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Teologia e HIV/AIDS

No documento Versão Completa (páginas 47-51)

É inegável que nas iniciativas apontadas acima se produziram perspectivas teológicas diversas e inovadoras, considerando que a teologia é produzida não apenas nos círculos acadêmicos, mas a partir do envolvimento de pessoas de fé, comunidades e igrejas. Numerosos folhetos, panfl etos e livretos têm sido editados por grupos e or- ganizações e mesmo igrejas sobre a epidemia de HIV/AIDS. Grupos e organizações como as mencionadas (e aqui cabe também mencionar as Católicas pelo Direito de Decidir36), bem como iniciativas eclesiásticas (Pastoral da AIDS, IECLB37) ou mesmo 32 GALVÃO, 1997, p. 115. A relação entre religiões afro-brasileiras e homossexualidade tem sido objeto de

inúmeros estudos. Veja: FRY, Peter. Pra inglês ver. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. 33 Veja, por exemplo, <www.religrafosaude.blogspot.com.br>. Acesso em: 12 maio 2012.

34 Veja MÚSCARI, Marcello Felipe de Jesus. A dupla construção: A resposta à AIDS e a regulação do religio- so no “1º Seminário Aids e religião do Rio Grande do Sul”. Trabalho de Conclusão de Curso. Porto Alegre: UFRGS, 2011. Disponível em: <http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/40398/000827246. pdf?sequence=1>. Acesso em: 28 maio 2012.

35 ABIA. Respostas religiosas ao HIV/AIDS no Brasil. Rio de Janeiro: ABIA, 2010. Disponível em: <http://www. abiaids.org.br/_img/media/Livreto%20Religi%C3%B5es%20completo.pdf>. Acesso em: 28 maio 2012. 36 Veja, por exemplo, OROZCO, Yury Puello. Mulheres, AIDS e religião. Católicas pelo Direito de Decidir,

São Paulo, 2002.

37 Veja, por exemplo, CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Pastoral DST/AIDS. Viu

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governamentais e civis diversas. Muito dessa teologia, no entanto, não está sistema- tizada e disponível para formação e estudos. Em outros casos, o que foi produzido é de difícil acesso ou invisibilizado, justamente porque questiona discursos e práticas normativas das instituições que mantêm as estruturas que, ao mesmo tempo, são res- ponsáveis pelo avanço da epidemia. Carece-se, todavia, de refl exões teológicas de fôlego, que ampliem, aprofundem e expandam essas elaborações.

Alguns teólogos e algumas teólogas latino-americanos já se debruçaram sobre a realidade da epidemia de HIV/AIDS.38 Aqui e ali é possível encontrar artigos e tex- tos que debatem esses temas a partir da teologia.39 No âmbito da teologia da libertação latino-americana é notável que apenas na década de 1990 comecem a surgir refl exões de teólogos e teólogas sobre essa temática e de modo muito esparso, fundamental- mente advogando solidariedade.40 É notável, ao mesmo tempo, que já em 1991 encon- tremos um artigo publicado na coletânea “René Girard com teólogos da libertação”, do teólogo James Alison intitulado “AIDS como lugar de revelação”41.

De certa forma, não é de estranhar que a epidemia de HIV/AIDS não tenha se tornado tema central para os teólogos da libertação. Considerando o fato de que a emergência da epidemia nas Américas se deu como uma questão ligada à comunidade gay e foi assim que entrou na realidade dos países latino-americanos, exigia-se, do ponto de vista da teologia, abordagens que considerassem questões de gênero e sexua- lidade. Segundo Ivan Perez Hernández:

[...] a geração fundadora das TsL estava composta fundamentalmente de homens bran- cos que dialogavam principalmente no que quefazer teológico [...] com a análise de classe. Se a esta geração já lhe custou o trabalho de enriquecer com as demandas liber- tadoras dos grupos antes mencionados suas admiráveis contribuições iniciais, quanto mais trabalhoso foi para eles desprender-se ainda mais do sexismo e do hetero-sexismo – ambos tão imbricados – que caracterizavam em dupla medida a esquerda do subcon- tinente assim como de suas igrejas. [...] não é senão até o surgimento da epidemia de AIDS, no início dos oitenta, que se geram discussões públicas críticas acerca da sexua- lidade e da homossexualidade em países onde a Igreja Católica e/ou regimes militares exerciam um controle quase total sobre como esses temas deviam ser discutidos na esfera pública42.

