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4 Apresentação do problema

4.5 Teoria da responsabilidade social da indústria

Aqueles que discordam da tese de que empresas privadas, titulares dos meios de produção, têm o dever de atuar como agentes ética e socialmente responsáveis argumentam que as pessoas jurídicas de direito privado não consubstanciam agentes morais. Segundo este entendimento, a pessoa jurídica, a congregação de pessoas e bens com vistas à consecução de fins empresariais, dotada de personalidade e capacidade jurídicas, além de reconhecida pelo ordenamento jurídico como sujeito titular de direitos e obrigações, é uma ficção jurídica a qual se podem atribuir responsabilidades civis, embora a ela não sejam aplicáveis juízos de ordem moral.

Neste trabalho, diverge-se deste entendimento. Defende-se, ao contrário, a tese de que pessoas jurídicas consubstanciam sim agentes intencionais, cujas decisões derivam de suas estruturas internas deliberativas (formadas, em última análise, por pessoas naturais), as quais são capazes de empregar valores morais na fundamentação de decisões, cujas conseqüências, é importante frisar, são relevantes não apenas em âmbito interno, mas também em relação aos interesses da coletividade.

Destarte, embora a pessoa jurídica não seja um agente moral perfeitamente equivalente à pessoa física, dotada de atributos de caráter emocional que a capacitem, por exemplo, a sentimentos como a culpa e a condolência, entende-se, neste trabalho, tratar-se sim de um tipo especial de agente moral. Nos moldes do que argumentou Stingelin-Giles, defende-se que uma empresa possa agir racionalmente e considerar os interesses de terceiros em seu processo deliberativo, devido às suas incontestáveis capacidades de,

por meio de pessoas físicas, reunir informações e avaliar o impacto de suas decisões sobre os interesses de terceiros188.

Resnik, valendo-se de conceitos bioéticos, defende que as empresas encerram agentes morais obrigados à não-maleficência e à promoção da justiça social, na medida em que suas decisões afetam os seres humanos:

(...) corporations are like moral agents in that they make decisions that have important effects on human beings. In making these decisions, corporations can decide to either accept or ignore social values (…) If corporations are like moral agents, then they have some of the same duties that apply to other moral agents. In particular, corporations have obligations to avoid causing harm and to promote social welfare and justice. That is, they have social responsibilities”.189

As Nações Unidas, por sua vez, reconheceram a responsabilidade social das empresas por meio do item 1 do documento “Normas sobre a responsabilidade de corporações transnacionais e outras empresas de negócios em relação aos direitos humanos”, aprovado em 2003 pela Subcomissão de Promoção e Proteção dos Direitos Humanos. O documento preconiza, entre outras medidas, que empresas transnacionais e outras entidades empresariais promovam, garantam, respeitem e protejam os direitos humanos no âmbito de suas atuações. Abaixo, o item 14 do referido documento, o qual recomenda que empresas transnacionais e outras entidades empresariais atuem de acordo com preceitos de saúde pública e bioética e desenvolvimento sustentável:

Transnational corporations and other business enterprises shall carry out their activities in accordance with national laws, regulations, administrative practices and policies relating to the preservation of the environment of the countries in which they operate, as well as in accordance with relevant international agreements, principles, objectives, responsibilities and standards with regard to the environment as well as human rights, public health and safety, bioethics and the precautionary principle, and shall generally conduct their activities in a manner contributing to the wider goal of sustainable development190. (sem grifos no original)

Eros Grau (1981) defende o entendimento de que o princípio da função social da empresa é decorrência necessária do princípio da função social da propriedade. Ensina, neste sentido, que a empresa é um instrumento de

atendimento de interesses coletivos, tendo a obrigação não somente da não- maleficência mas também da beneficência:

(...) A lei, então – âmbito no qual se opera a concreção do princípio – impõe ao proprietário (titular de um direito, portanto de um poder) o dever de exercitá-lo em benéfico de outrem e não, apenas, de não exercitá-lo em prejuízo de outrem125. (p. 121-2)

Para o autor, em face da questão “tem a empresa, em razão da natureza dos bens que produz, obrigação de atuar positivamente em prol da coletividade?”, a resposta à pergunta é necessariamente “sim”. Partidário da tese da possibilidade de imposição de condutas positivas, o autor, ademais, afirma que:

(...) o princípio da função social da propriedade impõe ao proprietário – ou a quem detém o poder de controle na empresa - o dever de exercê-lo em benefício de outrem e não, apenas, de não exercer em prejuízo de outrem. Isso significa que a função social da propriedade atua como fonte de imposição de comportamentos positivos – prestação de fazer, portanto, e não, meramente, de não fazer – ao detentor do poder que deflui da propriedade (...)125. (p. 275)

Stingelin-Giles atribui as mesmas obrigações à empresa. Segundo ele, entre a coletividade e a empresa existe contrato social implícito que determina termos e condições segundo os quais a sociedade perpetuará garantia à legitimidade moral da empresa188.

Lamy Filho é outro defensor do princípio da função social da empresa. Para o autor, o ‘interesse público’ impõe responsabilidades sociais às empresas e:

O dever social da empresa traduz-se na obrigação que lhe assiste, de pôr-se em consonância com os interesses da sociedade a que serve, e da qual se serve. As decisões que adota (...) têm repercussões que ultrapassam de muito seu objeto estatuário, e se projetam na vida da sociedade como um todo. Participa, assim, o poder empresarial do interesse público, que a todos cabe respeitar.191

Em termos mais pragmáticos, Tomasevicius Filho lembra, inclusive, que o princípio da função social da empresa já se encontra consagrado na

legislação brasileira nos arts. 116, parágrafo único, e 154 da Lei 6.404/76, relativa às sociedades por ações192193.

Em síntese, de acordo com os autores citados, bem como com o posicionamento defendido no presente trabalho, se uma empresa produz mercadorias de interesse público (que condicionam o bem-estar coletivo), como é precisamente o caso da indústria farmacêutica, a relação de propriedade desta empresa com seus bens de produção deve ser configurada de forma especial, de modo a que os interesses da coletividade sejam garantidos. Cabem, portanto, nestes casos, imposições não somente negativas mas positivas à atuação empresarial.

Em outras palavras, devido à titularidade da propriedade de bens de produção destinados à fabricação de medicamentos (essenciais e/ou não- essenciais, mas sempre necessários à saúde da população), a indústria farmacêutica tem o poder-dever de explorar estes bens em benefício da coletividade.

Não pode, portanto, fazê-lo em prejuízo dos interesses coletivos, assim como tem o dever de fazê-lo com vistas a atender a estes interesses.