2. REVISÃO DA LITERATURA
2.2 EXPERIÊNCIAS DE APRENDIZAGEM MEDIADA NA PERSPECTIVA DE
2.2.2 Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural
“Todo ser humano é modificável”
A frase de Feuerstein (in GARCIA; MEIER, 2004), que direciona basicamente toda sua proposta teórica e metodológica, traduz sua crença na capacidade humana em transformar-se, qualitativamente e, ainda, intencionalmente, por meio da figura do mediador. Modificação essa diferente da que a sociedade contemporânea, de maneira geral, credita grande parte do desenvolvimento humano com base no reducionismo e determinismo genético16.
A confiança no educador para com as mudanças que o ser humano é capaz de alcançar com relação ao seu desenvolvimento, não foi adquirida apenas por meio de uma visão filosófica, mas também por suas experiências no trabalho com crianças em situações bastante desfavoráveis, sejam elas sociais, afetivas ou ainda trazidas por diagnósticos, como descrito em capítulos anteriores. “A vivência de Feuerstein com essas crianças levou-o a acreditar na capacidade de adaptação do
16 De acordo com Penchaszadeh (2002), diretor do Collaborating Center in Community Genetics and Education, da Organização Mundial de Saúde e professor de Pediatria no Albert Einstein College of Medicine, em Nova Iorque, o reducionismo genético é “uma concepção pseudocientífica que afirma que os genes possuem a explicação final para muitas características de organismos vivos, incluindo os humanos” (p.61). Ainda de acordo com o professor, o determinismo genético “denota a ideia de que traços humanos, sob a influência dos genes, são totalmente fixos em sua caracterização fenotípica e pouco afetados por mudanças no ambiente físico e social” (p.61). Dessa forma, ambos os conceitos corroboram com a ideia de que os indivíduos são geneticamente determinados, com poucas ou nenhuma possibilidade de influências do ambiente em seu desenvolvimento global. Essa concepção, bastante em voga nas décadas de 20 e 30, ainda de acordo com o artigo de Penchaszadeh, caiu em descrédito após a II Guerra Mundial, também devido à revelação das atrocidades nazistas. Com a rápida e eficiente evolução da pesquisa genética, além do desenvolvimento do Projeto Genoma Humano, a comunidade científica se instrumentalizou para entender a relação entre os genes e a interação com o ambiente. Entretanto, ainda que mais sutil que no passado, tais descobertas têm levado a um reducionismo e determinismo genético observados frequentemente, dentre outras tantas áreas, na Educação. Por meio de sua teoria, é possível perceber que Feuerstein e sua equipe (1980; 1988; 1996) corroboram com a ideia de “sérios” geneticistas, que, de acordo com Penchaszadeh, são aqueles que “reconhecem que todos os traços humanos resultam de interações complexas e dinâmicas entre a constituição genética e ambiente” e concordam que “as variações reais dos genes explicam apenas uma pequena fração das diferenças humanas em comportamento e saúde” (2002, p.64).
ser humano para sobreviver, mesmo em situações extremamente desfavoráveis” (SOUZA; DEPRESBITERIS; MACHADO, 2004, p.27).
Para que se conheça e ainda compreenda a Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural, faz-se necessário conhecer os principais aspectos dos três sistemas que a compõe, ou seja, as Experiências de Aprendizagem Mediada, corpus deste trabalho, o Programa de Enriquecimento Instrumental e ainda a Avaliação Dinâmica do Potencial de Aprendizagem, que serão brevemente descritos nos itens subsequentes.
Feuerstein valoriza o papel do professor mediador por meio dos construtos da Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural ao colocar insistentemente que essa depende diretamente das EAM, onde, além da exposição direta aos estímulos, o professor consegue intencionalmente preparar os educandos para que se beneficiem de todo o processo educativo, buscando sua modificabilidade.
A teoria da MCE terá seu conceito-chave na EAM, sendo o mediador o responsável por todo o processo, e o PEI, sua instrumentação concreta. O mediador definirá os meios, marcará os ritmos e dosará todo o processo modificador: sua presença é imprescindível enquanto autêntico transformador dos estímulos que chegam até o educando (TÉBAR, 2011, p.60).
Mesmo considerando fortemente o desenvolvimento dessa capacidade de auto plasticidade dos sujeitos por meio das EAM, Feuerstein (1980; 1998; 2010; 2012) não objetiva com esse trabalho a dependência dos indivíduos para com os mediadores. Ao contrário, essa prática pretende expô-los cada vez mais de maneira independente frente aos elementos de sua cultura, para que, ao aprender a aprender, tornem-se autônomos a ponto de usarem adequadamente estratégias e alcançarem sua modificabilidade.
