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* Recebido em: 26.02.2020. Aprovado em: 07.03.2020.

** Pós-Doutora em Antropologia da Religião (PUC SP). Doutora, Mestre e Graduada em Teologia pela Pontifícia Facoltà Teológica dell’ Itàlia Meridional. Professora aposentada da PUC Goiás. Atualmente coordena projetos de cursos na Universidade Internacional da Paz. E-mail: [email protected]

Resumo: este trabalho é a narrativa em primeira pessoa das experiências e memórias

que teceram a minha vida de educadora e pesquisadora na Pontifícia Univer- sidade Católica de Goiás ao longo de 20 anos. Embora tenha a consciência da necessidade de uma escrita acadêmica procurei deixar-me levar por uma escrita mais pessoal, pois se trata de deixar-se embalar pelasminhas memórias sem preocupar-me demais com kronos, o tempo implacável que tudo obriga e pressiona para um desfecho implacável. Hoje ouso acolher as surpresas do dia a dia e viver os momentos e instantes do kairós, o tempo de graça e gratidão que ganha asas nas emoções que embalam as memórias. E agora mais distante de kronos e mais próxima do kairós posso perceber quantos instantes de graça, beleza e leveza estiveram presentes durante os 20 anos de kronos na PUC Goi- ás. É nas asas de kronos e kairós que vou mergulhar em busca das memórias de um tempo que teci com meus e minhas colegas. Histórias de graça e leveza; histórias de construção coletiva de saber; histórias de um colegiado que vive graças a ousadia e persistência de seus pesquisadores/as.

Palavras-chave: Programa em Ciências da Religião. Memórias. 20 anos.

Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu:tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou, tempo de matar e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de construir, tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar,

tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las, tempo de abraçar e tempo de se conter, tempo de procurar e tempo de desistir, tempo de guardar e tempo de lançar fora, tempo de rasgar e tempo de costurar, tempo de calar e tempo de falar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz.

(Eclesiastes, 3,1-8).

T

ecer histórias no emaranhado de minhas memórias, de minhas experiências e

emoções é o que vou fazer aqui. Vou tentar resgatar da minha memória o que aconteceu e como eu me senti ao longo dos 20 anos em que estive como pro- fessora e pesquisadora de antropologia da religião, religião e multiculturalismo; religião, etnicidade e violência no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião (PPGCR) da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás). Farei o relato de fatos que foram essenciais para mim. Estes não serão feitos a partir

de uma ordem linear. Apenas mergulharei no mar da minha memória e resga- tarei aquilo que vier à tona sem algum juízo de valor. Quais lembranças me movem e quais emoções se fazem presentes agora? Fazer memória, portanto será ir ao passado e embalar as lembranças com as emoções do presente. Isto faz toda a diferença, a meu ver, quando falamos de memória. É a partir deste ‘lugar’ que inicio este texto sem a pretensão de me ater à precisão dos fatos e ao kronos implacável– deixo isto aos historiadores –. Move-me neste momento apenas o Kairós. Sim o Kairós é aquele tempo de graça em que parte da minha vida como educadora e pesquisadora se desenvolveu. É aquele tempo que fluiu como deveria. Tempo em que amizades foram construídas, cativadas e soli- dificadas; tempo em que fazer parte de um projeto de educação stricto sensu era percebido e sentido com temor, respeito e entusiasmo. Tempo das grandes reflexões sobre os temas que acreditávamos ser importantes para a sociedade epara aqueles e aquelas que procuravam o PPGCR.

TEMPO DE DESCONTRUIR E TEMPO DE COMEÇAR....

Comecei timidamente minha trajetória junto ao PPGCR trazendo um pouco de mim, um pouco de Moçambique onde vivi cerca de 11 anos seguidos e um pouco de minha experiência de mãe de dois maravilhosos filhos que nasceram na África do Sul. Moçambique e África do Sul foram laboratórios de vida, de novas e ri- cas aprendizagens e de desapego intelectual. Lá aprendi muito sobre como ser mãe com a experiência das mães moçambicanas, italianas e brasileiras; e as- sim fui aprendendo sobre as várias cosmovisões, sobre as diferenças culturais e religiosas; sobre sincretismo e sobre fronteiras culturais. Muito do que havia aprendido no ocidente cristão pouco me serviu para analisar e compreender a

