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CAPÍTULO 1- SITUANDO O DEBATE SOBRE

1.5 A TEORIA CRÍTICA DE CURRÍCULO

A teoria crítica não pode ser definida a partir de um ou outro autor, pois foi produzida a partir de diferentes autores, contextos e problemáticas. O que é comum a esses autores é certa filiação à tradição marxiana e as suas temáticas. Um dos pontos importantes que trouxe para o debate foi a consideração de que os aspectos pedagógicos, por si só, não são suficientes para garantir uma formação adequada para os educandos. Outras questões e temas, como as relações de poder na escola, a definição dos conhecimentos ensinados e a ênfase dos processos ideológicos no trabalho escolar, foram elencados e considerados significativos para o processo de aprendizagem.

Segundo essa concepção curricular o conhecimento deveria ocupar um lugar de destaque nas ações que visam a construção do currículo, pois:

(...) as escolas, portanto, "produzem" ou "processam" tanto o conhecimento quanto as pessoas. Em essência, o conhecimento formal e informal é utilizado como um filtro complexo para "produzir" ou "processar" pessoas, em geral por classes; e, ao mesmo tempo, diferentes aptidões e valores são ensinados a diferentes populações, frequentemente também de acordo com a classe (e o sexo e a raça). Na verdade, para essa tradição mais crítica, as escolas recriam de maneira latente disparidades culturais e econômicas, embora isso não seja, certamente, o que a maior parte das escolas pretenda. (APPLE, 2006, p.68)

Dentro do conjunto de autores e questões que contribuíram para a construção de uma teoria crítica do currículo, a Nova Sociologia da Educação teve papel central. De modo geral ela situou a questão do conhecimento escolar no contexto mais amplo da reprodução cultural como um elemento importante na relação entre poder, dominação e escolarização. Esses três elementos se constituíram em elementos centrais, contribuindo para explicitar as razões e contextos em que a escola reproduzia condições e valores da classe dominante. Ao situar a escola no contexto das relações sociais capitalistas e, portanto, fazer a crítica às perspectivas que enalteciam o caráter técnico do trabalho escolar, a teoria crítica do currículo avançou para a questão que se tornou central no debate: por que a escola ensina alguns conhecimentos e outros não? A teoria crítica do currículo vai afirmar que a resposta deve ser buscada na análise das relações de poder entre as classes sociais. Somente esse processo poderia desvelar como certos conhecimentos, ao se tornarem conhecimento escolar, passam a ser transmitidos de forma generalizada.

A discussão sobre estas relações encontra amplo respaldo nos trabalhos de autores diversos e de tradições culturais distintas: Michael Young na Inglaterra, Michael Apple nos Estados Unidos, Paulo Freire no Brasil e Pierre Bourdieu na França, apenas para citar alguns. Comum a esses autores é a crítica ao alegado caráter neutro da ciência e do conhecimento.

Uma das características da teoria crítica do currículo, e também objeto de crítica, foi a ênfase atribuída a escola como espaço de reprodução de relações sociais. Conhecida como teoria da reprodução social, enfatizou o fato de que a escola, instituição de destaque na modernidade, reproduzia por meio de sua estrutura, organização e currículo as estruturas mais gerais da sociedade capitalista, contribuindo para que as relações capitalistas fossem mantidas.

O estudo realizado por Bourdieu e Passeron (1964), trouxe significativa contribuição para a crítica em construção. Em sua obra, além dos aspectos classe e dominação, incorporam ao debate um novo elemento na dimensão do estudo, a cultura, que passa a ser um componente importante na análise das reproduções sociais. Para os autores, a reprodução das condições culturais ocupa posição de destaque no processo escolar. A tese que defendem é de que a escola se utiliza de vários mecanismos para reproduzir as condições de classe e dominação e que esse processo ganha certa legitimidade à medida que os valores e costumes das classes dominantes, definidos como cultura geral, são os principais elementos no processo, principalmente através da chamada ação pedagógica.

A escola é entendida como espaço importante, uma vez que nela se disseminam e legitimam-se os valores culturais da classe dominante, além disso, torna-se o principal meio de reprodução dos interesses do grupo em questão. Com isso os conhecimentos a serem trabalhados atendem às necessidades de um grupo privilegiado, facilitando desse modo o processo de dominação.

Michael Apple amplia o debate com questões que problematizam a escola como reprodutora das desigualdades econômicas e sociais, mas enfatizando o papel que o currículo tem nesse processo, fazendo crítica à tese de que por ser expressão da cultura geral, os conhecimentos que são disseminados pelo currículo devem ser para todos. Para ele não há neutralidade e nem desinteresse no debate curricular.

Defende que a escola, por si só, não é capaz de diminuir as desigualdades existentes entre as classes sociais, uma vez que o currículo expressa os conflitos existentes na sociedade, mas não produz esses conflitos. Esses decorrem da forma como a riqueza socialmente produzida é dividida entre as classes. Entretanto, o currículo se constitui em ferramenta importante para se conhecer os mecanismos utilizados pelas classes dominantes em seu objetivo de manter o controle do capital econômico, social e cultural.

Partindo dos estudos realizados por Bourdieu, Apple propõe que sejam analisadas as condições de formação dos educandos, ou seja, estudar o que realmente acontece nos sistemas educacionais. Sob essa perspectiva seria necessário descortinar os bastidores, pois:

As escolas não apenas controlam as pessoas; elas também ajudam a controlar o significado. Pelo fato de preservarem e distribuírem o que se percebe como “conhecimento legitimo” – o conhecimento que “todos devemos ter”-, as escolas conferem legitimidade cultural ao conhecimento de determinados grupos. (APPLE, 2006, p.104)

O currículo representa os anseios de seus elaboradores, entretanto, é sabido que existe diferença entre o material oficial produzido e a prática docente em sala de aula. Dessa maneira, o processo formativo do educando depende de diversos fatores, como a formação dos docentes, as experiências dos alunos e a infraestrutura escolar.

A teoria crítica do currículo acabou por dominar as pesquisas educacionais, procurando compreender os elementos de legitimação das diferenças e relações sociais existentes na sociedade capitalista. Foi objeto de crítica, especificamente sua assertividade em relação ao papel do currículo no processo de controle e reprodução social. Mas é inegável sua contribuição ao conhecimento sobre formação e currículo, especialmente a discussão que produziu acerca do caráter ideológico do currículo, a presença de um processo seletivo de cunho classista na definição dos conhecimentos a serem ensinados e nos mecanismos de legitimação das desigualdades sociais presentes em falas que enaltecem a meritocracia e a individualidade.

Em épocas de crítica e crise do marxismo, a teoria crítica do currículo não passou incólume. A produção curricular recente tem se pautado por afirmar que ao priorizar a denúncia ao caráter reprodutivo da escola, deixou de considerar outros aspectos que envolvem o

trabalho escolar. Essas questões são objeto da nossa análise seguinte.