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A TEORIA DO CAPITAL HUMANO E OS ACORDOS MEC-USAID: BASES DA

2. A EDUCAÇÃO COMO BALIZA MODERNIZADORA DA SOCIEDADE

2.6 A TEORIA DO CAPITAL HUMANO E OS ACORDOS MEC-USAID: BASES DA

A Teoria do Capital Humano desenvolveu-se a partir de uma série de

estudos que, a partir da lógica do capital, elegeram o processo de escolarização

como elemento fundamental para a formação do ―capital humano‖. As bases da

categoria capital humano, que remontam a Adam Smith (1723-1790), somente

ganharam força no capitalismo avançado, pois sua produção e seu ―corpo de ideias

guarda uma ligação estreita com as relações sociais de produção. Trata-se de um

tipo de conhecimento que carrega a marca e a ótica burguesa.‖ (FRIGOTTO, 1984,

p. 134).

O nascedouro da referida teoria fundamenta-se num contexto marcado

pelo desenvolvimento e incremento do capitalismo, pelo robustecimento dos

―Estados de Bem-estar social‖ e pela convicção de que o ―pleno emprego‖ seria

alcançado com ―êxito pleno‖ (GENTILI, 2002, p. 47). De acordo com este contexto,

Schultz buscou conceituar ―capital humano‖ propondo uma equação econômica da

relação existente entre trabalho e capital. Para o economista:

[...] o esclarecimento do conceito de capital humano e a sua identificação mobilizaram as coisas para uma especificação mais completa de mensuração e acumulação de capital moderno. Fez, também, com que nos tornássemos mais conscientes das mudanças que se registraram na qualidade do capital material. Desta forma, o fato de tratar a educação como capital humano nada mais é senão um passo à frente rumo a uma captação consciente de todo o capital. (SCHULTZ, 1971, p. 130).

Segundo Schultz (1971, p.120), a educação era mais durável do que a

maioria das formas de capital não-humano reproduzível, desse modo, deveria ser

ampliada. A análise da educação a partir da produção e exploração a longo prazo

estigmatizou de tal forma o sistema de ensino, que relegado às normas e regras do

sistema capitalista, indicava que a formação educacional cumpriria o único objetivo

de formar para o mercado de trabalho. O desenvolvimento de recursos humanos

configurou-se, para muitas sociedades, como componente imprescindível para sua

organização econômica, política e social.

Engenheiros, médicos, advogados, juízes, artistas, professores e até

mesmo artesãos sucumbiram a seus treinamentos, com vistas a prosperar

economicamente. Na década de 1960, tipificada como avançada, as ―habilidades‖

humanas deveriam ser desenvolvidas ao seu limite, pois para Harbison e Myers, ―o

progresso humano é basicamente o resultado do esforço humano.‖ (HARBISON e

MYERS, 1965, p. 31). Para Schultz (1971, p. 147), no bojo das convicções

propostas pela TCH, e para o êxito deste empreendimento, os professores ―eram

peças fundamentais‖ para moldar, configurar e ajustar os estudantes ao

desenvolvimento econômico. Para tanto, fazia-se necessário valorizar os princípios

de aprendizado, as teorias, a solução de problemas que utilizassem métodos

analíticos e em contraponto relegar a instrução ou formação específica a um plano

de menor valor.

O espraiamento dessa teoria estabelecia uma linha ideológica que,

somada ao pensamento reformista, intentava encaminhar os professores para as

eminentes mudanças pelas quais a educação brasileira iria passar. Conforme o

cenário apresentado, Guarapuava buscava inserir-se a esse novo modelo

educacional proposto. Segundo João Luiz de Toledo (1970), para que a escola

alcançasse o desenvolvimento desejado o ―conceito tradicionalista‖ de educação

devia ser tratado como ―inócuo e superado‖, pois para a nova sociedade em

gestação havia a precípua urgência em se delinear novos objetivos, condizentes e

agregados às novas finalidades da educação:

Os erros do passado devem ser sanados e as perspectivas para o futuro devem ser realísticas. De nada vale ensinar um homem – condicionado a um subdesenvolvimento mental e físico em razão direta do desenvolvimento

econômico – a desenhar um peixe. É preciso que lhe ensine a pescar!

(TOLEDO, 1970, p. 4, grifo nosso).

Deris de Matos, educadora guarapuavana, preconizava que a ―evolução‖ da

vida comunitária e econômica não poderia ser obstaculizada por formas

―conservadoras de educação‖, pois, as atitudes, as crenças, os padrões e o próprio

conhecimento estão em ebulição e em constante transformação, sendo também a

educação um ―fenômeno em constante evolução‖ suficiente para refletir as

―exigências de uma época.‖ (MATOS, 1969, s/p). Em alguns momentos os noticiários

iam além, coadunando educação e desenvolvimento diretamente à revolução

industrial, elemento que clarifica as variantes que, forçosamente, atrelaram-se à

educação:

Antigamente a economia doméstica se processava no ambiente do lar. Não havia sequer indício da poderosa revolução industrial real em nossos dias. Com o advento da máquina tudo mudou e a humanidade se concentra à

sombra das chaminés. Em uma palavra, a vida mudou e de todos os lados

partem protestos contra a escola que permanece muda, mas que precisa sair da concha numa arremetida consciente rumo a novos horizontes. (MATOS, 1969, p. s/p).

