3 EXPANSÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR NA PERSPECTIVA DE TROW
3.2 TENSÕES GERADAS PELA TRANSIÇÃO ENTRE OS SISTEMAS
Apesar de percebermos claramente como são coerentes os elementos desta teoria, “é preciso lembrar que se trata de um tipo ideal, abstraído da realidade empírica e enfatizam as relações funcionais entre os vários componentes de um sistema institucional comum a todas as sociedades industriais avançadas” e “que foram projetados para definir os problemas da educação superior” (2005, p. 35). O autor ressalta que
Deve-se considerar também que o movimento na transição de fases não significa necessariamente que as formas e padrões das fases anteriores desaparecem ou são transformados. Pelo contrário, a evidência sugere que cada fase sobrevive em algumas instituições e em partes dos outros, enquanto que o sistema como um todo evolui para transportar os maiores números de alunos e as mais diversas funções para a próxima fase. Assim, em um sistema de massa, instituições de elite podem não apenas sobreviver, mas prosperar; enquanto as funções de elite continuam a ser realizadas dentro de instituições de massa. Isso aponta para um problema característico de todos os sistemas de fase mista: o problema decorrente das tensões inerentes a coexistência de fases que são orientadas para diferentes tipos de funções (TROW, 2005, p. 36).
[...] a análise das fases deve levar em consideração que o desenvolvimento é desigual, por exemplo, a expansão numérica pode produzir um corpo discente mais diversificado antes que o currículo tenha sido igualmente diversificado; o currículo pode se tornar mais diversificado antes do recrutamento e formação do pessoal para atender as novas exigências; a equipe pode ter se tornado mais diversificada antes das formas de governança institucional refletirem as mudanças no caráter dos professores, e começam a distribuir autoridade institucional para refletira responsabilidade acadêmica mais de perto. Uma análise detalhada da evolução em um determinado sistema deve atender: (a) a sequência de mudanças de seus vários elementos e padrões; (b) as tensões e os problemas daí decorrentes; e(c) a extensão das mudanças em diferentes países, que mostram padrões sequenciais comuns entre os vários elementos de seus sistemas (2005, p. 37).
Em síntese, Trow (2005, p. 37) afirma que “o modelo não se destina a ser instantâneo”, e argumenta que “essas transições de fase criam tensões e problemas para as instituições em mutação e para os sistemas de que fazem parte”. Desta forma, o autor destaca que o crescimento dos sistemas de ES se apresenta principalmente de três formas: o aumento da taxa de crescimento das matrículas; o tamanho absoluto do sistema; e mudanças na proporção da faixa etária pertinente cursando a ES. A transição entre as fases dá origem a três tipos de problemas: o primeiro são as relações funcionais entre os diferentes elementos ou aspectos dos sistemas; o segundo são os problemas decorrentes da transição de fases; e o terceiro são os problemas que surgem das relações das IES com a sociedade e as suas instituições políticas e econômicas. Além dos problemas apontados, outro aspecto levantado pelo autor é que
O crescimento nas proporções da população que têm acesso à educação superior levanta algumas questões centrais para a natureza e as funções deste nível da educação. Por exemplo, as proporções que ingressam no ensino superior em cada país variam drasticamente em diferentes grupos regionais, grupos religiosos e étnicos e classes socioeconômicas. Em todos os lugares a proporção das classes alta e média ainda são significativamente mais elevadas do que das classes mais baixas, apesar dos esforços para fechar essa lacuna. Quando a proporção da faixa etária pertinente na educação superior for pequena, a questão da política de igualdade de oportunidades estava centrada muito mais na educação básica. Mas quanto maior a proporção da faixa etária pertinente no ensino superior, maior será a preocupação com a igualdade de oportunidades de acesso à educação superior (2005, p. 4).
Como resposta a essas mudanças no perfil dos estudantes da ES, o autor afirma que foram introduzidas as políticas de ação afirmativa, com a finalidade de possibilitar o acesso dos grupos antes excluídos. No Brasil temos como exemplo dessas políticas a Lei nº 12.771 (BRASIL, 2012), a lei de cotas, que garante que 50% das matrículas das Ifes sejam destinadas aos estudantes egressos do ensino médio em escolas públicas. Como exemplo dessas políticas em IES privadas temos o PROUNI, que mediante renúncia fiscal, destina bolsas de graduação a estudantes com renda de até três salários mínimos. Além dessas, temos as políticas, como o
REUNI, que promovem entre outras ações a interiorização da ES, permitindo o acesso a este nível de ensino distante dos grandes centros urbanos.
