14.1. Defini¸c˜ao. Chamaremos derela¸c˜ao de ordem parcialnum conjunto
Xuma rela¸c˜aoemX com as seguintes propriedades:
(a)xxpara todox2X(´e reflexiva);
(b) sexyeyx, ent˜aox=y(´e antisim´etrica);
(c) sexyeyz, ent˜aoxz(´e transitiva).
Neste caso diremos queX´e umconjunto parcialmente ordenado.
Diremos que´e umarela¸c˜ao de ordem total se al´em de verificar (a), (b) e
(c), tamb´em verifica
(d) dadosx, y2X, tem-se quexyouyx.
Neste caso diremos queX´e umconjunto totalmente ordenado.
14.2. Exemplos.
(a) SeX´e um conjunto, ent˜ao a rela¸c˜ao de inclus˜ao ´e uma rela¸c˜ao de ordem
parcial emP(X).
(b) A rela¸c˜ao de ordem usual emR´e uma rela¸c˜ao de ordem total.
14.3. Defini¸c˜ao. SejaX um conjunto parcialmente ordenado, e sejaA⇢
X.
(a) Se existira0 2Atal quea0 apara todoa 2A, diremos quea0 ´e o
elemento m´ınimodeA. De maneira an´aloga definimoselemento m´aximo.
(b) Se existir a0 2Atal quea= a0 sempre quea 2Aea a0, diremos
quea0 ´e umelemento minimal deA. De maneira an´aloga definimoselemento
maximal.
(c) Se existirc2Xtal quecapara todoa2A, diremos queA´elimitado
inferiormentee quec´e umacota inferior deA. De maneira an´aloga definimos
conjuntolimitado superiormenteecota superior.
(d) Diremos queA´e umacadeia emX seA´e totalmente ordenado sob a
rela¸c˜ao de ordem parcial induzida porX.
(e) Diremos que A ´ebem ordenado se cada subconjunto n˜ao vazio de A
possui um elemento m´ınimo.
14.4. Exemplos.
(a)N, com a ordem usual, ´e um conjunto bem ordenado.
(b)R, com a ordem usual, ´e um conjunto totalmente ordenado, que n˜ao ´e
bem ordenado: o intervalo aberto (a, b) n˜ao possui elemento m´ınimo.
14.5. Lema de Zorn. Seja X um conjunto parcialmente ordenado n˜ao
vazio tal que cada cadeia emX´e limitada superiormente. Ent˜aoX possui pelo
menos um elemento maximal.
14.6. Teorema de Zermelo. Cada conjunto n˜ao vazio pode ser bem
ordenado.
14.7. Teorema. As seguintes afirma¸c˜oes s˜ao equivalentes:
(a) O axioma da escolha.
(b) O lema de Zorn.
(c) O teorema de Zermelo.
Demonstra¸c˜ao.(b))(c): SejaXum conjunto n˜ao vazio. SejaFa fam´ılia
de todos os pares (A,A) tais que ; 6= A⇢X e (A,A) ´e um conjunto bem
ordenado. ´E f´acil verificar que F ´e um conjunto parcialmente ordenado n˜ao
vazio se definimos (A,
A)(B,
B) quando:(i)A⇢B;
(ii) sex, y2A, ent˜aox
Ayse e s´o sex
By;
(iii) sex2Aey2B\A, ent˜aoxBy.
Provaremos que cada cadeia emF´e limitada superiormente. De fato, seja
{(A
i,
Ai) : i2 I} uma cadeia em F, e sejaA = S
i2IA
i. Dadosx, y 2 A
definamosxAysex, y2A
iexAiy. ´E f´acil verificar que a rela¸c˜aoAest´a
bem definida, e ´e uma rela¸c˜ao de ordem parcial emA. Afirmamos que (A,
A)´e um conjunto bem ordenado. Seja; 6=B⇢A, e seja
J={j2I:B\A
j6=;}.