cultura e a história dos povos africanos. Dessa forma tive que deixar de lado muitos dos meus conceitos, teorias para compreensão do outro e abrir-me para novas fronteiras e espaços culturais e religiosos. É a partir destas experiên- cias ricas, sofridas (não é fácil ter que abrir mão de certa bagagem cultural e admitir que o ‘outro’; aquele que é diferente de você pode ensinar tantas ou- tras coisas) que aprendi que existem outras possibilidades teóricas tão válidas quanto a minha. Em terras moçambicanas aprendi que o tempo não era apenas linear; que nem tudo vai ao encontro do futuro e ao progresso. O tempo pode ser cíclico e o passado (aquele voltado para os ancestrais) pode se constituir num imenso berço de possibilidades transformadoras e de aprendizagem para as novas gerações; a memória dos mais velhos ressignifica constantemente o presente;a ordem e a hierarquia constituídasnão estão ligadas somente a quem acumula leituras, ciência e tecnologia mas podem partir daqueles que acu- mulam mais experiências, dos mais velhos e dos mais sábios da comunidade; também aprendi que o conceito de pessoa está muito relacionado ao conceito e a percepção que se tem da comunidade, do coletivo e da etnia.

Com esta bagagem, suficientemente apreendida, retorno ao Brasil, especificamente para Goiânia, cidade que me conquistou e à qual sou grata por tudo aquilo que me proporcionou, enquanto qualidade de vida (ainda muito boa na primeira década século XXI); simplicidade e acolhimento por parte dos amigos que aqui encontrei. Logo comecei a fazer parte dos quadros da PUC Goiás como professora de teologia e do PPGCR. Nesta Universidade dediquei vinte anos da minha vida (dos 40 aos 60) todos eles dedicados, quase que inteiramente, ao PPGCR ao lado de pessoas maravilhosas; de pesquisadores e pesquisadoras que tinham como ‘marca’ uma profunda humanidade, revestida de solidarieda- de, alegria e um profundo compromisso com a identidade e a missão da PUC Goiás. Nestes anos aprendemos juntos, trocamos nossas experiências acadê- micas, colaboramos uns com os outros; sofremos e nos alegramos; vivemos momentos de grande leveza e harmonia; apesar da sucupira, do quallis, presta- ção de contas às agências financiadoras (CAPES, CNPq, FAPEG entre outras) e tantas outras métricas de nossas produções. Mesmo assim devo reconhecer, comparando com os dias atuais, que fomos privilegiados por termos políticas favoráveis à educação e grandes e competentes gestores junto ao Ministério da Educação. Fomos, quando necessário, uma âncora e um ‘porto de acolhimen- to’ de mestrandos e doutorandos em suas dificuldades pessoais e existenciais. Também nos alegramos, comemoramos e festejamos suas alegrias e sucessos. Muitas das vezes ao orientar fomos também ‘portal’ de longas e profundas ‘escutas’ de suas dores e aflições. A esta equipe e à equipe de teologia sou grata por ter podido junto com eles construir minha história como educadora e pesquisadora da PUC Goiás. Sou muito orgulhosa e grata por ter feito parte

de um colegiado unido, competente, harmonioso e ao mesmo tempo crítico e vigilante em relação à missão e à identidade do PPGCR e da PUC Goiás. Em todos estes anos estive consciente de que o stricto sensu, no Centro-Oeste, nas

