A temperatura média registada pelos termómetros foi de 30ºC (Tabela 4). No viveiro e nas praias de Figura e Nhô Martim registaram uma temperatura média dentro do ninho de 27 e 34ºC e no substrato de 26 e 31ºC (Figura 11). A temperatura média no viveiro foi de 31ºC (termómetro dentro do ninho), em Nhô Martim de 30ºC e Figura 31ºC.
Tabela 4. Temperatura média registada nos ninhos de C. caretta das Praias de Nhô Martim,
Figura e no viveiro.
Localização
Nhô Martim Figura Viveiro Total
Termometro 987369 848128* 979615 281379 272864* 990608 6
TºC Média 30 29 30 29 29 31 30
Amplitude [28.33] [28.31] [25.34] [2632] [24.30] [2735] [24.34]
*T
ermómetros controlo nos ninhos 1 e 3.A
B
D
Figura 14. Registo da temperatura ninho *J1 e termómetro colocado no substrato (A) na praia
de Nhô Martim, ninho J2 (B) Nhô Martim, ninho J3 e termómetro colocado no substrato (C) e ninho *H38 (D).
4.5 Abertura dos ninhos
Os ninhos do viveiro, e os ninhos in natura foram abertos para observar as fases de mortalidade dos embriões. Registou-se maior percentagem de mortalidade tanto no viveiro como in natura foi nas fases SEV (sem embrião visível) (Figura 12), e o DV (duvidoso) de seguida o estágio 1 e 5 e menores percentagens nos estágios 2,3, 4, 6 e 7 (Anexo IV).
*J-ninhos marcados nas paraias *H- ninhos marcados no viveiro
Figura 15. Percentagem por fases de mortalidade dos nados vivos da tartatura C. caretta, nas
praias da zona Este de Boavista: SEV - sem embrião visível. Consultar anexo para ver significado de números.
Figura 16. Percentagem por fases de mortalidade dos nados vivos da tartatura C. caretta, nas
praias da zona Este de Boavista, na época: SEV - sem embrião visível; DV - Duvidoso; Consultar anexo para ver significado de números.
5. Discussão
Segundo (Marco et al., 2010) a ilha da Boavista é uma das maiores colónias de tartaruga comum do Mundo e representa mais de 90% de toda a nidificação do arquipélago.
Foram contabilizados 3276 rastros e 1062 ninhos nas praias a Este da ilha da Boavista. O número de ninhos foi muito reduzido em relação ao número de rastros, representando menos de 55% dos rastros contabilizados. Segundo Miller (1997 cit in Abu - Raya (2004), isso pode ser explicado pela dificuldade que as fêmeas de C. caretta têm por vezes para encontrar o substrato ideal para a desova e por vezes não encontram esse local adequado voltando para o mar e retornando a mesma praia a mesma noite ou na noite seguinte.
A praia com maior número de ninhos e rastros registados foi a de Nhô Martin, seguido de Praiona, Carreto, Simon Nhô Narda, Flor, Figura, Mosquito, Praia do Roque e por fim a praia de Bufador.
A baixa taxa de nidificação está relacionada com algumas características físicas das praias. Segundo Mortimer (1990), uma praia deve ser acessível a partir do mar, deve ser alta para prevenir a inundação, o substrato deve facilitar a difusão de gás e ser húmida e fino para prevenir o colapso das câmaras de ovos durante a sua construção. Carreto, Nhô Martin, Praiona, são as praias que apresentaram todas estas características em comum durante toda a temporada, isto é, oferecem condições adequadas para a desova e incubação de ovos de C.caretta. A praia de Bufador mesmo sendo uma praia com boa inclinação, o substrato não é favorável, visto que ela aparenta ser uma extensa praia de areia mas ao escavar um buraco até os 20-25cm de profundidade ela é composta na sua maioria por argila e pedras, o que explica a baixa taxa de nidificação na referida praia sendo a argila um substrato duro o que dificulta a construção das câmaras de ovos como também não facilita a difusão de gases. A praia do Roque é constituída maioritariamente por pedras e rochas o que dificulta o acesso a praia e a construção das câmaras de ovos. Mosquito é uma praia que no princípio da temporada é completamente de areia mas na segunda metade da temporada ela é uma praia completamente rochosa dificultando assim o seu acesso pelas fêmeas C. caretta. Simon-Nhô-Narda e Figura são duas praias com muitas similaridades apresentando uma inclinação muito baixa inundando
um problema para as nidificantes de C. caretta dificultando-as em encontrar o local ideal para a construção da câmara de ovos, essa é uma característica apresentada por todas as praias desta zona de Boavista.
