CAPÍTULO 3 O TEMPO DA SOJA: DE COMO O TEMPO E O
3.5 Tempo da soja
No começo deste capítulo, foi colocada a relatividade do tempo assim como as concepções deste a partir da antropologia. Pensar no tempo da soja como um tempo próprio de um espaço concreto implica pensar na conexão tempo/espaço em relação ao “outro” (FABIAN, 2013). Entender o tempo da soja como uma temporalidade concreta produzida pelas vidas das pessoas que vivem neste espaço implica na necessidade de um olhar particular das diferentes noções de tempo que se expressam neste espaço, a partir da singularidade de
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cada percepção das pessoas que transitam neste espaço. O espaço de produção da soja, enquanto lugar de produção de uma mercadoria cujo fim é a reprodução do capital, como foi analisado no capítulo dois, é um espaço no qual se coloca em prática uma dinâmica específica com fins fixos e determinados. A vida social desenvolvida em torno deste produto e do tempo da soja é uma consequência, mas também uma causa que produz formas específicas do “viver” neste entorno, o qual é observável. Seria errado afirmar, como já colocou Evans- Pritchard (1992), que as pessoas são totalmente submetidas ao tempo ecológico. Este condiciona, mas não é determinante. O controle e a tecnologia mediam dentro das temporalidades, assim como a agência humana. Não seria possível, porém, apresentar escalas das temporalidades se não considerar todas elas em uma relação continuada que se expressa em um contexto concreto.
Se entendermos em relação aos textos de Fabian (2013) e Evans-Pritchard (1992), pode-se discutir uma questão interessante do resultado do tempo da soja descrito ao longo deste capítulo. Evans-Pritchard (1992), na sua obra clássica aqui colocada, explica a temporalidade de Los Nuer a partir da distância estrutural destes. A distância estrutural é o que determinará também as noções de tempo estrutural desta sociedade. Assim, tempo/espaço se encontram na determinação da temporalidade Nuer para explicar a distância estrutural em função dos clãs e da proximidade/distância destes. Um grupo local a uma distância geográfica mais próxima de outro grupo local de outro clã é estruturalmente mais distante do que um grupo local do mesmo clã que esteja a maior distância geográfica. Da mesma forma, todas as pessoas que vivem na fazenda estão na mesma distância geográfica de Luís Eduardo Magalhães, mas, em função da “distância” de classe determinada pela função laboral que todos os trabalhadores têm no processo produtivo da vida da soja, terão uma distância estrutural maior/menor da cidade ou o que esta simboliza: a vida fora da fazenda. Sendo assim, se torna imprescindível compreender os argumentos de Fabian (2013) para analisar estes tempos/distâncias em relação à colonialidade.
Fabian (2013) apresenta a ideia principal de que no pensamento antropológico/científico teve uma mudança, mas não uma transformação em relação à temporalidade “dos outros”. O autor defende que a partir da “quebra” teórica com as teorias evolucionistas, tentou-se começar a compreender “o outro” a partir das próprias particularidades no seu tempo e começou a se pensar nas diferenças culturais a partir da distância geográfica, a qual justificaria as diferenças antes colocadas na linearidade do tempo evolutivos das sociedades. As distâncias entendidas nas diferenças temporais dizem respeito às diferenças de percepção que podem se encontrar também em função da posição estrutural
dentro das sociedades capitalistas. Se colocarmos as diferentes categorias de trabalhadores que há dentro da fazenda poderia ser feito o seguente esquema:
Como se observa neste quadro, em função do cargo dentro da fazenda a mobilidade e o sentido de tempo muda para cada grupo. Se fizéssemos só três distinções: terceirizados, funcionários e pessoas com cargos, existe um contraste entre estes grupos, considerando que Tonho, como responsável da máquina mais importante de toda a safra, fica em um plano intermediário porque, ao ter carro, tem a opção de sair da fazenda, mas além da casa dele ser em Barreiras não tem dinheiro suficiente para ir todos os dias, se limitando a ir só quando tem mais de um dia de folga. Diferente dos outros funcionários, no entanto, tem a opção de ir até o posto no qual também há outros serviços como cafeteria, restaurante, bar, borracharia, igreja, escola e prostituição.