Atuando como um resultado das EAM, a modificação estrutural não abarca apenas os aspectos cognitivos como elementos dos indivíduos. Mais que isso, ela envolve ainda os outros aspectos pessoais, como a afetividade17 e a volição,
17 Garcia e Meier (2008, p.191) propõem em sua obra a inclusão de um outro critério de mediação denominado “Mediação da construção do vínculo professor-aluno”. A sugestão se pauta especialmente pela relevância trazida por alunos do Ensino Médio (sujeitos da pesquisa de Mestrado que compõe a obra) que, em suas contribuições durante a pesquisa desenvolvida, evidenciaram o que Feuerstein e sua equipe (1980; 1988; 1996) e outros autores, como FREIRE (1983), já colocaram, ou seja, na educação a relação, o vínculo entre professores e alunos é fundamental para o desenvolvimento da aprendizagem, permitindo o envolvimento e motivação dos alunos durante e para o processo. Ainda que não seja uma colocação inteiramente nova, como os próprios autores
superando uma percepção episódica da realidade e garantindo a qualidade da mudança. Dessa forma, a teoria da MCE permanece numa vertente contrária aos construtos teóricos da teoria comportamentalista, favorecendo a capacidade individual para a percepção da necessidade de novas adaptações em um mundo totalmente mutável, em constante movimento.
A modificabilidade ultrapassa o conhecimento formal transmitido pelos sistemas de ensino; refere-se ao uso que a pessoa faz de seus próprios recursos mentais, para antecipar situações, fazer inferências e tomar decisões de modo independente e autônomo. A modificabilidade também não pode ser encarada como mera modificação da quantidade de unidades de informação que se adquire; tampouco é uma evolução na quantidade de atitudes a incorporar. Implica uma modificação de natureza qualitativa (SOUZA; DEPRESBITERIS; MACHADO, 2004, p.35).
Nesse sentido, Feuerstein caracteriza a modificabilidade pela “permanência, caráter impregnante do todo e centralidade das mudanças que tem lugar” (FEUERSTEIN, 1993, p.3), diferenciando-a das mudanças (que podem ser de ordem maturacional ou biológica ou ainda superficiais e passageiras), que “[...] deixam somente traços mínimos nas suas funções superiores, porque eles (os traços) não se tornam uma parte integrada na sua personalidade ou na capacidade cognitiva estrutural” (FEUERESTEIN, 1997, p.3) e que também ocorrem no desenvolvimento humano. Sua visão, desta forma, torna-se bastante otimista com relação à modificação estrutural dos indivíduos expostos às EAM.
Entretanto, visto as peculiaridades das realidades encontradas na efetivação das EAM, Feuerstein aponta algumas dificuldades nesse processo, que devem ser trazidos ao conhecimento do professor mediador. A colocação de tais barreiras, porém, visa, prioritariamente, alertar os professores mediadores se estiverem frente às situações apontadas para que sejam aplicadas estratégias específicas na busca da modificabilidade e não para que encontre nelas motivos para o conformismo ou determinismo. Dessa forma, Feuerstein adverte para três obstáculos: “a) a etiologia do problema; b) a idade da pessoa; c) a severidade ou gravidade da privação e a intensidade do problema” (TÉBAR, 2001, p.64).
afirmam, faz-se necessário “reforçar o que já foi dito por ser muito importante” (GARCIA; MEIER, 2008, p. 191).
Diante de todas as características descritas a respeito da teoria da MCE, cabe ressaltar finalmente aquelas consideradas como chave, atribuídas por Feuerstein, para considerar que a modificabilidade ocorrida no indivíduo foi realmente estrutural:
1. Permanência, isto é, duração das mudanças cognitivas ao longo do tempo e do espaço.
2. Expansão ou processo de difusão, na qual as mudanças parciais chegam a afetar o todo.
3. Centralidade ou autonomia, para a conservação e a natureza autorreguladora da modificabilidade (TÉBAR, 2011, p. 65).
Assim, a modificabilidade proposta na teoria desenvolvida por Feuerstein e seus colaboradores (1980; 1998; 2010; 2012), pretende tornar princípio básico a crença na transformação, a possibilidade de modificação, independente de quaisquer diagnósticos ou rótulos adquiridos pelos indivíduos na busca da aprendizagem e desenvolvimento humano.