Analisando os dados dos ninhos e rastros por mês pode-se verificar que o mês de Agosto foi o mês com maior número de rastros e ninhos, seguido do mês de Julho, Setembro e por fim o mês de Outubro com um número de rastros e ninhos muito reduzido. Segundo Lopes-Jurado (1999) cit in Andrade (2008), o período de reprodução da espécie é normalmente entre Julho e Outubro, com um pico no mês de Agosto.
Pela análise de componentes principais (ACP), pode-se ver que os ninhos H38, H21 e H8 forma com crias de maior peso e maior comprimento e estes dois parâmetros estão fortemente correlacionados. As crias mais pequena e com menor peso foram encontradas no ninho H31, as com maior largura foram encontradas nos ninhos J34 e J37. Pode-se notar também que as variáveis LCR- comprimento recto da carapaça e W- peso estão fortemente correlacionados.
O desenvolvimento embrionário dos ovos é condicionado por algumas
características do substrato. Uma delas é a temperatura mas não foi estimada porque à falta de material, não foram recolhidos dados suficientes para obter resultados significativos para a temperatura de incubação e eclosão dos ninhos de C. caretta. No entanto é de salientar que estudos laboratoriais revelam que o processo de incubação até a eclosão pode ser afectado por altas e baixas temperaturas, a troca limitada de gás, humidade ou condições hídricas secas (MeGehee, 1990).
Pode-se ver que é importante a construção de um viveiro para a colocação da maior parte dos ninhos com modo de conservação. Ao analisar os resultados referentes a percentagem de eclosão e mortalidade in natura, visto que in natura, houve uma taxa de mortalidade muito grande em relação ao viveiro assim como uma baixa taxa de eclosão. Essa alta taxa de mortalidade teve como maior causa a predação pelo caranguejo fantasma (Ocypode cursor), chegando à taxas de predação de até 100% e a erosão devido a maré viva. A taxa de eclosão no viveiro foi consideravelmente maior que in natura, o viveiro apresenta um sucesso de aproximadamente 70% enquanto in natura a taxa de eclosão foi de
aproximadamente 12%. A construção de um viveiro é uma estratégia plausível para a conservação mas o processo requer muita cautela, principalmente no caso da
dos ninhos 1 e 6 que tiveram uma mortalidade de aproximadamente 95% por serem manuseadas e transportados de forma errada. Em relação ao tempo de incubação o viveiro apresentou tempo de incubação menor que in natura ao contrario de estudos feito no viveiro de Benguinho em comparação com as praias de Ponta Cosme e Ervatão por Abella ( 2010).
Dos ovos que não eclodiram a maioria não foram fertilizados ou o
desenvolvimento embrionário foi interrompido antes de aproximadamente 25 dias de incubação tanto in natura como no viveiro. Dos ovos ainda viáveis após aproximadamente 25 dias, o sucesso de incubação tende a ser de aproximadamente 92,2% (Foley et al, 2006), o que explica a menor percentagem de embriões mortos nas últimas fases de desenvolvimento embrionário.
6. Conclusão e Recomendações
A ilha de Boavista é de grande importância para as tartarugas marinhas, por apresentar extensas praias frequentadas pela tartaruga C. caretta, e ser uma zona de alimentação de algumas espécies como a C. mydas e E. imbricata.