regiões pobres do Brasile para alguns grupos e classes sociais, ainda é mais uma forma de compromisso social do que um laboratório stricto sensu de pes- quisa. Isto porque quando se pensa em stricto sensu no Brasil esquece-se que nem todos os mestrandos e doutorandos tiveram as mesmas oportunidades em seus processos de aprendizagem. Esquece-se também de que a maioria das Universidades do Norte, Nordeste e Centro-Oeste são novas e com um corpo docente que, embora qualificado, é formado por poucos professores diante de tantas exigências acadêmicas e demandas administrativas e pedagógicas. Por isso que ao longo destes 20 anos trabalhei e pesquisei tendo a clareza de que a educação no Brasil ainda cumpre um compromisso social como forma de fazer chegar aos lugares mais dispersos e às pessoas mais carentes do país a democratização do saber especializado e da pesquisa. A partir desta com- preensão fiz escolhas em relação às minhas disciplinas e projetos de pesquisa tendo presente a realidade histórica, cultural e social dos mestrandos e douto- randos que procuravam o PPGCR e o impacto que isso podia ter na sociedade como um todo. Inicialmente propus no âmbito da Linha de Pesquisa ‘Cultura e Religião’cursos e pesquisas sobre identidade, memória, imaginário e sincre- tismo religioso.O sincretismo tinha sido muito discutido, nas décadas de ’70 e ‘90 do século passado,com muitos significados e sobre os quais havia muitas divergências. Desde a década de 1930 o sincretismo passou a ser relacionado com as religiões, especialmente aquelas praticadas pelas classes dominadas. Diante isso algumas concepções de sincretismo começaram a ser abandonadas pois tra-

ziam no seu bojo preconceitos e remetiam à impureza e à inferioridade cultural dos dominados. Inúmeros artigos, dissertações e pesquisas foram realizadas sobre este tema garantindo mais uma concepção de resistência e manutenção identitária e de alteridade do que uma “tendência a se utilizar nas relações apreendidas do mundo do outro para ressemantizar o seu próprio universo” (SANCHIS, 1994, p. 7). Com o paradigma da inculturação a discussão é mais delicada uma vez que se faz necessário ir de encontro ao debate teológico até então construído. Neste aspecto a inculturação consistiria numa ação que visa- va adentrar-se numa cultura estranha, apropriar-se da mesma com a finalidade de transmitir uma mensagem religiosa. Esta apropriação acompanha a suspeita de um intervencionismo cultural que visa a conversão do outro, não com meios violentos, mas com o objetivo de ‘evangelizar’. Mas a inculturação também pode ser compreendida como um processo de ‘apropriação’ espontânea e vo- luntária, por parte de um determinado grupo, de uma religião ou de elementos desta e que serão expressos e comunicados a partir de uma determinada cultu-

ra. Neste sentido podemos afirmar que a mensagem de evangélica no caso do cristianismo, uma vez que é generalizada assume novos significados e novas reinterpretações a partir do contexto histórico em que ela é proposta. Então a pergunta que fazíamos era: até que ponto podemos falar com segurança que esta apropriação e reinterpretação (da mensagem) está em sintonia com um núcleo primordial e transcendente?Ou: até que ponto este núcleo é percebido da mesma maneira e com o mesmo significado entre grupos diferentes? Para alguns teóricos isto é possível pois existe uma razão universal inata que se ma- nifesta e por isso é possível encontrar semelhanças, correspondências e arqué- tipos e promover desta forma uma certa homogeneização e assimilação cultural. Para Ângela Ales Bello (1985) a religião participa intimamente das culturas, no bojo das quais elas existem. Se do ponto de vista fenomenológico podemos afirmar que a religião é um fenômeno universal e que existe uma unidade on- tológica da espécie humana, porém em termos de cosmovisão, de conteúdo e de ética elas podem ser radicalmente diferentes e cada grupo irá preservar sua autocompreensão e o caráter histórico de toda a existência.

Na minha compreensão os mundos históricos e os objetos neles existentes são perce- bidos e construídos diferentemente na consciência coletiva. Isto implica na dificuldade de apreensão de uma mensagem a partir de uma perspectiva colo- cada por outrem eno fato que nenhuma mensagem transcendente pode ser dis- sociada daquela que a medeia historicamente. Neste sentido, parece-me,que só se pode falar de reinterpretação e ressignificação. Para Right (2003, p. 462), “toda opinião ou proposição assume novos significados, na medida em que é mediada dentro de uma situação e horizontes novos”. Daí porque concordo com Right quando afirma que toda comunicação implica em analogia em que a com- preensão do emissor e a do receptor e apropriador são parcialmente idênticas e parcialmente diferentes. Toda compreensão é interpretação, e a apropriação sempre implica alguma adaptação do conhecido ao sujeito cognoscente (RI- GHT, 2003, p. 462) e esta adaptação se dá a partir da própria realidade e do próprio contexto e aquilo que pode ser contradição, falso e/ou verdadeiro para um povo não o é para outro. Além do mais quando estamos falando de expe- riência religiosa, estamos nos referindo à experiência do sagrado do mistério e do Totalmente Outro e isto envolve conceitos, linguagens limitadas e inade- quadas para a expressão deste mistério. E neste sentido fica difícil compreen- dermos até que ponto o que é expresso e comunicado corresponde à totalidade da experiência (RIGHT, 2003, p. 464).