Notemos queA coincide comAi em A
ipara cadai2 I. Como (A
i,Ai)
´e bem ordenado para cada i2 I, segue que todos os conjuntosB\A
j, comj2J, tem o mesmo elemento m´ınimo, que denotaremos porb0. Segue queb0´e
o elemento m´ınimo deB. Logo (A,
A) ´e bem ordenado, ou seja pertence aF.
Agora ´e claro que (A,
A) ´e uma cota superior da cadeia{(A
i,
Ai) :i2I}.
Pelo lema de Zorn, F possui pelo menos um elemento maximal (A,A).
Segue da maximalidade de (A,A) queA=X. Logo (X,X) ´e um conjunto
bem ordenado.
(c))(a): Seja{X
i:i2I}uma fam´ılia n˜ao vazia de conjuntos n˜ao vazios.
Pelo teorema de Zermelo, existe uma boa ordena¸c˜ao paraS
i2IX
i. Para cadai2Isejaf(i) o elemento m´ınimo deX
i. Ent˜aof2Q
i2IX
i.(a))(b): Esta ´e a implica¸c˜ao mais dif´ıcil de provar. SejaX um conjunto
parcialmente ordenado n˜ao vazio no qual cada cadeia ´e limitada superiormente.
SejaX a fam´ılia de todas as cadeias deX. Ent˜aoX ´e um conjunto
parcial-mente ordenado n˜ao vazio, por inclus˜ao de conjuntos.
A estrat´egia da demonstra¸c˜ao ´e trabalhar com a fam´ılia de conjuntosX, que
´e parcialmente ordenada por inclus˜ao, em lugar de trabalhar com o conjunto
parcialmente ordenado abstratoX. Depois de provar queXpossui um elemento
maximal, ser´a f´acil provar queX possui um elemento maximal.
O primeiro passo ´e caracterizar os elementos maximais de X. Para cada
C2X seja
ˆ
C={x2X:C[{x}2X }.
Pelo axioma da escolha, existe uma fun¸c˜ao f : P(X)\ {;} ! X tal que
f(A)2Apara cadaA2P(X)\ {;}.
Sejag:X!X definida por:
g(C) =C se C= ˆC,
g(C) =C[{f( ˆC\C)} se C6= ˆC.
A fun¸c˜aogest´a bem definida, pois seC6= ˆC, ent˜aof( ˆC\C)2Cˆ\C, e portanto
C[{f( ˆC\C)}2X. Al´em disso,C´e maximal emX se e s´o seg(C) =C.
Diremos que uma fam´ıliaT ⇢X ´e umatorre se:
(i); 2T;
(ii) seC2T, ent˜aog(C)2T;
(iii) seC´e uma cad´eia emT, ent˜aoSC2T.
´E claro queX´e uma torre. ´E claro que a interse¸c˜ao de uma fam´ılia de torres
´e uma torre. SejaT0 a interse¸c˜ao de todas as torres deX. Ent˜aoT0´e a menor
torre deX. Nosso pr´oximo objetivo ´e provar queT
0´e uma cadeia emX. Isto
vai nos dar muito trabalho.
Diremos que C2T
0´ecompar´avel se dado D2T
0, tem-se queC ⇢D ou
D⇢C.
Para provar queT
0´e cadeia, basta provar que cadaC2T
0´e compar´avel.
Para provar que cadaC2T0 ´e compar´avel, basta provar que os conjuntos
compar´aveis emT0 formam uma torre.
´E claro que ;´e compar´avel. ´E claro tamb´em que se C ´e uma cadeia de
conjuntos compar´aveis, ent˜aoSC ´e compar´avel. O mais dif´ıcil vai ser provar
que seC´e compar´avel, ent˜aog(C) ´e compar´avel tamb´em.
FixemosC2T
0,Ccompar´avel.
Afirmamos que seD 2T
0eD⇢C,D6=C, ent˜aog(D)⇢C. Como T
0´e
torre,g(D)2T
0. ComoC´e compar´avel, tem-se queg(D)⇢C ouC⇢g(D),
C 6= g(D). Mas C ⇢ g(D), C 6= g(D) ´e imposs´ıvel, poisD ⇢ C, D 6= C e
g(D) =Doug(D) =D[{x}.
