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4 O JORNALISMO NO SÉCULO XXI E RECONFIGURAÇÕES

4.3 TEORIA DA GOVERNANÇA E NOVOS MODELOS DE GESTÃO

Para Bevir (2011, p. 104), um dos fatores significativos para a Ciência Social no século XX foi o “[...] surgimento de modos modernistas de conhecimento que atomizam o fluxo da realidade”. A organização social passou a ser mais complexa, além de mais conectada e fragmentada, “[...] compostas por todos os tipos de organizações públicas, voluntárias e privadas com as quais o centro agora interage” (BEVIR, 2013, p. 152). No aspecto da crise institucional de esferas sociais sólidas, há de se considerar a representatividade do jornalismo como uma dessas organizações posta em cheque nessas transformações. “Aqui, nós devemos incluir o jornalismo como uma instituição cuja legitimidade está sob ameaça de múltiplas direções69” (WAHL-JORGENSEN, 2017, p. 143).

O discurso de legitimidade atrelado ao jornalismo, por muito tempo, foi com base em um ideal de prestação de serviços à população. Lippmann (2009, p. 275) afirma que “[...] praticamente em todos os lugares se supõe que a imprensa deveria fazer espontaneamente por nós o que a democracia primitiva imaginava que cada um de nós faria espontaneamente para si próprio [...]”. Anderson, Bell e Shirky (2013), falam em um capital simbólico, ou capital reputacional em contraste com o capital financeiro - como eles dividem - conquistado pelas organizações jornalísticas no século XX. Segundo os atores, essas organizações “[...] tinham um punhado de características que aumentavam seu poder na comparação com outras estruturas de governança pública” (ANDERON; BELL; SHIRKY, 2013, p. 58). Esse papel, assim como acontece com as outras esferas institucionais, também é questionado na dinâmica da governança e das novas configurações sociais com a chegada do século XXI.

O que mudou não é o tamanho do público propriamente dito, mas o modo como é entendida a relação entre instituição e público – entre o jornalismo e a imagem que este faz do público. Mudanças nessa imagem do público têm profunda relação com uma segunda leva de transformações: o declínio do capital simbólico de instituições jornalísticas tradicionais (ANDERSON; BELL; SHIRKY, 2013,p. 59).

69 Tradução livre do original: “Here, we may include journalism as one such institution whose legitimacy is under threat from multiple directions.”

As características de um mercado neoliberal atuaram de forma significativa nesta reorganização. A aproximação e comparação de formas privadas de gestão àquelas públicas revelou uma certa ineficiência e demasiada burocracia por parte das instituições governamentais. Dessa forma, a argumentação neoliberal propõe que o mercado é superior ao Estado e conclui “[...] que quando possível os mercados ou quase-mercados devem substituir a burocracia. A busca por eficiência conduziu-os a propor que o Estado transferisse organizações e atividades para o setor privado” (BEVIR, 2011, p. 107). Os efeitos desta perspectiva, de acordo com Bevir (2013) intensificaram ainda mais a proliferação de redes, fragmentação do setor público e o questionamento sobre uma segurança, certeza e estabilidade de um controle central e institucional de Estado. As noções estão em consonância ao conceito de modernidade líquida, apresentado pelo filósofo Bauman, em 2001, que contrasta a solidez de figura de instituições forjadas ao longo da história social moderna com um futuro de incertezas e fragmentação.

Para trazer o conceito à contemporaneidade, Bauman fala que vivemos uma modernidade líquida, que em contraste com a modernidade sólida do passado, responsável por uma sensação de estabilidade, segurança, exemplificada por um trabalho assalariado e uma possível previsão de futuro consolidado, mostra agora sinais de um tempo de incerteza e ansiedade (RAMOS; SPINELLI, 2016, p. 30). O jornalismo, inserido nessa realidade institucional, ou simplesmente parte desta realidade, também é tomado pelas influências neoliberais que intensificaram as transformações especificadas acima. São pressões constantes que envolvem “[...] exigências de mercado e expectativas de mercado; uma divisão de trabalho precária e atípica que fragmenta a profissão; uma erosão contínua de seus valores e práticas por meio da intervenção da tecnologia [...]” (DEUZE; WITSCHGE, 2016, p. 10). Assim, na rota das tensões da hiperconcorrência, as leituras possíveis a partir da teoria da governança permitem vislumbrar efeitos que mostram no que o jornalismo, gradativamente, está se tornando. A análise pelo olhar da teoria da governança, além de permitir perceber as diferentes configurações sociais, também possibilita compreender como o conceito pode ser aplicado em qualquer relação social, seja ela aplicada em uma lógica pública, mercadológica ou até mesmo familiar. Para Bevir (2013, p. 1), governança refere-se a “[...] todos os processos de governar, sejam empreendidos pelo governo, mercado, ou rede; seja por uma família, tribo, corporação ou território; e seja por leis, normas, poder ou linguagem70”.

