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TEORIA COMUNICATIVA DA TERMINOLOGIA (TCT)

A Teoria Comunicativa da Terminologia (TCT) foidesenvolvida a partir dos anos 1990 por Maria Teresa Cabré, pesquisadora do Instituto de Linguística Aplicada da Universidade Pompeu Fabra (IULA/UPF), de Barcelona. Seus produtivos pressupostos, conforme se

depreende da literatura da área, permanecem referenciais para grande parte dos estudos terminológicos da contemporaneidade.

Por meio de seus postulados, a teoriapropõe-se a

dar conta dos termos como unidades singulares e, ao mesmo tempo, semelhantes a outras unidades de comunicação, dentro de um esquema global de representação da realidade, admitindo a variação conceitual e denominativa e levando em consideração a dimensão textual e discursiva dos termos.6 (CABRÉ, 1999, p. 120, grifo nosso).

A TCT assevera como fundamental o papel da situação comunicativa para que se estabeleça o estatuto determo. É na interação com o texto que pode se ativar ou não o atributo terminológico, potencial em todas as unidades léxicas, passando essas a exercerem a função de unidades terminológicas. Esse processo de ativação dá-se por meio de seleção de traços morfossintáticos, semânticos e pragmáticos do termo, em função de seu uso em contexto e situação adequados (CABRÉ, 1999, 2008).

Ainda de acordo com os fundamentos da TCT, Cabré defende que o conteúdo (significado) do termo ―nunca é absoluto, mas relativo, conforme cada domínio e situação de uso‖. Por essa razão, considera-se que os termos não pertencem a um domínio; eles são utilizados em um ou mais domínios com um valor específico, o qual pode ser igual ou diferente nos variados campos do conhecimento.

Essa plasticidade significativa da unidade terminológica condiz com a variedade de significados carreados pelo termo gênero nos diversos contextos comunicativos: gênero como categoria de análise científica, como expressão de feminilidade e masculinidade ou como significado de sexo biológico. Gênero acomoda os mais variados sujeitos que o enunciam: desde os que, numa postura essencialista e dualista, compreendem que a discriminação por gênero reside na contraposição entre homens e mulheres, enfatizando as propriedades [+ ou - feminilidade] versus [+ ou - masculinidade], até os que consideram as classificações de gênero absolutamente fluidas, ativando a propriedade [+ ou - diversidade], com que o termo também se relaciona.

Um breve exercício contrastivo entre um texto legislativo e um texto da área da Saúde, que apresentamos no Quadro 3, permite compreender o comportamento distinto que gênero pode assumir em cada situação comunicativa, bem como a sutileza dessas distinções.

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No original: ―dar cuenta de los términos como unidades singulares y a la vez similares a otras unidades de comunicación, dentro de un esquema global de representación de la realidad, admitiendo la variación conceptual y denominativa, y teniendo en cuenta la dimensión textual y discursiva de los términos.‖

Quadro 3 – Gênero em contextos comunicativos distintos: Saúde e Legislação Texto A Área: Saúde – Sub-área: Saúde coletiva

É bastante conhecido o impacto das desigualdades de gênero no perfil de morbimortalidade de mulheres e homens. Estudos apontam que, ao lado das particularidades biológicas, atribuições culturais relativas a ser mulher e ser homem contribuem para a ocorrência de agravos específicos e distinções no acesso a tecnologias de atenção e cuidado à saúde. (VILLELA; MONTEIRO, 2015).

Traços:

[+sexo biológico, desigualdade, masculinidade/feminilidade, parâmetro de saúde, parámetro social, mulher]

Texto B Área: Direito – Sub-área: Legislação

Art. 1.º Constitui objeto de notificação compulsória, em todo o território nacional, a violência contra a mulher atendida em serviços de saúde públicos e privados.

§ 1.º Para os efeitos desta Lei, entende-se por violência contra a mulher qualquer ação ou conduta, baseada no gênero, inclusive decorrente de discriminação ou desigualdade étnica, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto no âmbito público quanto no privado. […] Art. 2.º. A autoridade sanitária proporcionará as facilidades ao processo de notificação compulsória, para o fiel cumprimento desta Lei. (Lei nº 10.778/2003).

Traços:

[+sexo biológico, desigualdade, masculinidade/feminilidadeparâmetro social, mulher] [-parâmetro de saúde]

Fonte: elaboração nossa.

Conforme se observa, nos Textos A e B, embora se tratem de contextos comunicativos da área da Saúde e do Direito, respectivamente, o termo gênero expressa conteúdo muito semelhante, confirmando-se a dificuldade apontada por Cabré (1993, p. 167-168) de se estabelecerem fronteiras entre terminologias de campos afins. No primeiro texto, diferentemente do que ocorre no segundo, gênero, associado à noção de desigualdade, designa uma causa de problemas de saúde da mulher, razão pela qual apresenta a propriedade [+parâmetro de saúde].