Seja
U={D2T
0:D⇢C ou g(C)⇢D}.
Afirmamos que U ´e uma torre. ´E claro que ; 2 U. ´E claro tamb´em que
seD ´e uma cadeia em U, ent˜ao SD 2 U. Falta provar que se D 2U, ent˜ao
g(D)2U. H´a trˆes possibilidades:
(i) D ⇢ C, D 6= C. Neste caso j´a sabemos que g(D) ⇢ C, e portanto
g(D)2U.
(ii)D=C. Neste casog(D) =g(C), e portantog(D)2U.
(iii)g(C)⇢D. Neste casog(D) D g(C), e portantog(D)2U.
Como U ´e torre e U ⇢ T
0, segue queU = T
0. Logo, dado D 2 T
0= U,
tem-se queD⇢C⇢g(C) oug(C)⇢D. Logog(C) ´e compar´avel.
Temos provado assim que os conjuntos compar´aveis deT
0formam uma torre.
Segue que cadaC2T
0´e compar´avel, e da´ıT
0´e uma cadeia emX.
ComoT
0´e torre, temos queC0:=ST
02T
0. ComoT
0´e torre, temos que
g(C0)2T
0, e portantog(C0) =C0. LogoC0´e maximal emX.
Por hip´otese existem2Xtal quecmpara todoc2C0. ComoC0´e uma
cadeia maximal, ´e claro quem2C0.
Afirmamos quem´e um elemento maximal emX. De fato sejan2X, com
mn. ComoC0 ´e uma cadeia maximal, segue quen2C0. Logon m, e
portanton=m. Isto completa a demonstra¸c˜ao.
Exerc´ıcios.
14.A.Seja X={n2N:n 2}.Dadosm, n2X, definamosmnsem
dividen.
(a) Prove que´e uma rela¸c˜ao de ordem parcial emX.
(b) Prove que, dada uma cadeiaC⇢X e um elementon2C, existe apenas
um n´umero finito de elementosn1, ..., n
k2Cque dividemn.
(c) Prove que cada cadeiaC⇢X ´e limitada inferiormente.
(d) Identifique os elementos minimais deX.
14.B.Seja (X,) um conjunto totalmente ordenado com pelo menos dois
elementos. Dadosx, y2X, escreveremosx < ysexyex6=y.
(a) Prove que os conjuntos {x2 X :a < x}, com a 2 X, junto com os
conjuntos {x 2 X : x < b}, com b 2 X, formam uma sub-base para uma
topologia emX, chamada detopologia da ordem.
(b) Prove que a topologia usual emRcoincide com a topologia da ordem
usual emR.
14.C.Seja Eum espa¸co vetorial, E6={0}. Usando o lema de Zorn prove
que cada subconjunto linearmente independente deE est´a contido em alguma
base deE.
14.D. Sejam E e F espa¸cos vetoriais sobre o mesmo corpo, seja E0 um
subespa¸co vetorial deE, e sejaT0:E0!F uma aplica¸c˜ao linear. Use o lema
de Zorn para provar a existˆencia de uma aplica¸c˜ao linearT :E !F tal que
T x=T0xpara todox2E0.
14.E. Seja A um anel comutativo com elemento unidade. Um conjunto
I⇢A´e chamado deideal se verifica as seguintes condi¸c˜oes:
(a)x y2I para todox, y2I;
(b)xy2Ipara todox2I,y2A.
Um idealI6=A´e chamado deideal pr´oprio. Um ideal pr´oprio que n˜ao est´a
contido em nenhum outro ideal pr´oprio ´e chamado deideal maximal. Use o lema
de Zorn para provar que cada ideal pr´oprio deAest´a contido em algum ideal
maximal.
No documento
Notas de Topologia Geral. Jorge Mujica. Disciplina ministrada no IMECC-UNICAMP durante o primeiro semestre de 2005
(páginas 40-44)