A articulista intenta expor as razões pelas quais a educação nacional deveria

tomar outros rumos, contudo, seguindo os mesmos ventos, pois considerava-se a

como um ―problema que se liga bem de perto ao desenvolvimento de uma

comunidade, sendo, por isso, o melhor investimento ou emprego de capital.‖

(MATOS, 1969, s/p). Na esteira desse axioma, a comunidade guarapuavana era

condicionada a reclamar por um novo conceito de educação, que evidenciasse a

―modernização do ensino‖ rigorosamente atrelada ao modelo econômico vigente,

pois segundo Mattos a ―educação é, sem dúvida alguma, o mais precioso

investimento econômico.‖ (MATOS, 1969, p. s/p, grifo nosso):

[...] atualmente a educação é considerada como problema que se liga bem de perto ao desenvolvimento de uma comunidade, sendo, porisso66, o melhor investimento ou emprego de capital. Para que as aplicações de capital não fiquem condenadas a uma semi-esterelidade é preciso que a educação adquira um apreciável grau de qualidade. É justamente êste o pensamento daquelês que, em nossa cidade, tem em suas mãos a educação do povo: que, para se educar, necessário se faz uma busca constante do melhor, do mais prático, do mais eficiente. (MATOS, 1969, s/p).

A ideologia do desenvolvimento adquiriu, no decorrer da história da

industrialização, um acervo de sentidos bastante variado, flexível e falacioso, dentre

esses aspectos a educação ocupou lugar de destaque. Segundo Harbison e Myers

66

Optou-se por manter em condição original não somente a gramática do período, como também conservou-se as imprecisões de edição.

(1965), a propaganda em torno do desenvolvimento, impelida pela ―Década do

Ouro‖, buscava conformar-se às características histórico-econômicas de cada país

que aspirava pelo desenvolvimento industrial. De acordo com esse cenário, para

Hobsbawn (1995), não raramente, muitas pessoas passaram a acreditar que a

economia iria avançar aos saltos e continuamente. A falta de reserva, que envolvia

essas considerações, fundamentou-se em ―profecias‖ estatísticas limitadas ao

avanço de países (considerados) altamente desenvolvidos economicamente. A

proposital negligência alcançou, também, o campo educacional através da Teoria do

Capital Humano (TCH).

Assim, eclodiam as prédicas em prol de uma ―nova educação‖ subjugada

aos projetos educacionais de âmbito nacional. A Teoria do Capital Humano consistiu

em uma ―particularidade das teorias de desenvolvimento e das teses neocapitalistas,

uma especificidade das apologias do capitalismo em sua etapa monopolista, onde o

oligopólio representa a forma mais evidente das novas formas de sociabilidade‖, ou

seja, o ―capital.‖ (FRIGOTTO, 1984, p.120).

No âmbito propriamente educacional e pedagógico, a teoria do capital humano vai ligar-se a toda a perspectiva tecnicista que se encontra em pleno desenvolvimento na década de 50. Neste aspecto há um duplo reforço. A visão do capital humano vai reforçar toda sua ‗ineficiência‘ e, por sua vez, a perspectiva tecnicista oferece a metodologia ou a tecnologia adequada para constituir o processo educacional como um investimento – a educação geradora de um novo tipo de capital – o ‗capital humano‘. A educação, para essa visão, se reduz a um fator de produção. (FRIGOTTO, p. 121, 1984).

A teoria assumiu características de modernização, principalmente no Brasil,

sendo considerada ―fator preponderante para a diminuição das disparidades

regionais.‖ (FRIGOTTO, 1984, p. 128). Não necessariamente nas entrelinhas,

anteviam-se com alguma clareza as bases em que se articulava o novo modelo

educacional. Impulsionadas pelo cenário econômico, as políticas de ensino

passaram, nesse período, por transformações que reverberaram em todo o País.

Com vistas à modernização da educação, ensejava-se uma profunda reforma

educacional, considerando que ―Modernizar o ensino‖ remetia necessariamente à

remoção das ―barreiras estruturais‖ que impediam a ―renovação pedagógica‖

(JORNAL..., 1969 s/p).

[...] se os antigos conceitos aprofundaram suas raízes em nossas escolas, uma reformulação satisfatória não será feita de imediato. É preciso fortalecer bem as bases do novo sistema para que êste seja valorizado pela sua solidez. Uma vez aceita e compreendida esta necessidade de mudar o rumo da escola para torná-la mais atuante, mas dinâmica e mais eficiente estará aberto o caminho para a verdadeira reforma, baseada na prática e não em teorias. (MATOS, 1969, s/p).