Porém, além da questão do acesso, surge a preocupação com a igualdade de condições, relacionada com a qualidade, a fim de que dentro do regime ainda meritocrático da educação superior, os “melhores” estudantes sejam destinados às instituições de melhor qualidade, enquanto as instituições de menor qualidade sejam destinadas aos menos preparados para a educação superior. A partir disto, surgem três dilemas enumerados pelo autor:
Em primeiro lugar, há um forte sentimento igualitário de que a educação superior deveria ser substancialmente da mesma qualidade (e portanto de mesmo custo). Na falta de bons ou confiáveis métodos de medida dos efeitos da educação superior na carreira dos egressos, a tendencia era então avaliar a "qualidade" da educação a partir de indicadores internos, e isso leva a igualar a qualidade ao custo. Houve o esforço governamental para que aavaliação da educação superior nas últimas décadas quebrassem essa identificação de qualidade com custo, mas este não obteve êxito. A segunda é que os critérios segundo os quais as novas formas de ensino superior de massa são avaliados são tipicamente os mesmos que avaliam as formas mais caras de ensino superior de elite. E em terceiro lugar, o rápido e quase ilimitado crescimento do ensino superior, se comparado com o pequeno sistema de elite que existia antes, resultaram em fardos insuportáveis sobre os orçamentos nacionaise estaduais que foram também tendo que lidar com acrescente demanda de outros serviços públicos (TROW, 2005, p. 39).
O autor aponta que embora seja legítimo o pensamento igualitário em relação à qualidade na ES, entender a qualidade como diretamente proporcional ao custo gera uma sobrecarga nas contas públicas, pois
Nenhuma sociedade, mesmo que rica, pode pagar um sistema de educação superior para 20%, 30% ou 40% do grupo etário relevante nos níveis de custo de um sistema de elite, que anteriormente atendia a 5% dessa população. A medida em que os igualitaristas insistem que não haja grandes diferenças de custos per capita entre os vários setores do sistema de educação superior, e ainda insistem que este deve se expandir, forçam a diminuição dos custos, e talvez a diminuição da qualidade (2005, p. 41).
Com base nas observações feitas, Trow supõe algumas tendências para a educação superior nas próximas décadas.
• No ensino superior, em 2030, haverá mais de tudo: mais instituições, mais tipos de instituições, mais estudantes e professores, e mais diversidade entre ambas as instituições e participantes.
• O desenvolvimento econômico nas sociedades avançadas vai continuar a aumentar a demanda por uma força de trabalho com diploma de graduação, e reduzir o tamanho e o número de ocupações. Mas a demanda para o ensino superior vai aumentar o que é "necessária" pela estrutura ocupacional. Pois, a principal característica do ensino superior é que ele dá aos seus destinatários uma capacidade de adaptação às mudanças; que continuará a ser uma das poucas vantagens que os pais podem dar aos
seus filhos em um mundo em rápida mudança, e mais e mais pessoas se tornarão conscientes disso.
• A atualização técnica dos postos de trabalho, e a relação entre o sucesso de uma empresa e da formação e qualificação da sua força de trabalho vai acelerar o interesse da indústria para incentivar a formação de seus funcionários. A educação superior já está presente no setor privado; que vai crescer rapidamente, assim como a criação e desenvolvimento de "centros de aprendizagem" dentro e fora da indústria, atendendo a uma demanda crescente para a educação continuada da força de trabalho.
• As empresas privadas e a indústria, bem como os indivíduos, irão custear cada vez mais a educação superior. Os governos em todos os níveis, estarão contribuindo com uma proporção menor dos custos totais de ensino superior; pois há muitas outras demandas de dinheiro público para apoiar as crescentes demandas de educação de todos os níveis. Como resultado, as faculdades e universidades se tornarão ainda mais bem sucedido em vender seus serviços, e o conhecimento a pesquisa serão gerados para atender aos interesses comerciais. Mas os governos continuarão a ter significativa, mesmo que insuficiente, participação nos custos da educação superior, particularmente aquela que continua a ser prestados nas universidades (2005, p. 56).
Podemos perceber que muitas das características deste modelo estão presentes na educação superior no Brasil, além disso, algumas das tendências apontadas como futuras pelo autor já se concretizam atualmente. Para constatar isso, basta observamos, por exemplo, a existência de elementos das três fases dentro de uma mesma IES, quando percebemos um elevado custo de alguns cursos, devido ao aparato técnico necessário, ou mesmo, pelo maior prestígio que esses podem ter, enquanto que para outros cursos, por fazerem uso de menos tecnologia ou por ter menor prestigio, devido ao menor retorno financeiro que geram aos estudantes, funcionam em condições menos favoráveis, e talvez menor qualidade. Além disso, já está em curso a disseminação do pensamento de que cada indivíduo deve investir em sua formação, e quando não dispuser de recursos para tal, que este seja realizado através de financiamentos feitos cada vez mais diretamente entre estudantes e instituições de ensino.
Esta discussão serve como base teórica para a análise dos dados desta pesquisa, afim de identificar a atual fase do sistema e as tensões geradas por suas transições. No próximo capítulo discutiremos as desigualdades regionais no Brasil, com ênfase na região Nordeste, a fim de perceber as peculiaridades do campo de pesquisa, e perceber as possíveis origens dessas desigualdades.
4 DESIGUALDADES REGIONAIS NO BRASIL: ANÁLISE COM FOCO NA