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CONSIDERAÇÕES SOBRE O PAPEL POLÍTICO NA EDUCAÇÃO

2.7. Teoria da Atividade: características da atividade.

Será apresentada uma discussão sobre a Teoria da Atividade neste trabalho e alguns elementos teóricos serão apontados para permitir uma maior compreensão sobre as possibilidades da aplicação do conceito de contradição nas análises que serão desenvolvidas.

A Teoria da Atividade, num sentido amplo, pode ser definida como uma estrutura filosófica e interdisciplinar para estudar diferentes formas de práticas humanas, de processos de desenvolvimento, tanto no nível individual como no nível social.

Ela tem raízes históricas oriundas de três vertentes: a filosofia clássica Alemã dos séculos XVIII e XIX (de Kant a Hegel); os escritos de Marx e Engels, que elaboraram o conceito de atividade; e a psicologia Soviética, fundada por L. S Vygotsky, A. N. Leont’ev e A. R. Lúria. O termo "Teoria da Atividade" surgiu durante as décadas de 1920 e 1930, dentro da Escola Histórico-Cultural Soviética de Psicologia.

No momento histórico em que o domínio das teorias psicológicas baseadas no behaviorismo19, era formulado por Vygotsky um novo método de estudo da consciência baseando-se no materialismo dialético foi desenvolvido por Marx e Engels. O método sugeria os mecanismos pelos quais a cultura torna-se parte da natureza de cada pessoa. Isso implica a afirmação de que a mente humana só pode ser compreendida dentro do contexto histórico de uma atividade prática.

VYGOTSKY (1999, p.8) objetivando firmar o princípio da explicação da consciência, que se fundamenta nas relações sociais, uma vez que estas poderiam ser geradoras da consciência, sugere que a consciência individual se construía nas relações entre as pessoas. Para o teórico, os processos psicológicos superiores deveriam ser vistos como produto de uma atividade mediada.

Entendemos melhor o conceito de mediação em OLIVEIRA (1997, p. 26): “mediação, em termos genéricos, é processo de intervenção de um elemento intermediário numa relação; a relação deixa então de ser direta e passa a ser mediada por esse elemento”.

A mediação é o princípio básico da teoria de Vygotsky que afirma serem as mudanças históricas na sociedade e na vida material condutoras para mudanças na natureza humana. Essas mudanças afetam a consciência e o comportamento

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do homem, explicando o desenvolvimento psíquico do ser humano. Assim fica compreendida a concepção sobre o trabalho humano e o uso de instrumentos como meios para a transformação da natureza, acarretando a transformação do próprio homem.

Estende-se ainda o conceito de mediação para os signos20, que segundo VYGOTSKY (1999, p. 9) “são criados pelos seres humanos ao longo da história da sociedade e mudam a forma social e o nível de seu desenvolvimento cultural”. Podemos então dizer que toda atividade humana é mediada por instrumentos ou signos.

A característica básica do comportamento humano é compreendida pela transformação da natureza de forma que “os próprios seres humanos influenciam sua relação com o ambiente e, através desse ambiente, pessoalmente modificam seu comportamento, colocando-o sob seu controle”. (VYGOTSKY 1999, p. 68)

Até aqui compreendemos a representação do relacionamento mediado entre sujeito e objeto no nível individual, porém em ENGESTRÖN (1999) percebeu-se uma limitação na definição da teoria da atividade na exposição desses primeiros teóricos.

Nota-se que o enfoque estava somente no indivíduo, o que não permitia a visualização das implicações sociais e colaborativas dos modos de atuação.

LEONT’EV supera essa limitação demonstrando que no decorrer da história, a divisão do trabalho contribuiu com a diferenciação crucial entre uma ação individual e uma atividade coletiva iniciando assim uma segunda geração da Teoria da Atividade. Passamos a ter a inserção da comunidade, formada por todos os sujeitos que compartilham um mesmo objeto. Aparecem então novas formas de mediação denominadas ‘regras e divisão de trabalho’.