A distinção entre estes grupos em relação ao acesso à cidade e o sentido das distâncias, pode ser considerada dentro da classificação que foi feita no quadro anterior em relação ao tempo. O tempo em um sentido evolutivo e linear se confronta dentro do âmbito da agroindústria encontrando no mesmo espaço duas distinções que foram separadas pela distinção tempo/espaço feita por Fabian (2013). Na agroindústria encontramos uma alta tecnologia, moderna, genética, calculada, exata e científica que poderia ser utilizada e controlada até a sua última expressão, como a velocidade constante, mas toda esta
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modernidade se contrapõe ao “simples” tempo ecológico, chove ou não chove. Neste espaço, encontra-se uma distinção de temporalidade que foi mencionada na distinção entre gerações no capítulo anterior, esta distinção representa a modernidade configurada pelas mudanças tecnológicas e o rural “tradicional” que segundo dizia Seu Tião “já ninguém tem mais interesse”. Os tempos se encontram e se classificam neste espaço, na distância estrutural que aproxima, mediante o aumento de salário, as pessoas da modernidade e o tempo para si mesmos, tempo deles, em contraposição àqueles trabalhos que não têm a ver com a tecnologia, que mais se distanciam deste “tempo moderno” que seria o trabalho braçal, mais diretamente relacionado com o trabalho do âmbito rural antes da tecnologia e da agroindústria.
Esta distinção entre o “tempo tradicional” e o “tempo moderno” representa não só a distinção entre gerações que foi mencionada, como um aumento salarial em relação ao tipo de trabalho desenvolvido na fazenda. À medida que se tem maior formação, mais específica e desenvolvida, muda o tipo de “tempo” das pessoas que têm esses conhecimentos e o acesso ao “tempo próprio”, surgindo a possibilidade de uma velocidade maior, que torna a distância estruturalmente menor da cidade, maior entre todas as pessoas implicadas na fazenda. Isso demonstra que a afirmação de Chico esteja certa, de fato, a moto (simbólica) que representaria a educação, o lugar de procedência, a classe, a raça, etc., chegaria antes em LEM que um carro (simbólico), o qual demoraria mais tempo ao ter que superar mais obstáculos.
Mediante este quadro simbólico do tempo que demoraria cada grupo em cada meio de transporte em fazer a distância “igual”, geograficamente falando, entre o ponto A (fazenda) e o ponto B (Luís Eduardo Magalhães), podemos traçar as distinções dentre todas as pessoas que trabalham na fazenda. Este, na verdade, é uma representação da classificação interna dentro da fazenda. Os tempos mais lentos ou mais rápidos da própria percepção de todas as pessoas que trabalham na fazenda são igualmente representados por este quadro (o qual não quer dizer que sejam os meios de transporte reais destas pessoas, só uma abstração simbólica). Assim, o tempo mais lento, mais devagar, é daqueles da espera, que esperam o caminhão encher, que esperam uma atividade para começar outra e que, ao mesmo tempo, pensam na vida passada em função das safras. É um tempo feito a partir das ações realizadas no trabalho deles. Por outro lado, estariam as pessoas que tem um tempo intermediário, tem pressa, por medo de a chuva começar, como no caso de Tonho, que têm um ritmo mais acelerado de trabalho, mas que ainda pensam na vida passada a partir das safras trabalhadas. Por último, estariam as pessoas que têm pressa, que correm atrás do tempo, que correm pelo controle, que correm para ir de um lugar ao outro, que fazem testes para ver o estado da soja e dos outros plantios e que esperam e calculam os resultados, controlam e medem o tempo para este não fugir. Se movimentam de um lugar para o outro para conseguirem cumprir com todas as obrigações, tanto no trabalho quanto no tempo de vida pessoal deles (a família). Este grupo já
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não pensa a vida passada em safras e sim em anos. Ao mesmo tempo estes graças à velocidade têm a possibilidade do tempo que “lhes pertence”.
Poderíamos considerar estes mais envolvidos com a modernidade enquanto o outro grupo mais envolvido com a vida “rural tradicional”, com um tempo “passado”, que se encontra em um mesmo espaço. Onde ficaria o distanciamento com “o outro”? No tempo? No espaço? Poderia se considerar que estes se encontram em um tempo e um espaço social estrutural dinamizado por um produto: a soja (neste caso). Este produto gera uma temporalidade social concreta que produz e reproduz um distanciamento social de classe que se relaciona em forma de tempo, em seus diferentes tempos. O tempo da soja produz um tempo social concreto que se manifesta na dinâmica concreta em relação do espaço da fazenda, da lavoura e da cidade. Diante disso, compreender todas as formas e sentidos que tem “as temporalidades” se torna fundamental para analisar o ponto de vista, neste caso dos funcionários, para assim olhar o sentido que dão à sua realidade. No próximo capítulo analisarei o ponto de vista dos funcionários na configuração por eles elaborada da realidade e da temporalidade própria.