A zona Este de Boavista (Praia do Roque à Simon Nhô Narda) é uma das zona mais importantes para a nidificação da espécie em estudo em Boavista. Por isso recomenda-se uma patrulha reforçada para diminuir a captura da mesma espécie pelos apanhadores.
O maior número de rastros e ninhos foi registado no de mês Agosto e na praia de Nhô Martin. Pode-se concluir que as praias ao sul de Porto Ferreira são as que dão maior contribuição para o recrutamento de crias na população de C. caretta.
A mortalidade dos ninhos é maioritariamente causada pela predação e pela erosão. É de salientar que as redes colocadas nos ninhos não impedem a entrada de caranguejos dentro dos mesmos.
Recomenda-se um estudo sobre o caranguejo fantasma (Ocypode cursor) e a taxa
de predação comparado com a sua densidade nas praias na zona de estudo.
A maior taxa de eclosão foi observado no viveiro, por isso recomenda-se a construção de um viveiro em campanhas futuras para a translocação da maior parte de ninhos das praias ao Este de Boavista como modo de conservação da tartaruga marinha C. caretta.
Também recomenda-se que a translocação dos ninhos seja feita durante a noite logo após a desova porque translocar ninhos após 12 hora de incubação é um risco, visto que o embrião já está no pólo animal e qualquer movimento brusco pode desprende-lo da membrana e consequentemente causar a morte do embrião, ou seja é uma fase de grande vulnerabilidade dos ovos.
O tempo de incubação in natura foi maior que no viveiro.
Ainda recomenda-se um estudo da temperatura de incubação no viveiro, para ver se há maior probabilidade de nascer fêmeas ou machos e se essa temperatura causa algum efeito significativo no tempo de incubação dos ovos.
Quanto aos ovos não eclodidos a maior mortalidade foi observada no estágio em que o embrião é ainda invisível (a olho nú).
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Anexo I
Classificação taxonómica da tartaruga comum
De acordo com a classificação moderna, seguindo Bowen et al. (1993) e Pritchard (1997), a tartaruga comum é classificada da seguinte forma:
•
Reino - Animalia•
Filo - Chordata•
Classe - Reptilia•
Ordem - Testudines•
Subordem - Cryptodira•
Família - CheloniidaeTribo - CarettiniGénero - Caretta•
Espécie: Caretta caretta (Linnaeus, 1758)Anexo II
A B
C D
Foto: J. Neves Foto: D. Funko
*
Figura 3: Algumas das praias de estudo, A- Simom-Nhô-Narda; B-Figura; C-Nhô- Martim e C-BufadorAnexo IV
Tabela 1: Classificação Embrionaria para a abertura de ninhos segundo Miller, 1982
Duvidoso
Sem embrião visivel Estágio 1 Estágio 2 Estágio 3 Estágio 4 Estágio 5 Estágio 6 Estágio 7 Estágio 8 Estágio 9 Viva/Morta eclosionando Viva/Morta dentro do ninho
Estado de decomposição não permite distinguir se há ou não embrião
Não é possivel diferenciar o embrião
Presença do polo animal
Embrião de pequeño tamaño, sem pigmentar e sem glóbulos oculares
Embrião sem pigmentar, presença da cabeça e globulos oculares
Embrião não pigmentado, com olhos bem diferenciados, barbatanas anteriores e posteriores diferenciados
Presença de barbatanas e carapaça. Pigmentação muito débil
Embrião com pigmentação clara na carapaça e nas barbatanas
Embrião com pigmentação intensa na carapaça e nas barbatanas
Vitelo maior que embrião: pigmentada excepto nas axilas e no pescoço
Vitelo=embrião
Vitelo menor que embrião: morfología e pimentação de recém nascido
Embrião saindo do ovo
Embrião saído do ovo que se encontra dentro do ninho
Figura 4: Embriões de C. caretta em diferentes estágios de desenvolvimiento incluindo um albino.
(Fotos: J. Neves)
Figura 5: Cria de C. caretta com o lado direito da carapaça deformada (Foto: J. Neves)