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3. Caminhos em Heidegger

3.2. Iluminando alguns existenciais

3.2.5. Temporalidade e Historicidade

A análise temporal em que Heidegger se embrenhará desvela o sentido originário do ser como tempo, resgatando o Ser-aí da dispersão cotidiana e apreendendo-o em sua forma mais própria de ser, a do projeto-lançado que antecede a si precedendo-se. A temporalidade é entendida como composta por quatro momentos assim colocados por Heidegger (1927/2005, parte II, p. 125): “a temporalidade é ekstática, é essencialmente temporalização, é finita, temporaliza-se essencialmente a partir do futuro e é constituída por horizontes”.

A temporalidade é compreendida como horizonte de sentido que move o ser. Ela se temporaliza, mostra-se, evidencia-se, nas ekstases temporais do passado (vigor de ter sido), presente (atualidade) e futuro (porvir) que se entrecruzam, numa cooriginareidade.

Segundo Heidegger (1927/2005, parte II, p. 96): “as possibilidades fundamentais da existência, propriedade e impropriedade da pré-sença, fundam-se, ontologicamente, em

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possíveis temporalizações da temporalidade”. Neste ponto, o autor retoma os existenciais da compreensão, disposição, decadência e discurso, explicitando o primado de cada ekstase nestes momentos.

Contudo, Heidegger (1927/2005) explicita que, apesar de cada um destes existenciais possuírem seu primado em determinada ekstase, todas elas se temporalizam em cada um deles. Desta forma, o autor retoma o caráter horizontal da temporalização, haja vista sua cooriginareidade, diferindo apenas quanto à direção em que cada uma se orienta.

O acontecer humano se dá entre o nascimento e a morte, o que confere a si uma existência entre esses marcos. Esse acontecer humano é o que compreendemos como historicidade, sendo o próprio humano histórico (Rabelo, 2009).

O ser humano é histórico, pois habita um mundo de significados que se banha em cultura e contextos. A cada época, o Dasein é inundado por tendências e por elas direcionado. As possibilidades são sempre possibilidades de ser-no-mundo histórico. Para Heidegger (1987/2009, p. 198): “O poder-ser de cada caso é visto a partir de cada Dasein histórico, assim ou assim, no mundo. Histórico é o modo como me relaciono com aquilo que vem ao meu encontro, com o que está presente e com o que já foi”.

O poder-ser-no-mundo histórico está relacionado com a temporalidade, porque o humano quando se relaciona com os outros e com as coisas é no tempo presente, ao mesmo tempo em que traz consigo um passado. Contudo, é no vislumbre de um futuro, um ainda não, que nos movemos no mundo, o que organiza e dá forma para as ações humanas. Dessa maneira, temporalidade e historicidade do Dasein estão entrelaçadas.

3.3. A Técnica

O mundo é determinado por um horizonte histórico, sendo que a toda época subjaz uma marca, trazendo consigo significados próprios que influenciam a existência humana.

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Heidegger (1954/2012) aponta que desde a antiguidade vivemos na Era da Técnica, sendo que esse modo de agir e pensar, é apontado por Critelli (2002, p. 86) como “a essência mesma de nossa ocidentalidade”. Essa marca no pensamento ocidental vem de uma herança histórica que leva o homem a se relacionar com as coisas e com a natureza explorando-os, no esforço de segurança e controle.

