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2.2 M ODO VERBAL : DOMÍNIO FUNCIONAL COMPLEXO

2.2.1 Tempo e modalidade no imperativo: futuridade e irrealis

A noção de domínio funcional complexo é relevada numa perspectiva funcionalista, por resultar da interação de motivações cognitivas, comunicativas e

34 Mesmo assim, o aspecto também pode ser marcado em categorias nominais (Travaglia, 1994). Dentre esses

subsistemas, talvez a modalidade seja mais independente semanticamente, uma vez que as atitudes e crenças do falante se mostram menos evidentes no verbo, se comparadas à percepção aspectual (Palmer, 1986, p. 45).

estruturais, em constante competição (Gorski et all, 2002, p. 220). Sob essa perspectiva, a gramática é concebida em dois planos, conforme colocam essas autoras:

A gramática é tida, num plano cognitivo, como “instruções de processamento mental” ou como “conjunto de estratégias empregadas para se produzir uma comunicação coerente”; no plano lingüístico, a gramática é concebida como um instrumento usado para codificar, articuladamente, dois domínios funcionais: da informação proposicional em oração e da coerência textual das orações em seu contexto discursivo (GORSKI et all, 2002, p. 220)

Das categorias componentes do TAM, só vamos descrever, de um modo bem suscinto, nesta parte do trabalho, a de tempo (para contextualizarmos o traço de futuridade constituinte do imperativo) e a de modalidade (como reconhecimento das propriedades do irrealis, decorrentes do traço de futuridade que o imperativo reserva), na medida em que contribuírem na descrição do estatuto do modo imperativo como expressão dos AFNDs de comando. Além delas, retomaremos a categoria de modo, pelo fato de estarmos tratando dos AFNDs de comando na expressão, especificamente, de uma categoria verbal, a do modo imperativo.

O sistema TAM recobre os seguintes domínios funcionais: o do (i) significado lexical, relacionado ao caráter aspectual do verbo; o da (ii) informação proposicional: por refletir/envolver eventos, processos e estados e da (iii) coerência textual, com propriedades pragmático-discursivas contextualizadas num discurso coerentemente orientado, daí a importância que exercem na seqüência de proposições do discurso, adiantando-as ou retomando-as, e na indicação de certas modalidades (certeza, probabilidade, verdade) no contrato falante-ouvinte (Givón, 1984, p. 269). Estas propriedades semânticas e pragmáticas graduais da categoria TAM permitem que um mesmo morfema acumule uma série de funções: lexicais, semânticas e pragmáticas.

Embora constituam categorias interconectadas, vamos descrever individualmente o subsistema gramatical TAM, para atendermos a questões metodológicas (cf. Gorski et all, 2002, p. 222): (i) tempo: faz-se a distinção entre time (tempo cronológico) e tense (tempo verbal). O tempo verbal é uma categoria gramatical que expressa a referência temporal da língua, codificando a relação entre dois pontos (de anterioridade, simultaneidade ou posterioridade) ao longo da dimensão linear do tempo, sendo um deles o ponto de referência

para o outro tempo, o tempo da situação (ação, evento, processo) e estado); (ii) aspecto: categoria que codifica diferentes modos de perceber a constituição temporal interna de uma situação; (iii) modalidade: relaciona-se com certos elementos de significação expressos pela língua. Segundo Fleischman (1982, p. 13), tradicionalmente, é definida como aquilo que tem relação com a atitude do falante sobre o conteúdo proposicional da sua declaração. Esta atitude do falante constitui seu julgamento epistêmico (de verdade, possibilidade, certeza, crença, evidência) e deôntico ou avaliativo (de desejo, preferência, intenção, habilidade, obrigação, permissão, necessidade, manipulação), numa projeção futura. Neste último julgamento se incluem os atos de fala manipulativos, por ser a manipulação propriedade constituinte do verbo na expressão do imperativo.

Como já apresentamos resumidamente na seção anterior, Givón (1993, p. 113) estabelece uma redefinição dos tipos de modalidades a partir da tradição lógica. Numa abordagem funcional, a modalidade passa a ser tratada, então, no contexto comunicativo, com os tipos lógicos redefinidos em: a) pressuposição (verdade necessária), b) asserção ‘realis’ (verdade actual), c) asserção ‘irrealis’ (verdade possível) e d) asserção negada (não-verdade). O subsistema TAM tem efeito cumulativo, e isso resulta de fato na complexidade do seu domínio, pelo fato de permitir que um mesmo morfema acumule uma série de funções: lexicais, semânticas e pragmáticas. E isso se estende também à categoria de modo. Para esse efeito, o modo é tido como uma categoria verbal que envolve itens morfológicos e também paradigmas verbais, como o indicativo, o subjuntivo e o imperativo, este último com derivação formal oriunda dos outros dois.

