• Nenhum resultado encontrado

3 DE DRUMMOND A HORÁCIO, O TEMPO REPARA.

3.5 NO TEMPO DE DRUMMOND

No Brasil, a modernidade chega com um atraso de aproximadamente um século em relação à Europa. Dadas as condições econômicas, políticas e sociais, não poderia ter sido outra a situação. Apesar de o Estado nacional ter se estabelecido ainda na primeira metade do século XIX – mesmo que sem revolta e na base de acordos – a economia pautada em monoculturas, gerada por mão-de-obra escrava, comandada por uma oligarquia, fez com que o país se atrasasse e se arrastasse num ritmo e numa existência medieval. De tal modo que somente no novo século, após a abolição da escravatura e a proclamação da República, a nação finalmente entra na modernidade. Só então a indústria se instala; surge uma classe operária e o eixo populacional começa a se inverter, do campo para a cidade. Inicialmente, São Paulo e Rio e mais tarde pelas regiões litorâneas afora.

E é na virada do século, no calor dessa transformação econômica e social que nasce Carlos Drummond de Andrade. O auge da juventude do poeta é também o auge do assentamento industrial no centro do país, sendo ele próprio um homem saído do campo para a cidade. Sua obra reflete a época, o processo de desenvolvimento pessoal, da nação e da literatura brasileira modernista.

Guardadas as devidas proporções, Drummond, tanto quanto Baudelaire fizera para a poesia mundial, rompe com o passado e coloca a lírica brasileira na modernidade. Tanto quanto este, ele se encontra dividido, entre um Brasil antigo e moderno. Entre o passadismo da literatura nacional e o presente, moderno, ele faz poesia e registra o progresso urbano irreversível, o surgimento do operariado, da massa, da desigualdade social no país e através do sentimento lírico mostra a sua inquietude para com o momento. Entre o campo e a cidade, entre o passado e o presente, entre o antigo e o moderno ele elabora a sua lírica. Sua poesia rompe com o passado da poesia brasileira ao trazer para a mesma e para a linguagem poética

184 BARBOSA, João Alexandre. “Baudelaire ou a linguagem inaugural. A história literária como

o cotidiano, o comum e o corriqueiro, até então negados, estranhos, distantes da matéria poética, sem deixar de tratar e expor de modo concomitante o sublime e o erudito.

Neste aspecto, podemos observar que o embasamento arquitetônico da poética de Drummond é Baudelaire, como pode ser evidenciado pela revolta para com o mundo constituído, pela oposição à burguesia, pelo posicionamento em favor das classes mais baixas, do homem do povo, pelo descontentamento com a época. Poética modernista que desfaz a clássica e com ela dialoga a partir dos principais elementos constitutivos e formadores daquela arte: a Cidade, o poeta e sua relação com a cidade, o pensamento, a linguagem, o sublime, como veremos a partir de agora, baseado em parte pela tese de doutoramento A

cidade e o paradoxo lírico na poesia de Drummond, de Maria do Carmo Campos185,e na obra

de Drummond, especificamente em Nova Reunião - 19 livros de poesia186

, mas não

exclusivamente.

Neste livro, publicado em 1983, o poeta mineiro faz uma retrospectiva e releitura dos últimos 50 anos de lavra poética até ali. Reúne as publicações de Alguma Poesia, Brejo

das Almas, Sentimento do Mundo, José, A Rosa do Povo, Novos Poemas, Claro Enigma,

Fazendeiro do Ar, A vida passada a limpo, Lição de Coisas, A Falta que Ama, As Impurezas do Branco, A Paixão Medida, Boitempo, Menino Antigo, Esquecer para Lembrar e mais a seleção de alguns poemas extraídos de Viola de Bolso, Versiprosa e Discurso de Primavera e

Algumas Sombras. Textos que compreendem o início de tudo, em 1930 até 1962, e agrupam a

mais importante e significativa porção de sua escritura. São obras que repontam o seu processo de evolução e amadurecimento lírico. No que diz Antônio Houaiss a respeito da primeira Reunião (1969), também no plano biográfico, é:

Obra que é uma vida, inclusive no que esta encerra de defraudações e vacilações, de ilusões e decepções, de atritos e de lubricidades. Não se quer – é claro – com isso postular que a Obra valha como elucidação de uma biografia; ao contrário, o que se quer dizer é que uma biografia existe e se consome e se consuma na Obra [...].187

Reunião que compreende e congrega as principais fases de sua obra apontadas pela crítica: 1) a mais modernista, de ruptura com os padrões dos estilos anteriores, período mais jovial e combativo e também mais introspectivo; 2) a social, como desdobramento,

185 CAMPOS, Maria do Carmo. A cidade e o paradoxo lírico na poesia de Drummond. Tese de

Doutoramento, orientada pelo Prof. Dr. Flávio Wolf de Aguiar. São Paulo: USP, 1989.

186 ANDRADE, Carlos Drummond de. Nova Reunião – 19 livros de poesia. 3.ed. Rio de Janeiro:

José Olympio, 1987.

187 HOUAISS, Antônio. “Prefácio”. In: Reunião – 10 livros de poesia de Carlos Drummond de

continuidade e evolução da primeira e 3) a metafísica, presente desde o início, oriunda, quem sabe da timidez e da quietude mineira como fala Davi Arrigucci Jr., em Coração partido188,

ou da inquietação, inquietude do homem Carlos Drummond. O teor destes textos varia na forma e na temática. Em sua grande maioria são versos livres, sem preocupação com o rigor e a unidade da forma, bem ao gosto modernista.

Por outro lado, percebem-se ao mesmo tempo a presença e a permanência de uma forma mais clássica, por assim dizer, sobretudo em sua segunda fase, em Claro enigma,

Fazendeiro do ar e A vida passada a limpo. Representam um número pequeno, mas nem por

isso menos significativo. São poemas sob a forma ou a proposição de elegias (“Elegia do Rei de Sião” - Alguma Poesia; “Elegia 1938” - Sentimento do Mundo; “Elegia” - Fazendeiro do

Ar), epigramas (“Epigrama para Emílio Moura” - Alguma Poesia), sonetos (“Soneto da

perdida esperança” - Brejo das Almas; “Sonetos do passado” - A vida passada a limpo; “Sonetilho do falso Fernando Pessoa” - Claro Enigma), apenas para citar alguns. Muito raramente encontramos odes, como a “Ode no cinqüentenário do poeta brasileiro” -

Sentimento do Mundo. Um tipo de poema que não seria possível na modernidade,

incondizente com a falta de harmonia do mundo, com a falta de razão de cantar do poeta, principalmente um poeta gauche, pois de acordo com Maria do Carmo Campos, “É no espaço gerado pela impossibilidade da ode (hino) que se inscreve em Drummond o canto rouco da lírica contemporânea a voz da cigarra que ninguém ouve, o hino que ninguém aplaude”189.