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Parte II: O objetivo vislumbrado, a trilha percorrida, os veículos utilizados e seus

Capítulo 5 – Bases Teóricas

5.2. Teoria da Complexidade, de Edgar Morin

“(...) a natureza humana jamais deixou de suscitar a interrogação (...)” (EDGAR MORIN, 1973, p. 20)

O ser humano, por sua natureza incompleta e neotênica, jamais deixou de levantar perguntas, de querer descobrir o novo, descobrir o que lhe afeta, o que ainda não entende e o que o completará. Ele se busca, procurando entender-se no mundo; tenta entender a complexidade das coisas, complexificando com sua presença as coisas; coisas que o ameaçam pela desordem, mas que, ao mesmo tempo, lhe são benéficas, pois induzemàpossibilidade de re-organização. A dicotomia ordem-desordem se nutre uma da outra e está fundamentada nos princípios de organização da vida que são os da complexidade relacional. Nas relações do homem consigo mesmo e com a sociedade surgem as diferenças e necessidade humana de se organizar ou re-organizar cedendo e criando; lutando ou se aceitando ou discordando e acomodando, o que nos remete às estruturas antropológicas do imaginário – heróica, mística ou disseminatória.

Segundo Edgar Morin (1973, p.138),

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Organizacionalidade antropolítica, considerada com Paula Carvalho, uma organização sempre se fazendo e refazendo centrada no próprio homem. (1990, 17).

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“(...) não há integração nem adequação imediata entre o cérebro e o meio ambiente com a comunicação entre um e outro, sendo aleatória, turva, submetida sempre a possibilidade de erro. Nenhum dispositivo no cérebro permite distinguir os stimuli externos dos stimuli internos, isto é, o sonho da vigília, a alucinação da percepção, o imaginário da realidade, o subjetivo do objetivo.”

O autor considera (idem) que entre o cérebro humano e seu meio ambiente há um ‘information gap’ que faria do sapiens o animal mais desprovido, se ele não o pudesse preencher, pelo menos em parte, com vivências e experiência cultural acumulada e com o aprendizado pessoal.

Afirma, ainda, que

“(...) a ilusão, a desordem, o erro, o ruído vão acompanhar sem interrupção a atividade pensante do sapiens (...) nenhum sistema de idéias, nenhuma teoria poderá jamais se voltar a fechar; uma de suas proposições será sempre impossível de se determinar; aquilo que abre indefinidamente a aventura espiritual.” (ibidem, p. 139)

Para ele, a ilusão, a desordem, o erro, são ações no pensamento humano que está em atividade constante e diz que

“(...) o cérebro humano precisa do ecossistema, da cultura, da sociedade, da práxis, para estabelecer suas verdades, o que o leva a procurar na e pela natureza, na e pela cultura, na e pela sociedade, na e pela prática, a solução de suas incertezas.” (ibidem, p. 138).

Daí entender-se que o homem não é apenas razão (racional), ele é também afeição/emoção. São as recordações, as lembranças e imagens que formam nossa vida interior, que constrói o logos – discurso -, o pensamento, as palavras, a razão, a ação, no sentido original e profundo (ibidem, p. 133).

A criação das imagens tidas pelo homem precisa ser, de início, irreal para depois se tornar real. É satisfatório saborear a realização de uma situação imaginada. Pierre Auger e Jacques Monod (apud MORIN, 1973, p. 226), consideram que o

“(...) homem é portador de um novo reino, o das idéias (...)as idéias unem- se em seqüências organizadas, tornando-se mitos ideológicos, seres antropomorfos, o que as torna ainda mais semelhantes aos seres vivos (....).”

O homem, de acordo com Morin (2003, p. 58) é um ser complexo, pois traz em si, de modo bipolarizado, caracteres antagonistas: “O homem do trabalho é também o do jogo. O homem empírico é também o homem imaginário. (...) O homem prosaico é também o da poesia, (...), da participação, do amor, do êxtase”. Desta forma, o homem não vive apenas de racionalidade, ele se entrega, se dedica a várias atividades de cunho diferentes. Ele acredita na vida, é ritualístico, mítico, místico, “crê nas virtudes do sacrifício, viveu freqüentemente para preparar sua outra vida além da morte” (ibidem, p. 59). Como será que os alunos idosos da U

O valor que a fantasia e o imaginário possuem para o ser humano é extremo. Morin (ibidem, p. 20) escreve que;

“(...) as vias de entrada e saída do sistema neurocerebral, que colocam o organismo em conexão com o mundo exterior, representam apenas 2% do conjunto, enquanto 98% se referem ao funcionamento interno, constitui-se um mundo psíquico relativamente independente, em que fermentam necessidades, sonhos, desejos, idéias, imagens, fantasias, e este mundo infiltra-se em nossa visão ou concepção do mundo exterior.”