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Ex.: Linguagem; sistemas para contagem; esquemas; sistemas de símbolo algébrico; desenho mecânico; obras de arte; escritos; técnicas mnemônicas; diagramas; mapas; etc. Assim o homem representa simbolicamente o mundo concreto com signos e controla a natureza com instrumentos

Enquanto forma de mediação entre sujeito e comunidade, temos as regras como normas explícitas ou implícitas que são estabelecidas por convenções e relações sociais dentro da comunidade. Já a divisão de trabalho é mediada entre comunidade e objeto e refere-se à forma de organização de uma comunidade, relacionada ao processo de transformação de um objeto para um resultado.

Figura 2 - Relacionamento mediado entre sujeito e objeto no nível individual. FERRAMENTA

SUJEITO OBJETO RESULTADO

Conforme o contexto em que as ferramentas, regras e divisão do trabalho (mediações) eram desenvolvidas, num momento histórico próprio, adquiriam características específicas.

Com LEONT’EV temos agregação na teoria ao serem somadas várias características baseadas na necessidade de separar ação individual de atividade coletiva. Para o teórico, a relação do homem com o mundo, como forma de atividade humana, pressupõe a orientação através de ações intencionais.

Através do exposto entendemos que o trabalho ocupa lugar central na atividade do indivíduo a partir da existência de um sistema de relação social e de vida social. LEONT’EV passa a analisar a atividade humana nos três níveis hierárquicos que ficam compreendidos, na citação a seguir, que distingue atividade, ação e operação, tornando-se suporte para o seu modelo de atividade: “quando um membro de um grupo exerce uma atividade de trabalho, também está fazendo-a para satisfazer uma de suas necessidades.” (LEONT’EV apud ENGESTRÖN, 1987, p. 65).

- As primárias que surgem nos conflitos existentes em cada um dos elementos que compõem o triângulo da atividade. Para exemplificar LEONT’EV, citado por ENGESTRÖM (1987, p.85), indica o médico que desempenha sua atividade em determinada localidade, zelando pela saúde de seus cidadãos, buscando a redução do número de doenças. Ele deve desejar que o número de doentes aumente, porque sua vida profissional e a oportunidade de acompanhar casos práticos dependem desse aumento.

- As secundárias surgem dos conflitos entre os elementos do triângulo da atividade. Estes conflitos podem ser percebidos quando observamos a rígida divisão hierárquica do trabalho que impede a utilização das possibilidades apresentadas por produtos da indústria mais desenvolvidos.

- As contradições terciárias aparecem quando objetos e motivos culturalmente mais avançados são introduzidos na atividade central. A partir do momento em que o novo passa a ser utilizado, todo o sistema muda, possibilitando um conflito com o novo modo de agir.

- As quaternárias emergem quando há interação entre uma atividade central e as demais atividades que estão à volta. Quando uma nova concepção é adotada, necessita ser praticada pelos envolvidos, modificando a maneira anterior de agir; o que poderá acarretar uma forma de resistência.

Como as inovações podem vir a desencadear eventos surpreendentes e mudanças na atividade humana, sendo que esse fator externo poderá provocar o que ENGESTRÖN (1987, p. 82) denomina de “contradições”, apresentaremos a seguir, de forma resumida, um paralelo entre as contradições e o ambiente escolar e sua prática pedagógica.

Na primária ocorre através das atividades de formação socioeconômicas. No ambiente escolar, a atividade de ensinar de um professor tem como foco o aprendizado do aluno. Portanto o aluno passa a ser elemento da atividade de trabalho do professor e aquele garantirá sua própria sobrevivência na carreira.

Na contradição secundária, há o aparecimento de novas práticas pedagógicas, de serem grupos e fora da sala de aula. O docente sente desejo de

implantar estas práticas no seu cotidiano, mas a instituição utiliza a forma tradicional.

Na terciária, há o surgimento de um objeto culturalmente mais avançado no sistema de atividade que provoca a resistência à mudança. A necessidade da internalização para a externalização proporcionará a adequação da nova tendência para poder introduzi-la.

Na contradição quaternária, a interação entre as mudanças da atividade central e suas atividades próximas permitem o surgimento de um novo produto. O que ocorre , segundo Engeströn é o desconforto, conflito e resistências por parte dos professores que trabalham de forma tradicional.

Como as contradições são também o princípio de seu próprio movimento e a forma na qual o desenvolvimento é modelado e não somente características inevitáveis da atividade, buscamos nos aprofundar no tema para compreender como funciona este ciclo.