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6.2 HEITOR SERVADAC

6.2.2 Tempo, narrativa e técnicas narrativas

A narrativa de Heitor Servadac, assim como de Viagem ao redor da Lua, é em terceira pessoa, de forma que o narrador é onisciente e presente.

Também, semelhante ao que acontece na outra obra analisada, o tempo é linear, de forma que não é apresentado muito sobre as experiências passadas dos protagonistas. Sabe-se apenas, no segundo tomo da obra, que o personagem Palmyrin Rosette fora professor de Servadac quando este era mais jovem.

Quantos às técnicas utilizadas pelo autor para realizar a apresentação de conceitos científicos, assim como Viagem ao redor da Lua, pode-se destacar o monólogo, o diálogo direto e a apresentação direta dos conceitos, narração. É de suma importância citar que a utilização de diálogos diretos é escassa, enquanto os monólogos apresentados por Procópio e por Palmyrin são em maior número. Por exemplo quando o cientista descreve o que já descobriu acerca do cometa:

- Direi a você o que sei. Sei que Gália se chocou com a Terra passando em seu nó ascendente às duas, quarenta e sete minutos e cinco segundos e seis décimos da manhã, na noite de trinta e um de dezembro. A dez de janeiro cruzou a órbitA de Vênus. Passou por seu periélio a quinze de janeiro. Cortou novamente a órbita de Vênus. Atravessou seu nó descendente em primeiro de fevereiro. Cruzou a treze

a órbita de Marte. Entrou na zona de planetas telescópicos [...] (VERNE, 1965, p. 178).

No fragmento em questão Palmyrin disserta sobre o movimento do cometa, de forma que a partir de sua análise este pode concluir que o astro errante além de ser periódico iria se chocar novamente com a Terra em cerca de dois anos terrestres.

“O caminho percorrido cada mês e as distâncias do Sol estavam expostos em números com grande clareza e, se Palmyrin Rosette não incorrera em algum erro, se Gália efetuava em dois anos exatamente a sua revolução, tinha que encontrar a Terra no mesmo ponto que a encontrara ao roçá-la pela primeira vez [...] (VERNE, 1965, p. 184) Em relação aos conceitos de Física apresentados na obra, pode-se destacar as Leis de Kepler e as Leis de Isaac Newton. A segunda Lei de Kepler é apresentada na seguinte situação:

A velocidade de Gália em sua órbita tinha diminuído em vinte milhões de léguas, desde o dia primeiro de março ao dia primeiro de abril, de conformidade com a segunda lei de Kepler, mas sua distância do sol aumentara em trinta e dois milhões de léguas. (VERNE, 1965, p.147). Em concordância ao conceito apresentado no livro de Verne, os livros didáticos de Física mostram que: “o segmento imaginário ou raio vetor que liga o Sol a um planeta percorre áreas proporcionais aos intervalos de tempo gastos durante a sua translação” (KAZUHITO; FUKE, 2017, p. 239). Ainda, em seus textos, os autores explanam que: “A comprovação disso é dada pela variação na velocidade orbital dos planetas. No caso da Terra, a velocidade máxima, no periélio, é de 30,2 km/s, e a mínima, no afélio, de 29,3 km/s”

Também, ao longo do livro Verne refere-se a Lei da Gravitação Universal de Newton, quando Gália passa próximo de Júpiter e os personagens ficam receosos de que a atração do mesmo desvie o movimento do cometa:

Desde a época de Newton sabe-se que a atração entre dois corpos é exercida em razão direta de suas massas e em razão inversa do quadrado das distâncias. A massa de Júpiter era enorme, e a distância a que Gália ia passar do cometa era relativamente muito curta (VERNE, 1965, p. 209). Ademais, durante o segundo tomo, ou autor apresenta a situação na qual Palmyrin deve descobrir as principais características do cometa, como sua densidade, massa e força gravitacional. Para isto, o astrônomo utiliza uma balança romana de mola, semelhante aos dinamômetros utilizados em aulas de Física, e também moedas, francos, cuja massa e diâmetro são precisamente conhecidos.