70 Tradução livre do original: “[…] all processes of governing, whether undertaken by a government, market, or network; whether over a family, tribe, corporation, or territory; and whether by laws, norms, power, or language. Governance is a broader term than government because it focuses not only on the state and its

No jornalismo, então, as novas lógicas de prioridade de relações entre públicos e organizações podem ser consideradas a partir da dinâmica da governança, entendendo a crise do jornalismo associada mais à instância política do que econômica (MICK; TAVARES, 2017). Assumem-se as noções de precariedade de trabalho, de crise institucional e reputacional, de profissão fragmentada e toda a instabilidade que essas características geram para abrir espaço às reconfigurações resultantes e propor novos modelos de negócios que ampliam a governança de outros atores no processo, e não só das organizações jornalísticas como anteriormente às mudanças trazidas pela perspectiva pós-industrial.

Para aumentar a compreensão sobre a interação entre as normas profissionais e a autocompreensão dos jornalistas em uma era de desprofissionalização e precariedade, o jornalismo precisa ser compreendido para além de suas fronteiras tradicionais institucionais e organizacionais. O que o jornalismo é e o que é ser um jornalista pode ser entendido tanto em termos ideológicos quanto praxeológicos e não são mais dependentes do trabalho realizado dentro de instituições (DEUZE; WITSCHGE, 2016, p. 10).

É principalmente a partir do trabalho de Deuze e Witschge (2016) e Mick e Tavares (2017) que as iniciativas digitais de jornalismo que se autodenominam independentes podem ser localizadas neste contexto de governança, em que novas relações com a profissão são incentivadas a partir da precarização constante e a crescente descrença em instituições tidas até então como sólidas. São novos formatos de trabalho e modelos de negócio jornalísticos que apresentam soluções para um possível retorno de credibilidade do público para a mídia a partir das novas formas de interação - uma reconquista da confiança perdida com a crise institucional mencionada anteriormente. Essas ferramentas “[...] aumentam a oportunidade para o surgimento de novos tipos de organizações e veículos jornalísticos, baseados em numa relação honesta e direta entre jornalistas e públicos” (MICK; TAVARES, 2017, p. 127).

A partir dessas reconfigurações, os autores (Mick e Tavares, 2017) apresentam uma sistematização conceitual com base em revisões bibliográficas e elencam quatro diferentes dimensões em que a governança é percebida: a) governança editorial – tem relação com a adoção de um jornalismo mais social, seguindo princípios deontológicos da profissão, refletindo diretamente na liberdade de escolha de pautas, procedimentos e técnicas jornalísticas na apuração e, também, na forma como os conteúdos são apresentados e publicados; b) governança de gestão – é definida principalmente pelos objetivos de gestão da organização, que pode afetar diretamente o conteúdo a partir da busca ou não pela lucratividade; c) governança de circulação e engajamento – o alcance do conteúdo jornalístico

é aliado à capacidade de distribuição e replicação que os públicos desenvolvem na internet; e d) governança da sustentabilidade – estimula a reflexão sobre novas formas de financiamento de empresas jornalísticas que fujam da lógica comercial tradicional dos modelos hegemônicos, como a doação de leitores, produção de eventos, comercialização de produtos ou produção de conteúdo patrocinado por marcas – tudo pensado para manter a governança editorial.

Apesar de categorias aparentemente distintas, ressalta-se que todas podem existir e acontecer de forma sobrepostas. Mick e Tavares (2017, p. 131) defendem que, por exemplo, as respostas sobre novas formas de financiamento na dimensão da governança de sustentabilidade não surgirão “[...] senão quando superados, entre jornalistas e a sociedade, em cada território, os impasses relativos às três outras dimensões da governança (editorial, de engajamento e gestão)”. Nesse sentido, a proposta aqui é utilizar as definições de governança editorial, governança de gestão e governança de sustentabilidade71 para contribuir com a análise das entrevistas com os idealizadores dos sites Amazônia Real e InfoAmazonia, com a representante da Fundação Ford e dos produtos desenvolvidos pelos empreendimentos e especificados na metodologia deste trabalho.

Na primeira dimensão, a editorial, analisam-se o engajamento e aproximidade com princípios sociais, seja na representação de populações locais ou na ruptura com discursos tradicionais, além de considerar a autonomia profissional para abordar critérios de noticiabilidade, apuração e apresentação das iniciativas no objetivo de dar visibilidade a acontecimentos na região pouco visíveis na mídia convencional, como os grupos indígenas e seringueiros apresentados na contextualização da região Amazônica. Entende-se que a partir da governança editorial é que se pode atingir um possível distanciamento de modelos tradicionais de jornalismo, já que como estes “[...] costumam tratar de assuntos parecidos e sob perspectivas similares, tanto comunidades quanto jornalistas independentes têm buscado maneiras de criar espaços para veiculação de olhares diferentes sobre o mundo” (MICK; TAVARES, 2017, p. 132).