Quanto ao contexto comunicativo veiculado pelo Texto B, sugerimos, por ora, que a propriedade distintiva de gênero aí presente é a de [+ objeto legislável]. Sem a pretensão de oferecer uma definição, gênero designa, no Direito, um fenômeno social que, sempre que motive ou possa motivar o surgimento ou a perpetuação, por parte de pessoas, instituições ou do Estado, de qualquer tipo de dano contra indivíduos ou grupos determinados, enseja produção legislativa que coíba essa situação.

Lançando um olhar sobre o texto, materialidade através da qual se realiza o processo comunicativo, Cabré (1993, p.128) o define como uma unidade complexa. Além do caráter linguístico e do caráter pragmático, a autora salienta que ele apresenta:

a) um aspecto sociolinguístico, em vista das relações que uma língua estabelece com outras dentro da mesma sociedade ou entre sociedades, e

b) um aspecto cultural e antropológico, porque reflete um sistema de valores culturais e ideológicos, por meio de discursos não lineares e de sujeitos nem psicologicamente transparentes, nem ideologicamente neutros.

Eis por que o texto, continua Cabré, é ―um elemento de interação entre a linguagem [...] e a realidade, uma vez que é a uma realidade diversificada, multidimensional e que se transforma que o texto faz referência, na qual se fundamenta e da qual reflete uma possível visão7‖. (CABRÉ, 1993, p. 128).

Essa complexidade diz respeito também aos contextos comunicativos especializados, nos quais intervêm os interlocutores, com suas idiossincrasias; as circunstâncias comunicativas e os propósitos do ato de comunicação. Ao observarmos o texto legislativo à luz da TCT, recordamos que Maciel (2004, p. 240) define-o como um processo comunicativo entre todos os interlocutores possíveis que representam o Estado e o cidadão. Por sua vez, o propósito da norma legal é disciplinar o comportamento dos governantes, das entidades e dos cidadãos de forma imperativa, instituindo princípios e prescrevendo modos de agir.

Traçando em linhas gerais, um Estado democrático de direito caracteriza-se por adotar um governo eleito pela população e por reger-se de acordo com normas às quais todos os cidadãos e autoridades devem se submeter. No Brasil, sabidamente, a vontade popular expressa-se por meio de eleições diretas para governantes e legisladores, nas quais prevalece a escolha da maioria dos eleitores. Incumbe ao Poder Legislativo, ―representante do povo ―por excelência, formular, com base nos anseios da população, a legislação na qual se estabelece toda a organização social e que, portanto, também norteia as ações do Poder Executivo. Ao Poder Judiciário, cabe interpretar a lei e fazer com que seja cumprida por toda a sociedade.

A Figura 2 ilustra de forma esquemática a relação de todos os interlocutores que operam no e agem em função do texto lei.

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No original: ―un elemento de interacción entre el lenguaje [...] y la realidad, puesto que es a uma realidad múltiple, pluridimensional y cambiante a la que el texto hace referencia, en la que se fundamenta, y de la que refleja una posible visión‖.

Figura 2 - Contexto comunicativo da lei

Fonte: elaboração nossa.

A notória diversidade, e heterogeneidade, dos sujeitos envolvidos no processo comunicativo realizado por meio do texto legal evidencia, na configuração deste, a relevância dos elementos cultural e antropológico que mencionamos anteriormente. Em um trabalho terminológico, eles informam, inter alia, sobre:

a) a história de um termo – Ex.: momento histórico em que gênero ocorre pela primeira vez na legislação brasileira; momento em que passa a associar-se aos sujeitos de direito LGBT;

b) o significado de um termo – Ex.: traços ([+ ou - sexo], [+ ou - mulher], [+ ou - masculinidade], [+ ou - identidade], etc.) que podem ser associados ao conceito de gênero nos textos legislativos por meio da identificação dos sujeitos de direito;

c) o domínio – Ex: estrutura conceitual passível de ser projetada pelos valores e costumes chancelados ou condenados pela lei: violência, homofobia, discriminação, acesso a direitos, igualdade, equidade.

No que respeita ao item c, recordemos que os conceitos não existem isoladamente, mas são organizados em campos de conhecimento, de acordo com a forma como os sujeitos compreendem os objetos da realidade. Assim, a estruturação de um campo conceitual reflete uma visão cultural e científica da realidade. Dessa forma, a estrutura conceitual não é estática,

PODER LEGISLATIVO PODER JUDICIÁRIO PODER EXECUTIVO CIDADÃOS LEI demandam elabora rege faz cumprir rege rege rege

mas variável segundo os diferentes pontos de vista dos especialistas sobre um objeto (CABRÉ, 1993).

Logicamente, se a organização dos conceitos varia de acordo com a perspectiva do observador, é sinal de que os próprios conceitos são passíveis de interpretações diversas. Especialmente porque ―Os conceitos não existem na realidade; existem somente os objetos. É o indivíduo, por um processo de abstração, o causador de que a realidade torne-se conceito8‖ (CABRÉ, 1993, p. 97). Trata-se, assim, o conceito, de uma representação mental de um objeto individual, material ou imaterial.

Nessa ótica, vale lembrar Sager (1990, p. 29): ―a terminologia relaciona termos a conceitos (e não vice-versa e por isso não se preocupa com sistemas conceituais absolutos, mas somente com sistemas criados com o propósito específico de auxiliar a comunicação9‖.