Em sua conferência “A questão da técnica” (Heidegger, 1954/2012), primeiramente o autor fala da técnica no sentido da instrumentalidade; contudo, essa instrumentalidade não desvela a essência da técnica moderna. A técnica moderna é uma forma de desencobrimento, de verdade. Essa verdade se mostra como dis-posição, no sentido de exploração. A composição é o tipo de verdade que rege a técnica moderna, sua essência. Ela destina o homem, o põe a caminho no modo da dis-posição, exploração. A essência da técnica como com-posição nos abre para a essência da técnica como destinação histórica de uma verdade/ desencobrimento, não como fatalidade, sendo que ela também pode exercer apelo libertador. Para o filósofo (Heidegger, 1954/2012, p. 30-1), a essência da técnica ameaça a relação do homem consigo mesmo, constituindo-se como perigo:

A ameaça, que pesa sobre o homem não vem, em primeiro lugar, das máquinas e equipamentos técnicos, cuja ação pode ser eventualmente mortífera. A ameaça, propriamente dita, já atingiu a essência do homem. O predomínio da com-posição arrasta consigo a possibilidade ameaçadora de se poder vetar ao homem voltar-se para um desencobrimento mais originário e fazer assim a experiência de uma verdade mais inaugural.

Contudo, Heidegger (1954/2012), referenciando Holderlin, aponta que onde mora o perigo, também reside a salvação. Desta maneira, a essência da técnica também abriga a possibilidade de salvação desse mesmo homem, abrindo para pensar a essência de outras formas. O homem, quando fica estarrecido com a instrumentalidade da técnica, fica no âmbito

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de querer dominá-la. Contudo, ao se aproximar de sua essência, através do exercício do pensamento, o homem tem a possibilidade de se libertar dela mesma.

A essência da técnica é ambígua, e remete para o mistério da verdade/desencobrimento, sendo que “o irresistível da dis-posição e a resistência do que salva passam, ao largo, um do outro como, no curso dos astros, a rota de duas estrelas. Mas este passar ao largo alberga o mistério da própria vizinhança de ambos” (Heidegger, 1954/2012, p. 35).

Essa ambiguidade da essência da verdade, de caráter ameaçador e, simultaneamente, salvador, só pode ser liberada através do exercício do pensamento. Contudo, esse exercício do pensamento precisa ir além do pensamento calculante que impera hoje em dia.

Em sua obra “Serenidade”, Heideger (1955/2001, p. 19) aponta que “o mundo aparece agora como um objeto sobre o qual o pensamento que calcula investe, nada mais devendo poder resistir aos seus ataques”. O pensamento que calcula é dominante na atualidade, buscando o controle e a dominação da natureza, como Heidegger já discorreu em “A questão da técnica”. Não é possível ignorá-lo, pois, de certa maneira, tornamo-nos dependentes dos avanços técnicos que o homem vem produzindo através dessa forma de se relacionar com o mundo, sendo esta dependência apontada pelo filósofo como um risco. Existiria então uma forma de agirmos de outra maneira em relação ao mundo técnico?

Como alternativa Heidegger (1955/2001) aponta que, através do pensamento que medita, o homem tem a possibilidade de refletir sobre essa realidade e utilizar essas inovações do mundo técnico, sem contudo se escravizar: “podemos dizer sim à utilização inevitável dos objetos técnicos e podemos aos mesmo tempo dizer não, impedindo que nos absorvam e, desse modo, vergem, confundam e, por fim, esgotem a nossa natureza” (p. 23-4). A atitude de dizer sim e não ao mesmo tempo é denominada “serenidade”.

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Portanto, é através do pensamento meditante e de uma atitude serena que temos a possibilidade de não nos submeter totalmente aos apelos de um mundo técnico. Ele vai além da instrumentalidade do uso de recursos técnicos em si, inundando modos de ser, pensar e agir a partir da ótica do controle e da dominação.

Neste estudo, abordaremos a perspectiva do sertanejo do semiárido nordestino que se move no horizonte da Era da Técnica, assim como todos nós; entretanto,em muitos momentos não é contemplado pela instrumentalidade da técnica para lidar com seu cotidiano de trabalho. Portanto, lançamos um olhar compreensivo para o modo de relação que se abre para sertanejos do semiárido que já experienciaram momentos onde o apelo técnico era menor alguns anos atrás, e refletindo sobre mudanças da atualidade na sua própria existência.

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4. Método

Digo: o real não está na saída, nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.

JOÃO GUIMARÃES ROSA