Em outras palavras tenho percebido em meus estudos que temos acesso ao mundo alheio, à religião do outro sempre a partir do nosso mundo. Então se pergunta: é possível um espaço - entre fronteiras - que me permita enxergar o outro com os olhos do outro e desta forma aceder à religião do outro a partir da perspecti-

va do outro? É possível no que diz respeito à religião se chegar a uma verdade universalmente válida (como pretende o cristianismo) de modo a conduzir à unidade aquilo que é múltiplo; à união de um mundo humano com muitos mundos familiares, em que se constitui o mundo verdadeiro? Quais são as consequências e o impacto social de tais teorias? Muitos já sabemos a respos- ta: intolerância, fanatismo religioso, ódio, preconceitos, grupos religiosos que se sentem privilegiados e melhores em relação aos demais. Exemplos não nos faltam nos dias atuais.

....TEMPO DE PLANTAR E TEMPO DE COLHER

As questões colocadas acima me levaram quase que automaticamente a reflexões e pesquisas mais complexas, a outros debates e a novas perguntas. Não havia como continuar o debate sobre sincretismo e identidade, sem refletir sobre o simbólico, o imaginário, sobre as memórias construídas e outros conceitos. O simbólico envolve tudo que transmite sentido (sejam eles conscientes ou inconscientes) e que constitui as representações entre os membros ou as ge- rações de uma sociedade: ritos, tradições, memórias, mitos, terra, língua etc. Símbolo é um veículo para uma concepção, sendo a concepção o sentido do símbolo (AZEVEDO, 1981, p. 22). Este mesmo autor acrescenta ao conceito de cultura, além de seus aspectos práticos e simbólicos, um conjunto de senti- dos, valores e padrões subjacentes à prática social e ao nível simbólico.

Este conjunto subjacente de sentidos e valores nos dá uma a pista para distin- guir o uso por diferentes culturas de idênticos símbolos e práticas sociais. Em outras palavras, o mesmo rito, língua, símbolo ou instrumento pode ser usado por duas sociedades marcadamente distintas. A chave que nos vai permitir cap- tar a definir a existência de culturas diferentes será precisamente este conjunto subjacente de sentidos e de valores. A prática social e o nível simbólico são da ordem da percepção empírica dos fenômenos. Podem ser observados, captados e descritos. Os sentidos e valores, no entanto, estão por trás ou por baixo dos fenômenos observáveis. O acesso a eles é de uma ordem cognoscitiva distinta. É através de um processo específico de comunicação que explicita tais sentidos e valores que chegamos a conhecê-los e a captar por meio deles a identidade de uma cultura em concreto” (AZEVEDO,1981, p. 22).

Portanto não se pode, a meu ver, refletir e pesquisar sobre identidade sem falar de me- mória, sistemas simbólicos e imaginário. Temas fascinantes e obrigatórios para quem estuda o fenômeno religioso. Daí fui me apropriando de um olhar mais crítico e de um novo modo de pensar, analisar e orientar novas possibi-

lidades metodológicas e conceituais para as minhas disciplinas de modo que estas pudessem se debruçar sobre o estudodas religiões e seus desdobramen- tos junto as variadas instâncias culturais e religiosas da vida humana. Minhas reflexões foram aprofundandoe buscando respostas aos problemas nos quais vivem as comunidades marginalizadas e grupos invisibilizados e vulneráveis da sociedade. Daí surgem minhas preocupações com as comunidades afrodes- cendentes, com os grupos que sofrem ataques e são vítimas de preconceitos e intolerância religiosa e não. As minhas pesquisas assumiram assim ‘cor’, ‘lugar’ e ‘lado’. Meu ser educadora não poderia estar dissociada das dinâmicas culturais e religiosas nas quais se fundamentam os discursos preconceituosos e que legitimam as atitudes intolerantes, racistas, fundamentalistas e de não reconhecimento do outro. Neste sentido as minhas pesquisas e produção bi- bliográfica se debruçaram sobre temas como religião, violência, etnicidade e multiculturalismo. Este debate está interligado, embora avance muito mais e seja muito mais amplo e complexo, que os temas do sincretismo e inculturação. Quando me propus discutir e pesquisar sobre multiculturalismo, etnicidade e religião posso dizer que fui uma das poucas a trazer este tema para um debate mais am- plo nos Programas em Ciências da Religião do país. Havia poucas iniciativas dispersas até então. Estes temas (multiculturalismo e etnicidade) eram e são muito discutidos e pesquisados nas áreas de literatura e linguística, mas ainda não constituíam uma preocupação no PPGCR da PUC Goiás