38 Um dos teólogos brasileiros que mais sistematicamente trabalhou o tema é José Trasferetti. Veja, por exemplo: TRASFERETTI, José Antônio; LIMA, Lívia Ribeiro. Teologia, sexualidade e Aids. Aparecida, SP: Santuário, 2009.

39 Por exemplo, PEREIRA, Nancy Cardoso. Igrejas e Aids (2): perspectivas bíblicas e pastorais. Rio de Janeiro: Instituto de Estudos de Religião, 1990; SAMPAIO, Tânia Mara Vieira. Aids e religião: aproxi- mações ao tema. Impulso, Piracicaba, v. 13, p. 21-39, set./dez. 2002.

40 Veja refl exão de HERNANDEZ, Ivan Perez. Teologías de la Liberación y minorias sexuales em America Latina y el Caribe. In: TRASFERETTI, 2004, p. 123s. Também texto de ALVES, Rubem. AIDS. Tempo

e Presença, v. 269, p. 52-53, 1993.

41 ALISON, James. AIDS como lugar de revelação. In: ASSMAN, Hugo (Ed.). René Girard com teólogas

da libertação. Petrópolis: Vozes; Piracicaba: UNIMEP, 1991. p. 309.

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Ora, se foram justamente no âmbito dessas duas correntes teológicas (teologia feminista e teologia gay) que as mais importantes refl exões teológicas sobre e a partir da experiência da epidemia de HIV/AIDS foram desenvolvidas, torna-se compreen- sível, embora não tivesse que ser dessa maneira, a pouca atenção dada pela teologia da libertação a esse fenômeno e suas implicações dentro de um projeto libertador de igreja e sociedade. Com isso não se quer afi rmar que a teologia gay seja a única, ou mesmo a melhor, forma de produção de conhecimento teológico disponível nesse tema.43 Ainda assim, considerando as circunstâncias históricas que vincularam (em grande parte discursivamente) a epidemia à comunidade gay, a existência de um mo- vimento social articulado permitiu, pelo menos na América do Norte, que em seu seio fossem elaboradas respostas teológicas libertadoras para a realidade do HIV/AIDS. A própria epidemia, por seu turno, representou um questionamento a esse movimento e às construções teológicas gays que se vinham construindo desde os anos 1960, provo- cando uma radicalização e aprofundamento inclusive na teologia.44

O grande passo dado, particularmente no campo da sexualidade, foi a percep- ção da insufi ciência de categorias identitárias fi xas e essencializadas. O rompimento dos históricos e persuasivos binarismos identitários em termos de gênero e sexualida- de propostos por correntes liberacionistas fez emergir um discurso e uma prática que buscaram lidar com a fl uidez, a transitoriedade e a ambiguidade das construções iden- titárias, suas consequências para o discurso teológico e a constituição e permanência das instituições eclesiásticas. Emergiu, então, um discurso teológico que, a partir das histórias (narrativas) sexuais silenciadas e marginalizadas, transgride as fronteiras de um discurso (hetero ou homo)normativo, assumindo a descontinuidade do seu próprio discurso e a necessidade de constante revisão e reconstrução.45 É o que se pode cha- mar de uma teologia queer ou uma teologia indecente.46

Nesse ponto vale destacar que, tanto do ponto de vista do movimento social como da refl exão teórica e sua absorção no campo da teologia, o que se propõe e se busca é perceber de que forma as identidades são construídas na interconexão de diversos sistemas estruturantes, como gênero, sexualidade, raça/etnia, geração, habi- lidade, classe social etc. Aqui também deveria fi car evidente a sua contribuição para as refl exões e construções teóricas e políticas evidenciadas no âmbito da epidemia de HIV/AIDS, naquilo que diz respeito às situações de vulnerabilidade mencionadas aci- ma. Seja no campo político, teórico, teológico e/ou pastoral, apenas uma refl exão que considere todas essas dimensões na sua inter-relação será capaz de oferecer respostas relevantes para o enfrentamento da epidemia.