Segundo Saviani (2004), o cenário político-econômico, aliciado pelo capital

internacional, transformou a política educacional em um verdadeiro laboratório de

experimentação educativa. Todo esse movimento em prol da renovação pedagógica

anunciava a instituição da controversa Lei n. 5.692/71. A mencionada lei

encaminhava-se no sentido de completar o ―ciclo‖ de ―reformas educacionais

destinadas a ajustar a educação brasileira à ruptura política perpetrada pelo golpe

militar de 1964. [...] tal ruptura política constituirá uma exigência para a continuidade

da ordem socioeconômica‖ (SAVIANI, 1987, p.122). De acordo com esse contexto, é

possível elencar dois momentos em que o regime militar atuou de modo incisivo

sobre o sistema educacional brasileiro.

O primeiro momento esteve relacionado à recuperação econômica, que se

achava de mãos dadas com a contenção e a repressão, sendo que, ao lado dessas

questões, somou-se a intensificação da crise do sistema educacional originada pelo

aumento da demanda social por educação (ROMANELLI, 1996). O segundo

momento foi iniciado através de:

[...] medidas práticas, a curto prazo, tomadas pelo governo, para enfrentar a crise, momento que se consubstanciou, depois no delineamento de uma política de educação que já não via apenas na urgência de se resolverem problemas imediatos, ditados pela crise, o motivo único para reformar o sistema educacional. Mais do que isso, o regime percebeu, daí para frente, entre outros motivos, por influência da assistência técnica dada pela USAID, a necessidade de se adotarem, em definitivo, as medidas para adequar o sistema educacional ao modelo do desenvolvimento econômico que então se intensificava no Brasil. (ROMANELLI, 1996. p. 196).

Os acordos firmados entre MEC-USAID fizeram parte de um projeto de

―reorientação geral do ensino‖ no Brasil (SAVIANI, 2004). Segundo o autor, tanto as

reformas educativas instauradas pelo Mobral, pela Lei da ―Reforma Universitária, ou

pela lei referente ao ensino de 1º e 2º grau‖, estiveram em consonância com a

―concepção pedagógica‖ formulada pelo Instituto de Estudos Políticos e Sociais

(IPES) (SAVIANI, 2008, p. 287). O IPES foi fundado em 1961 por empresários de

São Paulo e Rio de Janeiro que mantinham estreita relação com a Escola Superior

de Guerra (ESG

1

) e com um grupo de empresários que representavam as

multinacionais (SAVIANI, 2008). A afinidade financeira entre os empresários

americanos e os empresários vinculados ao IPES, no que tange à execução e

planejamento orçamental da educação, afinou a correspondência com os Estados

Unidos, consubstanciando-se em uma série de acordos que visaram financiar a

educação brasileira, tendo por mediador a Agencia dos Estados Unidos para o

Desenvolvimento Internacional (USAID) (SAVIANI, 2008).

Durante o período de 1964 a 1968 foram firmados 12 acordos entre o

―Ministério da Educação e Cultura e a agência Norte-americana Agency for

International Development (USAID).‖ (HILSDORF, 2005, p. 124). Esses convênios,

estabelecidos pelo MEC, alienaram a reelaboração do sistema educacional nacional

aos peritos ofertados pela AID. A tentativa dos ―Acordos MEC-USAID era localizar o

―problema educacional‖ brasileiro na totalidade da ideologia capitalista de dominação

(ROMANELLI, 1996). Através desses acordos o MEC-USAID e o Ministério da

Educação estabeleceram procedimentos de ―cooperação com a Agência dos

Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional para reformular aspectos

específicos do ensino brasileiro.‖ (SAVIANI, 2004, p. 41).

A partir de ―estudos e medidas‖ esboçou-se a política educacional que veio a

desenhar a reforma geral do ensino, concretizada pela Lei n.º 5.540 de 1968, que

definiu as normas para a estruturação e ―funcionamento do ensino superior‖ e pela

reforma do ensino de 2º grau estabelecida em 11 de agosto de 1971 através da Lei

5.692/71 (HILSDORF, 2005).

A Lei nº 5.692/71 fez parte da ideologia desenvolvimentista importada dos

Estados Unidos denominada a Teoria do Capital Humano. Neste sentido, os

discursos pautados em critérios econômicos assumiram maior concretude no Brasil

com a promulgação da referida lei (HILSDORF, 2005). Após sua adoção na década

de 1970, a Reforma do ensino ganhou corpo e forma nas políticas educacionais e

nos projetos pedagógicos que foram desenvolvidos no decorrer do período, como

será verificado no terceiro capítulo.

CAPÍTULO III

3. A IMPLANTAÇÃO DA LEI N.º 5.692/71 NO ENSINO DE 2º GRAU NO