Com o fenômeno migratório, a globalização e os conflitos culturais e religiosos fazia-se necessário trazer para o centro das reflexões sobre o fenômeno religioso o debate sobre interculturalidade, identidade, etnicidade, multiculturalismo e religião de modo a poder compreender a realidade que se impunha com muita força trazen- do inúmeros problemas. Leituras das obras de Charles Taylor, Frederick Barth, Semprini, Poutignat, Sansone, Gilbert Durand, D’ Adesky, Stuart Hall entre outros, fizeram parte de meu cotidiano. Começo a introduzir,na linha de pesqui- sa Religião e CulturadoPPGCR da PUC Goiás, eixos temáticos que pudessem abarcar uma compreensão mais profunda da religião e sua relação com a cultura, com os grupos sociais marginalizados e vítimas de violência simbólica ou não; estudos de diferentes abordagens do ‘outro’ segundo as hermenêuticas antropo- lógicas e as dinâmicas simbólico-religiosas. O objetivo era analisar, a partir da antropologia cultural, as experiências religiosas e sua relação com a violência, o fanatismo, a intolerância, a negação do outro enquanto pessoa e assim obter uma apropriação adequada do significado cultural dos fenômenos religiosos nos dife- rentes ordenamentos culturais da sociedade. Estes eixos de pesquisa tinham con- tinuidade com os eixos anteriores (sincretismo, identidade, cultura e religião). Se observarmos nossas sociedades, sejam elas desenvolvidas ou não, iremos perce-

tolerâncias que encontram sua origem em problemas políticos e econômicos. Mas estes são perpassados também pelas questõesétnicas, étnicas e religiosas. A intolerância religiosa vem crescendo em várias partes do mundo inclusive no Brasil cujas causas podem ser encontradas na proximidade das ‘frontei- ras’, nas relações multiculturais, no ‘não- reconhecimento’ efetivo do outro, somando-se à desigualdade social, à discriminação racial e de gênero, além do preconceito de classe e da homofobia. Portanto entendemos seremnecessários e urgentes o desenvolvimento de estudos e debates acadêmicos que pudes- sem fornecer suportes teóricos consistentes para a formulação de políticas e leis que viabilizassem uma convivência mais harmônica e equilibrada. E por isso estudos, pesquisas e publicaçõescomeçaram a ser realizados a partir dos paradigmas do multiculturalismo e etnicidade. Foi elaborado um projeto que visava estudar, a partir dos paradigmas de ‘multiculturalidade’ e ‘etnicidade’ como o cristianismo, religião com pretensões universais, encaixava-se na nova realidade cultural marcada pela consciência histórica, pelo reconhecimento e valorização de outras culturas e etnias e verificar a relevância do sincretismo religioso nas relações interculturais. Percebi que as nações modernas estavam cada vez mais pluriétnicas e alicerçadas cada vez menos na origem comum, na religião, na língua e na raça. A fluidez das fronteiras dava origem a novas articulações, novas formas de poder político e organização social. Tal situação marcada pela globalização entendida aqui como a pluralidade de resultados de interação da cultura local com a cultura de mercado (CAMPOS MACHADO, 2007) dava lugar ao multiculturalismo. Países antes delimitados por uma iden- tidade marcadamente étnica, cultural e/ou religiosa agora se deparam diante do outro, do exótico e diferente com pluralidade de ofertas culturais, políticas e religiosas. Prevaleciam as categorias da multiplicidade, da flexibilidade e da porosidade das fronteiras e identidades étnicas. Nossa sociedade estava,