Não deixa de ser pelo menos curioso o fato de que as elaborações teológicas de muitos dos teólogos gays norte-americanos, mas também de teólogas feministas e

43 Sobre a forma como teólogos gays lidaram com as questões suscitadas pela AIDS nos anos 1980 e 1990, veja STUART, Elizabeth. Gay and lesbian theologies: Repetitions with critical difference. Aldershot: Ashgate, 2003. p. 65-77.

44 Veja MUSSKOPF, André S. Via(da)gens teológicas. São Paulo: Fonte Editorial, 2012. p. 209-224. 45 Dois autores em que se pode perceber essa transição e essas mudanças são J. Michael Clark e Robert Goss. 46 A principal referência é ALTHAUS-REID, Marcella. Indecent theology. London: Routledge, 2001.

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lésbicas, sejam profundamente infl uenciadas pelas elaborações teológicas de teólogos da libertação latino-americanos. Se considerarmos o fato de que o texto mencionado, publicado na coletânea “René Girard com teólogos da libertação”, seja de autoria jus- tamente de um teólogo gay, James Alison, as possibilidades e as lacunas na teologia latino-americana no campo da epidemia de HIV/AIDS, principalmente na sua relação com questões de gênero e sexualidade não heteronormativas, fi cam mais evidentes. Ainda assim é possível desenhar uma trajetória da produção teológica homossexual/ gay/queer/da diversidade sexual na América Latina construída em grupos cristãos LGBT e por alguns teólogos.47 Nessas produções seguramente se encontram pistas para uma elaboração teológica em face da epidemia de HIV/AIDS.

As elaborações teológicas mais promissoras nessa área, sem dúvida, são da teóloga argentina Marcella Althaus-Reid. Na sua proposta de uma “teologia inde- cente” ela articula sua formação na teologia da libertação latino-americana com os estudos queer e pós-coloniais, advogando a “indecência” como um “contradiscurso para o desmascaramento [unmasking] e desnudamento [unclothing] dos pressupostos sexuais construídos para dentro da teologia da libertação durante as últimas décadas, mas também hoje ao confrontar questões de globalização e a nova ordem mundial neoliberal”48. Segundo ela:

Uma teologia indecente é uma teologia que problematiza e desnuda as camadas míticas de múltipla opressão na América Latina, uma teologia que, encontrando seu ponto de partida na interseção da teologia da libertação e do pensamento queer, refl etirá sobre a opressão econômica e teológica com paixão e imprudência. Uma teologia indecente questionará o tradicional campo da decência e ordem latino-americanas enquanto per- meiam e apoiam as múltiplas (eclesiológica, teológica, política e amorosa) estruturas de vida em meu país, Argentina, e em meu continente49.

Mais uma vez, e agora profundamente enraizada na realidade latino-americana, uma teologia que considere a epidemia de HIV/AIDS e todas as questões nela impli- cadas, não poderá ser senão “indecente” no uso de suas fontes, em seus instrumentais de análise e em suas conclusões. Nisso, recuperará a mensagem central do evangelho na sua mais absurda radicalidade, alinhando-se com a perspectiva do reino de Deus e a transformação das estruturas sociais, políticas, econômicas e religiosas que impedem sua materialização em nossas experiências históricas concretas, gerando opressão, dominação, exclusão e marginalização. Por isso é para a produção de nossos corpos, do corpo do mundo e do corpo de Deus que precisamos olhar, buscando caminhos de indecência.

47 MUSSKOPF, 2012, p. 228-289. 48 ALTHAUS-REID, 2001, p. 168. 49 ALTHAUS-REID, 2001, p. 2.

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