Para que a primeira dimensão, a editorial, tenha oportunidade de acontecer, é necessário que a segunda categoria de governança, a de gestão, seja considerada. Ela serve para perceber como são gerenciados os recursos financeiros advindos da governança de

71 A partir da descrição dos objetos apresentada no capítulo metodológico desta dissertação, entende-se que os modelos de governança editorial, de gestão e de sustentabilidade são os que mais se aproximam das atividades desenvolvidas pela Amazônia Real e InfoAmazonia. A governança de circulação e engajamento não foi percebida de forma expressiva nas iniciativas por terem como principal modelo de financiamento a doação de fundações e outras organizações.

sustentabilidade – terceira dimensão de governança - e se eles influenciam, de alguma forma, na definição de pautas e enquadramento noticioso com o intuito de lucro ou outro objetivo que estabeleça conexão com lógicas comerciais. A proposta desta dimensão de governança de gestão parte do pressuposto de que as soluções para as transformações no jornalismo desenvolvidas por grupos tradicionais acabam ficando limitadas a modelos lucrativos construídos ao longo do século XX, principalmente. As decisões tomadas por essas organizações empresariais acabam ampliando a dependência do campo jornalístico com outros campos. Assim, uma das tendências é o surgimento de iniciativas que sejam de natureza não lucrativa, como fundações, associações e ONGs (MICK; TAVARES, 2017) – contexto que se aplica às iniciativas autodenominadas independentes Amazônia Real e InfoAmazonia.

Por fim, na terceira categoria de governança, a de sustentabilidade, evidencia-se a forma como as iniciativas autodenominadas independentes conquistam receitas para se manterem viáveis. As escolhas devem ser feitas com base na possibilidade de manutenção da governança editorial, principalmente, e sempre em diálogo com as características de gestão da iniciativa. “Como fazê-lo sem afetar a cobertura? Novas formas de narrativa entre o jornalismo e a publicidade, como conteúdo patrocinado, são aceitáveis, em nome de um bem maior, a subsistência da informação de qualidade?” (MICK; TAVARES, 2017). Aqui podem ser percebidas outras formas de arrecadação de recursos para a garantia da autonomia editorial e de gestão, como produção de eventos e comercialização de produtos. No caso da Amazônia Real e InfoAmazonia, a principal forma de sustentabilidade detectada resume-se ao modelo de fundações. Este formato está localizado dentro da proposta de um segmento sem fins lucrativos e financia atividades de diversas áreas em diferentes locais no mundo. Resume- se a grandes fundos financeiros controlados por doadores. Especialmente nos Estados Unidos o setor é um dos mais desenvolvidos do mundo e concentra fundações expressivas, como a Fundação Ford – financiadora direta da Amazônia Real e indireta do InfoAmazonia.

Não há como negar o fato de que o setor sem fins lucrativos dos EUA é um dos maiores do mundo, composto por 1,4 milhão de organizações com US$ 1,9 trilhão em receitas não tributadas. Um dos principais representantes financeiros e pioneiros do mundo sem fins lucrativos são os "liberais" nacionais fundamentos, muitos com os nomes dos bilionários americanos passados e presentes: Carnegie (fundado em 1911), Rockefeller (1913), Ford (1936) e Gates (2000)72 (BENSON, 2016, p. 5).

72 Tradução livre do original: “There is no denying the fact that the U.S. nonprofit sector is among the largest in the world, consisting of 1.4 million organizations with $1.9 trillion in non-taxed revenues. A major financial driver and trendsetter in the nonprofit world are the national “liberal” foundations, many bearing the names of American billionaires past and present: Carnegie (founded 1911), Rockefeller (1913), Ford (1936), and Gates (2000)”.

Independentemente do modelo de gestão adotado e de como se originou, o que precisa ser levado em consideração é que, em resposta às transformações, diferentes estruturas de organizações e dimensões de governanças, como as citadas acima, estão sendo testadas gradativamente. São “[...] experiências jornalísticas abrigadas em novas formas de organização” (MICK; TAVARES, 2017, p. 133), entre as quais se encontram as iniciativas autodenominadas independentes analisadas por este trabalho. Assim, se as características de governança fundamentam um contexto em que as iniciativas autodenominadas independentes podem surgir, além de encontrar noções que auxiliam na compreensão dos modelos de gestão adotados pela Amazônia Real e InfoAmazonia, outro passo fundamental para esta pesquisa é aferir a autodenominação "independente" atribuída aos sites analisados. Justamente por se tratarem de iniciativas ainda em um processo de percurso73, que apresentam intensões de testes de diferentes modelos de gestão, é que se torna necessário ir além de uma autoafirmação “independente” por parte delas. O envolvimento de fundações e de recursos financeiros advindos de países estrangeiros, mesmo adotando critérios de dimensões de governança de gestão, especialmente no contexto amazônico em que a Amazônia Real e InfoAmazonia estão localizadas, provoca um dos possíveis direcionamentos para a condução de um resgate teórico sobre os diferentes conceitos possíveis de independência. A perpetuação de rotinas profissionais encontradas nos veículos tradicionais, mesmo com a proposta de uma dimensão de governança editorial, também funciona como um elemento que dá espaço para a percepção mais cuidadosa dos modelos autodenominados independentes. O próximo capítulo, então, é dedicado a compreender e delimitar esses distintos entendimentos que podem limitar e, também, configurar a independência.

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