- Tem uma balança romana de molas e um peso de um quilograma? - perguntou. Esses dois elementos são suficientes. Na romana, o peso está indicado por uma lâmina de aço ou por uma simples mola que atua em razão de sua flexibilidade ou de sua tensão e atração não exerce nenhuma influência no resultado. (VERNE, 1965, p. 192). E ainda :

- [...] Se levantarmos o peso de um quilograma terrestre na balança romana a agulha marcará com exatidão o que pesa este quilograma na superfície de Gália e isto me dará a conhecer a diferença que existe entre a atração de Gália e a atração da Terra (Ibdidem)

Na obra, 10 moedas de 5 francos têm massa de 0,370 kg, e 10 moedas de 2 francos equivalem a 0,270 kg, e por fim, 20 moedas de 0,50, correspondem a 0,360 kg, ao somar todas, o que se obtém é um quilograma, o que equivaleria ao peso de 10 Newton na Terra. Com a balança calibrada para a gravidade terrestre, obviamente o peso que se obtém em Gália é menor. Na narrativa os personagens descobrem que a gravidade do astro errante é de cerca de um sétimo em relação ao seu planeta, ou seja, as moedas lá passam a pesar cerca de 1,33 N.

Com as moedas colocadas em linha reta o cientista obtém o comprimento de um metro, de forma que deste, Palmyrin o divide em dez partes iguais com auxílio de um compasso e posteriormente corta uma vara com o equivalente a um decímetro. Após cortar a vara que serve como régua, consegue cortar do solo vulcânico um decímetro cúbico.

Tendo o valor da gravidade do cometa, o astrônomo pode determinar a massa do bloco utilizando a balança. Sabe-se que o peso do bloco será menor do que seria apresentado na Terra, cerca de um sétimo, mas obviamente, sua massa deve ser a mesma que seria se estivesse sujeita às forças terrestres. Em posse dos dados referentes à massa e o volume do cubo o cientista consegue calcular a densidade do bloco, cerca de 8 kg/m³, e com isso, descobre que o material que recobre todo o astro é o telureto de ouro. Segundo o autor, através da fala de Palmyrin “Um telureto de ouro, corpo composto que se encontra com frequência na Terra. Neste aqui, se há setenta por cento de telureto, calculo que há trinta por cento de ouro”(VERNE, 1965, p. 207).

Por fim, sabendo a densidade do cometa. E o volume dele, que fora anteriormente determinada através das aventuras narradas no primeiro tomo, é

possível determinar sua massa a partir da mesma equação utilizada para descobrir a densidade do bloco de terra. Então, os personagens chegam no valor de cerca de 11 trilhões de quilogramas, o que comparado com a massa da Terra é de cerca de 5.10¹¹ menor. Também, é possível realizar esta mesma comparação com a Lua, satélite que inicialmente os personagens pensaram ter sido atraído pela força gravitacional do cometa. Sabe-se, hoje em dia, que a massa da Lua é de cerca de 7,36. 10²² kg. Sendo assim, a razão entre os dois corpos é de cerca de 6,700000000. Ou seja, o astro errante é muito pequeno para atrair a Lua de forma que esta torne-se um satélite seu.

Ainda, outra situação importante em que os conhecimentos de Física se mostraram válidos o momento em que ao comprar alguns mantimentos de Isaque, o grupo de Servadac utilizou seus conhecimentos acerca da gravidade de Gália a seu favor de forma que obtiveram setenta quilos de cada mantimento pelo preço de apenas sete:

- Vamos velhote, traga a balança- disse Ben Zuf.

O judeu foi buscar a balança e suspendeu do gancho um pacote de tabaco de um quilo.

- Deus de Israel! - exclamou logo.

E realmente tinha motivos para admirar-se, porque, diminuída a gravidade na superfície de Gália, o fiel da balança só indicava cento e trinta gramas (VERNE, 1965, p. 218).

Neste trecho os heróis da trama utilizam o fato de que a gravidade no astro errante é menor do que na Terra, e estando a balança, de mola, calibrada com a gravidade terrestre, certamente o peso apresentado pela balança será menor, e consequentemente, transformado para massa, utilizando a gravidade terrestre os personagens obtêm uma massa sete vezes menor do que o um quilo de tabaco apresentado. Sendo assim, os protagonistas utilizaram seus conhecimentos acerca de Gália de forma a tirar vantagens destes de forma a comprar maior quantidade de produtos por menor preço.