Pretendemos, nesta seção, abrir uma discussão inicial pautada em modo/modalidade/futuridade, conduzida no sentido de não mais reconhecermos a modalidade de comando constituinte dos imperativos apenas num morfema gramatical cumulativo das categorias acima relacionadas, até porque, além do efeito cumulativo designativo de categorias gramaticais, no imperativo, este mesmo morfema também vai designar a natureza formal que originou determinada forma verbal. Por exemplo, quando formador de segunda pessoa do singular, esse mesmo morfema com funções gramaticais acumuladas vai designar que o morfema –a, de canta, por preservar a vogal temática do verbo, é de natureza indicativa; enquanto o –e, de cante, é de natureza subjuntiva, no português. O que estamos pretendendo demonstrar é que o grau maior ou menor de manipulação num ato de comando sob a forma verbal do imperativo extrapola esse nível formal, pois dispositivos enfraquecedores/fortalecedores da sua força manipulativa estão mais voltados para outras

dimensões da variação, tais como a histórica, a diatópica, a diastrática e a estilística. No caso do imperativo, por constituir um ato de fala que prevê uma relação direta entre os interlocutores, evidencia-se a natureza da relação sociopessoal institucionalizada entre o manipulador e o manipulado. Então, o que se pretende não é desprover os valores nocionais do modo verbal e da modalidade gramaticalmente associados ao verbo, mas estendê-los ao discurso.

Esse deslocamento da modalidade manipulativa constituinte do modo imperativo para outros níveis além do sistema verbal é previsto nos postulados teóricos de outros autores, tais como Palmer 1986; Lyons, 1977; Bybee et all. 1994. Segundo estes últimos, a modalidade refere-se a todos os elementos não-proposicionais de uma sentença, e isso diz respeito à inclusão de outras categorias gramaticais distintas. Para Hockett (1958 apud Palmer, 1986, p. 25), num estudo tipológico de categorias gramaticais em que estejam incluídos diferentes sistemas lingüísticos e não só aqueles com os quais a língua em estudo mantém afinidade, fica melhor evidenciado que de fato a modalidade não se dá da mesma maneira que no latim e no grego, por exemplo, dos quais o sistema verbal do português tem como referência. Entretanto, nem por isso, esclarece esse autor, a modalidade, mesmo nas línguas sem traços de familiaridade, assume comportamento semelhante ao encontrado na correlação estabelecida entre latim e suas respectivas línguas descendentes, que é a presença de envolvimento de atitudes e opiniões do falante. Isto não implica necessariamente atribuir à modalidade natureza flexional, ou seja, interna à estrutura apenas.

A partir disso, postula-se que as línguas de fato portam um traço modal ou uma postura atitudinal relativa ao ser que fala: na sua maioria, através de uma forma verbal, mas, em outras (em número menor), por outros elementos enunciativos. O efeito cumulativo que recai sobre um mesmo morfema verbal, constitutivo tanto da categoria gramatical de modo quanto da categoria nocional de modalidade não deixa de ser, portanto, mais uma das heranças normativas do português.

• Em resumo:

O que pretendemos neste capítulo foi evidenciar a necessidade de uma abordagem diferenciada ao tratamento da natureza constitutiva (estrutural) e funcional do imperativo:

o morfologia flexional: as flexões indicativo/subjuntivo não expressam, via de regra, as modalidade [> certeza][< certeza] constituintes destes modos, tal como

apregoam as gramáticas tradicionais. Ao proferirmos ‘Canta a música’ e ‘Cante a música’, não temos tal informação modal, principalmente porque não temos informações de natureza socioestilística. Para tanto, precisamos de um contexto maior. Alguns trabalhos revelaram a necessidade de maiores informações de natureza lingüística (mas não flexionais), como os de Palmer (em estudos interlingüísticos) e o de Pimpão (no português). Por exemplo: o reconhecimento da modalidade ‘verdade possível’ (asserção irrealis, cf. Givón) do subjuntivo, nos estudos desses autores, vem sendo apontado através de elementos de ‘futuridade’ e de expressões circunstanciais de [> dúvida][< dúvida] do enunciado. Por outro lado, a ausência de tais elementos vem favorecendo a modalidade ‘verdade necessária’ (pressuposição) constituinte do modo indicativo (e não da flexão do indicativo)35. No imperativo, vamos relevar a necessidade do reconhecimento da ‘atitude de comando’ designativa deste modo através de elementos não- lingüísticos: os que tratam da simetria/assimetria da relação sociopessoal ente os interlocutores, a partir da identidade social de cada um, constitui-se o mais significativo deles;

o categorias de domínio funcional complexo: os modos indicativo e subjuntivo devem ser vistos sob um domínio funcional complexo (cf. Givón). Por este olhar, chega-se às constatações acima;

o ‘Faz um 21’ e ‘Vem pra Caixa você também’: são exemplos de usos do imperativo que ferem as regras prescritivas das gramáticas tradicionais. Alguns autores destas gramáticas (citamos especificamente ipro Neto), sem apoio em teorias da linguagem, arriscam-se a explicações contraditórias e insuficientes destes usos.

35 Isto não é verdadeiro que, em (4), vimos que vou está na flexão do indicativo, mas com as propriedades

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REFERENCIAL TEÓRICO

Este trabalho utiliza o quadro teórico-metodológico da Teoria da Variação e Mudança Lingüística de Labov (cf. Weinreich, Labov & Herzog, 1968; Labov, 1972) e os pressupostos teóricos da corrente funcionalista americana de Givón (1990;1993;1995). Concebe a língua como um sistema adaptativo, no sentido de que ela responde à interação de pressões do ambiente interno e externo. Consideramos que a descrição de um fenômeno

lingüístico deve procurar atender à natureza da interação complexa entre língua e fala e entre discurso e gramática. É neste contexto teórico que essa tese se insere.