Para Morin (1973, p. 226) o caráter mais original do sapiens está no surgimento noológico (universo que vai dos sonhos às idéias e das estruturas mitológicas às estruturas lógicas). “Produto de nossa alma e mente, a noosfera está em nós e nós estamos na noosfera”. (ibidem, p. 29). Os mitos e as idéias se encorparam,

“tomaram forma, consistência e realidade com base nos símbolos e nos pensamentos de nossa inteligência. (...) Mitos e idéias voltaram-se sobre nós, invadiram-nos, deram-nos emoção, amor, raiva, êxtase, fúria. (...) As sociedades domesticam os indivíduos por meio de mitos e idéias, que, por sua vez, domesticam as sociedades e os indivíduos, mas os indivíduos poderiam, reciprocamente, domesticar as idéias, ao mesmo tempo em que poderiam controlar a sociedade que os controla. As idéias existem pelo homem e para ele, mas o homem existe também pela idéias e para elas.(...).” (idem).

Segundo Edgar Morin existe complexidade quando elementos diferentes são inseparáveis, constitutivos do todo e há uma interdependência, interatividade e inter- retroatividade entre “o objeto de conhecimento e o seu contexto, as partes e o todo, o todo e as partes, as partes entre si”, (ibidem, p. 38) a complexidade é a união entre a unidade e a multiplicidade. O homem é um ser complexo e assim o idoso como indivíduo também o é. A organização é complexa e o idoso, ser humano que vive em sociedade é complexo. Nenhum homem é uma ilha e assim a relação entre eles complexifica a vida em grupo. A UUnnAATTII//UUCCBB é um grupo formado complexicamente por “diferentes”, “inseparáveis”: dirigentes e alunos idosos. O homem constitui, ele próprio, um micro-universo mítico, micro-universo que por sua vez comporá o universo mítico. Morin considera, ainda, que o homem “traz em si multiplicidades interiores, (...) uma infinidade de personagens quiméricos, uma poliexistência no real e no imaginário. (...) Cada qual contém em si galáxias de sonhos e de fantasmas ... (ibidem, p. 57-58).

Repetindo Bachelard, registramos que há “(...) a vontade que sonha e que, ao sonhar dá um futuro a (...) ação”. Cabe aqui anotar com Andrade, citada por Lahud Loureiro, (2004a., p. 3) quando escreve: “os velhos (...) parecem manter ou ter acordado para uma grande capacidade de sonhar”.

Diante de tantos conflitos e crises, presentes em nossa sociedade o que agrava a dificuldade de tratar com essas situações é a maneira como conduzimos o nosso pensamento, porque estamos embebidos ou submersos na globalidade turbilhonar da sociedade e do mundo.

“Necessitamos (...) conceber a insustentável complexidade do mundo no sentido de que é preciso considerar a um só tempo a unidade e a diversidade do processo planetário, suas complementaridades ao mesmo tempo que seus antagonismos. O planeta não é um sistema global, mas um turbilhão em movimento, desprovido do centro organizador.” (MORIN, 2003, p. 64)

Parece-nos, então que a união epistemológica entre natureza e cultura, tanto, no “trajeto antropológico” de G. Durand quanto na noção de “esfera noológica” ou “anel recursivo” de Morin, acontece através da função simbólica: mediações simbólicas nas práticas simbólicas.

O ser humano traz em consigo, desde o nascimento até a morte, as simbologias e a complexidade; complexidade de pensamento, de organização. Dai a necessidade permanente de organização e reorganização, com a consideração do imaginário.

Edgar Morin (1973, p. 91) considera que

“o desenvolvimento da complexidade social exige, por parte do cérebro individual, um conhecimento cada vez mais extenso e preciso do mundo exterior (meio ambiente) e do mundo interior (sociedade), uma memória cada vez mais ampla, possibilidades associativas múltiplas, aptidões para tomar decisões e para encontrar soluções num grande número de situações diversas (...)”

É neste contexto que a educação permanente tem um papel crucial para a sociedade e para o homem. As UUnnAATTII’s podem criar no homem idoso ou no grupo de idosos possibilidades múltiplas de ampliação de conhecimentos e resgate da cidadania, fazendo com que o idoso se sinta parte integrante da história, como idealizador, construtor e integrante; capaz de sonhar, rir, imaginar, lembrar e vislumbrar um futuro.

Os simbolismos estão a mediar as práticas sociais. A educação é uma prática social, daí a preocupação em conhecer e considerar a dimensão simbólica na organização ou re- organização de uma UUnnAATTII, no caso UUnnAATTII//UUCCBB, uma organização dinâmica.

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