e, por
isso, teve de aguentar o ressentimento de Charles Hall, filho de Harvey. Anos
depois do ocorrido, Wilber recebeu notícias de que Jesse e seus filhos estavam
morando no Texas, onde Jesse chegou a ser xerife.” (Silva, 2007, p.113).
A imagem de Jesse Wright era ruim inclusive entre os próprios membros da
comunidade americana. Jones referiu-se a ele como "... genioso, como o eram a maioria
daqueles homens" (Jones, 1998, p.246).
A família de Helen Dumas, vizinha de João Baptista da Silva, também deixou seu
legado nos autos dos processos da região de Santa Bárbara. Por conta de uma vaca dos Dumas
haver invadido as terras do vizinho, o funcionário deste atirou. Helen, cujos filhos andavam
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armados de revólveres, teria jurado que “João só viveria enquanto ela assim quisesse” (Silva,
2007, p.89). Além de ameaçar, Helen teria atirado em um dos filhos de João (Cf.
AGFP-UNIMEP, 1888, 1 o of. Caixa 45/C).
E não ficou por aí: em novembro de 1895, o filho de Helen, William Dumas,
assassinou R. Seawright. ·De acordo com Silva (2007), Seawright estava bêbado quando
encontrou William na ponte do Rio Quilombo e
não queria deixar que Dumas atravessasse a ponte, interpondo-se com o
cavalo em seu caminho. Seawright sacou um revólver e bateu em Dumas com
um rabo de tatu usado como chicote. Dumas então bateu em Seawright com
uma forte pancada na cabeça usando um porrete, que cambaleou e caiu do
animal. Seawright faleceu no dia seguinte, mas Dumas foi absolvido. (Cf.
AGFP-UNIMEP, 1895, 1° of. Caixa 30/D). (Silva, 2007, p.89).
Houve troca de tiros entre os Steagall e os Anderson em maio de 1901. Ao que
indica o relato de Silva (2007), o conflito teria se originado por conta de não coincidirem em
relação ao local onde seria construída uma estrada (Cf.AGFP-UNIMEP, 1902, 1° of. Caixa
47/C). (Silva, 2007, p. 90).
Outro crime não “esclarecido” que teria sido classificado como tentativa de
assassinato foi o que envolveu Frank Thatcher: sua irmã Dora, cujas filhas haviam casado
com os irmãos Hawthorne, tiveram uma desavença em família. Frank tomou as dores das
contendas e mandou “atear fogo na casa dos Hawthorne. Pagou cinquenta mil réis para um
empregado fazer o serviço” (Jones, 1998, p.378).
Muitas intrigas da comunidade, à época, parece terem sido resolvidas “à moda
Confederada”: os filhos dos Doom tinham uma banda barulhenta que incomodava o Dr.
Cícero Jones, que sofria de dores de cabeça e febre. Ao pedir silêncio e não ser atendido, “o
doutor voltou com o revolver deu uns tiros para o ar e disse: para ou não para essa porqueira.
Parou” (Jones, 1998, p.361).
Silva (2007) afirma, com base nos autos dos processos avaliados, que havia, por
parte da comunidade confederada, uma “aversão à interferência judicial em assuntos
privados” (Silva, 2007, p.83).
Mas o crime que talvez tenha tido maior repercussão, tanto no Brasil, à época,
como recentemente lembrado por um jornal estadunidense, The Economist, foi aquele
envolvendo James H. Warne.
Tanto Judith Mac Knight Jones quanto William Griggs fazem menção à chegada
dele em 1865 ao Brasil.
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O The Economist deu destaque ao personagem Warne em uma matéria publicada
em 2013, na qual reportou o bárbaro assassinato do delegado Firmino, ocorrido 11 de
fevereiro de 1888, na cidade de Penha do Rio de Peixe, atualmente Itapira, no Estado de São
Paulo. O crime envolveu, além de outros partícipes, o referido imigrante escravagista. A
matéria foi reproduzida por Regina Echeverria (2014), que traz outros detalhes do ocorrido: o
No documento
Confederados em Santa Bárbara do século XIX: uma abordagem abrangendo a escravidão e a mentalidade da época.
(páginas 87-96)